segunda-feira, 27 de junho de 2011

As pedras de gelo do whisky.

Você acha que sabe como lidar com a situação. Diz como é, resolve, arquiteta e, no fim, sai errando até pelos cotovelos. Fazendo da vida uma mola esgarçada que não volta mais à forma compacta. Tenta brincar com o que te amedronta e fazer piada do que é tudo menos engraçado. Veste uma calça quentinha e umas botas de cano longo para encarar o frio dos dias de vento cortante, mas esquece de proteger as orelhas e não tira as mãos dos bolsos nem para recolher do chão aquela moedinha de um real. A geada toma conta dos olhos e congela a vontade de correr por aí. Não tem mais cabelos voando, não tem mais colina verdejante, não tem mais anseio de velocidade. A vida congelou e fez barulho de fita cassete enguiçada no vídeo. Virou um desenho inanimado dentro de um cubo de gelo que não derrete. Uma figura gripada de nariz vermelho e garganta dolorida. Você quer então - já que não passa de uma pedrinha de baixa temperatura - atirar-se dentro de um copo de whisky e boiar no amargo que rasga a dor. Cogita afogar o restinho que ainda tem só para poder mergulhar um pouco mais e sair da zona de conforto que é a superfície rotineira. Você ama paraquedismo, mas resolve se jogar sem mochila desta vez. Talvez para fechar os olhos e curtir o vento pesado lambendo as bochechas, talvez para sentir o choque, talvez para tentar acabar com ele. E nessa de tentar mais uma vez, bate de encontro com a resistência da bebida e dá de cara com o fundo do copo. Esfola os joelhos no atrito bruto que encontrou seu corpo. Lasca uma unha, luxa um músculo, esmaga o coração, lesiona a plica sinovial... Mas tudo bem, vá lá, os ossos ainda estão inteiros e fortes. Dá para continuar nadando um pouco, você pensa.
Uma difusão de gotas vai parar nas paredes do copo quando pedra encontra whisky e você tenta descobrir se é suficiente, mesmo sabendo que não é. Os solitários não exercem sua função com a máxima capacidade de seus neurônios porque sempre há uma saudade a ser sentida primeiro. Você se diz acostumada com a solidão, mas a verdade é que não se esfria whisky com uma pedra só. São necessários outros moradores das forminhas brancas do congelador. O espaço não é só seu, mesmo quando tudo parece bem assim. Logo outra pedra de gelo chega tilintando no copo de cristal e estourando contra sua vida pacata. Você foge como uma louca, dizendo coisas insanas e gritando seu medo doentio, mas não consegue escapar do encontrão inevitável de duas pedrinhas no fluxo de giros para misturar o que não pode ser misturado. Ele esbarra em sua cintura e pisa em seu pé, assim, sem querer, apenas porque o barman resolveu chacoalhar mais um pouco a bebida em um gracejo. "Ops, foi mal", o outro diz. E você fala que tudo bem e sorri, mesmo querendo esbravejar um "ai" e um "some da minha frente". Você cansou de dilatar as pupilas e sonhar com um aperto sincero. Mas, beleza, pelo menos ele agitou um pouco o marasmo dos seus dias. Um olhar sutil e ele acaba encostando mais quando o cara lá do bar toma um gole. Você percebe que a temperatura do seu novo companheiro pedra é mais alta do que a sua e conclui que ele derreterá muito antes que você o faça. Será mais um a raspar um canto seu e partir para sempre, ainda que aos poucos. Ele não pode evitar, a diluição começou antes mesmo que o travessão fosse colocado na linha inicial do texto. Apesar disso, você ainda tenta. As pessoas superestimam os começos, mas que se há de fazer? Você, mais uma vez, acha que sabe como lidar com a situação. Pode aproveitar um pouco enquanto ele estiver ali com seus detalhes marcantes e abraço acolhedor. Você tenta porque acha que pode sobreviver com um fim a mais. Afinal, você é uma pedra de gelo e não um rato. Já se jogou lá do alto e aguentou diversos tombos. Com pontapés e chutes sabe que lida muito bem. Certo é que essa pedra reluzente, recém tirada do freezer, chegou com o ar ainda desconhecido de quem sabe o que está fazendo. Você sente as tripas se contorcendo com força, movidas pelo receio de animal escaldado. Concatena as ideias e decide que ele é diferente, mas não sabe dizer se isso é bom ou ruim. É estranho, é doloroso antes mesmo de começar a doer.
