sábado, 21 de maio de 2011

O buraco.

As argolas e flechinhas do portão branco, a tenda vermelha, os quadros na parede, o chão de lajotas e o canto de pedrinhas brancas. As folhagens cheias de bitucas de cigarro escondidas. As latinhas de cerveja e o cinzeiro. Tudo me olhando com visão de raio-x e encarando minha solidão. Desafiando minha habilidade de ser sozinha. Tudo doendo como não ter você. E mais um gole e continua doendo. Toca blues no rádio e machuca sua falta não cicatrizada, seu adeus sutil e silencioso, os cortes abertos recentemente. Estar sentada sozinha não magoa; é como ter um pouco de Bukowski encarnado no corpo. Boêmio, livre, incompreendido. Solitário porque as pessoas não costumam valer a pena. A garçonete percebeu minha melancolia. Tá doente ou triste?, ela perguntou. Tô bem, respondi. Quase doente de tanta tristeza, mas bem, pensei. Ela percebeu só de me trazer uma latinha de cerveja, quando todo mundo acha que eu sou feliz e realizada.E a rampa e a arte pendurada e tudo e tudo e nada. E uma dor maluca de ser sozinha e me descobrir acostumada com a solidão. Um incenso queimando em mim e querendo ser cheiro de algo mais para você, mas sem ter suporte ou lugar para bater as cinzas do que já passou e não volta mais. Do cheiro que não impregnou. E a saudade. A louca saudade, a saudade podre como uma fruta esquecida na geladeira. Tenho escrito sobre ela e sua face está cada vez mais palpável e parecida com você. A saudade tem barba. Minhas unhas ficando roxas porque está frio aqui fora, mas lá dentro há televisão e novelas e gente feliz com companhias quentinhas. Eu fico fora, fria, sozinha. Mesa número oito. Tantas lembranças, tanta saudade quase impressa no tampo de plástico, tantas possibilidades que não foram. Nada do que parecia se realizou e hoje até o que foi real parece fantasia. E eu não sei viver como Alice. Não sei fazer parte do imaginário, vestir a fantasia e encarná-la como vida real. Não sei saltitar nessa ciranda desenfreada das nossas vidas. Só sei viver a loucura de cair no buraco e não conseguir subir nunca mais. Sem apetrechos para escalar, sem coelho branco, sem chapeleiro maluco. Só a loucura de querer tanto não te querer que não consigo pensar em outra coisa. A vontade de abrir o cérebro e te arrancar dali, onde quer que você esteja. O buraco. Negro, profundo, borda inalcançável. E, lá no fundo, eu. Olhando para cima sem achar saída. Sem esperança. Sem terror porque o medo já passou; sobrou só a apatia. O consentimento do fim que se anuncia no buraco. Roendo unhas, chorando minha dor no escuro camuflado e sorrindo na superfície porque é assim que deve ser. Tentando decidir, lá, sem lanterna, e não chegando a conclusão alguma. Porque eu quero que você não exista, mas não há nada mais presente em minha vida do que você, nossa distância e meus lábios roxos de frio.Vez ou outra você aparece lá em cima, tão pequeno que mal daria para identificar se eu já não tivesse decorado suas formas. Aparece sorrindo e jogando uma corda, dizendo para eu subir porque é minha vez de novo. O cadáver merece um pouco de carinho, afinal. E eu, que poderia esperar bombeiros e outras tantas pessoas que surgem sem que a gente espere, agarro a corda e uso a força que não tenho para tentar me erguer mais uma vez e chegar até você. Tudo porque as outras pessoas não interessam. Tudo por um abraço, um beijo, umas palavras, uma noite. Alguma coisa brilhando no peito, querendo existir e sair explodindo por aí. E então você enrola a corda com calma enquanto me enrola mais um pouco. Enquanto enche minhas expectativas de amor e mata minha saudade para depois torná-la ainda mais insuportável. E quando a corda vira um rolinho, você vira para mim e sorri mais uma vez, mandando um beijo de tchau, e dá um cutucão no meu ombro para que eu pare de sonhar e caia de novo até o fundo do meu buraco. Queda livre, tombo feio, mais alguns machucados e toda a agonia de novo. A espera infinita pelo que já terminou antes mesmo de começar. Eu sento no cantinho embarrado e choro até escorrer meus fluidos todos. E quando paro de chorar porque estou seca, continuo chorando por dentro. E sujo a cara tentando acordar, tentando achar uma maneira de escapar desse buraco onde me enfiei. Mas não há nada aqui além de barro, minhocas e o peso da solidão.Pisco os olhos e lembro que estou no lugar confortável das nossas lembranças. Os carros passam na rua e eu não quero desdobrar as pernas congeladas e ir embora porque tudo aqui me lembra você de um jeito lindo, enquanto lá em casa sufoca sua ausência e falta de interesse. Sofá, cama, chão, tudo cheio de você. Vazando de mim a vontade de me encaixar em um abraço seu. O porta-retrato quebrado no chão fazendo companhia ao meu coração rachado e sem luz. Eu guardei um pedaço de vidro para levar para o buraco comigo. Não dá. Eu não admito amor e vivo aceitando parcelas atrasadas sem cobrar juro algum. Meu nariz gelado só precisa de três cobertores, embora quisesse esquentar na sua nuca. Um cadáver, foi o que me tornei. Fria, músculos estáticos, condenada à solidão. Pronta para o fim, sem saber lidar com os momentos que o antecedem. Um cadáver assustado e repudiado. Rejeitado mais uma vez, abandonado em uma vala qualquer. No buraco. O cadáver que espera o resgate do corpo.A garçonete traz mais uma cerveja para a moça esquisita e triste que ela vê na mesa oito. Sozinha, tremendo, escrevendo freneticamente no caderninho patético sua história esburacada. Eu agradeço e sorrio, tentando afirmar que tudo está ou ficará bem. É mentira; ela sabe e eu também. Meu buraco está se enchendo de água. Resta decidir se tenho forças para nadar até quando ele encher. Se aguento a sujeira até conseguir sair correndo para longe de nós dois. Ou, provavelmente, se me deixo afogar até quando você voltar.

2 comentários:

Gugu Keller disse...

Eis a mim um amálgama no âmago do amargor.
GK

Leonard M. Capibaribe disse...

Sim... Como se fosse viver sem ninguém vendo... Muito boas as suas palavras! Que sorte tive de encontrar seu blog aqui... Parabéns!

 
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