segunda-feira, 7 de março de 2011

Cachoeira.


Oi, cara. Tenho umas coisas para te contar, mas você pode ignorar se preferir. Pode desconsiderar boa parte porque eu já tomei meu remédio para dormir e estou começando a ficar um pouco tonta. Fico propensa a falar besteiras a partir deste ponto. É como uma bebedeira, dessas que fazem a gente rir de tudo e dizer muita merda, só que é uma bebedeira de dez gotinhas. Só isso. Nada de vodkas dessa vez. Então você pode prestar atenção com um ouvido só, se preferir, e deixar o outro curtindo o Deep Purple saindo pelas caixinhas de som. Não importa. Mas, cara, tenho coisas para contar ou vou morrer engasgada com tudo isso que está entalado e que não deixa nem água descer.
Tenho que dizer que fiz uma burrada grande hoje. Um amigo mandou que eu ligasse para o cara, o barbudo, e dissesse que queria vê-lo. Que deu tudo certo, eu consegui o carro e descobri o caminho para o lugar da cachoeira. É meio longe e cheio de pedregulhos, mas é bonito pra caralho e valeu a pena o percurso. Inaugurei bem a carteira de motorista, sabe como é. Então eu deveria ligar e perguntar quando iríamos nos encontrar lá, depois dos mil e um convites que ele me fez na semana passada. Mas eu mandei uma mensagem. Uma mensagem, cara. Você sabe, homens não respondem mensagens, especialmente quando você não significa muita coisa para eles. Não costumo fazer isso, porque gosto de manter a pose de durona. Aquela mulher decidida que não está nem aí para o cara até que o cara esteja aí para ela. Mas mandei uma mensagem débil ao invés de ligar e dizer alguma coisa inteligente.
Aí, cara, o barbudo agora sabe que eu morro de saudade e que quero vê-lo antes de ir embora, mas não fará nada a respeito. Porque, você sabe, mensagens não são dignas de que algo seja feito. Mensagens são a piada fracassada dos comediantes. Não merecem nem risos fingidos. Mas, pelo menos, é só isso que ele sabe e, consequentemente, é só isso que pode ignorar. Tenho que te contar, cara, que a gente acabou sem ter um fim de verdade. Eu nem pude me despedir e dizer que ele virou um monumento na minha vida ou algo assim. Uma coisa grande mesmo, de arregalar os olhos e doer nos tímpanos. Isso sempre acontece comigo. Um mês, dois no máximo, e fim. Mas, não sei se pelos olhos dele ou porque o abraço era um ninho no qual eu poderia permanecer para sempre, dessa vez dói infinitamente mais. Ele tem aquela coisa a mais de não amar, mas parecer gostar tanto que desconcerta. E eu tenho essa coisa de cair no desconcerto e me perder em um homem assim, que ama sem amar. Você tá me entendendo, cara? Porque eu não me entendo. Além do mais, ele tem aquela barba e aquele rock’n’roll até mesmo na atitude. Eu só queria que ele fosse mais um desses escrotos que eu posso desprezar e pronto. Mas ele é tão mais que isso que a escrota da história acabo sendo eu. Veja só, uma mensagem. Mas que merda.