Você perde um pouco os pensamentos lá longe. Escreve obscuridades tentando ser menos obscura na vida real. Quer criar sua magnum opus, mas não sabe como. Almeja ser o whisky quente e não a pedra de gelo que não aquece. Não derreteu enquanto ainda podia e agora é tarde demais para ir embora. Seus arrependimentos já são vitalícios e você sabe que é sério quando a dor não anestesia; você nada em uma piscina de bebida que arranha e ela ainda está ali, piscando um olho e partindo para a porrada. Mente e corpo parados no tempo e moldados em uma forma que não condiz com a realidade, você continua correndo e não percebe que sua vida sempre esteve em uma esteira, transpirando no mesmo ponto e sem chegar a lugar algum. Pensa, então, que não é pedrinha coisa nenhuma. É um rato de laboratório. E ri, porque isso seria melhor. Não, o futuro de pedra está entalado em seu pâncreas e não há escapatória. Você será obrigada a ver outras pedras caírem por engano onde sempre esteve, a sentir que ainda há uma chance e, mais tarde, a ver tudo virar água líquida dispersa no whisky. Porque, no fim, só quem volta para a vida de congelador é você.
Essa nova pedra que chegou, no entanto, confunde suas ideias antes tão bem delineadas. Ele não quer ser pedra; é inteligente e charmoso demais para um objetivo tão mesquinho. Diz que deseja ficar, que não precisa continuar dobrando as próximas esquinas em busca de novos gostos. A grande diferença, porém, não vem só do que ele faz ou tampouco do que diz. Vem da disparidade entre seus próprios sentimentos, os mais íntimos deles, e de como você se descobre capaz de sorrir novamente. Vem da proteção que, curiosamente, sente emanando daqueles olhos. Da ternura, do tempo que voa e da vontade que você tem de depositar uma ficha de confiança e acreditar naquele colo. Seria esta a primeira saudade saudável de sua vida ou apenas um brinde para amargar mais tarde? Você não sabe e, ainda mais incoerente do que tudo, sente um desejo louco de não descobrir. De continuar caindo de braços abertos para agarrar o que vier, seja um abraço ou o chão. Mas você não pode. Sabe que, caso ainda queira viver, a única coisa que pode agarrar são seus próprios braços cruzados e muito bem fechados. De outra maneira jamais estará segura. Só presa em sua vida de pedra de gelo solitária, privando-se da delícia de se deixar levar, você continuará boiando ao invés de afundar de vez. Só assim - fechando os olhos e deixando que ele procure outros copos onde flutuar e estalar - você estará pagando a apólice de seguro de vida do seu coração. Você já vê as margens dele derretidas e indo embora, mesmo quando ele diz não enxergar nada. Seu grau de miopia é menor que o dele e, portanto, sua visão é mais confiável. Pela terceira vez, você se pega achando que sabe como lidar com a situação, quando a verdade é que não sabe de absolutamente nada. Você não é flexível - dizem as pessoas -, mas ninguém conhece a dor de ser rija e assistir aos diversos fins impostos por sua teimosia. Está perdendo e reconhece isso. Esta poderia ser a chance de deixar de ser pedra para virar outra coisa e continuar navegando, mas você não tem coragem e decide seguir sozinha. Acaba por escolher o chão firme em detrimento do novo salto arriscado e tenta se convencer de que está tudo bem pela milésima vez. É o que tem para hoje: uma garrafa de whisky e umas pedras de gelo indo embora enquanto você fica. Mas até quando? Até quando for você a primeira a partir e não olhar para trás.

domingo, 19 de junho de 2011

Caminho daltônico.

