quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Linhas de caneta preta.

Estou sentada com você neste banco de couro entre pessoas e motos, mas sua barba faz parecer que já não existem motos, pessoas, bancos ou qualquer outra coisa. Eu tinha prometido à minha consciência que não escreveria mais sobre seus braços tatuados e a estranheza de a sua música preferida do Lynyrd Skynyrd ser também a minha. Jurei que não falaria mais sobre como você fica bonito usando óculos, mas pedir para passar a mão nos seus cabelos ralinhos e já macios foi covardia e eu não consegui cumprir a promessa. Logo em um daqueles dias de sair correndo para esquecer que a vida não pode ser deixada para depois, você senta ao meu lado e me conta sobre as compras da sua mãe e sobre como ela é fofa. E eu não sei se continuo querendo correr porque sua proximidade e conversa despreocupada me deixam ainda mais desnorteada, ou se quero ficar para ouvir um pouco mais sobre sobre a salinha nova da belezura da sua mãe. Quero fugir porque estou começando a sentir o que não devo por alguém que quer guardar meus textos em gavetas de bidê. Em cantinhos escuros, entre outras quinquilharias. Qualquer lugar que esconda minha existência e que não conte a nenhuma futura ou passada namorada que eu já estive ali, em algum lugarzinho seu.
Tantas coisas massacrando, tantas ideias relapsas para minha própria vida e ideais maculados pela loucura da impossibilidade e você chega e resolve tudo dizendo oi e puxando minha mão de encontro a você. Depois, com um empurrão de ombros divertido, pergunta o que aconteceu. Eu estive tentando arrancar a angústia com as mãos enfiadas entre os cabelos e nem percebi quando você chegou. Aconteceu que eu preciso de um abraço, penso, mas você não pode me dar. Não se dissimula um abraço como mãos passeando por lugares impróprios ou, em nosso caso, próprios demais. Eu não posso te obrigar a me abraçar, nem quero que você descubra que quando eu abraço estou entregando uma parte de mim. E aqui, entre tantas pessoas subindo rampas e circulando entre cones, não seria verdadeiro. Seria um encostar constrangido, um quase lá que não serve. Você me envolveria por alguns segundos e eu uniria a cabeça ao seu peito como quem sabe que a vida é absurda demais sem um encaixe momentâneo desses. Você pensaria "mas que tola" e eu veria o deboche na sombra dos seus olhos azuis, mesmo sem querer admitir. Então sorrio, não peço abraço algum e digo que nada aconteceu. Porque, na verdade, eu não saberia por onde começar, já que o mundo inteiro aconteceu de uma só vez. Você sabe como é a sensação, como esmaga pensar tanto e sobre tantas coisas aglutinadas. Então continua perguntando o que foi e se não vou contar. Mas, apenas para satisfazer uma curiosidade, não posso abrir meu peito magoado. Sustento o sorriso, mas você não cai e eu quase perco as estribeiras que tanto luto para manter. A imagem da mulher forte que não pode ser aniquilada. Afasto a vontade homérica de pedir sua nuca emprestada para chorar por alguns minutos toda a dor que guardo só para mim. Estrangulo a coceira de puxar seu rosto para mostrar ao seu sorriso bonito que eu também sei sorrir quando minha nuvem desesperada vai embora. Afasto tudo porque você quer tanto a verdade que tenho medo de acabar falando além do decorado.
Eu não posso ir embora agora, penso. Este é o único lugar, entre todos do meu dia, onde consegui não enlouquecer. Você não precisa ficar aqui comigo, só me deixa ficar nesse banco gostoso ouvindo o ronco das motos e não estando em outro lugar. Hoje minha casa sufoca, o carro sufoca e até as ruas e suas pessoas mesquinhas sufocam. Curiosamente, só este banco não sufoca. Mas você não precisa zelar pelo meu bem-estar, nem fazer essa cara de preocupação e achar palidez em meu rosto. Eu quase quero pedir perdão por estar tão mal assim e me deixar desmantelar na sua frente, porque sei que deveria ser sempre a divertida que cai da moto na parada do oito e levanta rindo. Se você não ficasse aqui do meu lado, agora, com sua perna raspando na minha, eu não precisaria pedir perdão, nem me sentiria culpada por ainda não ter ido embora. Mas a vontade que tenho é de pregar seu joelho neste exato lugar do estofado para que não saia de perto jamais. E, então, eu me pego querendo lembrar para sempre que você ficou quando eu estava acabada, ainda que tenha sido por curiosidade. Você ficou, mesmo quando eu insisti que o vazio me caía bem e quando todo mundo reconheceu minha insuportabilidade.
