terça-feira, 24 de maio de 2011

Absinto.

Eu cheguei já pedindo uma dose de absinto para aguentar aquela festa. Por mim teria saído de pijama, tamanha era a vontade de largar cama e cobertor. O moço perguntou se eu queria vermelho ou preto. Achei que só existia absinto verde, a fadinha e tal. Não, não. Sei lá, vê o vermelho que é mais bonito. Em um copo grande, hein, que eu tô precisando. O cara riu e me deu um copo tamanho família. Acho que enxergou desespero em meus olhos pintados, prontos para pedir socorro, e em minhas pernas trêmulas querendo ir embora dali. Mas, não, pensei, você precisa ficar. Seus amigos estão aqui, isso é bom. Respira fundo, engole esse absinto e sossega em uma dessas cadeiras altas e charmosas. Voltamos, eu e o copo enorme, para junto da bagunça de gente que sabe ser feliz como eu nunca aprendi.
Segui minhas próprias instruções e fiquei no cantinho de uma das mesas redondas, mais parecendo uma garota interiorana saindo pela primeira vez. Acuada, bebericando algo forte e sem saber como agir. Ouvindo casos, rindo deles e pensando longe, alheia a tudo. Um grande amigo faz piadas sobre dancinhas ridículas envolvendo buquês de flores e refrão de "vá de carro que eu vou de motinha". Tento me concentrar nisso para não sair correndo e voltar para minha hibernação. Dou umas risadas porque a companhia é mesmo ótima, mas a armadura está rachada e o peso da dor é ainda maior. Está colado em meus ossos, pele, roupa e cabelo. Na saia que você gostava e chamava de vestido. Em meu peito coberto por um casaco grosso de inverno mas desnudo e congelado por dentro. Mas eu rio em agradecimento ao esforço do meu amigo. Nada faz sentido, mas tudo bem; nada nunca faz sentido mesmo, aqui ou em qualquer outro lugar que não seja ao seu lado.
E, de repente, entre uma piscada e outra, ele. Logo ali, bebendo cerveja com seus amigos. Eu preciso de mais uma dose e vou buscar. O moço capricha de novo. Ele está ali, lindo como sempre foi e distribuindo olhares até me enxergar e desviar o rosto. Lindo demais para mim. Agarro o braço do meu amigo porque sinto que vou cair. Não, não é efeito do absinto. É efeito de algo muito mais forte, que já foi doce e agora é amargo. Ele não entende - nem deveria - mas segura minha mão e me olha com carinho enquanto eu só consigo continuar bebendo em um ritmo alucinado minha bebida cor de sangue e olhando extasiada para aquela barba incrível. Eu bebo em golfadas porque já aprendi que sem beber é tudo mais insuportável. Para com isso, diz o amigo. Mas ele tá aqui. Não interessa, bebe que hoje é dia de ser feliz. Eu tô feliz. Não tá. Tô sim, olha só esse sorriso tongo que eu tô ostentando. Sim, como um dos seus brincos; você tá elegante, não feliz. Ué, não preciso ser deselegante para ser feliz. Não foi isso que eu quis dizer. Eu sei, só tô tentando mudar de assunto e de perspectiva. Não faz isso, comigo você pode ser sincera. Sei lá. Tá, dá aqui um abraço. Quer trocar de lado comigo pra não enxergar mais? Quero, obrigada. Benditos sejam você e esse absinto vermelho. Ai, ai, só você. É, só eu. Só eu...
