quarta-feira, 27 de abril de 2011

Dois patinhos na lagoa.

Apaguem as velas, por favor. Nada de bolo este ano. Nada de soprar para o mundo a podridão que mora em mim. É melhor deixar o bicho de vinte e duas cabeças dormindo em seu lugar cativo, meu coração. Deixem as velas para lá; não faz mais sentido. É luz demais para o que não é claro, calor demais para o que é gelo, números demais para quem não gosta de matemática. Vinte e dois. Esqueçam o bolo. Cortar o primeiro pedaço já não faz sentido também. Não há ninguém esperando para recebê-lo. Ninguém que queira ser feliz com um pratinho descartável e uma fatia doce. A minha fatia doce, o pedaço de mim que iria junto com aquele primeiro corte grosseiro na cobertura de brigadeiro. Meu amor, pronto para a garfada de alguém. Aquela fatia minha que estraga e azeda o que poderia ser lindo. Eu já cortei primeiros e últimos pedaços de mim incontáveis vezes e tudo que vi foram desilusões e flocos meus indo parar nos lixeiros mais próximos. Portanto, joguem fora bolo, espátula, vela. Joguem fora tudo, porque eu já me joguei há muito tempo.
Hoje, aos 22, recordo coisas que pareciam esquecidas; coisas gravadas em discos antigos da minha memória e que agora fazem ruídos na vitrola da vida. Lembro de usar um vestido xadrez na festa de seis ou sete anos, com uma janela enorme no lugar dos dentes da frente, mas ainda sorrindo. Lembro de vender flores com convicção, convencendo cada comprador de que aquela era uma flor especial para alguém especial. Lembro dos cartões e cartas que escrevia quando era mais nova, colocando minha alma nas letras e dando de presente a qualquer um que instigasse meu amor. Lembro da confiança que sentia por qualquer um que segurasse minha mão e me pergunto como fui tola por tanto tempo. Lembro da quitinete bagunçada onde morei sozinha aos dezenove e do apartamento ainda bagunçado para o qual mudei aos vinte, só para perceber que não sou uma pessoa organizada. Lembro dos telefonemas não atendidos, porque não estava afim de conversar. Distâncias que construí sozinha e que depois não consegui transpor. Lembro de quando fui ajudar a colher pitangas para o trabalho de conclusão de curso de uma amiga. Lembro de esmagar as pitangas e tirar seus caroços e, mais tarde, de perder essa amizade como já perdi tantas outras. No meio da minha amargura, é o que eu faço. Perco amigos e pedaços de mim. Perco para o lado escuro do xadrez, que engole tudo que se aproxima. Vivo entre perdas e ganhos que nunca aparecem.
Este ano eu não quero comemorar, mas estou aqui tomando cerveja com o próximo cara que vou perder. O próximo que vai perceber a bagunça que é minha cabeça e sair correndo. Porque é assim que funciona há 22 anos. As pessoas sempre partem; há sempre alguém indo embora. E, enquanto ele não vai, estamos brindando. A quê? A uma vida vazia e estupidamente cheia de sorrisos burocráticos e feições quase políticas. Brindando amores que não deram certo, desmoronamentos e uma vida desconstruída. Brindamos a alegria, mas onde ela está não sei. Brindamos pelo futuro, mas ele não tem partículas brilhantes, apenas mentiras opacas. E vamos bebendo porque, enfim, os dois patinhos na lagoa chegaram. Bingo. Uau. Eu sou jovem, penso. A jovem mais velha que conheço. Uma jovem ferrada e destruída como não deveria ser. O ponteiro do relógio só avançou um minuto para que eu mudasse de idade, mas o peso está sobre meus ombros como dois prédios de vinte e dois andares. É a isso que estamos brindando? Às rugas que não aparecem no rosto, mas que estão largas como fissuras na alma? Aos meus 44 anos, 22 em cada lado do corpo?
