sexta-feira, 22 de abril de 2011

Capuccino.

Tomei um capuccino hoje cedo e agora estou passando mal porque tenho intolerância à lactose. Mas ele estava tão bonito com sua espuminha branca e fumaça aromática, tão quentinho, tão deliciosamente envolvente e fumegante, que não resisti. Algumas coisas têm esse poder sobre mim. Essa força de me fazer amar mesmo quando só me trazem mal estar e enjoo. O capuccino é como você. Você me faz mais mal do que bem e eu continuo querendo ambas as coisas. Querendo passar mal todos os dias se for preciso, só para poder sentir um pouco do seu gosto. Barganhando seu bem e aceitando seu mal como moeda de troca. Deve ser errado agir e querer assim porque, hoje em dia, o mundo toma amor por erro. Então, deve ser errado amar assim. E eu teimo em gostar do erro e do que me faz mal. De você e do capuccino. Teimo em amar e fingir que o amor não existe. E sei que você não sabe disso que me consome; é tão inocente quanto o leite do capuccino.
Amanhã vou estar com uma puta dor de cabeça de tanto misturar lágrimas, Heineken e Rivotril no mesmo liquidificador. A receita passou do ponto, assou demais, queimou por fora e por dentro continuou crua como nós dois. Torrando em nossos desejos, tostando em abraços envolventes e carinhos aleatórios, esquentando com apertos bruscos e outros delicados. Aquecendo em sorrisos e papos que outros não têm. Mas e lá dentro? Dentro de você e dentro de mim. Tudo cru, como um bolo que não se adaptou ao forno. Preto queimado no exterior revestindo uma massa ainda mole e insatisfeita lá no meio. Porque o seu sentimento não assa, não cresce, não tem jeito de deixar de ser cru. É indigesto, é impossível. E o meu, sempre pré-aquecido, esperando pela oportunidade de girar o botão do fogão e aumentar o calor do fogo. Para ficar pronta, com todos os furinhos que uma nega maluca fofinha tem; os furinhos do amor, da saudade, de fechar os olhos e ter alguém para imaginar. Esperando para amar de uma vez por todas, como sei que posso se for você. Sempre à espera de um sinal de avanço, de que posso me deixar esquentar por inteira e não apenas uma parte ou duas. De que posso te amar e te querer porque você vai deixar de ser cru e me amar também, um pouquinho só.
Eu queria te pedir amor, mas isso é coisa que não se faz. Você não quis me amar e amor não se pede nem se aprende. Não é como bicicleta que, depois dos primeiros tombos, não se esquece jamais. Amor não se bebe, apesar de deixar a gente bebericando as coisas erradas por aí; tequila, whisky, capuccino. Amor não se engole, não se acostuma, não se cria. Se ele existir, vem com seus bônus, adendos e parênteses; senão, vira um eterno amor entre aspas. Copiado, desonesto, falsificado. Amor é assim e não dá nem para mandar enfiar no cu porque é desrespeito. Não com o cara, mas com o amor. Amor é como o capuccino: é gostoso, aquece o coração, preenche os dias, mas pode não cair bem. Pode maltratar e adoecer. E vem refluxo e não salva nada. Amor também é fumegante e irresistível, só que não está estampado no cardápio da confeitaria. Não vem servido em xícaras de porcelana, nem tem pacotinhos minúsculos de açúcar e adoçante no pires. No fim, é sempre igual. Sempre cru. Sempre mal. Sempre enjoos e esperas. Vai-se o capuccino, fica a má digestão. Vai-se o amor, ficam as feridas e a saudade. As aspas abertas para sempre.

6 comentários:

Gugu Keller disse...

Fez-me pensar em Cazuza e seu maravilhoso "veneno antimonotnoia".
GK

Marinha disse...

Forte e agudamente profundo!!!
Me fazes enfiar a cabeça nos pensamentos, Josiana! Mas terei que discordar do "sempre" que usas com a ênfase dos que ou não mais acreditam ou acreditam que já sabem o caminho e o enredo. A vida nos supreende, querida. Felizmente é assim.
" Vai-se o capuccino, fica a má digestão. Vai-se o amor, ficam as feridas e a saudade. As aspas abertas para sempre." Mas é inegável a poesia em teus escritos, mesmo quando dizes que gostaria de mandar enfiar no cú e ...
Inegável teu talento, menina! Ele sim (o talento) estará SEMPRE contigo.
Bjo e paz.

Elaine Freitas disse...

Ahhh que saudade!
Você sumiu lá do Iluminar...

Lindo seu cantinho, a cada dia mais belo!

Beijinhos

Daniel disse...

A mesma sensação que você tem com seu capuccino eu tive durante muitos anos com o cigarro.

Sentia um prazer enorme, principalmente quando a combinação era com copos e copos de cerveja em mesa de bar, discutindo música e política.

Mas, de repente, tomei uma decisão e parei de fumar. Hoje não me arrependo, mas faz sentir melhor.

Obrigado pela visita em meu blog. Daniel

Tânia Brasil disse...

meee como eu adoro esse seu blog
e todo teu talento!
vc sabe disso né!
e nem precisa falar gostei d td rs!
+ a parte do não da nem pra mandar enfiar no cu q é falta de respeito hsahushahushhashha...
bjooo

Gugu Keller disse...

Corrigindo-me, "veneno antimonotonia"!
GK

 
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