Só eu e meu masoquismo de botar o despertador para tocar uma hora mais cedo do que o necessário só para poder dormir mais um pouquinho e acordar ouvindo Blues Etílicos. Eu e a mania de querer te dizer que, se beijou de um lado da bochecha, tem que beijar do outro também, então beija logo no meio que é mais fácil. Eu e meu desejo inominável de te abraçar para sempre, de mexer nos seus cabelos ralinhos e na barba farta; de te arrancar a camiseta e moldar a cabeça no seu peito. Torcendo para um dia poder te dizer que você só vale mil reais - que foi o que eu paguei sem saber para te conhecer - mas que eu te amo para mais de milhões. Só eu, segurando o copo para não roer as unhas que estão finalmente crescendo. Fracas como eu, mas crescendo. Eu e o peito gritando que, se for para ser assim, não deve ser. Mas deve porque eu te quero mais do que já quis qualquer outro ou qualquer coisa. Somos só eu e você com esse jeito sexy e patético de me esnobar e me deixar sozinha ouvindo o silêncio até quando a banda cover do Cachorro Grande começa a tocar as mais ouvidas. Como Cachorro Grande já tem cover, não sei. Enquanto penso e ensaio meu teatro mental, sempre em exibição no fundo dos meus olhos - onde você é você perto de mim e não um personagem que está ficando distante da minha história - você passa, cutuca minha cintura e diz aquele oi que me derrete e me destrói. Dá um abraço de leve e eu tento responder com nada além de simpatia, mas o que sai de mim é puro amor em forma de palavras tremidas. Enrijeço as pernas e prendo a língua para prender também esse amor que não pode ser. E que, se depender de você, não vai mesmo ser. Trinco os dentes tentando morder alguma coisa para aguentar sua indiferença e acabo mastigando gelo com gosto de absinto e amor azedado, queimando na garganta. Mastigo com força para ver se acaba de uma vez. Não acaba, nunca acaba. Só o absinto e meu dinheiro acabam. E vem o calorzinho do desejo, as malditas borboletas superestimadas. As minhas são enormes borboletas bruxas, monstrengas e pretas, coçando sem parar.
E você para ali, longe e perto, em um lugar onde eu posso te enxergar de novo, curtindo a banda enquanto eu curto você sem que ninguém perceba. Mostrando minha indiferença calculada e ficando com o copo cada vez mais vazio. Daqui a pouco vai estar vazio como eu. Bebi rápido demais na ânsia teimosa de ter o que fazer além de vidrar em você. No desespero de ter o que segurar nas mãos para parar de esfolá-las uma na outra ou ficar remexendo nervosa na barra da saia. Você não vai falar comigo, vai manter nossa distância de alguns metros. Eu quero ir embora, estou enlouquecendo. Cara, vou embora mesmo. Espera mais um pouco. Não, eu vou embora. Não dá mais para ficar, o lugar ficou pequeno e eu não posso respirar. Mas ainda são duas da manhã. Já é tarde. Tarde demais para mim, o mundo está de ponta cabeça. Tá bom, eu te levo. Obrigada.
Chego em casa e desenredo meu sorriso de nós fixados. Mais pareço um controle sem pilha, querendo mudar o canal sem jamais conseguir. Fica só o chiado chato e persistente da TV fora do ar, como eu fico sem você. As vezes passa um drama, lembranças, coisas assim; a tristeza do drama. Mas, na maior parte do tempo, chiado. E eu só preciso de uma comédia, pelo amor de alguma coisa, uma comédia tosca qualquer. Tiro a maquiagem e vai embora em lenços umedecidos aquela metade minha que procura ser feliz. Divido minhas duas personalidades e boto a outra para dormir mais cedo. Fico só com a que me faz parecer idiota, apaixonada e verdadeira. A real em seus pijamas surrados. Me embolo no sofá e dá vontade de voltar para a festa e pedir para o moço a garrafa inteira de absinto de uma vez. Dá vontade de chegar em você e te dizer uma loucura qualquer que te faça gostar de mim, mesmo sabendo que você só fingiria gostar. Do nada para o fingimento, dá na mesma. Então fico sozinha e me abstenho de você e do absinto. Ab. Sinto muito. Sinto muito, mas de você resolvi me abster para sempre, já que abstrair não consigo. Absorvo sempre todo o abstrato de nós. O que nunca foi, mas parecia ser. Sem forma, sem contorno, mas lindo. O absurdo de tudo que você representa; de ser o único que me derruba e me ergue ao mesmo tempo. Absoluto e absurdo em minha vida, te absinto. É de você que tenho sede, mas é o absinto que não me abandona. Então me abstenho de você e espero pelo absinto. Ele volta, sempre volta.

sábado, 21 de maio de 2011

O buraco.

