domingo, 27 de março de 2011

O lixinho.

Era uma vez um lixinho que sempre quis ser uma grande mulher. Desde muito cedo caminhava pela casa com seus pezinhos pequenos ocupando os sapatos da mãe. Andava até cair alguns tombos por sua falta de equilíbrio. O lixinho foi crescendo, aprendendo a usar maquiagem e a disfarçar a dor fulgurante de nunca deixar de ser o mesmo lixinho. Tudo o que queria era ser uma mulher com sonhos, instintos, perspectivas e costas estreitas, mas fortes o bastante para aguentar o peso dos desapontamentos. Queria crescer e se tornar um alguém feliz, ainda que a felicidade viesse em apenas dois ou três dias da semana. Queria ser uma mulher de alma branca e sincera, mas seu único dom era incorporar o personagem de garrafa descartável, papel amassado com ideias jogadas fora e carne putrefata onde as moscas vêm banquetear. O lixo que sobra das festas, copos de plástico jogados pelo chão e melecados com restos de vodka grudenta. Não saía muito, o lixinho. Gostava de sua vida quieta porque toda vez que tentava sociabilizar voltava para casa ainda mais ciente de sua natureza de lixo. As pessoas sabem ser cruéis e isso ele aprendera há muito tempo.
Numa noite de sábado, no entanto, o lixo cansou de sua vida de fedor e mosquitos rodeando e resolveu tentar mais uma vez. Não custa nada, pensou. Literalmente, custava um bom banho de loja. Psicologicamente, custava um enorme desgaste emocional. Mas não custa nada, continuou pensando. Enfiado em um vestido longo e vermelho, fez até penteado em salão badalado. Tudo para tentar ficar bonito e esconder sua verdade. Classe fina de estampa para mascarar o grosso e deselegante dos seus entulhos. Saiu de casa – a sacolinha de mercado suja – e se meteu em uma festa de gente que não sabe como é ser a casca de banana esmagada que derruba a meninada nas histórias infantis. Foi para a formatura dos amigos, que não tiveram problemas em combinar sorriso com smoking. Galera classuda mesmo, brilho por todos lados e finesse em cada mesa ornamentada com velas e arranjos. O lixinho chegou a pensar que seria tratado como alguém normal quando viu o saxofonista e o violinista andando pelo meio do salão. Sorriu o sorriso tímido de quem está no lugar errado. O sorriso de quem não pertence. Afogou o medo de não combinar com o ambiente de rosas, cadeiras brancas e lustres de cristal. Saudou formandos e toda a gente bonita com a polidez da mentira de ser igual. Ei, mundo, olha só para mim, – ele pensou – camuflado entre as mulheres que são mulheres todos os dias. Amadas, respeitadas, carinhosamente bajuladas. Felizes.
Do alto dos seus saltos, o lixo aproveitou a música animada para arriscar uns passinhos idiotas de dança. Mãozinha para lá, bracinho para cá, reboladinha discreta. Não deu certo e ele desistiu, preferindo ficar no passinho de quem só sabe mexer um pouco o corpo sem sair do lugar. Encontrou alguns amigos e até um dos poucos dos quais sentia muita falta. Abraçou-o e riu quando ele mostrou a Absolut Black que trazia nas mãos em homenagem aos velhos tempos de festa. Taí, esse era um cara que, só pela companhia, fazia o lixo pensar que era verdadeiramente uma mulher e, além disso, bem-quista. Dançou com as amigas, com os namorados das amigas, e até mesmo sozinha. Sua dança descoordenada, mas ainda galgando os degraus de suas tentativas de injetar ânimo onde só o que vive é a apatia. Por alguns instantes, o lixo conseguiu. Não era mais um lixo, era já a mulher que tanto desejava ser. A cada abraço que recebia de pessoas com quem se importava e que, aparentemente, importavam-se com ela, enchia um pouco o recipiente interno de alegria e autoconfiança. Tinha, agora, a classe daquelas pessoas, como se tivesse adquirido um pouco dela por osmose. E tinha também a postura de quem sempre encarou a vida pelos olhos limpos de mulher.