Cada presente desembrulhado é uma parte exposta. Um brilho nos olhos a mais em agradecimento, chorando por dentro a falta de tudo. Porque o que eu preciso não vem em pacotes bonitos e cheios de laçarotes. O que eu realmente preciso, sei que não há chance de ganhar. Eu preciso do meu próprio perdão. Da minha força. De querer me querer por mais algum tempo. E abro um sorriso a mais, um extra sem pagamento, só para enganar a eles e a mim e deixar o mundo confuso com minha blindagem complexa. Brindo, bingo, venci por mais uma noite. Qual é o prêmio por saber deixar os esqueletos guardados no armário? Um urso de pelúcia, um ioiô, um baralho incompleto. Não importa. Porque no fim da noite, depois de pacotes e mais pacotes de mentiras esfoladas, há só o cárcere triste e fatigado do meu coração. Como eu dizia, nada disso faz sentido. Nem bolo, nem velas, nem brinde ou abraço. São vinte e dois anos. Vinte e dois motivos para continuar minha estrada sozinha, não querendo, não amando, não vivendo plenamente. Seguindo sempre segura entre meus muros. É uma virada de ano que me deixa mais velha e mais arisca. Menos acessível, menos suscetível. Que escurece um pouco mais a imagem que tenho do mundo colada nas retinas.
Dois, dois. Vinte e dois. Quarenta e quatro. Solte minha mão, já não importa mais. Depois daqui não há mais nada; só cama, travesseiro e solidão. Um aniversário não muda isso. Não muda nada. Entre um final feliz e um realista, opto sempre pelo realista. Porque, sejamos francos, não sei mesmo escrever finais felizes. Não sei nem mesmo vivê-los. E não pretendo aprender só porque hoje estou com vinte e dois anos na cara e vinte e dois sacos de pancada nas costas. Eu sou muito mais velha do que aparento. Conte minha idade pelos murros que já levei. Depois, quem sabe, a gente consiga conversar, de velho para velho.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Capuccino.

Tomei um capuccino hoje cedo e agora estou passando mal porque tenho intolerância à lactose. Mas ele estava tão bonito com sua espuminha branca e fumaça aromática, tão quentinho, tão deliciosamente envolvente e fumegante, que não resisti. Algumas coisas têm esse poder sobre mim. Essa força de me fazer amar mesmo quando só me trazem mal estar e enjoo. O capuccino é como você. Você me faz mais mal do que bem e eu continuo querendo ambas as coisas. Querendo passar mal todos os dias se for preciso, só para poder sentir um pouco do seu gosto. Barganhando seu bem e aceitando seu mal como moeda de troca. Deve ser errado agir e querer assim porque, hoje em dia, o mundo toma amor por erro. Então, deve ser errado amar assim. E eu teimo em gostar do erro e do que me faz mal. De você e do capuccino. Teimo em amar e fingir que o amor não existe. E sei que você não sabe disso que me consome; é tão inocente quanto o leite do capuccino.
Amanhã vou estar com uma puta dor de cabeça de tanto misturar lágrimas, Heineken e Rivotril no mesmo liquidificador. A receita passou do ponto, assou demais, queimou por fora e por dentro continuou crua como nós dois. Torrando em nossos desejos, tostando em abraços envolventes e carinhos aleatórios, esquentando com apertos bruscos e outros delicados. Aquecendo em sorrisos e papos que outros não têm. Mas e lá dentro? Dentro de você e dentro de mim. Tudo cru, como um bolo que não se adaptou ao forno. Preto queimado no exterior revestindo uma massa ainda mole e insatisfeita lá no meio. Porque o seu sentimento não assa, não cresce, não tem jeito de deixar de ser cru. É indigesto, é impossível. E o meu, sempre pré-aquecido, esperando pela oportunidade de girar o botão do fogão e aumentar o calor do fogo. Para ficar pronta, com todos os furinhos que uma nega maluca fofinha tem; os furinhos do amor, da saudade, de fechar os olhos e ter alguém para imaginar. Esperando para amar de uma vez por todas, como sei que posso se for você. Sempre à espera de um sinal de avanço, de que posso me deixar esquentar por inteira e não apenas uma parte ou duas. De que posso te amar e te querer porque você vai deixar de ser cru e me amar também, um pouquinho só.