E, para escapar de ter que responder qualquer coisa sobre minhas aflições, conto que já escrevi sobre aquela nossa noite. E você quer o texto de presente, mas não aceita uma coisa moderna e digitalizada. Tem que ser escrito à mão, com minha letra horrenda figurando no papel, uma gota de perfume e um beijo no canto. Tudo para que, dentro de alguns anos, você abra as dobraduras e lembre que já beijou minha boca, aquela da marca no papel. E eu rio porque é um pedido inútil, já que no mês que vem você não lembrará mais de mim. Um pedido escandaloso e inútil que estou prestes a atender por razões que desconheço. Para terminar perdida e esquecida na sua gaveta. Protegida do resto do mundo em uma gaveta onde papeladas de imposto de renda cobrirão meus rabiscos. Mas atendo seu pedido porque, quem sabe um dia - se eu tiver coragem de viver da única coisa que gosto de fazer - acabo publicando um livro com algumas crônicas. E, quem sabe, entre elas estejam algumas sobre você. E, então, se eu descobrir onde você foi parar depois de tanto tempo e te mandar um exemplar, talvez você associe aquelas páginas aos originais de letra feia e lembre que passou algumas tardes e noites comigo.
Talvez porque você seja o único que já quis ser escrito por mim e que aceitou a situação, é assim tão estranho te personificar. Porque eu sei, das lições que a vida ensinou, que meus textos estragam tudo de bonito que existe e acabam com a possibilidade do que ainda poderia ser. Você não pode ser tão diferente de todos os caras e, por isso, não acredito quando diz que acha legal ser o "sobre" de alguém. Mas você é meu sobre desde a noite do apartamento vazio. Se eu contar que estou fugindo para os lugares mais tortuosos que alguém poderia escolher, você vai me olhar com cara assustada e me achar mais louca ainda. A louca que não puxa cabelos, não grita e não faz fiasco, mas é louca o bastante para escrever páginas e mais páginas sobre quem se importa tão pouco. Louca o suficiente para querer, mais que tudo, um documento em branco do Word para falar mais de mil caracteres só sobre sua barba e outros mil sobre seus olhos azuis. Eu poderia discorrer sobre meus maiores medos e contar que um deles inclui você, mas sua reação me arrepia até no imaginário. Decido, então, que não posso mesmo contar. Que tudo que você precisa saber, já descobriu de alguma forma mais seca e original. Boto na cabeça que preciso parar por aqui, porque aceitar escrever sobre meu sobre favorito em linhas de caneta preta está ficando pessoal demais e pessoal sempre me machuca. E, principalmente, decido que, sim, ainda preciso correr. É hora de fugir porque não escrevo mais sobre "ele". Ele, agora, já é você.

5 comentários:

Gugu Keller disse...

Josi...

Não é apenas com os braços que se abraça!

GK

Anônimo disse...

Olá adorei teu blog, lindo mesmo. Parabéns. Fique a vontade para fazer uma visitinha ao nosso e seja mais um membro. Você é nosso convidado especial. http://poetarenatodouglas.blogspot.com/.
Um grande abraço!

Renato Douglas!

Fernando Imaregna disse...

Oi Josiana...

Passeando como sempre pelos belos textos...
Tenha um magnífico fim de dia e uma semana abençoada, tá ?

Bjos !

Yohana Sanfer disse...

Josiana, que coisa mais linda! Texto emocionante e forte! Nos remete belos setimentos e nso leva a outros lugares!rs...demorei para retribuir sua visita e me tornar seguidora mas aqui estou! Adorei teu blog, belo, doce, leve porém tb intenso, como gosto! :)
Barabens moça! bjs

Yohana Sanfer disse...

obs.: o nome de seu blog é perfeito! :)

 
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