Até que encontrou aquele que era a incógnita de sua vida. O responsável por lembrá-la de sua condição de lixo. Já há tempos não sabia decifrar seus sentimentos por ele; não era amor, nem tampouco desamor. Era um misto de tudo que ele representara em sua vida enquanto quisera fazer parte dela. Carinho, afeto, silêncio, saudade, decepção. Muita decepção. Enquanto o observava, frio e distante, uma dor fulgurante tomou conta de seu peito e até mesmo de sua mente. Tudo doía como se um bando de capangas tivesse caprichado nas bofetadas. Ele estava longe e, mesmo quando se aproximou dela, continuou longe. Com tamanha restrição para tocá-la que ela visualizou uma leprosa entre os convidados. Esperava o quê? Respeito, ao menos. Um sorriso educado. Vestígios de sua ligação dois dias atrás. Qualquer indício de que era, pelo menos naquela noite, uma mulher. Mas tudo que recebeu foi a marca da indiferença. Ele dispensou alguns segundos para olhá-la, outros poucos para dizer um oi mirrado. O cumprimento daqueles que conhecem vagamente, mas não lembram de onde. Ela não passava disso, enfim. Mais tarde, ele veio cheirar sua bebida. Era vodka com alguma coisa doce, possivelmente Coca-Cola sem gás. Doce até demais. Uma hora depois, voltou e trocou algumas palavras superficiais com o grupinho no qual ela estava. A noite inteira assim, pequenos lances de presença para que ela visse como era insignificante em sua vida. A dor das bofetadas aumentou quando ela percebeu que dedicara tanto querer a alguém tão incapaz de sentir. Alguém que se comprazia do desprezo e se orgulhava de seus atos imaturos. Ela lembrou, então, que não era uma mulher. Era um lixo. Ele sempre fora claro quanto a isso, era seu dever garantir que ela jamais esquecesse sua situação de chiclete cuspido. A cada volta dele, porém, ela acreditava novamente ser uma mulher. Ria de sua estupidez, de seu jeito de homem meio garoto que brinca de amar. Sentia seu abraço confortável durante a noite, seus carinhos esparsos e viciantes, suas dissimulações. O calor do seu colo e da mania de ser dono da verdade. Sentia-se mulher. E então, pouco depois, ele a ignorava e mantinha a distância de quem realmente não se importa. Porque lixo vai para a caçamba do caminhão, no final das contas. E era exatamente lá que ela sempre ia parar. Porque era um lixo, não uma mulher. Quase podia enxergá-lo apontando o dedo em seu nariz, peito cheio, e dizendo que lixos não devem criar expectativas. Ele nem precisava falar, seu olhar gelado dizia tudo.
A maneira como ele a tratou jogou um balde de água em fria em tudo que ela sentira naquela noite. Tinha vontade de arrancar o vestido e os sapatos, desfazer o penteado e jogar água na cara. Não pensava mais em ser a tal mulher, queria apenas um lugar onde pudesse se esconder e borrar a maquiagem com suas malditas lágrimas de lixo. Antes queria poder plantar as duas mãos no peito dele, empurrá-lo com força e gritar que ele sumisse para sempre e levasse embora sua empáfia e os pedaços que ela arrancara de si para ele. Queria, depois, diminuir o tom de voz e dizer que ele não precisava mais se preocupar, pois ela já entendera a mensagem. Sabia que era um lixo. Não havia mais necessidade de esfregar isso em seu rosto ridículo. Queria, mais do que tudo, deixar que as pernas fraquejantes caíssem no meio do salão e ninguém mais a enxergasse. Não tinha mais forças para tentar ser o que não era. Ele fora muito claro e nem mesmo o saxofonista, o violinista e o lugar bonito puderam mudar alguma coisa. Todos a trataram de igual para igual até que ela quase acreditasse em seu próprio potencial. Até que ele chegou, catou-a do chão como se catam latinhas e jogou no lixo do banheiro. Porque lugar de lixo é na lata de lixo e não no meio da pista de dança, onde verdadeiros homens e mulheres valsam com suavidade.