Eu saí de casa hoje - carteira de motorista e documento do carro na mão - e entrei nessas ruas de chão batido só para descobrir como chegar onde ele queria que eu fosse. Descobri um lugar maravilhoso, mas não sei se ele ainda me tem em seus planos, porque sumiu. Eu poderia ter caído em uma das valetas da estradinha; doeria menos do que a valeta em meu peito. Aposto que a lataria do carro aguenta mais do que a minha. Eu tinha planos de voltar lá amanhã, com uma caixinha de Heineken e o coração aberto para ele. Encontrá-lo só de calção curtindo a natureza e tomando banho de cachoeira. Largar a caixinha e me juntar a ele na água fria. Rir um pouco, sentir um pouco, amar um pouco mais do que deveria. Deitar na grama e admirar as gotículas de água naquele corpo que me ganhou. E agora a única cachoeira da história é essa que insiste em não parar de cair dos meus olhos, porque não há amanhã, nem estradinha, nem gotículas, nem resposta. Só o silêncio de um fim que esqueceu de ser anunciado.
E agora, cara, estou me sentindo uma biscate infantil, indigna de uma resposta qualquer. A bobinha que manda uma mensagem carinhosa, corre atrás do cara e não sabe o que fazer. Não estou acostumada com isso, porque geralmente nem chego perto do celular. Acho que vou voltar a isso. Meu amigo, querido amigo, disse que eu jogo o peso das coisas ruins todo sobre mim. Que sou inteligente, descontraída e classuda, veja só. Disse que a mãe dele me adora, me considera uma Barbie, e que eu tenho que parar com isso. Mas, cara, meu amigo está errado demais. Eu sou burra a ponto de me entregar para o cara que me convidou para ir passear na cachoeira e depois sumiu. Sou travada o bastante para não ter a capacidade de fazer uma ligação. Classuda? Sou uma falsa grã-fina sorridente. Vivendo em cima de saltos altos para tentar ser um pouco maior porque, no fundo, eu só queria ser segura como todos pensam que sou. Sei lá, algo como ser a Barbie de colecionar, proibida para crianças, enquanto sou só a falsificada. E se o barbudo não me quiser mais e realmente não responder minha mensagem banal? Azar, ué. Não é o único homem no mundo. Se dê um desconto, guria, você foi hiper carinhosa na SMS. Para o diabo com o carinho. Se ele não é o único no mundo, é o único para mim. É o dono da única resposta que mexeria com meus hormônios e que botaria um sorriso na minha cara. A única toalha que drenaria essa tristeza lacrimal toda.
É isso aí, cara. Estou sozinha agora, já ficando meio bêbada de Rivotril, escrevendo um texto pela metade e pensando se pego o carro amanhã e vou sozinha para a cachoeira. Afinal, eu gosto de natureza mesmo sem um par de olhos azuis para apreciá-la comigo. Sempre posso levar a caixinha de Heineken, um livro do Woody Allen e ficar curtindo a cachoeira sem um barbudo rindo da minha dificuldade de estacionar ou da minha vergonha de vestir biquíni porque não tenho um corpão de parar o trânsito. Posso levar uma toalha e tomar um banho relaxante. Posso fazer isso. Posso ser uma sozinha feliz, não posso? O que você diz, cara? Cara? Tudo bem? Por que não me responde? Ei! (Tapa no computador). Fala comigo, Word. Você precisa me dar uma luz. Eu estou desesperada e minhas lágrimas estão molhando o teclado. Estou a ponto de te pifar. Se nem você vai responder, acabo de largar as fichas na mesa. Deu para mim. Vou dormir. Você vai se arrepender amanhã, hein? Eu só queria uma respostinha. Mas, ah, enfim, não era pela sua resposta que eu esperava, de qualquer maneira. Foda-se.

