sexta-feira, 1 de abril de 2011

A esfinge que finge.

Do canto da sala até a porta do meu quarto há um caminho de setecentos anos e mais de trinta quilômetros. É tudo devagar e doloroso e eu finjo que não pareço levar oito horas para caminhar nove ou dez passos. Finjo uma vida inteira que não existe e o andar firme no tal caminho. A rua lá em cima também demora. É comprida demais e tem vizinhos demais. Finjo acenos e sorrisinhos distraídos porque eles acreditam na modernidade da minha bolsa de franjas e tachas sacudindo loucamente e nos óculos grandes de gente fina que não quer ser incomodada. Eles ignoram as olheiras que estão por baixo das lentes escuras e eu finjo que elas não existem, pelo menos até chegar à porta do quarto e abrir a janela dos fundos que ninguém vê. Finjo simpatia e dentes brancos e tudo que recebo com isso é gente perguntando se fiz clareamento. Não, eles são meus mesmo e são assim. O resto eu finjo porque de clarinho em mim só mesmo os dentes.Lá na rua já tem folhas de outono caindo pelo chão e montes de pedaços meus desprendidos e voando por todos os lados. Tentando ir embora para fugir de tanto fingimento. Eles querem voltar para onde os ares são tão mais frios que refrescam a mente. Sinto uma alegriazinha quando esmago uma folha seca com o pé. “Cretch”, ela faz. E estilhaça e não finge mais sua vida ressecada porque acabou. Não há mais vida, nem motivo para mentir que é legal ficar rolando pelo asfalto. Sem querer eu ajudei alguém a não precisar mais ser como eu. Então, finjo que não ouço o “cretch” que faz meu peito estilhaçado. Alguém pisou com força e a minha vida ressecada insiste em continuar ali, rolando e doendo e ferindo e me obrigando a fingir. E finjo que os calombos nas minhas costas não são nada demais, porque posso aguentar o peso. Ou, ao menos, finjo que posso.Na sala de casa toca uma música alegre. Tem cerveja, a mulherada rindo e arguile com essência de menta (que faz mais mal que cigarro, mas fazemos de conta que não). Finjo que o ambiente me contagia, mas o único contágio é o de querer desaparecer para sempre. Invejo o esqueletinho do morcego lá nas pedrinhas do quintal. Sento no sofá e finjo a felicidade das músicas, dos sorrisos alheios e das propagandas de verão rolando na TV. A felicidade que as pessoas criam e que eu não tenho capacidade de tornar real. Depois vem mais um bloco da novela que ninguém acompanha e eu continuo fingindo que acho graça, quando na verdade tudo é mais insosso que chuchu sem sal. Fumo até a menta gelar língua, faringe e nariz só para fingir que algo me preenche, nem que seja fumaça. Solto as ondas brancas e prejudiciais à saúde pelo ar e tudo sai de mim porque nada me pertence além do nada, do vazio abrangente de ser sozinho. Mas eu sempre finjo e, por alguns instantes, fico cheia de algo mais. Dessa coisa minúscula de não lembrar do tilintar dos dados o tempo todo no tabuleiro da minha cabeça.Finjo até minha alma dizer chega e depois finjo um pouco mais para mandar que ela cale a boca. Quando não posso mais adiar, saio pela tangente e fecho a porta do quarto, que é onde não preciso mais fingir. Não olho no espelho porque ele esfrega uma realidade insuportável nos meus olhos fundos de abandono. Agarro o travesseiro e choro tudo o que fingi não chorar durante o dia. As aparências e a imagem errada que todos aprenderam sobre mim. E, de repente, não finjo mais nada e soluço e deixo a fraqueza tomar conta do que se mostra sempre forte como um búfalo. Choro porque sou como uma pilha imensa de papel. Pesada, alta e resistente, até que o vento espalhe tudo, folha por folha, pelos quatro cantos do mundo que nem cantos realmente tem. Choro porque finjo que não dói e depois sobra toda a dor para sentir em dobro. E porque finjo amar e depois não amar mais, como se fosse possível abrir mão do próprio coração. Eu não me importo, digo. E finjo. Finjo a verdade da minha mentira. Choro até drenar a consequência de tanto fingimento. Depois disso, estou pronta para fingir novamente e começo dizendo à minha alma que está tudo bem, que ela já pode soltar a respiração. E quando ela obedece e inspira, aquela flecha volta a acertar bem no centro entre meus seios e me obriga a trancar novamente o fluxo de ar porque a dor é extraordinária.Não há nada de excepcional na arte de fingir. Depois de aprendido, é um processo quase mecânico. Maquiar, sorrir, impor felicidade