Ela foi embora com uma rosa vermelha nas mãos, presente de um cara com o qual não se importava nem um pouco e para o qual não dispensara mais que dois minutos de atenção. Ela formava a figura mais patética do fim do baile. Encostada na parede de fora do clube, sozinha, segurando pelo cabo uma flor que combinava com seu vestido. Cabisbaixa, reprimindo o sofrimento que galopava para fora dela por seus olhos. Querendo despir aquela roupa massacrante e dormir por dois dias seguidos para ter paz. Deixou a rosa pender ao lado do corpo, porque já não via significado algum em cuidar dela. Secaria e morreria de qualquer maneira, da mesma forma que ela estava agora. Seca por dentro. Assassinando suas últimas lembranças e a vontade de dizer ao menos adeus. Deixou que todas as vozes permanecessem longe e que seus olhos opacos continuassem vidrados em seus pensamentos dolorosos. A culpa era dela por não merecer um último abraço, um último beijo, um último olhar, ao menos. A culpa era dela por ser lixo e tentar tanto ser mulher. A gata borralheira perdeu o sapatinho de cristal, mas neste conto – sem fadas – não há ninguém para encontrá-lo na escadaria. A carruagem virou abóbora, o vestido vermelho ganhou uma barra imunda e o sorriso se transformou em lágrimas de uma tristeza desproporcional. A rosa caiu no chão, solitária e infeliz como sua dona temporária. Não importava mais. Aquela noite era o marco do fim. A partir daquele momento, o lixo nunca mais tentaria deixar de ser lixo, porque o processo era frustrante demais.
Era uma vez um lixinho que só queria ser uma mulher. Ele nunca conseguiu, mas tentou até que suas opções estivessem esgotadas. Era um lixinho, cada vez mais com alma de lixo. No último sábado, chegou em casa e chorou por sua condição desesperadora e imutável, mesmo sabendo que chorar não o tornaria algo diferente. Era uma vez um lixo e era uma vez uma mulher que não conhecia outra vida senão a de voltar para casa, de qualquer lugar, sentindo que deveria se jogar na primeira lata de lixo que encontrasse pelo caminho. E, naquela madrugada, foi o que ela fez.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Cachoeira.


Oi, cara. Tenho umas coisas para te contar, mas você pode ignorar se preferir. Pode desconsiderar boa parte porque eu já tomei meu remédio para dormir e estou começando a ficar um pouco tonta. Fico propensa a falar besteiras a partir deste ponto. É como uma bebedeira, dessas que fazem a gente rir de tudo e dizer muita merda, só que é uma bebedeira de dez gotinhas. Só isso. Nada de vodkas dessa vez. Então você pode prestar atenção com um ouvido só, se preferir, e deixar o outro curtindo o Deep Purple saindo pelas caixinhas de som. Não importa. Mas, cara, tenho coisas para contar ou vou morrer engasgada com tudo isso que está entalado e que não deixa nem água descer.
Tenho que dizer que fiz uma burrada grande hoje. Um amigo mandou que eu ligasse para o cara, o barbudo, e dissesse que queria vê-lo. Que deu tudo certo, eu consegui o carro e descobri o caminho para o lugar da cachoeira. É meio longe e cheio de pedregulhos, mas é bonito pra caralho e valeu a pena o percurso. Inaugurei bem a carteira de motorista, sabe como é. Então eu deveria ligar e perguntar quando iríamos nos encontrar lá, depois dos mil e um convites que ele me fez na semana passada. Mas eu mandei uma mensagem. Uma mensagem, cara. Você sabe, homens não respondem mensagens, especialmente quando você não significa muita coisa para eles. Não costumo fazer isso, porque gosto de manter a pose de durona. Aquela mulher decidida que não está nem aí para o cara até que o cara esteja aí para ela. Mas mandei uma mensagem débil ao invés de ligar e dizer alguma coisa inteligente.
Aí, cara, o barbudo agora sabe que eu morro de saudade e que quero vê-lo antes de ir embora, mas não fará nada a respeito. Porque, você sabe, mensagens não são dignas de que algo seja feito. Mensagens são a piada fracassada dos comediantes. Não merecem nem risos fingidos. Mas, pelo menos, é só isso que ele sabe e, consequentemente, é só isso que pode ignorar. Tenho que te contar, cara, que a gente acabou sem ter um fim de verdade. Eu nem pude me despedir e dizer que ele virou um monumento na minha vida ou algo assim. Uma coisa grande mesmo, de arregalar os olhos e doer nos tímpanos. Isso sempre acontece comigo. Um mês, dois no máximo, e fim. Mas, não sei se pelos olhos dele ou porque o abraço era um ninho no qual eu poderia permanecer para sempre, dessa vez dói infinitamente mais. Ele tem aquela coisa a mais de não amar, mas parecer gostar tanto que desconcerta. E eu tenho essa coisa de cair no desconcerto e me perder em um homem assim, que ama sem amar. Você tá me entendendo, cara? Porque eu não me entendo. Além do mais, ele tem aquela barba e aquele rock’n’roll até mesmo na atitude. Eu só queria que ele fosse mais um desses escrotos que eu posso desprezar e pronto. Mas ele é tão mais que isso que a escrota da história acabo sendo eu. Veja só, uma mensagem. Mas que merda.
