domingo, 17 de abril de 2011

Às amigas de república e vida.

Não é começo de discurso de formatura, mas poderia ser. A despedida é a mesma; a divisão de um para cada lado. É um adeus, uma separação antes do fim. É o corte de um cordão umbilical que deveria durar ao menos cinco anos. Ir embora não quer dizer nunca mais voltar, mas quer dizer distância acima de todas as outras coisas. Acima do papel grudado na geladeira para racionar tarefas; banheiro, casa, lavanderia e garagem decorados com flores coloridas e ímãs. Das compras úteis de mercado e das inúteis também. De um banheiro para cinco pessoas. Do portão e do cadeado, dos passos nas pedrinhas. Dos tropeços, tombos e voltas turvas de festas. Das idas a elas também, cantando na rua músicas em inglês. Das conversas sobre tantos mundos, sobre tantas coisas, sobre vidas coladas. De dividir espelho do quarto, roupas, pão e queijo.
Não há outro lugar onde o assunto seja o cocô de hoje ou a falta dele. Onde as dancinhas sejam sambas de uma perna só, rebolados meio duros e imitações de Natalie Portman dançando balé. Onde a sala seja muito mais do que dois sofás; seja o coração da casa, o jardim de inverno sem flores, mas cheio de amor. Não há outro lugar onde as garrafas de vodka mantêm seus restinhos e ficam acumuladas cada vez mais na estante. Onde a televisão menor vai em cima da maior para improvisar um home theater. Onde pequenas coisas viram grandes histórias e boas gargalhadas. Não há outro lugar assim. Isso é o mais perto do "lar doce lar" que uma pessoa pode chegar e que eu, que não acreditava ser possível, cheguei.
O adeus é sempre mais difícil quando não envolve um pé na bunda. Desta vez não estou sendo chutada, estou chutando minha própria vida para longe. Ou tentando reavê-la, provavelmente. Desta vez as malas choram a obrigação de ir, porque queriam ficar lá no alto do armário, onde sempre estiveram. Jogar as roupas dentro delas é como jogar pedaços de mim que queriam ficar. Sinto que estou empacotando os sentimentos tão grandes que nasceram aqui para poder levá-los comigo. Eles vão no cantinho do zíper externo, junto com o perfume e a frasqueira de remédios. Eles não morrerão como tantas outras coisas em mim morreram, isso posso prometer. As rodinhas das malas arranham o chão e deixam um último rastro nas lajotas limpinhas e ainda molhadas de pingos que caíram da térmica do último tererê. O rastro do tchau e da incerteza. Do meu desespero.
Se eu pudesse dividir minha vida em duas, uma delas ficaria aqui, amarrada para sempre com as pessoas que me fizeram chorar de emoção com uma festa surpresa de despedida e aniversário. Chorei a torta de limão com meu nome, a tequila e a garrafinha com suco de limão natural, a montagem de fotos impressa, as bexigas coloridas e cheias de ar e saudade espalhadas pelo quarto. Chorei a surpresa e o carinho. O amor em que me senti envolta. Esse amor que eu tanto preciso e que, por uma ironia cruel, estou perdendo como se houvesse uma navalha invisível. Se eu pudesse mesmo me dividir em duas, metade de mim continuaria dormindo nesta cama, dividindo aluguel e ocupando um dos quartos da casa. Mas, mesmo depois de tantos cortes que a vida já me fez, ainda não aprendi a me dividir.
Estou levando comigo algumas mudas de roupa e mais de mil lembranças. Da bebê que chupa dedo. Da menina que imita o Fred Mercury prateado como ninguém e capota no sofá às nove da noite. Da mesma menina que escolheu segurar a minha mão - e só a minha - em um momento terrível. Da pessoa mais doce e carinhosa que já conheci na vida, com sua voz de criança delicada e seu ombro sempre disposto. Do meninão do inglês que nunca conheci. Da cervejinha que não faz mal a ninguém. Das gambiarras do homem da casa. Das piadas que as pessoas não entendem; porque dinheiro eu tenho, "cê" que não sabe. De ser acordada com o barulho de um funk e a manga de uma jaqueta batendo na cara. Das corridas de moto até o restaurante universitário. Do namorado de amiga mais legal que já conheci, com seu black power e senso de humor admiráveis. Da implicância com minhas leituras, minha torcida infernal pelo Corinthians, com meu remédio para dormir e minha mania de dormir demais. Dos almoços de domingo e horas de integração. Mas, muito mais do que isso, estou levando a lembrança de ter sido acolhida como uma irmã e de ter recebido mais afeto do que cabe em mim.
