quarta-feira, 27 de abril de 2011

Dois patinhos na lagoa.

Apaguem as velas, por favor. Nada de bolo este ano. Nada de soprar para o mundo a podridão que mora em mim. É melhor deixar o bicho de vinte e duas cabeças dormindo em seu lugar cativo, meu coração. Deixem as velas para lá; não faz mais sentido. É luz demais para o que não é claro, calor demais para o que é gelo, números demais para quem não gosta de matemática. Vinte e dois. Esqueçam o bolo. Cortar o primeiro pedaço já não faz sentido também. Não há ninguém esperando para recebê-lo. Ninguém que queira ser feliz com um pratinho descartável e uma fatia doce. A minha fatia doce, o pedaço de mim que iria junto com aquele primeiro corte grosseiro na cobertura de brigadeiro. Meu amor, pronto para a garfada de alguém. Aquela fatia minha que estraga e azeda o que poderia ser lindo. Eu já cortei primeiros e últimos pedaços de mim incontáveis vezes e tudo que vi foram desilusões e flocos meus indo parar nos lixeiros mais próximos. Portanto, joguem fora bolo, espátula, vela. Joguem fora tudo, porque eu já me joguei há muito tempo.
Hoje, aos 22, recordo coisas que pareciam esquecidas; coisas gravadas em discos antigos da minha memória e que agora fazem ruídos na vitrola da vida. Lembro de usar um vestido xadrez na festa de seis ou sete anos, com uma janela enorme no lugar dos dentes da frente, mas ainda sorrindo. Lembro de vender flores com convicção, convencendo cada comprador de que aquela era uma flor especial para alguém especial. Lembro dos cartões e cartas que escrevia quando era mais nova, colocando minha alma nas letras e dando de presente a qualquer um que instigasse meu amor. Lembro da confiança que sentia por qualquer um que segurasse minha mão e me pergunto como fui tola por tanto tempo. Lembro da quitinete bagunçada onde morei sozinha aos dezenove e do apartamento ainda bagunçado para o qual mudei aos vinte, só para perceber que não sou uma pessoa organizada. Lembro dos telefonemas não atendidos, porque não estava afim de conversar. Distâncias que construí sozinha e que depois não consegui transpor. Lembro de quando fui ajudar a colher pitangas para o trabalho de conclusão de curso de uma amiga. Lembro de esmagar as pitangas e tirar seus caroços e, mais tarde, de perder essa amizade como já perdi tantas outras. No meio da minha amargura, é o que eu faço. Perco amigos e pedaços de mim. Perco para o lado escuro do xadrez, que engole tudo que se aproxima. Vivo entre perdas e ganhos que nunca aparecem.
Este ano eu não quero comemorar, mas estou aqui tomando cerveja com o próximo cara que vou perder. O próximo que vai perceber a bagunça que é minha cabeça e sair correndo. Porque é assim que funciona há 22 anos. As pessoas sempre partem; há sempre alguém indo embora. E, enquanto ele não vai, estamos brindando. A quê? A uma vida vazia e estupidamente cheia de sorrisos burocráticos e feições quase políticas. Brindando amores que não deram certo, desmoronamentos e uma vida desconstruída. Brindamos a alegria, mas onde ela está não sei. Brindamos pelo futuro, mas ele não tem partículas brilhantes, apenas mentiras opacas. E vamos bebendo porque, enfim, os dois patinhos na lagoa chegaram. Bingo. Uau. Eu sou jovem, penso. A jovem mais velha que conheço. Uma jovem ferrada e destruída como não deveria ser. O ponteiro do relógio só avançou um minuto para que eu mudasse de idade, mas o peso está sobre meus ombros como dois prédios de vinte e dois andares. É a isso que estamos brindando? Às rugas que não aparecem no rosto, mas que estão largas como fissuras na alma? Aos meus 44 anos, 22 em cada lado do corpo?
Cada presente desembrulhado é uma parte exposta. Um brilho nos olhos a mais em agradecimento, chorando por dentro a falta de tudo. Porque o que eu preciso não vem em pacotes bonitos e cheios de laçarotes. O que eu realmente preciso, sei que não há chance de ganhar. Eu preciso do meu próprio perdão. Da minha força. De querer me querer por mais algum tempo. E abro um sorriso a mais, um extra sem pagamento, só para enganar a eles e a mim e deixar o mundo confuso com minha blindagem complexa. Brindo, bingo, venci por mais uma noite. Qual é o prêmio por saber deixar os esqueletos guardados no armário? Um urso de pelúcia, um ioiô, um baralho incompleto. Não importa. Porque no fim da noite, depois de pacotes e mais pacotes de mentiras esfoladas, há só o cárcere triste e fatigado do meu coração. Como eu dizia, nada disso faz sentido. Nem bolo, nem velas, nem brinde ou abraço. São vinte e dois anos. Vinte e dois motivos para continuar minha estrada sozinha, não querendo, não amando, não vivendo plenamente. Seguindo sempre segura entre meus muros. É uma virada de ano que me deixa mais velha e mais arisca. Menos acessível, menos suscetível. Que escurece um pouco mais a imagem que tenho do mundo colada nas retinas.
Dois, dois. Vinte e dois. Quarenta e quatro. Solte minha mão, já não importa mais. Depois daqui não há mais nada; só cama, travesseiro e solidão. Um aniversário não muda isso. Não muda nada. Entre um final feliz e um realista, opto sempre pelo realista. Porque, sejamos francos, não sei mesmo escrever finais felizes. Não sei nem mesmo vivê-los. E não pretendo aprender só porque hoje estou com vinte e dois anos na cara e vinte e dois sacos de pancada nas costas. Eu sou muito mais velha do que aparento. Conte minha idade pelos murros que já levei. Depois, quem sabe, a gente consiga conversar, de velho para velho.

3 comentários:

Gugu Keller disse...

Tua capacidade em transformar a dor em textos absolutamente extasiantes é tamanha que começo a cogitar que toda essa tristeza tenha afinal um propósito divino, superior, que é o de te fazer deixar uma obra decerto haverá de revolucionar toda a literatura existencialista mundial...!
GK

Fernando Imaregna disse...

Oi Josiana...

Não esqueci de ti não menina...
Sempre passo para uma leitura, mas andei cansado demais para "formar" palavras suficientes e comentar...

Até pq, agora, o Gugu já ratificou aquilo que sempre senti...

Se a postagem refere-se ao teu completar de mais uma primavera, Parabéns Taurina...dia 27 dois dos meus maiores e melhores amigos também aniversariam...

Humpft...
Um beijo carinhoso ! Deus te abençoe

Gugu Keller disse...

Querida Josi...
Que bom que gostou! É exatamente o que penso! A propósito, uma pequena correção... Como vc já deve ter notado, faltou a palavra "que" entre "obra" e "decerto", ok? "... uma obra QUE decerto haverá de revolucionar toda a literatura existencialista mundial...!" E eu, mesmo 24 anos mais velho do que vc, hei de estar vivo para ver e aplaudir!
Bjs!
GK

 
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