Eu saí de casa hoje - carteira de motorista e documento do carro na mão - e entrei nessas ruas de chão batido só para descobrir como chegar onde ele queria que eu fosse. Descobri um lugar maravilhoso, mas não sei se ele ainda me tem em seus planos, porque sumiu. Eu poderia ter caído em uma das valetas da estradinha; doeria menos do que a valeta em meu peito. Aposto que a lataria do carro aguenta mais do que a minha. Eu tinha planos de voltar lá amanhã, com uma caixinha de Heineken e o coração aberto para ele. Encontrá-lo só de calção curtindo a natureza e tomando banho de cachoeira. Largar a caixinha e me juntar a ele na água fria. Rir um pouco, sentir um pouco, amar um pouco mais do que deveria. Deitar na grama e admirar as gotículas de água naquele corpo que me ganhou. E agora a única cachoeira da história é essa que insiste em não parar de cair dos meus olhos, porque não há amanhã, nem estradinha, nem gotículas, nem resposta. Só o silêncio de um fim que esqueceu de ser anunciado.
E agora, cara, estou me sentindo uma biscate infantil, indigna de uma resposta qualquer. A bobinha que manda uma mensagem carinhosa, corre atrás do cara e não sabe o que fazer. Não estou acostumada com isso, porque geralmente nem chego perto do celular. Acho que vou voltar a isso. Meu amigo, querido amigo, disse que eu jogo o peso das coisas ruins todo sobre mim. Que sou inteligente, descontraída e classuda, veja só. Disse que a mãe dele me adora, me considera uma Barbie, e que eu tenho que parar com isso. Mas, cara, meu amigo está errado demais. Eu sou burra a ponto de me entregar para o cara que me convidou para ir passear na cachoeira e depois sumiu. Sou travada o bastante para não ter a capacidade de fazer uma ligação. Classuda? Sou uma falsa grã-fina sorridente. Vivendo em cima de saltos altos para tentar ser um pouco maior porque, no fundo, eu só queria ser segura como todos pensam que sou. Sei lá, algo como ser a Barbie de colecionar, proibida para crianças, enquanto sou só a falsificada. E se o barbudo não me quiser mais e realmente não responder minha mensagem banal? Azar, ué. Não é o único homem no mundo. Se dê um desconto, guria, você foi hiper carinhosa na SMS. Para o diabo com o carinho. Se ele não é o único no mundo, é o único para mim. É o dono da única resposta que mexeria com meus hormônios e que botaria um sorriso na minha cara. A única toalha que drenaria essa tristeza lacrimal toda.
É isso aí, cara. Estou sozinha agora, já ficando meio bêbada de Rivotril, escrevendo um texto pela metade e pensando se pego o carro amanhã e vou sozinha para a cachoeira. Afinal, eu gosto de natureza mesmo sem um par de olhos azuis para apreciá-la comigo. Sempre posso levar a caixinha de Heineken, um livro do Woody Allen e ficar curtindo a cachoeira sem um barbudo rindo da minha dificuldade de estacionar ou da minha vergonha de vestir biquíni porque não tenho um corpão de parar o trânsito. Posso levar uma toalha e tomar um banho relaxante. Posso fazer isso. Posso ser uma sozinha feliz, não posso? O que você diz, cara? Cara? Tudo bem? Por que não me responde? Ei! (Tapa no computador). Fala comigo, Word. Você precisa me dar uma luz. Eu estou desesperada e minhas lágrimas estão molhando o teclado. Estou a ponto de te pifar. Se nem você vai responder, acabo de largar as fichas na mesa. Deu para mim. Vou dormir. Você vai se arrepender amanhã, hein? Eu só queria uma respostinha. Mas, ah, enfim, não era pela sua resposta que eu esperava, de qualquer maneira. Foda-se.

domingo, 6 de março de 2011

Corrida pelo não-você.

