sábado, 5 de março de 2011

Quando atravessar a rua é adeus.

Eu envelheci desde que você apareceu. Quase posso enxergar os fios brancos de cabelo brotando na cabeça mais velha do que aparenta ser. Minha cabeça de mil e tantos anos, de mil e tantas dores, de mil e tantos pesares. Faz um mês que a coisa está do jeito que está e eu só queria entender por que você ainda mente no final da noite, como se fôssemos continuar de onde paramos. Já entendi que, para muitas pessoas, até amanhã significa até nunca mais. Já entendi que você é uma dessas pessoas. Só não consigo me adaptar à gangorra maluca de amor da sua vida. Não suporto seu olhar de ternura quando o que você quer é me mandar embora. Não consigo deitar na cama e não chorar a mágoa de saber que você se despede como se fosse só até amanhã, quando eu já não sei se pode ou não ser a última vez. Choro, então, o excesso de cerveja e de falso amor. A distância do seu abraço que tanto me machuca. Machuca a falta dele, machuca a existência, machuca até quando estou entre seus braços. Choro não te ter. Choro a falta de realidade dos meus sonhos pequenos. Eles são tão bonitos com você que eu me esqueço que não são possíveis.
Acho até que estou ficando doida. No meio da madrugada ouvi o barulhinho chato de mensagem recebida no celular e juro que li “Estou curioso, hehehe, beijo”. Bem do seu jeito, como tudo ultimamente tem seu jeito. E fazia sentido, porque nossas loucuras sempre fazem sentido. Mas era madrugada, eu estava dormindo bêbada depois de dividir umas cervejas com você e resolvi responder só mais tarde, lá pelas onze da manhã. E, quando fui responder, a mensagem não estava mais lá. Estou ficando doida, com certeza. Não pode ter sido sonho e me recuso a acreditar. Eu vi, li, senti o golpe feliz de ser lembrada assim, de repente. E depois só vapor. Como sempre. Muito de você em um instante, nada de você no segundo seguinte.
E eu não sei mais o que é. Não sei se é você ou se sou eu, se sou toda sua ou ainda um pouco minha. Não sei se desando por você não me querer como eu te quero ou se continuo sorrindo quando você aparecer na semana que vem. Não sei se morro por não existir semana que vem. Não sei se engulo esse amargo pior que xarope para tosse ou se cuspo e tomo água para ver se melhora. Não sei e não saber me deixa ainda mais louca. Só sei que é essa vontade alucinada de te estreitar perto de mim. É esse peso que esmaga o peito, essa dor que maltrata as vísceras, esse adeus sem querer partir. É essa ressaca de ausência sua que me deixa de cama em um sábado ensolarado. É essa gripe de não ter você que deixa a garganta rouca. Eu preciso gritar, mas não tenho voz e já não sei. Não sei o quê. Só que sei que tem que ser você. E tenho que ser eu. Não posso me deixar. Não posso me abandonar. E não pode ser outro, porque outro não faz nada do seu jeito. Outro não senta ao meu lado, encosta a cabeça no meu ombro e se gaba porque está ganhando um carinho na barba. Outro não tem amigos que me perguntam “e aí, como é gostar de um cara como ele?”. Outro não me diz que eu estou uma gata e que queria poder me beijar mas não pode na frente de tanta gente. Porque eu sou um segredo na sua vida. Um dos que não merecem ser contados.
Vivendo a saudade, martelando cada momento, chorando em uma cama que já pareceu muito melhor quando não era tão grande, descobri o verso que me traduz. Surgiu como um “plim” na cabeça. Só queria ser Humberto Gessinger para poder dizer com autoria o que ele escreveu. Porque “eu que não fumo, queria um cigarro”. Dois ou três, até. É feio, você diz. E daí? O bonito de mim nunca lhe interessou, rapaz, então me vê um cigarro e me deixa rir com seus amigos que me fazem companhia. “Eu que não amo você, envelheci dez anos ou mais nesse último mês”. Você me envelheceu. Criou rugas no meu rosto, me deixou corcunda com o peso da saudade e da falta de sentido. É tanta dor insensata