imaginária, desfalcar o estoque de paciência. Finjo que as conversas me interessam, que a bebida está boa e que o assunto é interessante, mas continuo pensando em minhas próprias saudades e feridas enquanto alguém conta um caso para o qual não dou a mínima. O importante é não esquecer de piscar e esboçar um sorriso de tempo em tempo. Fingir bem é como ser uma boa atriz. É um emprego de 24 horas diárias com contrato para o resto da vida, incluindo anos bissextos. É encenar um papel com afinco para evitar a própria destruição.Quando canso de fingir, a coisa desanda como se eu fosse uma geleia mal feita. Quero que o mundo exploda para que eu possa sofrer em paz e que as pessoas sumam para que só fique o silêncio assoviando sua melodia triste. Quero abraçar Pandora e Catatau e lembrar que eles são os únicos que me aceitam assim, sem questionar. Quero parar de fingir que não sinto nada e que o gelo não está derretendo. Quero gritar que não sou a esfinge que finge e que odeio rimas como esta. Mas não posso parar. Não sei parar de dizer que está tudo bem. Finjo porque tenho medo. Medo das coisas banais e medo das coisas profundas. Medo de sentir e mais ainda de querer sentir qualquer centelha de algo feliz. Medo de entregar os pequenos blocos que ainda restam de mim e assistir ao desmoronamento do pouco que ainda era sólido. Tenho medo de perder minhas bases, tenho medo do barulho e tenho medo do silêncio. Eu quero a música, mas não aquela que toca alegre na sala; quero a música do meu celular que tem função de mp3. Tenho medo de dormir porque sei que tenho que acordar e acordar é sempre uma dor a mais no extrato bancário do meu coração. Tenho medo de andar por aí e tropeçar em meus próprios fragmentos. De chutá-los mais do que já foram chutados, como bolas de meia nos pés de moleques fanfarrões. Tenho medo de envelhecer, porque aos 21 já me sinto tão velha quanto a tataravó que não conheci; coração murcho e peitos caídos. Tenho medo de chegar em casa, medo da sala cheia e do quarto vazio. Medo do desespero que me bebe e me aniquila em ambos, como se eu fosse uma garrafa de tequila. Tenho medo de pensar, mas pensar é tudo o que sei fazer. Tenho medo de olhar nos olhos de alguém e enxergar um pouco de mim. Da mediocridade. Da falta de. De tudo. Tenho medo.Então continuo fingindo. Aprendi a fingir até mesmo brilho nos olhos. Finjo que acredito quando alguém me chama de gostosa ou quando recebo um elogio. Finjo que me entrego e que vivo plenamente. Finjo que não ligo para a mensagem que aquele cara mandou no meu celular, mesmo tendo sido aquele barulhinho a melhor coisa da semana. Finjo que a festa está boa e que não quero sair correndo do meio daquele mundaréu de gente. Finjo que gosto de ficar. Finjo que ir não dói. Finjo que ainda tenho alguma noção de violão e que sou uma boa aluna, ainda que não entenda uma vírgula de genética. Finjo que o mundo é meu parceiro e que brindo com ele essa coisa que todos chamam de vida e que eu chamo de merda porque, segundo Fabrício Carpinejar, “quem usa bosta em vez de merda é muito reprimido”. Finjo porque sei que só assim não afundo. É dessa maneira que me resguardo, que me protejo e que me isolo. Dando tapas nos dedos de quem tenta futucar meu mistério. É sendo atriz da minha história que afasto os fantasmas e sobrevivo à loucura, ainda que seja só flutuando como a nata de um leite quente. Eu não brilho nos cinemas, mas interpreto muito bem meu papel de falsa feliz. Se Hollywood descobrisse minha farsa, seria tapete vermelho e Oscar na certa. Porque não há nada tão difícil quanto despir-se totalmente e vestir corpo e alma de um personagem só para conseguir lutar um pouco mais a batalha interminável que se estende logo ali adiante, na rua onde a vida segue e as folhas secas voam.

3 comentários:

Gugu Keller disse...

Como podes, minha amiga, sendo jovem como és, escrever nesse nível? Mesmo sem ser espiritualista começo a cogitar que Augusto dos Anjos reencarnou numa menina em Pato Branco... Onde é que isso vai parar?!? Simplesmente impressionante!!! Eu, que gosto de escrever, venho aqui e chego a pensar em The Cure... WHY CAN´T I BE YOU???
GK

Anônimo disse...

Parabéns, vc eh uma estrelaa. Adorei!

Marinha disse...

MARAVILHOSO!!! Fiquei sem fôlego, querida! Lindo post! Conteúdo, forma, construção impecáveis! Amei!!!
Bjo e sorrisos pra ti, Josiana.

 
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