Domingo é dia de sorvete para muita gente. Dia de assistir às porcarias da televisão, assar uma costela bovina cheia de gordura, tomar sol na piscina de casa, nem que seja uma daquelas de mil litros. Às pessoas normais, é dia de erguer as pernas e descansar, porque a semana foi difícil para todo mundo e as inundações continuam pelo Brasil. É dia de policial soltar a arma e deixar um preso de confiança atendendo na delegacia, para quando bicicletas forem roubadas – como a minha – você não ter como prestar queixa. Para mim, no entanto, é um dia como qualquer outro. Munida de shorts, camiseta e trança mal feita, encho a garrafa de água bem gelada e pego uma toalhinha pequena na gaveta. Calço meu melhor par de tênis – altamente recomendado para joelhos sofríveis que não suportam impactos -, o mesmo que tem feito meus pés parecerem pés de bailarina, cheios de bolhas e cortes que nunca chegam a formar casquinhas.
Alguns morros depois e estou no circuito de corrida. O lugar nunca esteve tão vazio antes. Digo, vazio de verdade. Sem crianças no parquinho ou moleques no gramado jogando uma pelada – por mais indigna que seja a expressão. Vazio como minha vida sem você. Quando começo a correr os quinhentos metros, os únicos sons vêm de meus pés batendo compassadamente no chão e de Black Sabbath saindo alto pelos fones de ouvido para dar aquela pressão. Não adianta querer correr ouvindo Tom Jobim, afinal. Tudo que vejo no meio do nada são placas que combinam com a vontade de aumentar a velocidade; 50, 100, 150... 500 metros e tudo novamente. O ar queima um pouco nos pulmões, mas é como vida fluindo para dentro de mim. A vida que eu tanto sinto falta, que fugiu de mim para ficar para sempre guardada no seu último abraço. A sensação da solidão bem-vinda e da pista vazia, quinhentos metros só meus, é fantástica. Benditas sejam as pessoas preguiçosas e os filmes de fim de semana. O lugar é quase um santuário; o único onde não é a sua imagem que pinta cada tijolo e cada arame da construção.
O sol de rachar continua firme, mas uma pancada de chuva se soma a ele. Continuo correndo, sentindo as gotas refrescarem a pele suada. Vêm de encontro ao rosto e grudam punhados de cabelo que desprenderam com o movimento. A roupa de ginástica cola no corpo, mas estou sozinha e não há motivo para vergonha. Abro os braços como se estivesse em um clipe musical sobre o tema “aproveite a vida”. Consigo até esboçar um sorriso que pensei não existir mais. A chuva passa e o sol fica ainda mais forte. Amanhã vou estar com o couro cabeludo queimado, mas vale o preço. Quase posso ver o vapor subindo do chão. Sem que me desse conta, uma hora e vinte minutos de corrida ritmada foram vencidas. Nos últimos dez minutos, não estive mais sozinha. Algumas toupeiras deixaram seus submundos e surgiram no local. Já não importa. A solidão continua a mesma quando você não está presente. Aquela velha história sobre estar no meio da multidão e se sentir só e blá blá blá.
Enquanto penso neste texto inútil e anoto palavras no bloco mental, termino os exercícios para as coxas nas barras de alongamento. Agora, suada e exausta, sento-me nas escadas largas da arquibancada, retiro caderno e caneta da mochila e observo a escassa movimentação. Vejo um cara alto e musculoso correndo mais rápido que todos. A medalha é sua, Mr. Bronzeado. Um idoso caminha a passos lentos, mais passeando do que exercitando o corpo fraco; ainda assim, admirável. Uma garota de bochechas enormes se arrasta pela pista, certamente iniciando sua luta contra o peso. Tenho vontade de tocar em seu ombro e dizer que no começo pode ser difícil, mas você chega lá se tiver força de vontade. Na placa de 200 metros, uma loura oxigenada comprime o abdome querendo vomitar nos arbustos. É o que acontece quando seu corpo não está acostumado e você resolve fazer todo o exercício físico da sua vida em um só dia. Dela não tenho pena, embora tenha certeza de que seus músculos parecerão elásticos duros e travados amanhã. Um casal caminha em ritmo firme e agradável, enquanto duas crianças, provavelmente seus filhos, brincam na gangorra.