Eu costumava ter um caminho. Bonito, azul claro e imponente. Engraçado, contagiante e sedutor. Tinha pedras difíceis e fendas intransponíveis, mas era meu; dava uns pulos e resolvia tudo sem precisar erguer as mãos para o céu onde tantos procuram respostas. Agora ele se foi e só vejo pelo chão sujeirinhas de borracha branca do que foi apagado. Eu tinha um caminho e agora só o horizonte sem futuro ou pôr do sol. O horizonte nublado dos meus olhos, da minha vida cinza que não quer ser colorida, do meu querer que não sabe ser. A verticalidade irredutível de não saber para onde ir e não ter uma sacola sem rasgos para levar mudas de roupas e escova de dentes. Estou parada onde o caminho acabou. Sem flechas e rastros, só o cinza por todos os lados para combinar com minha alma. A alma quase negra que costumava ser verde, azul como os olhos do caminho, arco-íris. Mas o caminho era você e acabou. As cores acabaram. A vida cansou. Não sei se vou para lá ou para cá. Só queria mesmo ir em frente e te encontrar segurando mais uma vez o sol, aquele que você levou na mochila.
Tomei vinte gotas do remédio para dormir e ainda antes de apagar sobra tempo para pensar em você, no caminho e nas pegadas impressas e ignoradas na terra fofa. Você não é mais você comigo e eu ainda tento ser eu mesma com você porque tentar é tudo que me resta. Eu te quero de verdade e não pela metade. E sei que não sou suficiente. Que há outras vidas para você cruzar, outros ouvidos para sussurrar e trilhas a percorrer. Mas eu estou aqui, parada no caminho que acabou porque não sei seguir em frente quando não houve um ponto final. Eu estaquei sem pedra, sem adeus, sem buraco no chão. Simplesmente parei porque você não jogou mais os pedaços de pão para que eu pudesse te seguir. Deixou de enviar os sinais de fumaça e os moldes pequenos de carinho. Saiu correndo como a lebre e acenou para a tartaruga sedentária que é meu coração. Não há mais nada lá para frente e eu perdi o GPS. O caminho acabou tão abruptamente que, se eu der um passo a frente, há apenas o abismo que você construiu. Pisei com tanto cuidado para não danificar nenhuma lajota, tijolo ou rejunte e agora tudo estragou de uma vez só. A grama foi esmagada e comida por pestes. Os rios estão sujos e o céu tempestuoso. Tudo cinza e triste como os olhos de quem se recusa a enxergar.
A vida passou por mim e eu não consegui agarrá-la como se deve. O cabo de força pendeu para lá e quem caiu fui eu. Disse sim e recuei nas horas erradas. Senti pelas pessoas erradas. Não soube colocar as mãos na nuca do meu caminho e gentilmente convencê-lo a ficar. Não soube dizer o que deveria. Coisas que não estão anotadas em lugar algum, exceto em minhas olheiras, pensamentos tortuosos e sorrisos cabisbaixos. Coisas que você não saberá, porque a única vida que eu conheço é esta que não sabe falar. Esta de destrancar a porta do apartamento, tirar os sapatos, fazer um chamego nos gatos e permanecer em silêncio, querendo meu caminho quando meu caminho já não mais me quer. Ele passou por mim e eu não fui capaz de conquistá-lo. Não ganhei as estradas como Dean Moriarty e Sal Paradise fizeram com maestria. Passei pelo caminho e ele não quis me segurar como eu queria ser segurada.
Seu fim guarda alguma coisa que nós jamais saberemos o que é. Dizem ser algo bom, mas qualificações são relativas. Não confio em mim e muito menos nelas. O final do meu caminho não existe e só posso imaginar como seriam as subidas, descidas e acostamentos que não cheguei a conhecer. Imaginar você como sempre foi, mas sem as dúvidas, confusões, sem a loucura da saudade do que nunca existiu. Agora eu preciso virar as costas e voltar porque acabou. Mas, mesmo enquanto me viro, bolsa atravessando o peito e batendo no quadril, penso: "voltar para quê?". E espero, com os olhos entupidos de lágrimas e soluços engolidos, que você me impeça e que diga que não preciso ir, que ainda há lugar para mim entre suas árvores, areias e terras. Porque não há nada me esperando agora que o caminho acabou. Nada além da solidão no cantinho do meu quarto vazio de persianas velhas. Estou, então, virando as costas e indo embora, mas não porque você está apagado; eu poderia continuar tentando mesmo assim. Andar por aí recolhendo as borrachinhas pelo chão e procurando por uma continuação. Eu poderia. Só não estou pronta para o abismo.
