domingo, 6 de março de 2011

Corrida pelo não-você.

Domingo é dia de sorvete para muita gente. Dia de assistir às porcarias da televisão, assar uma costela bovina cheia de gordura, tomar sol na piscina de casa, nem que seja uma daquelas de mil litros. Às pessoas normais, é dia de erguer as pernas e descansar, porque a semana foi difícil para todo mundo e as inundações continuam pelo Brasil. É dia de policial soltar a arma e deixar um preso de confiança atendendo na delegacia, para quando bicicletas forem roubadas – como a minha – você não ter como prestar queixa. Para mim, no entanto, é um dia como qualquer outro. Munida de shorts, camiseta e trança mal feita, encho a garrafa de água bem gelada e pego uma toalhinha pequena na gaveta. Calço meu melhor par de tênis – altamente recomendado para joelhos sofríveis que não suportam impactos -, o mesmo que tem feito meus pés parecerem pés de bailarina, cheios de bolhas e cortes que nunca chegam a formar casquinhas.
Alguns morros depois e estou no circuito de corrida. O lugar nunca esteve tão vazio antes. Digo, vazio de verdade. Sem crianças no parquinho ou moleques no gramado jogando uma pelada – por mais indigna que seja a expressão. Vazio como minha vida sem você. Quando começo a correr os quinhentos metros, os únicos sons vêm de meus pés batendo compassadamente no chão e de Black Sabbath saindo alto pelos fones de ouvido para dar aquela pressão. Não adianta querer correr ouvindo Tom Jobim, afinal. Tudo que vejo no meio do nada são placas que combinam com a vontade de aumentar a velocidade; 50, 100, 150... 500 metros e tudo novamente. O ar queima um pouco nos pulmões, mas é como vida fluindo para dentro de mim. A vida que eu tanto sinto falta, que fugiu de mim para ficar para sempre guardada no seu último abraço. A sensação da solidão bem-vinda e da pista vazia, quinhentos metros só meus, é fantástica. Benditas sejam as pessoas preguiçosas e os filmes de fim de semana. O lugar é quase um santuário; o único onde não é a sua imagem que pinta cada tijolo e cada arame da construção.
O sol de rachar continua firme, mas uma pancada de chuva se soma a ele. Continuo correndo, sentindo as gotas refrescarem a pele suada. Vêm de encontro ao rosto e grudam punhados de cabelo que desprenderam com o movimento. A roupa de ginástica cola no corpo, mas estou sozinha e não há motivo para vergonha. Abro os braços como se estivesse em um clipe musical sobre o tema “aproveite a vida”. Consigo até esboçar um sorriso que pensei não existir mais. A chuva passa e o sol fica ainda mais forte. Amanhã vou estar com o couro cabeludo queimado, mas vale o preço. Quase posso ver o vapor subindo do chão. Sem que me desse conta, uma hora e vinte minutos de corrida ritmada foram vencidas. Nos últimos dez minutos, não estive mais sozinha. Algumas toupeiras deixaram seus submundos e surgiram no local. Já não importa. A solidão continua a mesma quando você não está presente. Aquela velha história sobre estar no meio da multidão e se sentir só e blá blá blá.
Enquanto penso neste texto inútil e anoto palavras no bloco mental, termino os exercícios para as coxas nas barras de alongamento. Agora, suada e exausta, sento-me nas escadas largas da arquibancada, retiro caderno e caneta da mochila e observo a escassa movimentação. Vejo um cara alto e musculoso correndo mais rápido que todos. A medalha é sua, Mr. Bronzeado. Um idoso caminha a passos lentos, mais passeando do que exercitando o corpo fraco; ainda assim, admirável. Uma garota de bochechas enormes se arrasta pela pista, certamente iniciando sua luta contra o peso. Tenho vontade de tocar em seu ombro e dizer que no começo pode ser difícil, mas você chega lá se tiver força de vontade. Na placa de 200 metros, uma loura oxigenada comprime o abdome querendo vomitar nos arbustos. É o que acontece quando seu corpo não está acostumado e você resolve fazer todo o exercício físico da sua vida em um só dia. Dela não tenho pena, embora tenha certeza de que seus músculos parecerão elásticos duros e travados amanhã. Um casal caminha em ritmo firme e agradável, enquanto duas crianças, provavelmente seus filhos, brincam na gangorra.
Tanta gente e eu só penso em você. Tanta gente diferente para viver, e eu só penso em viver você. Vinte e quatro horas no dia e as únicas em que te esqueço são aquelas em que estou correndo. A luta contra a balança já virou quase uma luta contra te amar. Correr para esquecer. Correr para ter sabe-se lá quantos passos de paz e de dor que passa com a respiração correta, ao invés da dor que persiste mesmo com socos angustiados no colchão. De queimação no peito por esforço físico e não pela sua ausência. Por favor, volte e arranque-se de mim porque já fui muito mais forte do que isso. Já não aguento mais chegar em casa antes de me acabar como se o mundo fosse apenas uma esquina. Não quero mais ter que correr para te curar de mim. Quero voltar a correr só porque preciso mandar embora os quilos a mais e não você. Você só vai evaporar quando der na sua telha e não na minha. Já entendi. Só peço que seja logo, porque há gente demais e vida demais e eu fechei meus olhos para tudo que não for solidão e saudade de você.

1 comentários:

Gugu Keller disse...

Às vezes chego a pensar que, mesmo que te sintas tão só, invejo o quanto sabes amar...!
GK

 
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