domingo, 27 de março de 2011

O lixinho.

Era uma vez um lixinho que sempre quis ser uma grande mulher. Desde muito cedo caminhava pela casa com seus pezinhos pequenos ocupando os sapatos da mãe. Andava até cair alguns tombos por sua falta de equilíbrio. O lixinho foi crescendo, aprendendo a usar maquiagem e a disfarçar a dor fulgurante de nunca deixar de ser o mesmo lixinho. Tudo o que queria era ser uma mulher com sonhos, instintos, perspectivas e costas estreitas, mas fortes o bastante para aguentar o peso dos desapontamentos. Queria crescer e se tornar um alguém feliz, ainda que a felicidade viesse em apenas dois ou três dias da semana. Queria ser uma mulher de alma branca e sincera, mas seu único dom era incorporar o personagem de garrafa descartável, papel amassado com ideias jogadas fora e carne putrefata onde as moscas vêm banquetear. O lixo que sobra das festas, copos de plástico jogados pelo chão e melecados com restos de vodka grudenta. Não saía muito, o lixinho. Gostava de sua vida quieta porque toda vez que tentava sociabilizar voltava para casa ainda mais ciente de sua natureza de lixo. As pessoas sabem ser cruéis e isso ele aprendera há muito tempo.
Numa noite de sábado, no entanto, o lixo cansou de sua vida de fedor e mosquitos rodeando e resolveu tentar mais uma vez. Não custa nada, pensou. Literalmente, custava um bom banho de loja. Psicologicamente, custava um enorme desgaste emocional. Mas não custa nada, continuou pensando. Enfiado em um vestido longo e vermelho, fez até penteado em salão badalado. Tudo para tentar ficar bonito e esconder sua verdade. Classe fina de estampa para mascarar o grosso e deselegante dos seus entulhos. Saiu de casa – a sacolinha de mercado suja – e se meteu em uma festa de gente que não sabe como é ser a casca de banana esmagada que derruba a meninada nas histórias infantis. Foi para a formatura dos amigos, que não tiveram problemas em combinar sorriso com smoking. Galera classuda mesmo, brilho por todos lados e finesse em cada mesa ornamentada com velas e arranjos. O lixinho chegou a pensar que seria tratado como alguém normal quando viu o saxofonista e o violinista andando pelo meio do salão. Sorriu o sorriso tímido de quem está no lugar errado. O sorriso de quem não pertence. Afogou o medo de não combinar com o ambiente de rosas, cadeiras brancas e lustres de cristal. Saudou formandos e toda a gente bonita com a polidez da mentira de ser igual. Ei, mundo, olha só para mim, – ele pensou – camuflado entre as mulheres que são mulheres todos os dias. Amadas, respeitadas, carinhosamente bajuladas. Felizes.
Do alto dos seus saltos, o lixo aproveitou a música animada para arriscar uns passinhos idiotas de dança. Mãozinha para lá, bracinho para cá, reboladinha discreta. Não deu certo e ele desistiu, preferindo ficar no passinho de quem só sabe mexer um pouco o corpo sem sair do lugar. Encontrou alguns amigos e até um dos poucos dos quais sentia muita falta. Abraçou-o e riu quando ele mostrou a Absolut Black que trazia nas mãos em homenagem aos velhos tempos de festa. Taí, esse era um cara que, só pela companhia, fazia o lixo pensar que era verdadeiramente uma mulher e, além disso, bem-quista. Dançou com as amigas, com os namorados das amigas, e até mesmo sozinha. Sua dança descoordenada, mas ainda galgando os degraus de suas tentativas de injetar ânimo onde só o que vive é a apatia. Por alguns instantes, o lixo conseguiu. Não era mais um lixo, era já a mulher que tanto desejava ser. A cada abraço que recebia de pessoas com quem se importava e que, aparentemente, importavam-se com ela, enchia um pouco o recipiente interno de alegria e autoconfiança. Tinha, agora, a classe daquelas pessoas, como se tivesse adquirido um pouco dela por osmose. E tinha também a postura de quem sempre encarou a vida pelos olhos limpos de mulher.
Até que encontrou aquele que era a incógnita de sua vida. O responsável por lembrá-la de sua condição de lixo. Já há tempos não sabia decifrar seus sentimentos por ele; não era amor, nem tampouco desamor. Era um misto de tudo que ele representara em sua vida enquanto quisera fazer parte dela. Carinho, afeto, silêncio, saudade, decepção. Muita decepção. Enquanto o observava, frio e distante, uma dor fulgurante tomou conta de seu peito e até mesmo de sua mente. Tudo doía como se um bando de capangas tivesse caprichado nas bofetadas. Ele estava longe e, mesmo quando se aproximou dela, continuou longe. Com tamanha restrição para tocá-la que ela visualizou uma leprosa entre os convidados. Esperava o quê? Respeito, ao menos. Um sorriso educado. Vestígios de sua ligação dois dias atrás. Qualquer indício de que era, pelo menos naquela noite, uma mulher. Mas tudo que recebeu foi a marca da indiferença. Ele dispensou alguns segundos para olhá-la, outros poucos para dizer um oi mirrado. O cumprimento daqueles que conhecem vagamente, mas não lembram de onde. Ela não passava disso, enfim. Mais tarde, ele veio cheirar sua bebida. Era vodka com alguma coisa doce, possivelmente Coca-Cola sem gás. Doce até demais. Uma hora depois, voltou e trocou algumas palavras superficiais com o grupinho no qual ela estava. A