Eu encontrei meu caminho e agora o perdi. Não pude ser o seu porque sou cheia de rachaduras, estradas estragadas e pedregulhos; sem postes de iluminação ou luz natural, sem flores ou cascatas refrescantes, sem cor nenhuma além do cinza. É tarde demais para ser o caminho de alguém. Não sirvo para ser o seu, mesmo quando sei que você era o encaixe do meu. Você, o único caminho que ainda me restava. Você, o concreto que deixava minha vida fluir gostosa sem voar e que grudava meus pés no chão enquanto a mente alucinada viajava. Você, caminho, acabou. Eu acabei aqui também. Mas espero, do fundo do meu coração de pessoa que rabisca sentimentos e poemas, que você continue sendo esse caminho bonito e forte por toda a sua vida, ainda que eu só possa retroceder e abandonar suas curvas, esquinas, desvios e atalhos. Que você continue colorido e não conheça a desilusão de ser cinza. Que não caia jamais no viver daltônico em que eu caí, onde as luzes dos semáforos são todas iguais. Porque você foi o caminho mais lindo e certo que eu já percorri, por mais errado que tenha sido.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Dois menos um é igual a meio.

Sabe, eu sempre fui encantada por todas aquelas partículas de poeira brilhando nas réstias de sol entre frestas de persiana ou aberturas estreitas em cortinas. Para mim era como uma venda suave, a divisão imaginária entre o mundo real e o incrível. Nunca consegui chegar ao incrível, mas a venda sempre esteve ali, esperando para ser puxada e transposta. E eu do lado de cá, no real cruel do seu sumiço repentino. Mesmo hoje, adulta e menos encantada pelo brilho amarelado, não consigo atravessá-lo. Hoje é só bonito, nada mais. Esgotou a magia do outro lado. O tempo de travessia acabou e eu perdi a chance de tentar. Hoje eu sei que a beleza daquele brilho vem da sujeira voando alto sobre nossas cabeças. De um rasgo de sol que deixa nua toda a maldade e o desprezo que não enxergamos no escuro. A beleza vem do feio, do que não foi varrido para baixo do tapete da sala e escondido no cantinho da alma. Da poeira de tudo que ficou para trás, do que você deixou e esqueceu e que hoje se acumula em um só lugar dolorido e sujo de mim. Hoje eu posso olhar a cortina de sol e purpurina e ter a certeza de que a purpurina dourada é falsa e a alegria também. Posso passar horas encarando e procurando o que eu pensava enxergar quando criança, até desistir e levantar do sofá para fechar mais o blecaute e, quem sabe, nocautear minhas invenções e saudades.
Eu não sei o que aconteceu. Se foram meus pés gelados ou as marcações no livro. Alguma coisa escrita errada e ridícula na dedicatória. Se os chocolates estavam vencidos. Se foi o incômodo das minhas visitas inesperadas que você dizia querer. Não sei se foi minha mania de ser observadora e quieta demais ou se foram meus dias endiabrados de querer te ver a todo custo e falar besteiras agudas só para ouvir o som da sua risada. Não sei se foi o fato de não saber te dizer não. Não sei se foi minha solidão, o abandono que eu mesma provoquei, o couro fechado da minha pele tentando salvar a parte mais fina e rasgada. Não sei se estive presente demais ou de menos. Se me importei menos ou muito mais do que deveria. Se fui abusiva, centrada, incompreensível ou compreensível e disponível demais. Eu quis fazer tudo do jeito mais simples e mais verdadeiro e mesmo assim não adiantou. Não sei. Não sei o que foi, qual parte de mim estragou tudo dessa vez. Só sei que nosso dois cheio de voltas delineadas acabou. Eu perdi a graça para o único cara com quem já pensei ser realmente compatível. Aquele que me fez acreditar na irrealidade novamente. Talvez o erro tenha sido acreditar, mas eu só queria saber o que aconteceu. Não sei e não saber é o que dói mais. Se você pudesse me ver agora, talvez diminuísse seu nível de crueldade e dissesse o que eu mereço saber. Tenho tentado abrir os olhos e estender as mãos para a vida, mas ela não segura a minha e fica sempre o espaço vazio agarrado em minha perna. Olha para mim. Me joguei na faxina para tentar me concentrar em catar os tufos de pelo dos gatos ao invés de pensar em você. Acabei chorando em cada cômodo que revirei porque não deu para jogar a tristeza no lixo junto com os entulhos. Olha para mim. Andando de pijamas de inverno pela casa há três ou quatro dias, segurando as mangas com força para sentir que ainda existe alguma coisa além de você. Abraçando travesseiros querendo que fossem suas costas e seus braços. Tomando chá quentinho para abafar o frio que você deixou quando sumiu.