Tanta gente e eu só penso em você. Tanta gente diferente para viver, e eu só penso em viver você. Vinte e quatro horas no dia e as únicas em que te esqueço são aquelas em que estou correndo. A luta contra a balança já virou quase uma luta contra te amar. Correr para esquecer. Correr para ter sabe-se lá quantos passos de paz e de dor que passa com a respiração correta, ao invés da dor que persiste mesmo com socos angustiados no colchão. De queimação no peito por esforço físico e não pela sua ausência. Por favor, volte e arranque-se de mim porque já fui muito mais forte do que isso. Já não aguento mais chegar em casa antes de me acabar como se o mundo fosse apenas uma esquina. Não quero mais ter que correr para te curar de mim. Quero voltar a correr só porque preciso mandar embora os quilos a mais e não você. Você só vai evaporar quando der na sua telha e não na minha. Já entendi. Só peço que seja logo, porque há gente demais e vida demais e eu fechei meus olhos para tudo que não for solidão e saudade de você.

sábado, 5 de março de 2011

Quando atravessar a rua é adeus.

Eu envelheci desde que você apareceu. Quase posso enxergar os fios brancos de cabelo brotando na cabeça mais velha do que aparenta ser. Minha cabeça de mil e tantos anos, de mil e tantas dores, de mil e tantos pesares. Faz um mês que a coisa está do jeito que está e eu só queria entender por que você ainda mente no final da noite, como se fôssemos continuar de onde paramos. Já entendi que, para muitas pessoas, até amanhã significa até nunca mais. Já entendi que você é uma dessas pessoas. Só não consigo me adaptar à gangorra maluca de amor da sua vida. Não suporto seu olhar de ternura quando o que você quer é me mandar embora. Não consigo deitar na cama e não chorar a mágoa de saber que você se despede como se fosse só até amanhã, quando eu já não sei se pode ou não ser a última vez. Choro, então, o excesso de cerveja e de falso amor. A distância do seu abraço que tanto me machuca. Machuca a falta dele, machuca a existência, machuca até quando estou entre seus braços. Choro não te ter. Choro a falta de realidade dos meus sonhos pequenos. Eles são tão bonitos com você que eu me esqueço que não são possíveis.
Acho até que estou ficando doida. No meio da madrugada ouvi o barulhinho chato de mensagem recebida no celular e juro que li “Estou curioso, hehehe, beijo”. Bem do seu jeito, como tudo ultimamente tem seu jeito. E fazia sentido, porque nossas loucuras sempre fazem sentido. Mas era madrugada, eu estava dormindo bêbada depois de dividir umas cervejas com você e resolvi responder só mais tarde, lá pelas onze da manhã. E, quando fui responder, a mensagem não estava mais lá. Estou ficando doida, com certeza. Não pode ter sido sonho e me recuso a acreditar. Eu vi, li, senti o golpe feliz de ser lembrada assim, de repente. E depois só vapor. Como sempre. Muito de você em um instante, nada de você no segundo seguinte.
E eu não sei mais o que é. Não sei se é você ou se sou eu, se sou toda sua ou ainda um pouco minha. Não sei se desando por você não me querer como eu te quero ou se continuo sorrindo quando você aparecer na semana que vem. Não sei se morro por não existir semana que vem. Não sei se engulo esse amargo pior que xarope para tosse ou se cuspo e tomo água para ver se melhora. Não sei e não saber me deixa ainda mais louca. Só sei que é essa vontade alucinada de te estreitar perto de mim. É esse peso que esmaga o peito, essa dor que maltrata as vísceras, esse adeus sem querer partir. É essa ressaca de ausência sua que me deixa de cama em um sábado ensolarado. É essa gripe de não ter você que deixa a garganta rouca. Eu preciso gritar, mas não tenho voz e já não sei. Não sei o quê. Só que sei que tem que ser você. E tenho que ser eu. Não posso me deixar. Não posso me abandonar. E não pode ser outro, porque outro não faz nada do seu jeito. Outro não senta ao meu lado, encosta a cabeça no meu ombro e se gaba porque está ganhando um carinho na barba. Outro não tem amigos que me perguntam “e aí, como é gostar de um cara como ele?”. Outro não me diz que eu estou uma gata e que queria poder me beijar mas não pode na frente de tanta gente. Porque eu sou um segredo na sua vida. Um dos que não merecem ser contados.