que nem escrever consigo mais. Olha que bosta está saindo desta vez. “Eu que não bebo pedi um conhaque pra enfrentar o inverno que entra pela porta que você deixou aberta ao sair”. Sempre a porta aberta. Você não coloca a mão na maçaneta porque a superstição diz que se a visita faz isso, não volta. Eu achei tão bonitinho que não percebi que deveria ter deixado que você mesmo abrisse a porta já na primeira visita. Agora é tarde demais, não existem mais trancas nem chaves. A porta ficou aberta. Aberta para você voltar quando quiser e me deixar esperando em vão quando não quiser. Aberta porque é tudo que me resta. Esperar pela sua barba, pela sua vontade tão pouca de me ter. Esperar pela próxima vez que pode demorar anos. Eu estou indo embora, mas você não se importa porque quem sente saudade sou eu, não você.
E hoje dói tanto, de um jeito tão brutal, que eu quero pendurar uma placa na rua dizendo: precisa-se urgente de um canibal que coma um coração e acabe com essa droga. Hoje sua imagem ficou dançando Tom Waits na minha frente, distante demais para ser tocada. Seu convite ficou no ar, de um jeito que não posso alcançar. Flutuando tão perto e tão longe ao mesmo tempo que só resta a agonia de ficar entre. Sempre entre. Entre você e mais alguém, entre uma cerveja e outra, entre uma lágrima e um sorriso disfarçado. Eu não sei quantas besteiras falei ontem à noite, mas sei que foi o bastante para que você me deixasse em casa com um beijinho de boa noite e um “até amanhã” que quer dizer “até nunca mais”. Eu sei que é isso e o mais triste é saber que vi suas costas partindo e que não verei seu peito voltando. Hoje eu sei que, quando atravessei a rua, meio trôpega em meus saltos, foi para sempre. Hoje eu gostaria que não tivesse existido ontem. Que eu não tivesse vestido a saia de renda e o sapato novo e que tivesse ficado em casa enfiada nos pijamas largos. Que não tivesse tentado viver mais um pouco de você. Hoje eu gostaria de poder esquecer que fiquei com a mão no seu joelho por um tempo e que você disse que minhas pernas estavam frias de um jeito tão lindo. Esquecer de você mexendo no meu cabelo, porque a impressão dos seus dedos ali queima tanto que vai virar queimadura de terceiro grau. Queria esquecer tudo, porque lembrar está me cortando em pedaços. Pensar em você brincando que estamos separados por uma mochila dói como se eu tivesse quebrado uma costela. Nós estamos separados por muito mais que uma mochila, mas eu ainda não tinha percebido. Agora sei e agora dói. Ensandecidamente dói. Eu já tinha, mais uma vez, resvalado no costume da solidão. E você brincou com as palavras de Nietzche e mandou meu habitual embora para me deixar, depois, com uma vala ainda maior no peito. E agora a única coisa que posso fazer, sem você, é parar de escrever e esperar o sono chegar. É a melhor opção do menu. Não tem você escrito nele hoje. Possivelmente, nunca mais. E, de tudo o que dói, o que dói mais é que não me despedi direito, porque eu não sabia que precisava me despedir. Eu só percebi que era um adeus quando virei e vi o carro dobrando a esquina apertada. Quando as primeiras lágrimas subiram aos olhos. Eu tinha tantas coisas para falar, tanto amor para te beijar. E ficou tudo lá, no campo das coisas não ditas, onde o adeus não dividido dorme seu sono inquieto e ultrajado. Eu queria você aqui mas, mais do que isso, queria ter recebido um último abraço e um último beijo de verdade. Mas isso também não está no menu da minha vida. Hoje as horas se arrastaram. O dia foi muito mais longo do que o normal. Hoje eu morri um pouco e você nem sabe que foi por você.

2 comentários:

Gugu Keller disse...

Dia e noite sem parar, procurei sem encontrar
A palavra certa, a hora certa de voltar
A porta aberta, a hora certa de chegar
GK

Francielle disse...

Lindo texto.
Parabéns por escreveres tão bem!

 
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