As argolas e flechinhas do portão branco, a tenda vermelha, os quadros na parede, o chão de lajotas e o canto de pedrinhas brancas. As folhagens cheias de bitucas de cigarro escondidas. As latinhas de cerveja e o cinzeiro. Tudo me olhando com visão de raio-x e encarando minha solidão. Desafiando minha habilidade de ser sozinha. Tudo doendo como não ter você. E mais um gole e continua doendo. Toca blues no rádio e machuca sua falta não cicatrizada, seu adeus sutil e silencioso, os cortes abertos recentemente. Estar sentada sozinha não magoa; é como ter um pouco de Bukowski encarnado no corpo. Boêmio, livre, incompreendido. Solitário porque as pessoas não costumam valer a pena. A garçonete percebeu minha melancolia. Tá doente ou triste?, ela perguntou. Tô bem, respondi. Quase doente de tanta tristeza, mas bem, pensei. Ela percebeu só de me trazer uma latinha de cerveja, quando todo mundo acha que eu sou feliz e realizada.E a rampa e a arte pendurada e tudo e tudo e nada. E uma dor maluca de ser sozinha e me descobrir acostumada com a solidão. Um incenso queimando em mim e querendo ser cheiro de algo mais para você, mas sem ter suporte ou lugar para bater as cinzas do que já passou e não volta mais. Do cheiro que não impregnou. E a saudade. A louca saudade, a saudade podre como uma fruta esquecida na geladeira. Tenho escrito sobre ela e sua face está cada vez mais palpável e parecida com você. A saudade tem barba. Minhas unhas ficando roxas porque está frio aqui fora, mas lá dentro há televisão e novelas e gente feliz com companhias quentinhas. Eu fico fora, fria, sozinha. Mesa número oito. Tantas lembranças, tanta saudade quase impressa no tampo de plástico, tantas possibilidades que não foram. Nada do que parecia se realizou e hoje até o que foi real parece fantasia. E eu não sei viver como Alice. Não sei fazer parte do imaginário, vestir a fantasia e encarná-la como vida real. Não sei saltitar nessa ciranda desenfreada das nossas vidas. Só sei viver a loucura de cair no buraco e não conseguir subir nunca mais. Sem apetrechos para escalar, sem coelho branco, sem chapeleiro maluco. Só a loucura de querer tanto não te querer que não consigo pensar em outra coisa. A vontade de abrir o cérebro e te arrancar dali, onde quer que você esteja. O buraco. Negro, profundo, borda inalcançável. E, lá no fundo, eu. Olhando para cima sem achar saída. Sem esperança. Sem terror porque o medo já passou; sobrou só a apatia. O consentimento do fim que se anuncia no buraco. Roendo unhas, chorando minha dor no escuro camuflado e sorrindo na superfície porque é assim que deve ser. Tentando decidir, lá, sem lanterna, e não chegando a conclusão alguma. Porque eu quero que você não exista, mas não há nada mais presente em minha vida do que você, nossa distância e meus lábios roxos de frio.Vez ou outra você aparece lá em cima, tão pequeno que mal daria para identificar se eu já não tivesse decorado suas formas. Aparece sorrindo e jogando uma corda, dizendo para eu subir porque é minha vez de novo. O cadáver merece um pouco de carinho, afinal. E eu, que poderia esperar bombeiros e outras tantas pessoas que surgem sem que a gente espere, agarro a corda e uso a força que não tenho para tentar me erguer mais uma vez e chegar até você. Tudo porque as outras pessoas não interessam. Tudo por um abraço, um beijo, umas palavras, uma noite. Alguma coisa brilhando no peito, querendo existir e sair explodindo por aí. E então você enrola a corda com calma enquanto me enrola mais um pouco. Enquanto enche minhas expectativas de amor e mata minha saudade para depois torná-la ainda mais insuportável. E quando a corda vira um rolinho, você vira para mim e sorri mais uma vez, mandando um beijo de tchau, e dá um cutucão no meu ombro para que eu pare de sonhar e caia de novo até o fundo do meu buraco. Queda livre, tombo feio, mais alguns machucados e toda a agonia de novo. A espera infinita pelo que já terminou antes mesmo de começar. Eu sento no cantinho embarrado e choro até escorrer meus fluidos todos. E quando paro de chorar porque estou seca, continuo chorando por dentro. E sujo a cara tentando acordar, tentando achar uma maneira de escapar desse buraco onde me enfiei. Mas não há nada aqui além de barro, minhocas e o peso da solidão.Pisco os olhos e lembro que estou no lugar confortável das nossas lembranças. Os carros passam na rua e eu não quero desdobrar as pernas congeladas e ir embora porque tudo aqui me lembra você de um jeito lindo, enquanto lá em casa sufoca sua ausência e falta de interesse. Sofá, cama, chão, tudo cheio de você. Vazando de mim a vontade de me encaixar em um abraço seu. O porta-retrato quebrado no chão fazendo companhia ao meu coração rachado e sem luz. Eu guardei um pedaço de vidro para levar para o buraco comigo. Não dá. Eu não admito amor e vivo aceitando parcelas atrasadas sem cobrar juro algum. Meu nariz gelado só precisa de três cobertores, embora quisesse esquentar na sua nuca. Um cadáver, foi o que me tornei. Fria, músculos estáticos, condenada à solidão. Pronta para o fim, sem saber lidar com os momentos que o antecedem. Um cadáver assustado e repudiado. Rejeitado mais uma vez, abandonado em uma vala qualquer. No buraco. O cadáver que espera o resgate do corpo.A garçonete traz mais uma cerveja para a moça esquisita e triste que ela vê na mesa oito. Sozinha, tremendo, escrevendo freneticamente no caderninho patético sua história esburacada. Eu agradeço e sorrio, tentando afirmar que tudo está ou ficará bem. É mentira; ela sabe e eu também. Meu buraco está se enchendo de água. Resta decidir se tenho forças para nadar até quando ele encher. Se aguento a sujeira até conseguir sair correndo para longe de nós dois. Ou, provavelmente, se me deixo afogar até quando você voltar.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Plutão e as lascas.