A culpa foi minha por cair em ilusão. Logo eu, que pensei não ser burra a esse ponto. Esperei que suas palavras fossem durar e hoje encaro o silêncio desdenhoso de quem não lembra de mais nada. Não sei mais o que falar sobre você, embora as palavras e o amor não acabem. A verdade é que a gente sempre joga peso no que é leve. É mau hábito e pouca preparação para virar com coração por aí feito pluma. Nós éramos leves. Juntos, éramos leves. E o peso chegou de um lugar desconhecido direto para a sua cabeça e me mandou embora da sua vida. O peso chegou e machucou minha sobrevivência e minha vontade de continuar sorrindo. O peso veio e colocou você em um lado da cidade e eu no outro, sem um ponto de encontro no meio. Nos deixou sozinhos e pesados, mas você já aprendeu a ser leve outra vez enquanto eu ainda tenho dificuldades até para respirar e levantar da cama com tanto peso morto dentro de mim.
Eu preciso de você e da poeira brilhando bonita outra vez. Da magia que não existe, das suas mãos quentinhas segurando as minhas e da sua boca dizendo qualquer coisa abominável que eu consiga filtrar para achar algo bom. Preciso da metade de mim que ficou em seus bolsos. Não estou requerendo amor, estou solicitando devolução. Estorno do amor que te dediquei e da vida que deixei em suas mãos, mãos de trambiqueiro que arranjou negócio melhor e negligentemente deixou de avisar que nosso contrato de felicidade não assinado acabou. Sem carimbo e sem futuro.
Não sei o que foi que te espinhou para longe de mim, mas eu já fui nós dois por muito tempo. Enquanto você era só você, eu nunca consegui ser apenas eu. Era muito pouco. Amei, quis, tentei e fracassei por nós dois. Fui o pedaço do número dois que se importou, a perna que carrega o resto do corpo. Fui nós dois com corpo e coração entregues, mas você queria só o corpo e o coração ficou largado em um saco pardo de pão qualquer, embolorando fora de mim e sendo seu por tanto tempo que não encaixa mais em meu peito agora que tento recuperá-lo. É um coração morto, zumbi que não deixa a paixão passar e morrer também, sempre andando em círculos com seu fedor. Relendo mensagens antigas, relembrando tudo que só traz saudade e tristeza. Eu fui nós dois e meu coração cheirava bem, mas o amor não correspondido e o seu sumiço fizeram o perfume evaporar como vidro de acetona com a tampa aberta. Eu fui por mim e por você o que você não quis ser e hoje entendo que o cálculo está errado. Dois menos um nunca foi igual a um. Não para nós, não para mim. No nosso fim você ganhou. Nós éramos dois, leves, e na nossa subtração você virou dois e meio e eu fiquei com a metade restante. Incompleta, imperfeita e dividida entre a parte de amor que foi embora com você e a destruída que permaneceu em minhas mãos frias, nos rastros descalços pela casa e nos olhos inchados. Você menos eu é igual a você inchado das minhas sobras apaixonadas e eu esquálida sem amor. Dois menos um é igual a meio e nenhum matemático conseguirá me provar o contrário. Eu sei o quanto dói ser metade. Você sabe como é reter a outra.
Se um dia você cansar disso tudo, de ficar com meu pedaço guardado em algum canto do seu apartamento, de ficar longe do meio que é seu, eu aceito a devolução e aceito você. Se cair na real de que o sumiço foi absurdo e infundado e resolver aparecer no olho mágico da minha porta, aceito tremer por você com um pouco ou muito atraso. Se exaurir suas forças ficar procurando um pouco de mulher em cada garota que cruza seu caminho, talvez eu ainda esteja esperando. Porque eu sei que te quero de verdade e não pela metade. Sei que quero nosso dois e que preciso da minha metade escondida no seu armário para conseguir erguer a cabeça e continuar lutando nesse jogo que todos chamam de vida. Eu posso te esperar porque dois devem ser dois e não dois e meio para um e meio para outro. Posso te esperar porque quero de volta minhas réstias brilhosas sendo mais do que poeira ao sol. Quero conseguir atravessar. Quero chegar no incrível do mundo que tem seus abraços e não quero ficar na sua ausência para sempre. Muito menos na minha própria ausência. Volta, então, quando estiver pronto. Volta que eu ainda estarei aqui. Um pouco vazia, maltratada, arisca e volúvel, mas aqui. Volta porque nada pode ficar entre nós, exceto você mesmo. Volta para que eu seja inteira mais uma vez. Volta com o sorriso mais lindo dos livros de história e o envolver mais confortável do meu passado. Volta e traz o futuro, porque o presente foi embora há muito tempo, junto com você.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Talvez ele, talvez eu.

