sexta-feira, 8 de abril de 2011

Das coisas que eu preciso.

Eu só preciso de um abraço. Você não sabe como é ter um fichário inteiro de coisas faltando e só querer um abraço. Você não tem ideia da sensação de falta que faz não ter seus braços envolvendo meu corpo. Do sentimento de perda de abraçar o ar tentando agarrar qualquer partícula de amor. Você não conhece a tristeza de não te ter em uma noite tão fria que casacos não esquentam. Você não sabe, mas é tudo o que eu sei. Essa saudade que mais parece uma música desafinada que ainda guarda um pouquinho de beleza. Essa horas nuas e incompletas, girando na roda gigante da vida sem parar para pedir novos bilhetes de entrada. Sem que eu possa descer. O tempo todo girando e girando e rodando até a cabeça urrar e cair em sono profundo, para depois acordar e continuar girando sem chegar a lugar algum.
Eu só preciso de um abraço. É como a lista de presentes de aniversário. Sempre há o item número um. Todo o resto pode ser ignorado, mas o número um a gente precisa ganhar ou tudo fica sem sentido. Meu número um é um abraço seu, mas não aguento esperar até que um sopro apague as velas do bolo e me traga você. Eu preciso agora e, se não for agora, não poderá mais ser. Porque também preciso me curar dessa necessidade que vem como passos silenciosos de visita indesejada. Batida ecoando na porta de madeira e semblante aparecendo no olho mágico. As feições tristes da saudade extrema. Preciso reabilitar meus dedos e deixar que eles aprendam a viver sem sentir a temperatura das suas costas por baixo da camiseta. Pular da velhice de já te conhecer tão bem e das suas impressões digitais para a infância do zero. Aprender tudo de novo, de outra maneira que ainda não conheço e que não pode ser medida com réguas e compassos.
Eu só preciso de um abraço. Sem fraquejos, sem insegurança, sem pudor. Tremendo um pouco, avançar um passo e me jogar em seus braços. Esconder o rosto em seu ombro para disfarçar a timidez. E ficar ali para sempre, mesmo que o nosso para sempre dure tão pouco. Não quero o abraço dos caras que se encontram em frente ao banco ou depois de tomar um café na praça. Não serve o abraço dos camaradas, com direito a três tapinhas nas costas. Muito menos o abraço da mulher que aproveita para ver as pontas duplas da outra. Eu quero o abraço do meu peito com o seu peito, da sua nuca colada na minha boca, de ficar na ponta dos pés para te alcançar e da sua barba enrolando alguns fios do meu cabelo. Da sua correntinha gelada batendo no meu pescoço. Preciso de um abraço mas, por ironia da vida, tem que ser o único que sei que não posso ganhar.
Eu preciso de um abraço porque você não me avisou que aquela era a última vez dos seus olhos nos meus e agora o que restou é só o ronco da fome que a saudade dá. O silêncio guilhotina o amor e eu já estou vestindo o capuz fechado e claustrofóbico do medo e da ausência. Dá para sentir o carrasco chegando, o fedor das axilas e da vontade de acabar com tudo que ainda sinto e que me move. Preciso de um abraço para evitar essa matança de mim mesma, essa chacina que acaba sempre com portas fechadas para amargar a dor. Para salvar minha capacidade de erguer a cabeça e continuar tentando, ainda que sem arriscar. Preciso querer mais do que isso e não consigo. Não dá. Não quero me perder de você, mas também não sinto mais que posso te encontrar. Já nem escrever consigo porque todos os textos só começam e nunca terminam. Eu não sei pôr fim na nossa história, nem na vontade de correr até alcançar seu colo e, agora, nem mesmo nos textos que falam sobre você. Preciso conhecer um fim. Qualquer um. Já não peço mais um final feliz. Apenas um final e um abraço.
Não vou manipular verdades só porque a vida real não basta. Não dá para viver imaginando que estou te abraçando, mas também não dá para tentar outras companhias quando só a sua serviria. Não vou me afogar na felicidade de outras pessoas. Eu quero a minha, ainda que ela leve anos para chegar. Eu prefiro que seja assim, que seja de qualquer maneira, que seja. Simplesmente, seja. A vida fica me dizendo para ficar e nunca me deixa ir, mas você já me deixou há tempo demais para que eu não perceba a diferença. Porque é assim que o amor funciona. Você ama um pouquinho e as pessoas não enxergam. Você ama demais, elas cortam o mal pela raiz. Eu entendo que tenha sido mais fácil podar qualquer plantinha verde entre nós, mas eu sinto tanto carinho por você que não posso aceitar que tudo termine em galhos secos. Ainda que você não mate minha saudade, também não mate essa coisa bonita que traz sua imagem no meu peito e nas fotos do meu celular.
Eu só preciso de algumas coisas e de tudo que preciso, você é o primeiro lugar. Preciso não acordar querendo vomitar minha vida no vaso sanitário e apertar a descarga bem forte. Conseguir dormir um sono de mais de trinta horas para esquecer. Jogar fora as ofertas de falsas alegrias que vêm em baldes mas são insuficientes para fazer os olhos brilharem. Não quero saber da influência dos climas na zootecnia quando o único clima que me influencia é o seu. Eu preciso parar de te querer com tanto afinco porque a gente sempre quer muito e parece que, quanto mais quer, menos tem e menos pode. Eu preciso que o seu silêncio termine, porque ele é a coisa mais triste da minha vida. Preciso parar de correr para ver se o computador esqueceu de fazer barulho quando você me chamou, porque nunca é isso. O silêncio é só mesmo o silêncio. Preciso aprender que, por mais velho que seja meu notebook, ele ainda não adquiriu o mal de Alzheimer. Preciso que você diga uma palavra, qualquer uma. E que me abrace mais uma vez. É tudo que eu preciso.

6 comentários:

Gugu Keller disse...

O abraço é aquilo que, tanto no plano concreto quanto no abstrato, mais aproxima dois corações.
GK

Anônimo disse...

Que bosta de texto hein... já inventaram o ESTADÃO!

Marinha disse...

Descreves lindamente até mesmo a dor da falta de um abraço!
Bjo, querida.

Guilherme Navarro disse...

A parte de manipular verdades meio que me serviu à caparuça.

Enfim, mais um belo espécime. Estou sempre por aqui, apesar do silêncio.

Abração

Carol Eckert disse...

A saudade compõem as mais lindas e tristes sinfonias de amar, não é eterno, mas dói como se fosse.


Se cuide, beijos.

Josiana Rezzardi disse...

Exatamente, Carol. Não é eterno, mas dói como se fosse. Palavras perfeitas.

Obrigada à todos!

 
Creative Commons License
Vogais Vazias by Josiana Rezzardi is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License.
Header Image by Colorpiano Illustration