Eu tô que não sei nem o que dizer. É brincadeira, penso, você não pode ser tão engolidor de corações assim. Eu já vi o mais belo de você e não condiz com a mesquinhez feia desta noite. Vamos conversar, você pede, mas beijo mudou de nome e eu não fiquei sabendo. Aqui em meu dicionário conversar ainda é outra coisa. É fim de noite e todos foram embora. É quando você quer conversar, quando deixa de me ignorar para perceber que eu estive ali desde o começo da festa. Quando me nota e anota mentalmente. Antes disso, a morena.
É tanta confusão disfarçada de indiferença, tanto amor disfarçado de qualquer coisa que não sabe ser amor, tantos enganos disfarçados com latinhas de cerveja e goles no cantil de absinto que eu não sei o que fazer. Fuga. Fuga de você, do que não foi e não é. Fuga de mim, que preciso continuar sorrindo para pessoas que nem conheço e achando falsa graça em cantadas diretas de amigos seus. Você não se importa. A morena está mais interessante e eu não tiro sua razão, afinal, do outro lado estou só eu e eu só. Vá em frente, eu aguento o tranco e continuo bebendo e fingindo alegria aqui com essa gente que continua me convidando para festas que eu não sei onde são e nem pretendo descobrir. Vá em frente que eu continuo fugindo de mim para doer menos.
Em algum momento eu perdi a graça para você. Tudo bem, eu perdi a graça para mim também há muito tempo. Os instantes flutuaram e acabaram indo embora. Você foi embora junto, levando a morena e me deixando a solidão, minha antiga amiga. Quando você volta, em dez minutos, eu já não sinto nada além da imensa vontade de ir embora que me agarra pelo cotovelo e diz "vamos, pega a sua chave, o carro está logo ali". Estou entorpecida e não tem nada a ver com o álcool. Tem a ver com seu desprezo, seu convite mentiroso; tem a ver com tudo de você que me enlouquece, mas que esta noite está a milhas de distância. Sou marinheira do meu próprio coração, não capitã. Estou vendo o navio naufragar e não consigo mover um dedo para chegar ao leme e me salvar do afogamento; nem mesmo para pegar um bote e ir embora desse lugar comum que não me deixa respirar como se deve porque arde em meus pulmões e em cada parte de mim que já era sua.
Eu já saquei que você só me quer às vezes e que não sou sua menina dos olhos. Que sou seu fim de festa, a sobra quando não há mais nada. Já entendi coisas muito piores e não fiz nada a respeito. A você eu nem pedi amor, embora meu coração implorasse por um pouco desse estranho desconhecido. Me contentei com suas mãos quentinhas segurando as minhas por alguns segundos. Com seu sorriso e olhar implacável e com as palpitações que sua proximidade me causa. Me contentei com tão pouco e me acostumei tão firmemente à situação que já não sei mudar o que me mata.
Agora eu sei que você pode falar dos meus cabelos como se fossem os mais lindos que já viu. Que pode comentar sobre minha bota, meu cheiro, meus olhos ou qualquer outra coisa. Pode falar sem sentir absolutamente nada e espera que eu seja igual. Que fale da sua barba, do seu calor, da sua inteligência e não sinta nada. Que te chame de bonitão porque é bom para o seu ego e não porque realmente quero dizer o que sai da minha boca. Você espera que eu te ame sem te amar, porque você me ama sem me amar. Então eu percebo a diferença entre nós; o quanto quero segurar seu rosto e dizer que você é lindo porque é mesmo, não por conveniência.
