terça-feira, 17 de maio de 2011

Plutão e as lascas.


Eu tô que não sei nem o que dizer. É brincadeira, penso, você não pode ser tão engolidor de corações assim. Eu já vi o mais belo de você e não condiz com a mesquinhez feia desta noite. Vamos conversar, você pede, mas beijo mudou de nome e eu não fiquei sabendo. Aqui em meu dicionário conversar ainda é outra coisa. É fim de noite e todos foram embora. É quando você quer conversar, quando deixa de me ignorar para perceber que eu estive ali desde o começo da festa. Quando me nota e anota mentalmente. Antes disso, a morena.
É tanta confusão disfarçada de indiferença, tanto amor disfarçado de qualquer coisa que não sabe ser amor, tantos enganos disfarçados com latinhas de cerveja e goles no cantil de absinto que eu não sei o que fazer. Fuga. Fuga de você, do que não foi e não é. Fuga de mim, que preciso continuar sorrindo para pessoas que nem conheço e achando falsa graça em cantadas diretas de amigos seus. Você não se importa. A morena está mais interessante e eu não tiro sua razão, afinal, do outro lado estou só eu e eu só. Vá em frente, eu aguento o tranco e continuo bebendo e fingindo alegria aqui com essa gente que continua me convidando para festas que eu não sei onde são e nem pretendo descobrir. Vá em frente que eu continuo fugindo de mim para doer menos.
Em algum momento eu perdi a graça para você. Tudo bem, eu perdi a graça para mim também há muito tempo. Os instantes flutuaram e acabaram indo embora. Você foi embora junto, levando a morena e me deixando a solidão, minha antiga amiga. Quando você volta, em dez minutos, eu já não sinto nada além da imensa vontade de ir embora que me agarra pelo cotovelo e diz "vamos, pega a sua chave, o carro está logo ali". Estou entorpecida e não tem nada a ver com o álcool. Tem a ver com seu desprezo, seu convite mentiroso; tem a ver com tudo de você que me enlouquece, mas que esta noite está a milhas de distância. Sou marinheira do meu próprio coração, não capitã. Estou vendo o navio naufragar e não consigo mover um dedo para chegar ao leme e me salvar do afogamento; nem mesmo para pegar um bote e ir embora desse lugar comum que não me deixa respirar como se deve porque arde em meus pulmões e em cada parte de mim que já era sua.
Eu já saquei que você só me quer às vezes e que não sou sua menina dos olhos. Que sou seu fim de festa, a sobra quando não há mais nada. Já entendi coisas muito piores e não fiz nada a respeito. A você eu nem pedi amor, embora meu coração implorasse por um pouco desse estranho desconhecido. Me contentei com suas mãos quentinhas segurando as minhas por alguns segundos. Com seu sorriso e olhar implacável e com as palpitações que sua proximidade me causa. Me contentei com tão pouco e me acostumei tão firmemente à situação que já não sei mudar o que me mata.
Agora eu sei que você pode falar dos meus cabelos como se fossem os mais lindos que já viu. Que pode comentar sobre minha bota, meu cheiro, meus olhos ou qualquer outra coisa. Pode falar sem sentir absolutamente nada e espera que eu seja igual. Que fale da sua barba, do seu calor, da sua inteligência e não sinta nada. Que te chame de bonitão porque é bom para o seu ego e não porque realmente quero dizer o que sai da minha boca. Você espera que eu te ame sem te amar, porque você me ama sem me amar. Então eu percebo a diferença entre nós; o quanto quero segurar seu rosto e dizer que você é lindo porque é mesmo, não por conveniência.