Eu queria te pedir amor, mas isso é coisa que não se faz. Você não quis me amar e amor não se pede nem se aprende. Não é como bicicleta que, depois dos primeiros tombos, não se esquece jamais. Amor não se bebe, apesar de deixar a gente bebericando as coisas erradas por aí; tequila, whisky, capuccino. Amor não se engole, não se acostuma, não se cria. Se ele existir, vem com seus bônus, adendos e parênteses; senão, vira um eterno amor entre aspas. Copiado, desonesto, falsificado. Amor é assim e não dá nem para mandar enfiar no cu porque é desrespeito. Não com o cara, mas com o amor. Amor é como o capuccino: é gostoso, aquece o coração, preenche os dias, mas pode não cair bem. Pode maltratar e adoecer. E vem refluxo e não salva nada. Amor também é fumegante e irresistível, só que não está estampado no cardápio da confeitaria. Não vem servido em xícaras de porcelana, nem tem pacotinhos minúsculos de açúcar e adoçante no pires. No fim, é sempre igual. Sempre cru. Sempre mal. Sempre enjoos e esperas. Vai-se o capuccino, fica a má digestão. Vai-se o amor, ficam as feridas e a saudade. As aspas abertas para sempre.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Despertador.

Saí com os amigos querendo existir. Levando todos os caroneiros no carro como se pudesse indicar uma direção a mim mesma. Me pegar no colo, me ninar, me dizer palavras bonitas. Eu fazendo tudo para mim, para fugir um pouco do descaso. Porque a gente precisa disso, da tal felicidade. A gente deve ser feliz, obrigatoriamente, para que o mundo não olhe com olhos fulminantes. A gente deve ser feliz porque nem os próximos mais próximos são capazes de entender uma tristeza. Ninguém sabe que tristeza não se entende, apenas se sente. Então, a gente tem que ser feliz, nem que seja só uma mentira mal contada. E eu saí tentando ser pelo menos um pouquinho disso que as pessoas são. Buscando formas de deixar a tristeza bolorenta embrulhada e enterrada em uma caixa de sapatos. O mofo da solidão, crescendo verde em sua pelúcia feia dentro de mim. O fungo da dor de não saber ser diferente. Saí buscando um remédio contra essa epidemia, ainda que fosse temporário, e encontrei só mais um pouco de inferioridade para a montanha que já é enorme. Umas sujeiras pelo caminho, bactérias de noites insones, injúrias e decepções penetrando pelo que já é infeccionado e não pode se defender.
Depois de voltar para casa sozinha, desistindo de tentar e nunca passar da tentativa, desenterrei a caixa de sapato com minha tristeza verdadeira e cheguei à conclusão de que decepção acorda melhor do que qualquer despertador. É bonito como o próprio nome já diz: desperta a dor. Poderia ser campanha publicitária. Ainda assim, se pudesse eu escolheria o treco barulhento e chato da lojinha de conveniência e tralhas. Porque você pode até levantar de mau humor pelo "pééééin" - ou qualquer outra onomatopéia estridente - irritante do aparelho tremendo no bidê ao lado da cama, mas a decepção te deixa com mau humor de corpo inteiro e músculos derrotados. No despertador você dá um tapa e pronto. Na decepção você pode dar murros e pontapés que não vai adiantar. A decepção te deixa doendo bem na boca do estômago. Te deixa doendo em cada parte do seu corpo e acentua o mofo que aos poucos te entope as artérias. A decepção te faz acordar no meio da noite e não conseguir mais se ajeitar na cama. Ou, pior, a decepção nem te acorda porque, para começar, raras vezes te deixa dormir. Descobri tudo isso depois de perceber que estou tão decepcionada que nem morta de sono consigo apagar. Que, de olhos abertos, é a decepção que enxergo deitada no travesseiro ao lado do meu. E que, de olhos fechados, é com ela que sonho.
