terça-feira, 24 de maio de 2011

Absinto.

Eu cheguei já pedindo uma dose de absinto para aguentar aquela festa. Por mim teria saído de pijama, tamanha era a vontade de largar cama e cobertor. O moço perguntou se eu queria vermelho ou preto. Achei que só existia absinto verde, a fadinha e tal. Não, não. Sei lá, vê o vermelho que é mais bonito. Em um copo grande, hein, que eu tô precisando. O cara riu e me deu um copo tamanho família. Acho que enxergou desespero em meus olhos pintados, prontos para pedir socorro, e em minhas pernas trêmulas querendo ir embora dali. Mas, não, pensei, você precisa ficar. Seus amigos estão aqui, isso é bom. Respira fundo, engole esse absinto e sossega em uma dessas cadeiras altas e charmosas. Voltamos, eu e o copo enorme, para junto da bagunça de gente que sabe ser feliz como eu nunca aprendi.
Segui minhas próprias instruções e fiquei no cantinho de uma das mesas redondas, mais parecendo uma garota interiorana saindo pela primeira vez. Acuada, bebericando algo forte e sem saber como agir. Ouvindo casos, rindo deles e pensando longe, alheia a tudo. Um grande amigo faz piadas sobre dancinhas ridículas envolvendo buquês de flores e refrão de "vá de carro que eu vou de motinha". Tento me concentrar nisso para não sair correndo e voltar para minha hibernação. Dou umas risadas porque a companhia é mesmo ótima, mas a armadura está rachada e o peso da dor é ainda maior. Está colado em meus ossos, pele, roupa e cabelo. Na saia que você gostava e chamava de vestido. Em meu peito coberto por um casaco grosso de inverno mas desnudo e congelado por dentro. Mas eu rio em agradecimento ao esforço do meu amigo. Nada faz sentido, mas tudo bem; nada nunca faz sentido mesmo, aqui ou em qualquer outro lugar que não seja ao seu lado.
E, de repente, entre uma piscada e outra, ele. Logo ali, bebendo cerveja com seus amigos. Eu preciso de mais uma dose e vou buscar. O moço capricha de novo. Ele está ali, lindo como sempre foi e distribuindo olhares até me enxergar e desviar o rosto. Lindo demais para mim. Agarro o braço do meu amigo porque sinto que vou cair. Não, não é efeito do absinto. É efeito de algo muito mais forte, que já foi doce e agora é amargo. Ele não entende - nem deveria - mas segura minha mão e me olha com carinho enquanto eu só consigo continuar bebendo em um ritmo alucinado minha bebida cor de sangue e olhando extasiada para aquela barba incrível. Eu bebo em golfadas porque já aprendi que sem beber é tudo mais insuportável. Para com isso, diz o amigo. Mas ele tá aqui. Não interessa, bebe que hoje é dia de ser feliz. Eu tô feliz. Não tá. Tô sim, olha só esse sorriso tongo que eu tô ostentando. Sim, como um dos seus brincos; você tá elegante, não feliz. Ué, não preciso ser deselegante para ser feliz. Não foi isso que eu quis dizer. Eu sei, só tô tentando mudar de assunto e de perspectiva. Não faz isso, comigo você pode ser sincera. Sei lá. Tá, dá aqui um abraço. Quer trocar de lado comigo pra não enxergar mais? Quero, obrigada. Benditos sejam você e esse absinto vermelho. Ai, ai, só você. É, só eu. Só eu...
Só eu e meu masoquismo de botar o despertador para tocar uma hora mais cedo do que o necessário só para poder dormir mais um pouquinho e acordar ouvindo Blues Etílicos. Eu e a mania de querer te dizer que, se beijou de um lado da bochecha, tem que beijar do outro também, então beija logo no meio que é mais fácil. Eu e meu desejo inominável de te abraçar para sempre, de mexer nos seus cabelos ralinhos e na barba farta; de te arrancar a camiseta e moldar a cabeça no seu peito. Torcendo para um dia poder te dizer que você só vale mil reais - que foi o que eu paguei sem saber para te conhecer - mas que eu te amo para mais de milhões. Só eu, segurando o copo para não roer as unhas que estão finalmente crescendo. Fracas como eu, mas crescendo. Eu e o peito gritando que, se for para ser assim, não deve ser. Mas deve porque eu te quero mais do que já quis qualquer outro ou qualquer coisa. Somos só eu e você com esse jeito sexy e patético de me esnobar e me deixar sozinha ouvindo o silêncio até quando a banda cover do Cachorro Grande começa a tocar as mais ouvidas. Como Cachorro Grande já tem cover, não sei. Enquanto penso e ensaio meu teatro mental, sempre em exibição no fundo dos meus olhos - onde você é você perto de mim e não um