quinta-feira, 7 de abril de 2011

O assassinato do José.

Eu matei o José. Não foi premeditado, senhor, juro, mas quando dei por mim já não havia volta. O trevo da estrada já passara. José estava morto, vazio por dentro e por fora. Olhos vidrados, boca aberta em uma última palavra que não terminou de ser dita. Não sei por que estou admitindo algo que pode me levar ao canto de uma cela suja, a um catre fedorento ou ao olhar de espanto e pena que as pessoas dedicam aos assassinos. Não posso nem mesmo alegar legítima defesa no tribunal, já que José não me atacou. Não chegou com uma pedra na mão e querendo tacá-la na minha cabeça. Não tinha bomba de gás lacrimogêneo na mochila, nem pedaço de pau ou de vidro de garrafa quebrada. Arma de fogo então, nem pensar; ele era correto demais até para comprar uma de plástico quando foi fantasiado de ladrão em uma festa à fantasia. Não tentou colocar veneno na minha bebida ou me asfixiar com suas mãos muito mais poderosas do que as minhas de unhas roídas. Aliás, José sequer encostou em mim a noite inteira. Não passou a mão na minha perna, nem relou os dedos deliberadamente em meu joelho. Foi um perfeito cavalheiro e mesmo assim o matei.
Talvez eu deva explicar melhor. Minha vida anda meio conturbada. É um caos interno que já não dou conta sozinha. Essa dor no peito o tempo todo, inflamando um bocado de sentimentos. A cada passo que dou, ela dá uma pontadinha para lembrar que está ali. Com isso, a tristeza foi inflacionando. Não dá mais vontade de sair de casa, porque o quentinho da cama é muito mais seguro e confortável. Eu me enfio embaixo da coberta e fico ruminando minhas decepções e melancolias. Quando preciso abrir a porta e enfrentar o sol, é sempre com um sorriso tão bucólico e automático que ainda me surpreende que as pessoas acreditem. Olha só como eu sou feliz, sol. Olha só como tudo está nos trinques e como o suco de acerola aguado do bar ali da esquina é gostoso. Sempre irônica, ouvindo e nunca respondendo. Aceitando os golpes do jeito que vierem e de quem vierem, simplesmente porque não tenho mais ânimo algum de lutar. O que são alguns dentes quebrados e um pouquinho de sangue escorrendo de um corte? Quem sabe em um desses socos da vida eu acabo acordando e injetando garra para afrontar os pesadelos.
Mas o fato é que José se mostrou um bom amigo e quis quebrar meu silêncio doentio. Por muito tempo ele insistiu que eu deveria tirar a mordaça imaginária da boca e falar alguma coisa, nem que fossem uns palavrões. Segundo ele, nem todas as pessoas são ruins e algumas merecem saber um pouco mais sobre mim. Nunca dei muito crédito às palavras de José - porque difícil mesmo é encontrar as tais pessoas boas -, mas ontem à noite elas infectaram meu raciocínio. De repente, tudo que eu precisava era gritar bem alto que estou me lixando para o que os outros pensam. Quem sabe até mostrar o dedo do meio e sair rindo. Queria soltar alguns dos monstros trancafiados em mim, dizer que o suco de acerola do bar da esquina é uma bosta, deixar que alguém me visse chorar e depois tocasse em meu ombro e dissesse que tudo ficaria bem, mesmo sendo mentira. Então liguei para o José e fomos para o pub. Sentamos em uma das mesinhas com sofá e minha expectativa foi aumentando. Porra, pela primeira vez alguém ia entender um pouco do meu silêncio. Fui me soltando devagar e lá pelas tantas estava em prantos. José sorria calmamente, porque sabia que eu precisava disso. Sempre precisei. E ouvia. Ouvia tudo e não interrompia frase alguma, por mais idiota que fosse.
Foi na noite passada que eu matei o José. O senhor pode dar uma olhada no latão de lixo do beco lá atrás do pub. Eu joguei o corpo nele na hora do desespero. Não está nem embrulhado naqueles sacos pretos, não deu tempo. Pelos vários filmes policiais que já assisti, acho que é nesse momento que o senhor me algema e diz que devo permanecer calada porque tudo que disser poderá ser usado contra mim no tribunal. Eu não pretendo dificultar sua vida, aqui estão meus punhos. Também não vou pintar um quadro no qual eu seja a vítima. Eu matei mesmo o José e hoje tudo o que sinto é culpa, dor de cabeça e uma ressaca moral absurda. Perdi a dignidade. O senhor continua me perguntando o que aconteceu, mas eu não sei dizer. Deu um curto circuito na cabeça, os fusíveis queimaram, sei lá. Não me lembro dessa parte. Amnésia seletiva. Só sei que eu estava falando e chorando, com a maquiagem já toda borrada e as bochechas vermelhas. Até que me dei conta do que estava fazendo. Estava abrindo meu coração mais uma vez e isso é inaceitável. Prometi a mim mesma, há muito tempo, que ser humano nenhum saberia o que se passa entre meus conflitos de personalidade. José era um amor, mas meteu o bedelho onde não devia. Quis ajudar quem não pode mais ser ajudada. Quando percebi o erro que estava cometendo, abrindo os portões assim, travei a língua e o corpo todo. E matei o José, como já disse. Levei o cadáver ao latão de lixo, sequei o rosto molhado de lágrimas, dei uma sacudida nos cabelos, firmei as pernas e fui embora. Aliás, tomei o rumo de casa com tamanho autocontrole que até me assustei.
Hoje fico pensando: se tive coragem de matar o José, que foi um exemplo de bondade e companheirismo, o que sou capaz de fazer com aquele canalha que mentiu e me deixou trincada para sempre? Ou com aquele que deu o último chute, depois do qual as pecinhas ainda estão tilintando pelo chão? Eu poderia matar todos eles e virar um perigo para as ruas da cidade. Assassina profissional. Uma serial killer, dessas que usam roupa de couro e batom vermelho. Poderia começar apontando uma arma para a cabeça do dono do barzinho e obrigá-lo a fazer sucos melhores. Mas tá aí algo que nunca farei. Prefiro, então, matar outro José; existem tantos pelo mundo! Ao menos eu tive a decência de matar um cara que não fará falta a ninguém. Há inúmeros iguais a ele espalhados em prateleiras de mercado e estantes de bares e festas. O que? O senhor precisa saber o nome completo da vítima? Anota aí: José Cuervo. Quer saber, já nem me arrependo mais. Foi uma troca justa; eu o matei e ele matou um pouco das minhas aflições. Você vai achar a garrafa vazia no local que indiquei. Matei a goladas; não é uma cena de crime muito brutal. Estou pensando em matar o Jack Daniel's na próxima, ou quem sabe o Johnnie Walker. Isso, é claro, se o senhor não me prender. E aí, como é que vai ser?

2 comentários:

Gugu Keller disse...

"... o poço é escuro mas o Egito resplandece no meu umbigo e o sinal que vejo é esse // De um fado certo enquanto espero só comigo e mau comigo no umbigo do deserto" (José)
GK

Tânia Brasil disse...

a Malvadaaaaa...
eu me perguntei por varias vezes pq será q ela o matou??
+ sabe q um desses assacinatos ai eu queria participar rs!!!
na proxima me convida rs!!
tem um josé no fim da vida aqui em casa e nosso objetivo é de acabar com ele quando vc estiver aqui...
+ ele ta meio fraco vai q não resiste então melhor não demorar heim husahshahshahsa...

 
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