Duas noites de sono e desperta a dor. Ainda não passou. A roupa de cama cheira a azedo pela umidade das lágrimas. O rosto no espelho está feio e o caos no quarto reflete o caos em meu peito. Pensei que acordaria melhor e acordei com uma pedra esmagando tórax, cabeça e coração. Com as eternas besteiras cutucando minha enxaqueca, o dia começou bem. Bem cheio de dor de cabeça e mágoa. Trilhões de pensamentos zunindo como moscas chatas e estressantes na mente. Entre o emaranhado de roupas, cremes e livros, procurei um veneno para matar todos eles. Um inseticida potente que fosse bem sucedido com uma só espirradinha. Não encontrei bulhufas. A vida segue e não há jeito de estrangular as tristezas que tanto nos estrangulam. Elas são mais fortes, não importa quanta força se imponha. A vida segue, bem como a saudade. A vida segue. As vezes, infelizmente.
Se minha vida precisa seguir em frente, que seja escondida sob uma jaqueta de couro cheia de tachas e rebites. Algo forte que passe a imagem de que não sou um bichinho afagável, mas sim um monstro cheio de farpas. Fazer carinho em mim dói, machuca. É melhor nem tentar. Tudo porque minha vida resolveu seguir sem mim ou, pelo menos, sem aquela que costumava ser eu. Minha parte antiga - dócil e equilibrada - ficou perdida na corda bamba de algum lugar do passado que não consigo reencontrar. Sobrou só a parte dura e intransponível; a parte que ninguém quer porque não tem graça, é danificada demais. E apesar de todo o desespero diário, de tentar desconectar mente e coração, de toda a luta para mentir à minha consciência que está tudo bem e que levar os amigos para passear pode resolver, da guerra para parecer mais sã do que sou, ainda encontro gente dizendo que transmito paz e que meu sorriso é alegre. Mal sabem eles o quanto meu despertador-decepção toca. Mal sabem eles.

domingo, 17 de abril de 2011

Às amigas de república e vida.

Não é começo de discurso de formatura, mas poderia ser. A despedida é a mesma; a divisão de um para cada lado. É um adeus, uma separação antes do fim. É o corte de um cordão umbilical que deveria durar ao menos cinco anos. Ir embora não quer dizer nunca mais voltar, mas quer dizer distância acima de todas as outras coisas. Acima do papel grudado na geladeira para racionar tarefas; banheiro, casa, lavanderia e garagem decorados com flores coloridas e ímãs. Das compras úteis de mercado e das inúteis também. De um banheiro para cinco pessoas. Do portão e do cadeado, dos passos nas pedrinhas. Dos tropeços, tombos e voltas turvas de festas. Das idas a elas também, cantando na rua músicas em inglês. Das conversas sobre tantos mundos, sobre tantas coisas, sobre vidas coladas. De dividir espelho do quarto, roupas, pão e queijo.
Não há outro lugar onde o assunto seja o cocô de hoje ou a falta dele. Onde as dancinhas sejam sambas de uma perna só, rebolados meio duros e imitações de Natalie Portman dançando balé. Onde a sala seja muito mais do que dois sofás; seja o coração da casa, o jardim de inverno sem flores, mas cheio de amor. Não há outro lugar onde as garrafas de vodka mantêm seus restinhos e ficam acumuladas cada vez mais na estante. Onde a televisão menor vai em cima da maior para improvisar um home theater. Onde pequenas coisas viram grandes histórias e boas gargalhadas. Não há outro lugar assim. Isso é o mais perto do "lar doce lar" que uma pessoa pode chegar e que eu, que não acreditava ser possível, cheguei.
O adeus é sempre mais difícil quando não envolve um pé na bunda. Desta vez não estou sendo chutada, estou chutando minha própria vida para longe. Ou tentando reavê-la, provavelmente. Desta vez as malas choram a obrigação de ir, porque queriam ficar lá no alto do armário, onde sempre estiveram. Jogar as roupas dentro delas é como jogar pedaços de mim que queriam ficar. Sinto que estou empacotando os sentimentos tão grandes que nasceram aqui para poder levá-los comigo. Eles vão no cantinho do zíper externo, junto com o perfume e a frasqueira de remédios. Eles não morrerão como tantas outras coisas em mim morreram, isso posso prometer. As rodinhas das malas arranham o chão e deixam um último rastro nas lajotas limpinhas e ainda molhadas de pingos que caíram da térmica do último tererê. O rastro do tchau e da incerteza. Do meu desespero.