Eu posso te ouvir falar sobre outras garotas e manter o sorriso nos lábios; sou esse tipo de mulher. Mas, aqui dentro, cada palavra age como veneno de cobra, necrosando partes de mim que sentiam muito mais do que hoje. Eu já não sei se você me esquece porque quer me esquecer ou porque nunca lembrou. Se me deixa porque quer não me querer ou porque quer que eu te deixe e torne sua vida mais fácil. Eu só sei que você chega e o planeta chacoalha. De repente não sou mais o Plutão sozinho e renegado que sempre fui. Viro qualquer outro planeta, menos frio e mais acolhido. Qualquer um, menos a Terra; meu coração não é superpopuloso. E em menos de um minuto eu volto a ser Plutão - lá no cantinho gelado - porque ver você a noite inteira ao lado de outra qualquer magoa como eu nem sabia que podia magoar. Eu estava ali, pronta, Plutão, esperando. E nada. Nada de mim, nada de você, nada de nós. Só cervejas, seus amigos e piadinhas sem graça. Sua imagem em uma cadeira de plástico bem longe da minha e eu acabo ficando em pé para não parecer tão pequena e destruída quanto me sinto. Eu, em pé, escorada no canto da parede, ouvindo gente desconhecida dizendo que eu sobrei e rindo da minha cara. Eu doendo e querendo correr para longe sem achar uma desculpa para isso que não fosse você e ela. Eu segurando as pontas de te ver tão lindo e tão longe. Eu aqui e você lá. Sentado, sorrindo para outra, erguendo suas sobrancelhas, puxando a cadeira para mais perto dela, começando alguma coisa com a morena e terminando outra comigo. E eu altiva, como se não estivesse ali só por você.
Mas ela foi embora e você voltou. No final da noite, você voltou. Me querendo como se não existisse morena alguma; como se ela fosse uma ilusão de ótica, uma loucura minha. E você acha que entende. Acha que sabe o que eu sinto. Raiva, diz você, embora não entenda por quê. Ciúme passa por sua cabeça, embora você não fale. Mas eu não sinto raiva ou ciúme. Sinto humilhação. Sinto ser quem não sou, só porque você quer que eu seja e eu não sei dizer não. Sinto ser seu fim de noite e nada mais do que isso. E, ainda pior, sinto a dor latente de não conseguir me afastar. De dar os passos sempre à frente, em sua direção, ao invés de retroceder em busca do carro e da minha vida. De não encontrar forças para escapar do seu abraço. De ser a idiota que aceita o meio que parecia fim. Sinto indecisão entre ser inteligente e te perder para sempre ou continuar recebendo lascas suas de vez em quando. E de saber que deveria escolher a inteligência, mas sempre opto pela burrice das lascas. Cedendo e amando, magoada por suas jogadas de mestre.
Que você me esqueça eu entendo. Que não me ame entendo perfeitamente; eu também não me amo. Mas a espera é cruel e maldosa. A mentira é o mal que não posso mais enfrentar. E mesmo assim vivo nela, mentindo que não importa e que está tudo bem se você me esquecer e ficar encarando qualquer outra, porque sou superior. Mentindo que não dói te ver com ela enquanto eu sou tão sua. Porque você cravou suas unhas em mim quando nos conhecemos e hoje é como se pequenas marquinhas tivessem enraizado da sua cutícula para o meu corpo. E essas marcas cresceram e viraram árvores enormes. E eu minto que não ligo, que não faz diferença. Que você pode fingir que não me vê mesmo quando eu sinto - pela primeira vez na vida - que poderia te fazer feliz. Eu minto só para esperar mais um pouco por suas lascas porque sei que em algum momento elas virão. E enquanto elas não vêm, eu sou o Plutão que espera.

sábado, 7 de maio de 2011

Brocolizando.

Minha madrinha costumava aconselhar que eu aprendesse a ser um brócolis. Vegetar com meus cachinhos verdes na cama, mesmo sem sono; apenas descansar o corpo em um dia preguiçoso. Levei anos para conseguir. A arte de ser um brócolis é mais complexa do que parece. Brócolis não sofrem, não pensam, não reagem, não se martirizam quando estão prestes a dormir. Hoje, enfim, dominei a proeza. Ainda sofro, penso, reajo e me martirizo mas, talvez por motivos que meu coração preferiria não conhecer, hoje me sinto tão brocolizada que pareço ter sofrido uma lobotomia. Meu corpo está aqui, sozinho na cama, vegetando. A mente está em outro lugar, pensando. Minha madrinha não falava nada sobre pensar ou não. Brócolis não pensam. Acho que me tornei meio humana, meio vegetal. A parte humana é a que ainda me corrói e dá o gosto amargo ao meu sabor. Ou melhor, dissabor.