personagem que está ficando distante da minha história - você passa, cutuca minha cintura e diz aquele oi que me derrete e me destrói. Dá um abraço de leve e eu tento responder com nada além de simpatia, mas o que sai de mim é puro amor em forma de palavras tremidas. Enrijeço as pernas e prendo a língua para prender também esse amor que não pode ser. E que, se depender de você, não vai mesmo ser. Trinco os dentes tentando morder alguma coisa para aguentar sua indiferença e acabo mastigando gelo com gosto de absinto e amor azedado, queimando na garganta. Mastigo com força para ver se acaba de uma vez. Não acaba, nunca acaba. Só o absinto e meu dinheiro acabam. E vem o calorzinho do desejo, as malditas borboletas superestimadas. As minhas são enormes borboletas bruxas, monstrengas e pretas, coçando sem parar.
E você para ali, longe e perto, em um lugar onde eu posso te enxergar de novo, curtindo a banda enquanto eu curto você sem que ninguém perceba. Mostrando minha indiferença calculada e ficando com o copo cada vez mais vazio. Daqui a pouco vai estar vazio como eu. Bebi rápido demais na ânsia teimosa de ter o que fazer além de vidrar em você. No desespero de ter o que segurar nas mãos para parar de esfolá-las uma na outra ou ficar remexendo nervosa na barra da saia. Você não vai falar comigo, vai manter nossa distância de alguns metros. Eu quero ir embora, estou enlouquecendo. Cara, vou embora mesmo. Espera mais um pouco. Não, eu vou embora. Não dá mais para ficar, o lugar ficou pequeno e eu não posso respirar. Mas ainda são duas da manhã. Já é tarde. Tarde demais para mim, o mundo está de ponta cabeça. Tá bom, eu te levo. Obrigada.
Chego em casa e desenredo meu sorriso de nós fixados. Mais pareço um controle sem pilha, querendo mudar o canal sem jamais conseguir. Fica só o chiado chato e persistente da TV fora do ar, como eu fico sem você. As vezes passa um drama, lembranças, coisas assim; a tristeza do drama. Mas, na maior parte do tempo, chiado. E eu só preciso de uma comédia, pelo amor de alguma coisa, uma comédia tosca qualquer. Tiro a maquiagem e vai embora em lenços umedecidos aquela metade minha que procura ser feliz. Divido minhas duas personalidades e boto a outra para dormir mais cedo. Fico só com a que me faz parecer idiota, apaixonada e verdadeira. A real em seus pijamas surrados. Me embolo no sofá e dá vontade de voltar para a festa e pedir para o moço a garrafa inteira de absinto de uma vez. Dá vontade de chegar em você e te dizer uma loucura qualquer que te faça gostar de mim, mesmo sabendo que você só fingiria gostar. Do nada para o fingimento, dá na mesma. Então fico sozinha e me abstenho de você e do absinto. Ab. Sinto muito. Sinto muito, mas de você resolvi me abster para sempre, já que abstrair não consigo. Absorvo sempre todo o abstrato de nós. O que nunca foi, mas parecia ser. Sem forma, sem contorno, mas lindo. O absurdo de tudo que você representa; de ser o único que me derruba e me ergue ao mesmo tempo. Absoluto e absurdo em minha vida, te absinto. É de você que tenho sede, mas é o absinto que não me abandona. Então me abstenho de você e espero pelo absinto. Ele volta, sempre volta.

6 comentários:

Fernando Imaregna disse...

Oi Josiana...

Vim, apesar de abstêmio há dez anos, me embriagar com os últimos textos...

Sem mais comentários...vc sabe que é incomparável...hum rum...

Bjos carinhosos e Deus te abençoe !

Gugu Keller disse...

Jô...
Absinto-te!
GK

Francielle disse...

Como sempre mais um texto maravilhoso! Consegui sentir a dor, a angústia das suas palavras como se eu estive vivendo o personagem desse texto.
Beijo.

Judite disse...



Boa noite!

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"Não há nada no mundo que me faça infeliz, desde que creio em Deus e em mim próprio, feito à imagem do criador". (Hans Willing)

Que seus dias sejam abeçoados!

Deus seja contigo!


Blog Yehi Or!

www.hajalluz.blogspot.com

Tânia Brasil disse...

oi Josi nossa apesar, de ser bem triste e eu saber o quanto vc sofre com td isso!
eu amooo os teus textos e adoro como vc estreve e as coisas q eu mee raxo de rir!! como cachorro grande tem cover shahushahushhuash
amo vc!

Equilibrista disse...

aai que dorzinha.
eu costumo dizer que abstinência é falta de abstinto

(...)

 
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