Se eu pudesse dividir minha vida em duas, uma delas ficaria aqui, amarrada para sempre com as pessoas que me fizeram chorar de emoção com uma festa surpresa de despedida e aniversário. Chorei a torta de limão com meu nome, a tequila e a garrafinha com suco de limão natural, a montagem de fotos impressa, as bexigas coloridas e cheias de ar e saudade espalhadas pelo quarto. Chorei a surpresa e o carinho. O amor em que me senti envolta. Esse amor que eu tanto preciso e que, por uma ironia cruel, estou perdendo como se houvesse uma navalha invisível. Se eu pudesse mesmo me dividir em duas, metade de mim continuaria dormindo nesta cama, dividindo aluguel e ocupando um dos quartos da casa. Mas, mesmo depois de tantos cortes que a vida já me fez, ainda não aprendi a me dividir.
Estou levando comigo algumas mudas de roupa e mais de mil lembranças. Da bebê que chupa dedo. Da menina que imita o Fred Mercury prateado como ninguém e capota no sofá às nove da noite. Da mesma menina que escolheu segurar a minha mão - e só a minha - em um momento terrível. Da pessoa mais doce e carinhosa que já conheci na vida, com sua voz de criança delicada e seu ombro sempre disposto. Do meninão do inglês que nunca conheci. Da cervejinha que não faz mal a ninguém. Das gambiarras do homem da casa. Das piadas que as pessoas não entendem; porque dinheiro eu tenho, "cê" que não sabe. De ser acordada com o barulho de um funk e a manga de uma jaqueta batendo na cara. Das corridas de moto até o restaurante universitário. Do namorado de amiga mais legal que já conheci, com seu black power e senso de humor admiráveis. Da implicância com minhas leituras, minha torcida infernal pelo Corinthians, com meu remédio para dormir e minha mania de dormir demais. Dos almoços de domingo e horas de integração. Mas, muito mais do que isso, estou levando a lembrança de ter sido acolhida como uma irmã e de ter recebido mais afeto do que cabe em mim.
A vida cria distâncias. Quilômetros. Obriga saudades irreparáveis. Centenas de imagens de vocês passam por minha cabeça enquanto derramo lágrimas sobre as teclas deste notebook. Milhares de indecisões e certezas de erros. Preferia não estar partindo, juro. Preferia nunca comprar a passagem que estou prestes a comprar, aquela que me leva não a um fim de semana longe, mas a uma vida inteira. Preferia nunca embarcar no ônibus. Viver com vocês foi um privilégio, algo tão grande e tão sincero que por trezentas vezes, na última semana, perguntei-me se estava fazendo a coisa certa indo embora precocemente. Decidi que não. Estou fazendo a coisa errada, porque a saudade vai ser cruel e implacável sobre meu coração que já não sobrevive a essas coisas. Mas, infelizmente, percebi também que o errado é, neste momento, minha única saída. A única possibilidade de que nossos laços não acabem e de que eu ainda possa me suportar tempo o bastante para que mil abraços aconteçam.
De toda a tristeza que dá assinar o papel de trancamento de um curso lindo como o nosso, o que mais dói é dar adeus a vocês. Desculpem se não pude ser mais do que um punhado de depressão e obscuridade nos últimos tempos. Vocês merecem mais de mim e é por isso que estou partindo. Para buscar esse algo mais e um dia, quem sabe, poder entregá-lo com alegria. Algo me diz, meus amores, que as coisas não serão assim para sempre. Que teremos nossas felicidades, amores, carros e empregos. Que comemoraremos com brindes de sucesso nossa luta tão difícil. Eu só queria ter a força que vejo em cada uma de vocês.