domingo, 6 de março de 2011

Corrida pelo não-você.

Domingo é dia de sorvete para muita gente. Dia de assistir às porcarias da televisão, assar uma costela bovina cheia de gordura, tomar sol na piscina de casa, nem que seja uma daquelas de mil litros. Às pessoas normais, é dia de erguer as pernas e descansar, porque a semana foi difícil para todo mundo e as inundações continuam pelo Brasil. É dia de policial soltar a arma e deixar um preso de confiança atendendo na delegacia, para quando bicicletas forem roubadas – como a minha – você não ter como prestar queixa. Para mim, no entanto, é um dia como qualquer outro. Munida de shorts, camiseta e trança mal feita, encho a garrafa de água bem gelada e pego uma toalhinha pequena na gaveta. Calço meu melhor par de tênis – altamente recomendado para joelhos sofríveis que não suportam impactos -, o mesmo que tem feito meus pés parecerem pés de bailarina, cheios de bolhas e cortes que nunca chegam a formar casquinhas.
Alguns morros depois e estou no circuito de corrida. O lugar nunca esteve tão vazio antes. Digo, vazio de verdade. Sem crianças no parquinho ou moleques no gramado jogando uma pelada – por mais indigna que seja a expressão. Vazio como minha vida sem você. Quando começo a correr os quinhentos metros, os únicos sons vêm de meus pés batendo compassadamente no chão e de Black Sabbath saindo alto pelos fones de ouvido para dar aquela pressão. Não adianta querer correr ouvindo Tom Jobim, afinal. Tudo que vejo no meio do nada são placas que combinam com a vontade de aumentar a velocidade; 50, 100, 150... 500 metros e tudo novamente. O ar queima um pouco nos pulmões, mas é como vida fluindo para dentro de mim. A vida que eu tanto sinto falta, que fugiu de mim para ficar para sempre guardada no seu último abraço. A sensação da solidão bem-vinda e da pista vazia, quinhentos metros só meus, é fantástica. Benditas sejam as pessoas preguiçosas e os filmes de fim de semana. O lugar é quase um santuário; o único onde não é a sua imagem que pinta cada tijolo e cada arame da construção.
O sol de rachar continua firme, mas uma pancada de chuva se soma a ele. Continuo correndo, sentindo as gotas refrescarem a pele suada. Vêm de encontro ao rosto e grudam punhados de cabelo que desprenderam com o movimento. A roupa de ginástica cola no corpo, mas estou sozinha e não há motivo para vergonha. Abro os braços como se estivesse em um clipe musical sobre o tema “aproveite a vida”. Consigo até esboçar um sorriso que pensei não existir mais. A chuva passa e o sol fica ainda mais forte. Amanhã vou estar com o couro cabeludo queimado, mas vale o preço. Quase posso ver o vapor subindo do chão. Sem que me desse conta, uma hora e vinte minutos de corrida ritmada foram vencidas. Nos últimos dez minutos, não estive mais sozinha. Algumas toupeiras deixaram seus submundos e surgiram no local. Já não importa. A solidão continua a mesma quando você não está presente. Aquela velha história sobre estar no meio da multidão e se sentir só e blá blá blá.
Enquanto penso neste texto inútil e anoto palavras no bloco mental, termino os exercícios para as coxas nas barras de alongamento. Agora, suada e exausta, sento-me nas escadas largas da arquibancada, retiro caderno e caneta da mochila e observo a escassa movimentação. Vejo um cara alto e musculoso correndo mais rápido que todos. A medalha é sua, Mr. Bronzeado. Um idoso caminha a passos lentos, mais passeando do que exercitando o corpo fraco; ainda assim, admirável. Uma garota de bochechas enormes se arrasta pela pista, certamente iniciando sua luta contra o peso. Tenho vontade de tocar em seu ombro e dizer que no começo pode ser difícil, mas você chega lá se tiver força de vontade. Na placa de 200 metros, uma loura oxigenada comprime o abdome querendo vomitar nos arbustos. É o que acontece quando seu corpo não está acostumado e você resolve fazer todo o exercício físico da sua vida em um só dia. Dela não tenho pena, embora tenha certeza de que seus músculos parecerão elásticos duros e travados amanhã. Um casal caminha em ritmo firme e agradável, enquanto duas crianças, provavelmente seus filhos, brincam na gangorra.
Tanta gente e eu só penso em você. Tanta gente diferente para viver, e eu só penso em viver você. Vinte e quatro horas no dia e as únicas em que te esqueço são aquelas em que estou correndo. A luta contra a balança já virou quase uma luta contra te amar. Correr para esquecer. Correr para ter sabe-se lá quantos passos de paz e de dor que passa com a respiração correta, ao invés da dor que persiste mesmo com socos angustiados no colchão. De queimação no peito por esforço físico e não pela sua ausência. Por favor, volte e arranque-se de mim porque já fui muito mais forte do que isso. Já não aguento mais chegar em casa antes de me acabar como se o mundo fosse apenas uma esquina. Não quero mais ter que correr para te curar de mim. Quero voltar a correr só porque preciso mandar embora os quilos a mais e não você. Você só vai evaporar quando der na sua telha e não na minha. Já entendi. Só peço que seja logo, porque há gente demais e vida demais e eu fechei meus olhos para tudo que não for solidão e saudade de você.
 
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