sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O garoto de 24 anos.

O garoto de 24 anos fala comigo como se eu fosse uma princesa, embora não passe de um grande garotão. Enquanto balbucia que gosta de mim, penso em brincar com sua idade - mesmo achando a ideia ridícula - só porque não tenho absolutamente nada para dizer. Porque quando alguém gosta de mim eu peço emprestadas as unhas da Pandora e ergo minhas mãos como patas almofadadas. Ou ataco ou saio correndo. Mas o garoto de 24 anos não se fere com as unhas, nem tampouco com as bofetadas que leva com palavras. Mais temível do que aqueles que fogem e vão tentar algo mais simples, ele dá risada, fala que levou um "direto de esquerda" no queixo e segue afirmando que acha legal meu jeito de ser, especialmente a coisa toda de não tentar provar nada para ninguém. Estilo de quem já cansou das coisas fáceis e agora prefere os desafios. Eu tô sacando seu cabelo e roupa de playboy, garotão. A novidade do jogo para o cara é que, quando eu viro um desafio, é sinal de está na hora de parar de jogar. Porque, ao contrário do que pensa o pessoal da faculdade - que há tempos me apelidou de troféu - não sou um prêmio a ser conquistado. Um outro cara disse, certa vez, que troféus as vezes ficam sozinhos na estante. Não me importo em ficar sozinha, mas não sou troféu e não quero ninguém aprendendo a lançar dados para me ganhar.
O garoto parece muito mais jovem do que é e eu pareço muito mais velha do que sou. Idade mental de quarenta, já diria o psiquiatra. Então ele quer sair e beber uma cervejinha para descobrir mais sobre mim, quando o pouco que sabe é mais do que eu desejaria contar. Você está com frio, está com calor, está brava, está bonita, está isto, está aquilo e eu já nem entendo mais o que ele está falando. Gostaria de pular esta parte da caça e passar logo para a despedida - tchau, obrigada pela carona e pela cerveja - porque ambos sabemos que não há chance de acontecer algo entre nós. Eu, com meus quase 22, sou muito velha para você, rapaz. Não é só porque ele não tem barba, mas também porque eu não tenho paciência para começos. Estou no durante há tempo demais, não consigo retroceder às mensagens em códigos e bilhetes jogados por cima do muro. Na manhã seguinte, há um e-mail dele na caixa de entrada, no qual pede desculpas por qualquer coisa, diz que não sabe brincar nem mentir e mistura suas palavras com versos de Drummond. Não me surpreendo porque sei que galanteadores são assim mesmo. Mentiras repaginadas em frases bonitas para ganhar o coração das mulheres troféus. Desafios particulares. Deleto a mensagem e depois rio do clichê.
O garoto de 24 anos disse possuir uma veia de psicólogo e discorreu sobre mim como se me conhecesse particularmente bem quando, na verdade, não sabe mais do que o garçom do boteco onde eu tomo suco de acerola. Não era mais o banco do carro sob minha bunda, mas sim um divã nada confortável. Você é fechada, disse ele. Uau cara, parabéns, grande descoberta. Mas é porque a vida te deixou assim, com esse ar meio triste. É, isso é; agora me impressionou. Você tem uma aura de mistério que dá vontade de desvendar. Blá blá blá. Disco repetido. Posso pagar a consulta e ir embora? Pode ficar com a cerveja. Você está achando um saco minha conversa. Touché. Mas eu poderia aprender a gostar um pouquinho do seu papo se você me levasse embora agora mesmo e me poupasse deste bafafá.
O garoto me deixa em casa e eu penso, satisfeita com a performance, que fui capaz de assustá-lo o bastante para que não tente mais nada. Mas, no dia seguinte, do alto dos seus 24 anos, ali está ele batendo na porta. Dizendo que adorou conversar comigo e que precisa de uma chance para me surpreender e mostrar que pode ser muito melhor do que o conceito que tenho sobre os homens. O divertido é que ele nem sabe qual é esse conceito. Ele pede, por favor, que eu tope mais uma saída respeitosa. Olha, amigo, você é uma gracinha, mas eu realmente não estou interessada, entende? Não, ele não entende. É do tipo que joga no ataque, jamais na defesa. É do tipo que não deixa a bola em campo e que não dá ponto sem nó. Tá, qualquer hora dessas a gente sai. Qualquer hora dessas? Sim, qualquer hora dessas. Então tá, você escolhe o dia e a hora. Por favor, menos sede ao pote, garotão. Continuo achando sua pose coisa de filhinho de papai e seu jeito nada sincero. Essa panca de galã não funciona comigo. Mas tudo bem, a gente sai qualquer hora dessas e eu tento te mostrar, de novo, que não sou tudo isso. Ótimo! Quando, amanhã? Não, calma! Tá, tá, depois de amanhã, então?

4 comentários:

Unknown disse...

IAUHEOIHUE, RI DEMAIS.
to matando a saudade de você com esses textos nega! hahah
óbvio, nada comparado ao abraço apertado que tanto sinto falta :*

ps: avisa quando publicar o livro, serei a primeira a comprar! ;)

Gugu Keller disse...

Josi...

Quem dera os homens chegásssemos ao fim da vida com a maturidade com que nasce uma mulher...!

GK

Unknown disse...

Agora entendi porque a escrevedeira construtora de palavras ama teus textos!!! :)
Apesar de ser ainda um menino, irei tomar cuidado com a pose de galã, e também com as unhas de Pandora. Quem é Pandora? Vou perguntar para a escrevediça.
Sigo teu blog feliz! E só não seguirei o outro porque a escrevente escrevedora já o segue!
Agradeço o carinho lá no blog, viu?
Bjinho :)

Fernando Imaregna disse...

Oi Josiana...

Passando para deixar um beijo carinhoso e desejar uma semana de muita luz e paz...

Quando penso que você já escreveu o suficiente para "encher" meus olhos, vem você e me surpreende novamente...assim como a Pandora de seu texto, a primeira mulher criada por Zeus e que teve por "empréstimo" dos Deuses diversas qualidades...

Magnífico texto...humrum...

Ainda bem que em sua "caixa" a última que resta é a esperança...e que não sejam necessários dados lançados por mãos fortuitas para conquistá-la, e sim por mérito e merecimento de algupem muito especial...

Inté mais ver...

ps. dá vontade de copiar todos os textos e colocar no cantinho...hehehehehe

 
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