Não encarem isso como um abandono porque já me culpo por não estar mais ao lado de vocês para o que precisarem. E eu sei que, de alguma forma, precisam. Não chorem. Se precisarem chorar, que seja quando eu for buscá-las na rodoviária em Pato Branco. E sintam saudade, por favor, porque eu já estou morrendo um pouquinho a cada metro de distância a mais que atinjo. Perdão. E, acima de tudo, obrigada. Vocês me fizeram crescer, mostraram-me uma vida que eu gostaria de agarrar para a eternidade. Vocês me deixaram acreditar que no sorriso de algumas pessoas o mundo ainda é bom e que eu não sou uma qualquer. Queria ter caixinhas bonitas para entregar a cada uma os pedaços de mim que deixo aqui para sempre, como dentes de leite que viram pingentes de correntinhas. Queria ter dito o quanto amo vocês e ter deixado isso muito mais claro do que deixei. Mas vocês sabem. Lá no fundo, sei que sabem.
A fotografia estará inteira para sempre, ilustrada em um porta-retrato e nos álbuns guardados nas gavetas de nossas casas. Estaremos sempre como um todo em nossos corações. Mas aqui ao meu redor, agora, há um buraco. Um vazio que é triste sem vocês e que ninguém irá suprir. Não taparei, no entanto, com argamassa, porque vocês conquistaram cada milímetro dele. Esse buraco da saudade será para sempre. Espero que haja também um buraquinho de saudade deixado por mim em nossa casa. Em nossa eterna república sem nome e que, controversamente, tantos nomes já ganhou. E que, se possível, esse buraquinho permaneça aqui, ainda que no canto perto da churrasqueira, enquanto nossas vidas durarem.
A vocês, minhas amigas de república e de vida, todo o amor que posso dar, todo o carinho que sinto e toda a felicidade que me proporcionaram. A vocês, minhas lágrimas e meus sorrisos. Meus agradecimentos infinitos por terem me suportado chorando, dando coices, esquecendo de limpar a casa, sofrendo por quem não merecia, tendo faniquitos durante jogos de futebol, andando pela casa com os cabelos oleosos e maquiagens borradas pela manhã, passando algumas horas de ressaca e reclamando de meus problemas intestinais e adiposos. Por toda a paciência e amizade que me dedicaram. Por terem me levado às festas mesmo quando eu não queria ir e por terem ido comigo mesmo quando não queriam. Por nossas tardes, quaisquer delas, tanto as divertidas quanto as monótonas. Por não terem jamais feito julgamentos errados sobre mim. Por terem aceitado meu "tá" em resposta ao "te amamos". Por terem dividido comigo muito mais do que um aluguel e contas de luz e água. À vocês, uma parte enorme da minha vida. E uma dose de tequila, por favor. Arriba, abajo, al centro e adentro! A vocês, sempre a vocês.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Escuridão.

Queimou a lâmpada do quarto e eu estou no escuro há três dias. Chega esse horário meio termo - quando as réstias de luz vão sumindo e pintando o céu de laranja ou cor-de-rosa - e eu começo a forçar a vista em frente ao computador até formar ruguinhas. Depois fica tudo escuro lá fora e tudo escuro aqui dentro, igualzinho ao meu coração. Tenho preguiça de ir ao mercado só para comprar uma lâmpada. Preguiça de consertar uma coisa tão pequena, um escuro com o qual posso sobreviver muito bem. Aquele que me cega, que me faz tatear à procura de barreiras sólidas, não pode ser arrumado. Não dá para chegar no mercadinho e pedir uma lâmpada com voltagem que se adapte ao meu corpo ou que eu possa rosquear direto no centro da alma. Para essa escuridão não há mais saída, está incrustada nas camadas mais profundas do meu eu sem castiçal. Então deixo que o quarto faça companhia ao que antes era sozinho. Duas escuridões em uma só vida.