A vida cria distâncias. Quilômetros. Obriga saudades irreparáveis. Centenas de imagens de vocês passam por minha cabeça enquanto derramo lágrimas sobre as teclas deste notebook. Milhares de indecisões e certezas de erros. Preferia não estar partindo, juro. Preferia nunca comprar a passagem que estou prestes a comprar, aquela que me leva não a um fim de semana longe, mas a uma vida inteira. Preferia nunca embarcar no ônibus. Viver com vocês foi um privilégio, algo tão grande e tão sincero que por trezentas vezes, na última semana, perguntei-me se estava fazendo a coisa certa indo embora precocemente. Decidi que não. Estou fazendo a coisa errada, porque a saudade vai ser cruel e implacável sobre meu coração que já não sobrevive a essas coisas. Mas, infelizmente, percebi também que o errado é, neste momento, minha única saída. A única possibilidade de que nossos laços não acabem e de que eu ainda possa me suportar tempo o bastante para que mil abraços aconteçam.
De toda a tristeza que dá assinar o papel de trancamento de um curso lindo como o nosso, o que mais dói é dar adeus a vocês. Desculpem se não pude ser mais do que um punhado de depressão e obscuridade nos últimos tempos. Vocês merecem mais de mim e é por isso que estou partindo. Para buscar esse algo mais e um dia, quem sabe, poder entregá-lo com alegria. Algo me diz, meus amores, que as coisas não serão assim para sempre. Que teremos nossas felicidades, amores, carros e empregos. Que comemoraremos com brindes de sucesso nossa luta tão difícil. Eu só queria ter a força que vejo em cada uma de vocês.
Não encarem isso como um abandono porque já me culpo por não estar mais ao lado de vocês para o que precisarem. E eu sei que, de alguma forma, precisam. Não chorem. Se precisarem chorar, que seja quando eu for buscá-las na rodoviária em Pato Branco. E sintam saudade, por favor, porque eu já estou morrendo um pouquinho a cada metro de distância a mais que atinjo. Perdão. E, acima de tudo, obrigada. Vocês me fizeram crescer, mostraram-me uma vida que eu gostaria de agarrar para a eternidade. Vocês me deixaram acreditar que no sorriso de algumas pessoas o mundo ainda é bom e que eu não sou uma qualquer. Queria ter caixinhas bonitas para entregar a cada uma os pedaços de mim que deixo aqui para sempre, como dentes de leite que viram pingentes de correntinhas. Queria ter dito o quanto amo vocês e ter deixado isso muito mais claro do que deixei. Mas vocês sabem. Lá no fundo, sei que sabem.
A fotografia estará inteira para sempre, ilustrada em um porta-retrato e nos álbuns guardados nas gavetas de nossas casas. Estaremos sempre como um todo em nossos corações. Mas aqui ao meu redor, agora, há um buraco. Um vazio que é triste sem vocês e que ninguém irá suprir. Não taparei, no entanto, com argamassa, porque vocês conquistaram cada milímetro dele. Esse buraco da saudade será para sempre. Espero que haja também um buraquinho de saudade deixado por mim em nossa casa. Em nossa eterna república sem nome e que, controversamente, tantos nomes já ganhou. E que, se possível, esse buraquinho permaneça aqui, ainda que no canto perto da churrasqueira, enquanto nossas vidas durarem.
A vocês, minhas amigas de república e de vida, todo o amor que posso dar, todo o carinho que sinto e toda a felicidade que me proporcionaram. A vocês, minhas lágrimas e meus sorrisos. Meus agradecimentos infinitos por terem me suportado chorando, dando coices, esquecendo de limpar a casa, sofrendo por quem não merecia, tendo faniquitos durante jogos de futebol, andando pela casa com os cabelos oleosos e maquiagens borradas pela manhã, passando algumas horas de ressaca e reclamando de meus problemas intestinais e adiposos. Por toda a paciência e amizade que me dedicaram. Por terem me levado às festas mesmo quando eu não queria ir e por terem ido comigo mesmo quando não queriam. Por nossas tardes, quaisquer delas, tanto as divertidas quanto as monótonas. Por não terem jamais feito julgamentos errados sobre mim. Por terem aceitado meu "tá" em resposta ao "te amamos". Por terem dividido comigo muito mais do que um aluguel e contas de luz e água. À vocês, uma parte enorme da minha vida. E uma dose de tequila, por favor. Arriba, abajo, al centro e adentro! A vocês, sempre a vocês.

