quarta-feira, 13 de abril de 2011

Escuridão.

Queimou a lâmpada do quarto e eu estou no escuro há três dias. Chega esse horário meio termo - quando as réstias de luz vão sumindo e pintando o céu de laranja ou cor-de-rosa - e eu começo a forçar a vista em frente ao computador até formar ruguinhas. Depois fica tudo escuro lá fora e tudo escuro aqui dentro, igualzinho ao meu coração. Tenho preguiça de ir ao mercado só para comprar uma lâmpada. Preguiça de consertar uma coisa tão pequena, um escuro com o qual posso sobreviver muito bem. Aquele que me cega, que me faz tatear à procura de barreiras sólidas, não pode ser arrumado. Não dá para chegar no mercadinho e pedir uma lâmpada com voltagem que se adapte ao meu corpo ou que eu possa rosquear direto no centro da alma. Para essa escuridão não há mais saída, está incrustada nas camadas mais profundas do meu eu sem castiçal. Então deixo que o quarto faça companhia ao que antes era sozinho. Duas escuridões em uma só vida.
A situação piorou quando meus óculos quebraram. A lente direita partiu ao meio com uma fragilidade admirável. Além de espremer os olhos na direção da tela luminosa do notebook, ainda preciso chegar bem perto para enxergar alguma coisa. E o colírio, pelos meus cálculos, dura só mais dois dias. Eu poderia fazer outras coisas, mas as outras coisas da minha vida se resumem a tudo que exige olhos bem abertos. Livros e páginas de Word. Filmes legendados. Letras pequenas de livros puídos da biblioteca da faculdade. Sou uma nerd que gosta de se vestir bem, mas me vestir bem não vai ajudar a enxergar melhor. Neste caso, deixo que os olhos sofram e que os óculos continuem quebrados como minha vida. Separados em dois, direito e esquerdo, com um puta desvio onde deveria estar o encaixe. Eu também não tenho encaixe. Está faltando uma peça no jogo, mas alguém escondeu e não quer contar onde. Ou é defeito de fabricação. Então continuo quebrada, dividida em duas, direita e esquerda, tentando juntar meus pedaços da melhor maneira possível. Não tem surtido efeito.
No escuro do quarto ainda dá para enxergar você e o buraco que você deixou quando foi embora. O edredom com símbolos japoneses continua quentinho e só é frio se eu me mexer mais para o lado, mas o peso do seu corpo ficou marcado no colchão. Sua cabeça afundou no travesseiro e, por mais que eu o afofe, continua ali. Visível. Acusadora. No escuro a voz rouca de Tom Waits ganha outra amplitude. "I hope that I don't fall in love with you", diz ele em meus fones e eu abraço o travesseiro com mais força para suprir essa saudade que surge como uma luz intensa quando as pupilas já estão acostumadas com a escuridão. Eu posso fazer mil coisas para não chorar e tentar não pensar em você. Posso levantar ouvindo o estralo do meu joelho esquerdo. Apertar o interruptor só para lembrar que a lâmpada queimou. Abrir a porta do quarto como uma ninja descoordenada tentando não fazer barulho. Andar pela casa, com a camisola curta e as meias grossas para pés gelados, esfregando as pálpebras com as costas das mãos. Posso ir ao banheiro e fazer o terceiro xixi da madrugada, porque minha bexiga parece achar que sou uma eterna grávida. Voltar para a cama com o rosto inchado, passos vagarosos até dar com o dedinho do pé na quina da cama e saltitar de dor, sussurrando um "puta merda" irado. Tomar um gole de água direto do gargalo da garrafinha de plástico que fica no bidê ao lado da cama. Olhar para o livro niilista e pensar em ler mais um pouquinho, mas lembrar que já são quatro e pouco da manhã e que, por mais notívaga que eu seja, preciso acordar cedo amanhã. Posso deitar, puxar o edredom até cobrir as orelhas e ouvir que Tom Waits agora canta "The heart of saturday night". Posso fazer mil coisas que levam menos de cinco minutos, mas quando descanso a cabeça no travesseiro e sinto o peso que ela ganhou nos últimos anos, é em você que penso e é por você que as lágrimas vêm. Na escuridão, quando ninguém mais vê. Ninguém além do lugar vazio que era seu. Fecho os olhos, então, com a força que sei que nem tenho mais, só para tentar dormir e deixar que você suma ou que apareça em um sonho. Que apareça de frente, lindo como sempre, e não indo embora.
A escuridão não me oprime. Eu acho bonito abrir os olhos e enxergar tudo tão negro que posso imaginar que você está ali, mas não pode ser visto. Não tenho medo, embora sempre idealize um palhaço assassino me espreitando pela fresta da janela. Não é por medo que não durmo. Não é por medo que meus olhos não descansam, nem por teimosia ou por amar olheiras. É pela falta de você, por seu corpo marcado aqui tão perto e agora tão distante, pela lembrança que corrói como ácido. É essa saudade que mata a qualquer hora. A escuridão não importa. O dia claro machuca muito mais. A lâmpada queimou porque não aguentou minha própria escuridão entrando e saindo do quarto a todo momento, deixando o ar pesado e a agonia reinando. Mas eu decidi que o quarto só terá luz quando eu também tiver. Só quando eu puder chegar sorrindo no mercado para comprar uma lâmpada para o teto porque já tenho uma na alma e no coração. Só aí, então, vou deixar que a escuridão me abandone. Exatamente como você fez.

5 comentários:

Gugu Keller disse...

Mas, definitivamente, prefiramos a escuridão à claridade ilusória!
GK

Equilibrista disse...

as vezes eu me espanto com a sua capacidade de pegar um simples fato do dia a dia e transformar em algo além do que podemos alcançar.
é uma dorzinha que chega a ser tão bonita.

beijo.
te leio sempre.

Francielle disse...

o pior é ter que finjir que está tudo bem e ter que sorrir pra todos pra aparentar que é cheio de luz por dentro, mas na verdade o coração está um breu. e dar um sorriso só de aparência doi tanto.

Josiana Rezzardi disse...

Eu sei que dói, Francielle. E acredite, fingir é o que eu faço melhor.

Érico Cordeiro disse...

Oi, Josiana
Cheguei por acaso aqui e virei aqui outras vezes. Sua casa virtual é muito aconchegante.
Seu texto é elegante, sem ser frio ou hermético. O abandono é irremediável - pena que muita gente não se dê conta disso...
E se você curte música, sobretudo jazz, te convido a visitar o Jazz + Bossa:
www.ericocordeiro.blogspot.com
Já me adicionei como seguidor, ok?
Um ótimo domingo prá você e seus leitores!

 
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