Eu posso te ouvir falar sobre outras garotas e manter o sorriso nos lábios; sou esse tipo de mulher. Mas, aqui dentro, cada palavra age como veneno de cobra, necrosando partes de mim que sentiam muito mais do que hoje. Eu já não sei se você me esquece porque quer me esquecer ou porque nunca lembrou. Se me deixa porque quer não me querer ou porque quer que eu te deixe e torne sua vida mais fácil. Eu só sei que você chega e o planeta chacoalha. De repente não sou mais o Plutão sozinho e renegado que sempre fui. Viro qualquer outro planeta, menos frio e mais acolhido. Qualquer um, menos a Terra; meu coração não é superpopuloso. E em menos de um minuto eu volto a ser Plutão - lá no cantinho gelado - porque ver você a noite inteira ao lado de outra qualquer magoa como eu nem sabia que podia magoar. Eu estava ali, pronta, Plutão, esperando. E nada. Nada de mim, nada de você, nada de nós. Só cervejas, seus amigos e piadinhas sem graça. Sua imagem em uma cadeira de plástico bem longe da minha e eu acabo ficando em pé para não parecer tão pequena e destruída quanto me sinto. Eu, em pé, escorada no canto da parede, ouvindo gente desconhecida dizendo que eu sobrei e rindo da minha cara. Eu doendo e querendo correr para longe sem achar uma desculpa para isso que não fosse você e ela. Eu segurando as pontas de te ver tão lindo e tão longe. Eu aqui e você lá. Sentado, sorrindo para outra, erguendo suas sobrancelhas, puxando a cadeira para mais perto dela, começando alguma coisa com a morena e terminando outra comigo. E eu altiva, como se não estivesse ali só por você.
Mas ela foi embora e você voltou. No final da noite, você voltou. Me querendo como se não existisse morena alguma; como se ela fosse uma ilusão de ótica, uma loucura minha. E você acha que entende. Acha que sabe o que eu sinto. Raiva, diz você, embora não entenda por quê. Ciúme passa por sua cabeça, embora você não fale. Mas eu não sinto raiva ou ciúme. Sinto humilhação. Sinto ser quem não sou, só porque você quer que eu seja e eu não sei dizer não. Sinto ser seu fim de noite e nada mais do que isso. E, ainda pior, sinto a dor latente de não conseguir me afastar. De dar os passos sempre à frente, em sua direção, ao invés de retroceder em busca do carro e da minha vida. De não encontrar forças para escapar do seu abraço. De ser a idiota que aceita o meio que parecia fim. Sinto indecisão entre ser inteligente e te perder para sempre ou continuar recebendo lascas suas de vez em quando. E de saber que deveria escolher a inteligência, mas sempre opto pela burrice das lascas. Cedendo e amando, magoada por suas jogadas de mestre.
Que você me esqueça eu entendo. Que não me ame entendo perfeitamente; eu também não me amo. Mas a espera é cruel e maldosa. A mentira é o mal que não posso mais enfrentar. E mesmo assim vivo nela, mentindo que não importa e que está tudo bem se você me esquecer e ficar encarando qualquer outra, porque sou superior. Mentindo que não dói te ver com ela enquanto eu sou tão sua. Porque você cravou suas unhas em mim quando nos conhecemos e hoje é como se pequenas marquinhas tivessem enraizado da sua cutícula para o meu corpo. E essas marcas cresceram e viraram árvores enormes. E eu minto que não ligo, que não faz diferença. Que você pode fingir que não me vê mesmo quando eu sinto - pela primeira vez na vida - que poderia te fazer feliz. Eu minto só para esperar mais um pouco por suas lascas porque sei que em algum momento elas virão. E enquanto elas não vêm, eu sou o Plutão que espera.

3 comentários:

Unknown disse...

Parabéns, nota 10
Gostei muito do seu espaço, volto mais vezes, espero que goste do meu, se tiver um tempinho da uma passadinha lá.
Agradeço desde já.

PS: Estou te seguindo Bjs

Gugu Keller disse...

Toda fuga é apenas um adiamento do inevitável.
GK

Marinha disse...

Traduzes tão bem o que somente pode ser percebido por quem sente; algo invisível, maquiado por convenções impostas por quem nada sente ou apenas sabe fazer os outros sentirem. Preferimos pequenas dores, humilhações em gotas do que a suposta dor aguda, de um só vez, do rompimento definitivo. Loucura isso!
Teus textos são tão brilhantes quanto doídos, querida!
Bjo

 
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