quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O teto e a torta de limão.

Encarando o teto do meu quarto por mais de cinco horas, descobri o livro de uma vida estampado em cimento e tinta Suvinil. Páginas de letras pequenas e sem gravuras, rasgadas e amareladas pelo tempo. Não há fotos penduradas dedurando amizades antigas; não há frases adolescentes escritas com tinta preta e pincel. Nada que conte um caso ou a cronologia de uma história. É só uma parede branca, mas todas as noites de solidão e saudade estão ali desenhadas como em uma tira de quadrinhos em preto e branco. Lembranças coladas como aquelas pequenas constelações brilhantes e horríveis de 1,99 que quartos de crianças - que se acham o máximo, mas são bregas - costumam ter. O meu tinha. Na casa da mãe ainda tem; haja álcool para desgrudar. E a mesma constelação brilhante e horrível, vista na escuridão da madrugada, parece, então, uma das coisas mais lindas que já vi. Não porque exista beleza em estrelinhas de plástico, mas porque olhar para elas é quase uma certeza de que nem tudo fica para trás. Uma crença de que o passado pode se misturar ao presente não apenas por tropeços e rombos na carcaça, mas também por memórias bonitas.
O teto apontou um dedo severo e contou que transformei minha vida em uma figura de tinta guache. Quando eu era criança, lá pelos seis anos de idade e cabelos tipo tigela, a professora ensinava um grande nada nas aulas de educação artística. Tudo que eu tinha que fazer era derrubar pingos de diferentes cores de tinta no centro de uma folha sulfite, dobrá-la ao meio e esfregá-la do interior para as laterais até as poças coloridas espalharem. E pronto, uma pestinha descoordenada virava Pablo Picasso. Quando abria a folha novamente, ficava maravilhada com as formas exóticas e de cores intensas que se formavam com a simples pressão de dedos pequenos e gorduchos. Enxergava borboletas e ursos em pinturas abstratas. Eram horríveis, mas eram minha arte. Só minha. Ei, gente, olha minha super obra! Aplausos, por favor! Digna de museu, não? Não, querida, não. Foi o que fiz, percebo, com minha vida. Espalhei tinta, dobrei-me ao meio, botei pressão nos dedos, esfreguei bastante e abri para ver o resultado. E não foi bonito. Nada, nem um resquício da tal arte que eu pensava criar quando os bons anos de deslumbramento me acompanhavam. A mistura do verde, amarelo, azul e vermelho formou uma mancha negra e ressecada, tingida por um preto esverdeado que só as coisas apodrecidas têm. Um borrão amorfo. Sem ajustes, sem contorno, sem elegância, sem delicadeza de pincel número zero. Sem vida. Só um buraco escuro e entupido de dor latente que vai comigo para todos os cantos do mundo.
Descobri também, graças ao teto, que isso que estou sentindo enquanto o encaro - essa coisa azeda misturada com cheiro de tequila e sabor de café amargo - é desilusão servida em pratinhos de festa infantil. A gente pega o prato de papelão, garfinho e faquinha de plástico e destrói corações. Assassina expectativas e amores com a mesma calma com que se espeta um pedaço de bolo de nozes ou qualquer outro sabor que a doceira da cidade inventa para os aniversários. O fato é: a gente experimenta, mastiga, dilacera, estraga e comenta que não está tão bom assim. Diz que conhece uma receita melhor e que esta não vale a pena. Olha, dona Pafúncia, vou te passar uma receita que é segredo de família, hein? Joga esse bolo no lixo porque a torta de limão é muito mais gostosa. O doce do leite condensado com o azedinho do limão. Dá até para colocar raspinhas da casca para decorar. Perfeita. Ela tem tudo, enquanto eu tenho só o amargo da fruta bichada. Morango mofado, pêssego passado, abacaxi podre. Figo, eca! E as coisas são mesmo assim. Eu gosto tanto, tanto, tanto da torta de limão que acabei sendo o bolo da minha vida. Massa intragável. Bolo de fubá estragado e sem cobertura.
Sem conseguir pregar os olhos, o teto ainda teve tempo de contar mais uma coisa. Disse que estou desperdiçando um tempo precioso da vida. Que estou fazendo o que não gosto, morando em uma cidade que não gosto, amando uma vida que não gosto só para fingir que gosto. Tolerando o mais ou menos desde sempre. Curso mais ou menos, gente mais ou menos, noites mais ou menos, vida mais ou menos. E mais ou menos, que grande ironia, não é vida. Não há remédio que baste para fazer tudo parecer bonito, quando há tantas coisas feias. Nem vícios suficientes, nem corpos, nem tardes com assuntos também mais ou menos. O teto disse que eu deveria abrir os olhos e enxergar a verdadeira constelação, não a de plástico berrante. A que brilha sempre e não apenas a noturna. Pegar as malas e partir. Procurar meu caminho e, de preferência, um de verdade desta vez. Jurou que eu não preciso ser a Barbie veterinária para ninguém, muito menos a princesa que perde o sapato. Ele gritou: corra, menina! Corra muito que você sai dessa merda e alcança o fantástico. O não mais ou menos. Corra até as pernas queimarem e seus pulmões estarem a ponto de explodir. Doa, lateje, massacre suas partes, mas jamais pare de correr. Agora você tem uma ideia do lugar para onde quer ir, da vida que quer viver. Então, corra para longe de onde você está agora, o mais distante possível. Largue tudo, você pode. Você deve. Escolha o caminho que tanto te apetece. Seja a torta de limão e não o bolo. Você tem culhões para isso e eu estou de dando uma sacola cheia de limões para começar. Vá!
O teto convenceu. Pulei na cama, dancei sem música a dança dos que conhecem seu destino, joguei fora o sarcasmo e a folha de compromissos e comecei a ajeitar as roupas na mala. No corpo um agasalho, porque eu queria mesmo correr. É isso, chega de ser bolo; agora só quero ser alguma coisa se for para ser torta de limão! E tem que ser das novinhas de padaria, aquelas bem cremosas que dão um chute na bunda de biscoito da torta trufada. E aí, de repente, bateu um vento na cara que congelou meu sorriso. A adrenalina baixou. O sangue fluiu normalmente nas veias e a taquicardia da certeza foi embora. Ficamos eu - enfiada em um agasalho patético no meio da madrugada -, a mala semi-pronta e o teto. Nós, os arrasados pelo vento. Nós e a percepção de que nada muda tão fácil assim. Porque isso tudo pode estar certo e ser o melhor conselho que já recebi mas, no final da trilha de tijolos amarelos, quem tem contas a pagar e família para desapontar sou eu, não o teto. Desculpa, amigão, o colorido da pré-escola vai ficar para mais tarde.

3 comentários:

Francielle disse...

A cada texto você me supreende mais... Tenha uma Boa Tarde!

Gugu Keller disse...

Sair correndo não resolve... É que o "eu" vai sempre junto...!

GK

Marinha disse...

"Nós, os arrasados pelo vento. Nós e a percepção de que nada muda tão fácil assim. Porque isso tudo pode estar certo e ser o melhor conselho que já recebi mas, no final da trilha de tijolos amarelos, quem tem contas a pagar e família para desapontar sou eu, não o teto. Desculpa, amigão, o colorido da pré-escola vai ficar para mais tarde."
Genial tua percepção e condução do texto!
Bjo e sorrisos no teu final de semana, querida.

 
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