noite inteira assim, pequenos lances de presença para que ela visse como era insignificante em sua vida. A dor das bofetadas aumentou quando ela percebeu que dedicara tanto querer a alguém tão incapaz de sentir. Alguém que se comprazia do desprezo e se orgulhava de seus atos imaturos. Ela lembrou, então, que não era uma mulher. Era um lixo. Ele sempre fora claro quanto a isso, era seu dever garantir que ela jamais esquecesse sua situação de chiclete cuspido. A cada volta dele, porém, ela acreditava novamente ser uma mulher. Ria de sua estupidez, de seu jeito de homem meio garoto que brinca de amar. Sentia seu abraço confortável durante a noite, seus carinhos esparsos e viciantes, suas dissimulações. O calor do seu colo e da mania de ser dono da verdade. Sentia-se mulher. E então, pouco depois, ele a ignorava e mantinha a distância de quem realmente não se importa. Porque lixo vai para a caçamba do caminhão, no final das contas. E era exatamente lá que ela sempre ia parar. Porque era um lixo, não uma mulher. Quase podia enxergá-lo apontando o dedo em seu nariz, peito cheio, e dizendo que lixos não devem criar expectativas. Ele nem precisava falar, seu olhar gelado dizia tudo.
A maneira como ele a tratou jogou um balde de água em fria em tudo que ela sentira naquela noite. Tinha vontade de arrancar o vestido e os sapatos, desfazer o penteado e jogar água na cara. Não pensava mais em ser a tal mulher, queria apenas um lugar onde pudesse se esconder e borrar a maquiagem com suas malditas lágrimas de lixo. Antes queria poder plantar as duas mãos no peito dele, empurrá-lo com força e gritar que ele sumisse para sempre e levasse embora sua empáfia e os pedaços que ela arrancara de si para ele. Queria, depois, diminuir o tom de voz e dizer que ele não precisava mais se preocupar, pois ela já entendera a mensagem. Sabia que era um lixo. Não havia mais necessidade de esfregar isso em seu rosto ridículo. Queria, mais do que tudo, deixar que as pernas fraquejantes caíssem no meio do salão e ninguém mais a enxergasse. Não tinha mais forças para tentar ser o que não era. Ele fora muito claro e nem mesmo o saxofonista, o violinista e o lugar bonito puderam mudar alguma coisa. Todos a trataram de igual para igual até que ela quase acreditasse em seu próprio potencial. Até que ele chegou, catou-a do chão como se catam latinhas e jogou no lixo do banheiro. Porque lugar de lixo é na lata de lixo e não no meio da pista de dança, onde verdadeiros homens e mulheres valsam com suavidade.
Ela foi embora com uma rosa vermelha nas mãos, presente de um cara com o qual não se importava nem um pouco e para o qual não dispensara mais que dois minutos de atenção. Ela formava a figura mais patética do fim do baile. Encostada na parede de fora do clube, sozinha, segurando pelo cabo uma flor que combinava com seu vestido. Cabisbaixa, reprimindo o sofrimento que galopava para fora dela por seus olhos. Querendo despir aquela roupa massacrante e dormir por dois dias seguidos para ter paz. Deixou a rosa pender ao lado do corpo, porque já não via significado algum em cuidar dela. Secaria e morreria de qualquer maneira, da mesma forma que ela estava agora. Seca por dentro. Assassinando suas últimas lembranças e a vontade de dizer ao menos adeus. Deixou que todas as vozes permanecessem longe e que seus olhos opacos continuassem vidrados em seus pensamentos dolorosos. A culpa era dela por não merecer um último abraço, um último beijo, um último olhar, ao menos. A culpa era dela por ser lixo e tentar tanto ser mulher. A gata borralheira perdeu o sapatinho de cristal, mas neste conto – sem fadas – não há ninguém para encontrá-lo na escadaria. A carruagem virou abóbora, o vestido vermelho ganhou uma barra imunda e o sorriso se transformou em lágrimas de uma tristeza desproporcional. A rosa caiu no chão, solitária e infeliz como sua dona temporária. Não importava mais. Aquela noite era o marco do fim. A partir daquele momento, o lixo nunca mais tentaria deixar de ser lixo, porque o processo era frustrante demais.
Era uma vez um lixinho que só queria ser uma mulher. Ele nunca conseguiu, mas tentou até que suas opções estivessem esgotadas. Era um lixinho, cada vez mais com alma de lixo. No último sábado, chegou em casa e chorou por sua condição desesperadora e imutável, mesmo sabendo que chorar não o tornaria algo diferente. Era uma vez um lixo e era uma vez uma mulher que não conhecia outra vida senão a de voltar para casa, de qualquer lugar, sentindo que deveria se jogar na primeira lata de lixo que encontrasse pelo caminho. E, naquela madrugada, foi o que ela fez.

3 comentários:

Gugu Keller disse...

Era uma vez um homem que decobriu-se um urubu. Ele jamais o imaginaria, até o dia em que aquela a quem tanto queria, absurdamente, ao menos para ele, assumiu-se um lixo. Assim, doravante, ei-lo esta ave estranha, desengonçada, para muitos agourenta, mas feliz por ao menos poder sobrevoar a sua tão sempre adorada agora imunda lixeira.
GK

Fernando disse...

Curti muito seu blog. Já estou te seguindo... =)

Josiana Rezzardi disse...

Obrigada Fernando!

 
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