Vivendo a saudade, martelando cada momento, chorando em uma cama que já pareceu muito melhor quando não era tão grande, descobri o verso que me traduz. Surgiu como um “plim” na cabeça. Só queria ser Humberto Gessinger para poder dizer com autoria o que ele escreveu. Porque “eu que não fumo, queria um cigarro”. Dois ou três, até. É feio, você diz. E daí? O bonito de mim nunca lhe interessou, rapaz, então me vê um cigarro e me deixa rir com seus amigos que me fazem companhia. “Eu que não amo você, envelheci dez anos ou mais nesse último mês”. Você me envelheceu. Criou rugas no meu rosto, me deixou corcunda com o peso da saudade e da falta de sentido. É tanta dor insensata que nem escrever consigo mais. Olha que bosta está saindo desta vez. “Eu que não bebo pedi um conhaque pra enfrentar o inverno que entra pela porta que você deixou aberta ao sair”. Sempre a porta aberta. Você não coloca a mão na maçaneta porque a superstição diz que se a visita faz isso, não volta. Eu achei tão bonitinho que não percebi que deveria ter deixado que você mesmo abrisse a porta já na primeira visita. Agora é tarde demais, não existem mais trancas nem chaves. A porta ficou aberta. Aberta para você voltar quando quiser e me deixar esperando em vão quando não quiser. Aberta porque é tudo que me resta. Esperar pela sua barba, pela sua vontade tão pouca de me ter. Esperar pela próxima vez que pode demorar anos. Eu estou indo embora, mas você não se importa porque quem sente saudade sou eu, não você.
E hoje dói tanto, de um jeito tão brutal, que eu quero pendurar uma placa na rua dizendo: precisa-se urgente de um canibal que coma um coração e acabe com essa droga. Hoje sua imagem ficou dançando Tom Waits na minha frente, distante demais para ser tocada. Seu convite ficou no ar, de um jeito que não posso alcançar. Flutuando tão perto e tão longe ao mesmo tempo que só resta a agonia de ficar entre. Sempre entre. Entre você e mais alguém, entre uma cerveja e outra, entre uma lágrima e um sorriso disfarçado. Eu não sei quantas besteiras falei ontem à noite, mas sei que foi o bastante para que você me deixasse em casa com um beijinho de boa noite e um “até amanhã” que quer dizer “até nunca mais”. Eu sei que é isso e o mais triste é saber que vi suas costas partindo e que não verei seu peito voltando. Hoje eu sei que, quando atravessei a rua, meio trôpega em meus saltos, foi para sempre. Hoje eu gostaria que não tivesse existido ontem. Que eu não tivesse vestido a saia de renda e o sapato novo e que tivesse ficado em casa enfiada nos pijamas largos. Que não tivesse tentado viver mais um pouco de você. Hoje eu gostaria de poder esquecer que fiquei com a mão no seu joelho por um tempo e que você disse que minhas pernas estavam frias de um jeito tão lindo. Esquecer de você mexendo no meu cabelo, porque a impressão dos seus dedos ali queima tanto que vai virar queimadura de terceiro grau. Queria esquecer tudo, porque lembrar está me cortando em pedaços. Pensar em você brincando que estamos separados por uma mochila dói como se eu tivesse quebrado uma costela. Nós estamos separados por muito mais que uma mochila, mas eu ainda não tinha percebido. Agora sei e agora dói. Ensandecidamente dói. Eu já tinha, mais uma vez, resvalado no costume da solidão. E você brincou com as palavras de Nietzche e mandou meu habitual embora para me deixar, depois, com uma vala ainda maior no peito. E agora a única coisa que posso fazer, sem você, é parar de escrever e esperar o sono chegar. É a melhor opção do menu. Não tem você escrito nele hoje. Possivelmente, nunca mais. E, de tudo o que dói, o que dói mais é que não me despedi direito, porque eu não sabia que precisava me despedir. Eu só percebi que era um adeus quando virei e vi o carro dobrando a esquina apertada. Quando as primeiras lágrimas subiram aos olhos. Eu tinha tantas coisas para falar, tanto amor para te beijar. E ficou tudo lá, no campo das coisas não ditas, onde o adeus não dividido dorme seu sono inquieto e ultrajado. Eu queria você aqui mas, mais do que isso, queria ter recebido um último abraço e um último beijo de verdade. Mas isso também não está no menu da minha vida. Hoje as horas se arrastaram. O dia foi muito mais longo do que o normal. Hoje eu morri um pouco e você nem sabe que foi por você.
 
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