Hoje estou aqui em meu melhor estado brócolis e me recuso a abrir os olhos. O inverno chegou, a cama está quentinha e o dia mal começou, apesar do meu desejo de que ele termine o mais rápido possível. Minha mente acordou cedo demais, como se um ser cruel tivesse apertado o interruptor. Mas meu corpo está bem assim, deitado de bruços, a cara esmagada na pontinha do travesseiro e coberta por mechas de cabelos. Quem sabe se eu mantiver os olhos fechados por mais tempo o sono volta e pronto. Dormir é alívio. Viver aqui, neste quarto fechado, é seguro e confortável. O dia é frio, as cadeiras são frias, tudo é frio; até meu coração. Ficar no cafofo aquecido é como esquecer que existe vida além disso e que ela é arrasadora. A amante destruidora de lares. O inferno ali fora e eu protegida em meu céu particular, seja lá o que a palavra céu signifique. Tenho medo de abrir os olhos. Medo de levantar, de tirar as camadas de cobertores e descobrir que o frio é capaz de congelar em minhas bochechas a água ressecada das lágrimas que derramei. Medo de ceder às pálpebras. Medo de não aguentar, de não conseguir permanecer em pé tempo suficiente antes de cair novamente. Mas, mais do que medo, tenho sono da vida. E sono da vida não é qualquer cochilo que resolve.
Então eu fico aqui, mente alerta e corpo de brócolis mofando. Fechar os olhos não machuca. É como ser criança e ouvir um adulto dizendo que, se você fechar os olhos, ninguém poderá te ver. Mágico. Fechar os olhos é escapar da sujeira do mundo, do que eu vejo e vivo todos os dias. Fechar os olhos não dói. O que dói é olhar para dentro e descobrir que o interior é ainda mais sujo. Mais errado, mais solitário, mais destruído e desesperador. Que até em meu sangue está a derrota, a falta de tudo que é vital. Aí, então, fechar os olhos dói, porque a verdade é esfregada nas retinas da alma. Mas há vidas e jogos e dramas e tristeza por todos os lados. Obsessões. Canos de armas apontando o dia inteiro para as têmporas. Coisas das quais não se pode fugir, nem mesmo de olhos fechados, embaixo de um cobertor.
Eu tento ser louca e às vezes consigo. Outras vezes, sou apenas o brócolis sem força de vontade. Não há jeito certo de esperar pelas coisas. O certo é correr atrás e esquecer as dicas dos livros de autoajuda. Mas, para os que não têm coragem de calçar os tênis e buscar seu futuro, para quem está debilitado demais para correr em busca de sonhos incompletos e objetivos pela metade como restos de almoço na geladeira, para quem não enxerga um palmo de vida que não esteja embaçada, para estes sempre há a opção brócolis. Um brócolis abre os olhos e continua enxergando tudo embaçado, não pelas remelas, mas porque tudo além do travesseiro é abstrato. Um brócolis sofre a pressão de seus próprios pensamentos. Um brócolis agoniza por suas dores e saudades. Mas, ao menos, o brócolis pode vegetar e sofrer em seu cantinho coberto sem que as pessoas que não sabem ser couve-flores e repolhos interfiram.
Minha madrinha também chama de "cara de paisagem" a careta desprovida de sentimentos que a gente faz quando vê algo sem graça. Ou quando um policial te para em uma blitz. Ou quando um idiota tenta entender sua vida que, por sinal, é uma bagunça completa. Ou quando você ouve o que não quer ouvir, ainda que não tenha pedido por palavra alguma. Ou quando as pessoas são medíocres e hipócritas. Ou quando você sabe que o cara está jogando com você, mas não consegue fazer nada porque está apaixonada demais. Ou quando você se descobre mesmo apaixonada e não pode demonstrar. Ou em diversas outras situações. Esta eu aprendi rápido. Olhos brilhando levemente, sorriso aberto ou não, rosto curvado com graciosidade. A mentira estampada em uma face decorada. Tenho usado a "cara de paisagem" por toda a minha vida.
 
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