sábado, 7 de maio de 2011

Brocolizando.

Minha madrinha costumava aconselhar que eu aprendesse a ser um brócolis. Vegetar com meus cachinhos verdes na cama, mesmo sem sono; apenas descansar o corpo em um dia preguiçoso. Levei anos para conseguir. A arte de ser um brócolis é mais complexa do que parece. Brócolis não sofrem, não pensam, não reagem, não se martirizam quando estão prestes a dormir. Hoje, enfim, dominei a proeza. Ainda sofro, penso, reajo e me martirizo mas, talvez por motivos que meu coração preferiria não conhecer, hoje me sinto tão brocolizada que pareço ter sofrido uma lobotomia. Meu corpo está aqui, sozinho na cama, vegetando. A mente está em outro lugar, pensando. Minha madrinha não falava nada sobre pensar ou não. Brócolis não pensam. Acho que me tornei meio humana, meio vegetal. A parte humana é a que ainda me corrói e dá o gosto amargo ao meu sabor. Ou melhor, dissabor.
Hoje estou aqui em meu melhor estado brócolis e me recuso a abrir os olhos. O inverno chegou, a cama está quentinha e o dia mal começou, apesar do meu desejo de que ele termine o mais rápido possível. Minha mente acordou cedo demais, como se um ser cruel tivesse apertado o interruptor. Mas meu corpo está bem assim, deitado de bruços, a cara esmagada na pontinha do travesseiro e coberta por mechas de cabelos. Quem sabe se eu mantiver os olhos fechados por mais tempo o sono volta e pronto. Dormir é alívio. Viver aqui, neste quarto fechado, é seguro e confortável. O dia é frio, as cadeiras são frias, tudo é frio; até meu coração. Ficar no cafofo aquecido é como esquecer que existe vida além disso e que ela é arrasadora. A amante destruidora de lares. O inferno ali fora e eu protegida em meu céu particular, seja lá o que a palavra céu signifique. Tenho medo de abrir os olhos. Medo de levantar, de tirar as camadas de cobertores e descobrir que o frio é capaz de congelar em minhas bochechas a água ressecada das lágrimas que derramei. Medo de ceder às pálpebras. Medo de não aguentar, de não conseguir permanecer em pé tempo suficiente antes de cair novamente. Mas, mais do que medo, tenho sono da vida. E sono da vida não é qualquer cochilo que resolve.
Então eu fico aqui, mente alerta e corpo de brócolis mofando. Fechar os olhos não machuca. É como ser criança e ouvir um adulto dizendo que, se você fechar os olhos, ninguém poderá te ver. Mágico. Fechar os olhos é escapar da sujeira do mundo, do que eu vejo e vivo todos os dias. Fechar os olhos não dói. O que dói é olhar para dentro e descobrir que o interior é ainda mais sujo. Mais errado, mais solitário, mais destruído e desesperador. Que até em meu sangue está a derrota, a falta de tudo que é vital. Aí, então, fechar os olhos dói, porque a verdade é esfregada nas retinas da alma. Mas há vidas e jogos e dramas e tristeza por todos os lados. Obsessões. Canos de armas apontando o dia inteiro para as têmporas. Coisas das quais não se pode fugir, nem mesmo de olhos fechados, embaixo de um cobertor.
Eu tento ser louca e às vezes consigo. Outras vezes, sou apenas o brócolis sem força de vontade. Não há jeito certo de esperar pelas coisas. O certo é correr atrás e esquecer as dicas dos livros de autoajuda. Mas, para os que não têm coragem de calçar os tênis e buscar seu futuro, para quem está debilitado demais para correr em busca de sonhos incompletos e objetivos pela metade como restos de almoço na geladeira, para quem não enxerga um palmo de vida que não esteja embaçada, para estes sempre há a opção brócolis. Um brócolis abre os olhos e continua enxergando tudo embaçado, não pelas remelas, mas porque tudo além do travesseiro é abstrato. Um brócolis sofre a pressão de seus próprios pensamentos. Um brócolis agoniza por suas dores e saudades. Mas, ao menos, o brócolis pode vegetar e sofrer em seu cantinho coberto sem que as pessoas que não sabem ser couve-flores e repolhos interfiram.
Minha madrinha também chama de "cara de paisagem" a careta desprovida de sentimentos que a gente faz quando vê algo sem graça. Ou quando um policial te para em uma blitz. Ou quando um idiota tenta entender sua vida que, por sinal, é uma bagunça completa. Ou quando você ouve o que não quer ouvir, ainda que não tenha pedido por palavra alguma. Ou quando as pessoas são medíocres e hipócritas. Ou quando você sabe que o cara está jogando com você, mas não consegue fazer nada porque está apaixonada demais. Ou quando você se descobre mesmo apaixonada e não pode demonstrar. Ou em diversas outras situações. Esta eu aprendi rápido. Olhos brilhando levemente, sorriso aberto ou não, rosto curvado com graciosidade. A mentira estampada em uma face decorada. Tenho usado a "cara de paisagem" por toda a minha vida.

2 comentários:

Gugu Keller disse...

Durmo demais, sabe Jo? A ponto de freqüentemente eu ter a nítida percepção de que lido com o sono como se fosse uma droga. E este teu texto, querida, tem tudo a ver com isso!
GK

Marinha disse...

Podes até usar cara de paisagem e ter aprendido a broconizar, mas tua sensibilidade revela que por detrás dos cachinhos verdes de brócolis há uma mulher que chora, ri, conquista e percorre os caminhos da vida com determinação. Posso estar enganada, Jo, mas é isso que teus textos, tão bem construídos, denunciam.
Bjo, cachinhos verdes.

 
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