A situação piorou quando meus óculos quebraram. A lente direita partiu ao meio com uma fragilidade admirável. Além de espremer os olhos na direção da tela luminosa do notebook, ainda preciso chegar bem perto para enxergar alguma coisa. E o colírio, pelos meus cálculos, dura só mais dois dias. Eu poderia fazer outras coisas, mas as outras coisas da minha vida se resumem a tudo que exige olhos bem abertos. Livros e páginas de Word. Filmes legendados. Letras pequenas de livros puídos da biblioteca da faculdade. Sou uma nerd que gosta de se vestir bem, mas me vestir bem não vai ajudar a enxergar melhor. Neste caso, deixo que os olhos sofram e que os óculos continuem quebrados como minha vida. Separados em dois, direito e esquerdo, com um puta desvio onde deveria estar o encaixe. Eu também não tenho encaixe. Está faltando uma peça no jogo, mas alguém escondeu e não quer contar onde. Ou é defeito de fabricação. Então continuo quebrada, dividida em duas, direita e esquerda, tentando juntar meus pedaços da melhor maneira possível. Não tem surtido efeito.
No escuro do quarto ainda dá para enxergar você e o buraco que você deixou quando foi embora. O edredom com símbolos japoneses continua quentinho e só é frio se eu me mexer mais para o lado, mas o peso do seu corpo ficou marcado no colchão. Sua cabeça afundou no travesseiro e, por mais que eu o afofe, continua ali. Visível. Acusadora. No escuro a voz rouca de Tom Waits ganha outra amplitude. "I hope that I don't fall in love with you", diz ele em meus fones e eu abraço o travesseiro com mais força para suprir essa saudade que surge como uma luz intensa quando as pupilas já estão acostumadas com a escuridão. Eu posso fazer mil coisas para não chorar e tentar não pensar em você. Posso levantar ouvindo o estralo do meu joelho esquerdo. Apertar o interruptor só para lembrar que a lâmpada queimou. Abrir a porta do quarto como uma ninja descoordenada tentando não fazer barulho. Andar pela casa, com a camisola curta e as meias grossas para pés gelados, esfregando as pálpebras com as costas das mãos. Posso ir ao banheiro e fazer o terceiro xixi da madrugada, porque minha bexiga parece achar que sou uma eterna grávida. Voltar para a cama com o rosto inchado, passos vagarosos até dar com o dedinho do pé na quina da cama e saltitar de dor, sussurrando um "puta merda" irado. Tomar um gole de água direto do gargalo da garrafinha de plástico que fica no bidê ao lado da cama. Olhar para o livro niilista e pensar em ler mais um pouquinho, mas lembrar que já são quatro e pouco da manhã e que, por mais notívaga que eu seja, preciso acordar cedo amanhã. Posso deitar, puxar o edredom até cobrir as orelhas e ouvir que Tom Waits agora canta "The heart of saturday night". Posso fazer mil coisas que levam menos de cinco minutos, mas quando descanso a cabeça no travesseiro e sinto o peso que ela ganhou nos últimos anos, é em você que penso e é por você que as lágrimas vêm. Na escuridão, quando ninguém mais vê. Ninguém além do lugar vazio que era seu. Fecho os olhos, então, com a força que sei que nem tenho mais, só para tentar dormir e deixar que você suma ou que apareça em um sonho. Que apareça de frente, lindo como sempre, e não indo embora.
A escuridão não me oprime. Eu acho bonito abrir os olhos e enxergar tudo tão negro que posso imaginar que você está ali, mas não pode ser visto. Não tenho medo, embora sempre idealize um palhaço assassino me espreitando pela fresta da janela. Não é por medo que não durmo. Não é por medo que meus olhos não descansam, nem por teimosia ou por amar olheiras. É pela falta de você, por seu corpo marcado aqui tão perto e agora tão distante, pela lembrança que corrói como ácido. É essa saudade que mata a qualquer hora. A escuridão não importa. O dia claro machuca muito mais. A lâmpada queimou porque não aguentou minha própria escuridão entrando e saindo do quarto a todo momento, deixando o ar pesado e a agonia reinando. Mas eu decidi que o quarto só terá luz quando eu também tiver. Só quando eu puder chegar sorrindo no mercado para comprar uma lâmpada para o teto porque já tenho uma na alma e no coração. Só aí, então, vou deixar que a escuridão me abandone. Exatamente como você fez.
 
Creative Commons License
Vogais Vazias by Josiana Rezzardi is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License.
Header Image by Colorpiano Illustration