5 comentários:

Tânia Brasil disse...

Josi doi tanto olhar pro teu quarto e ver q vc não ta aqui! de saber q não é apenas uma viagem de fds!queria ter certeza d q vai voltaR!A como eu queria. Ao mesmo tempo q é maravilhoso saber disso td é ruim sabe!
vai ser dificil sem vc!
+ seu lugar jamais será substituido, vou continuar pulando na tua cama assim como fazia como vc estava aqui!
sabemos sim o quanto vc nos ama.
Desculpa não saber usar as palavras como eu queria + eu sei q como sempre vc me entende! e q o q importa vc sabe é q eu te AMO muitooo e nunca me canso de dizer! vc é muito especial pra mim só eu sei o quanto! =desculpa algumas falhas. e vai se programando q não ficar com essa saudade me machucando por muito tempo não, logo eu to ai em Pato Branco. entrei na sua vida e foi pra ficar! se antes achavamos q o amor não existia... hum engano nosso não é? rs vou ficando por aqui pq é dificil decifrar alguma letra em meio a tantas lagrimas!bjão TE AMOOOOO...
..Tânia...

Tânia Brasil disse...

Td bem q eu estou de Pijama hsahushahs... isso não muda nada o quando amei essa fto!
e claro mostra a originalidade da nossa republica tão amada!
q hj com certeza ta com as estruturas abaladas! assim como nosso emocional!...

ALINE ESSER disse...

Jô, não sei escrever bonito, e não vou roubar textos de algum orkut qualquer, mas o meu sentimento é que você volte, estou em lagrimas escrevendo isso, o seu ônibus nem e perto de Pato Branco esta, mas a minha vontade é de ir te buscar já! Você deixou um grande sentimento de saudade neste coração duro do homem da casa, eu que sempre dou um jeito de ver piada e alegria em tudo, agora neste momento só tem a dor e as lagrimas, pois não tem ninguém sentada naquela cadeira, com os braços cruzados e os fones de ouvido! E toda vez que olho para aquela garrafa de tequila não terminada e as palavras na geladeira meu coração dói muito, muito mesmo! Como diria a Tânia "estou com o abalal emocional"
Amo você amiga. Amiga, irmã a minha Jô, como eu dizia quando todos perguntavam: Que Josi??? E eu respondia: A minha Jô, não a outra!
Aqui fica então as palavras de um coração macho, que também tem sentimentos! Te amo muito!

Anônimo disse...

Sem respostas e palavras no momento
(sua bailarina).
Logo darei meu parecer.

Gugu Keller disse...

Então trancou mesmo a faculdade, querida amiga? Bem... Creio que é o tipo de decisão que é tão pessoal que não cabe a ninguém comentar, não é mesmo? Fica então apenas a minha torcida para que tenha sido o melhor para vc...!
Vc mecionou que, junto com essa despedida, tuas amigas comemoraram o teu aniversário... Desculpe-me se o tiver deixado passar sem me manifestar, mas minha memória o registrou como sendo em 24/04... Será que ela me traiu desta vez?
Bjs e boa sorte na nova fase!
GK

 
Creative Commons License
Vogais Vazias by Josiana Rezzardi is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License.
Header Image by Colorpiano Illustration