Há esse cara e ele está em algum lugar da cidade. Talvez dirigindo, talvez sentado em um bar, talvez jogando sinuca, truco ou charme para outras mulheres. Talvez comendo uma delas. Ou talvez esteja apenas dormindo com as orelhas cobertas e o corpo aquecido, porque ele é como um bebê. Talvez sozinho, talvez não. Talvez esteja por aí, curtindo qualquer coisa musical com os amigos e bebendo porres divertidos para depois poder contar sobre as coisas fantásticas que fez em sua época de solteiro. Eu costumava saber um ou outro detalhe de sua vida, coisas que achava importantes mas que provavelmente não eram. Pensava que nossas conversas eram bons momentos honestos mas, aparentemente, eu disse as coisas que não deveria ter dito. Agora não sei mais nada, nenhum de seus passos, vontades e programações de fim de semana. Não sei o que o aflige, seu humor e seus motivos. Não sei nada do que eu amava saber simplesmente por saber, sem pressionar, sem perguntar, sem exigir. Só o desejo de absorver aquela beleza incrível que ele tem e nem sabe. As vezes o lugar da cidade onde ele estava eram meus braços. Agora é tudo, menos isso. O cara está por aí, pulando de galho em galho, e eu estou em casa remoendo a saudade de quando o talvez era gostoso de sentir. Quando era incerteza entre sim e talvez, não a garantia entre não e não. Estou presa em mim e nele como se tivesse sido barrada na porta giratória de um banco. Alguma coisa apitou e não é metal, está parecendo mais com amor rejeitado. Tirei as moedas dos bolsos e coloquei no cubo de acrílico junto com uma parte de tudo que sinto, mas você insiste em continuar em mim, mesmo estando em outro abraço.
Há esse rosto que eu não consigo superar e que transforma em histeria o que poderia ser simples. Esse rosto que me assombra por estar tão grudado em minhas lembranças, desenhado com tinta permanente, mas tão longe da realidade. Há a barba que ainda parece estar sedosa entre meus dedos, mas não está. Os olhos que encaravam e questionavam e convidavam e instigavam e hoje fazem isso com outra mulher. Porque tudo era parte de um jogo de olhares que eu não soube sustentar. Ninguém me ensinou a jogar e eu acabei levando goleada de um time que nem existia. Hoje não há mais olhar, só um vão negro me encarando com os olhos inflamados e vermelhos da solidão. Há a boca que analisava meu corpo e que me dava um beijo surpresa de presente quando eu menos esperava. E que falava e falava e falava e não me deixava cansar de ouvir. A boca macia de jeito feroz, o sorriso de quem destila malícia e sabe que pode convencer com poucas palavras e uma jogada de corpo. E eu, que nunca acreditei em nada do que me diziam, mergulhei na profundidade da sua boca e de todas as besteiras deliciosas e falsas que saíam dela. Há a pele que apertava, roçava, encostava e esquentava o frio da minha personalidade como se fosse uma dança. Há as linhas de expressão, o jeito de erguer as sobrancelhas, de encarar com seriedade e perscrutar minha alma procurando por respostas que não interessavam. Tudo dele registrado até mesmo nas minhas impressões digitais. E há a voz. Aquele timbre sedutor de boêmio que sabe o que quer e que sabe que agora já não sou mais eu. A voz sussurrada dizendo coisas inaudíveis e outras tantas que só eu me lembro. A voz que me chamava pelo nome e me enaltecia e que hoje eu não escuto mais. Que me encontrava onde quer que eu estivesse perdida em mim mesma. A voz que agora é silêncio e que outras pessoas ouvem sem, talvez, sentir como eu sentia em cada pelo do corpo. Sem amar como eu amava cada grave e cada agudo.
Há esse número de telefone que não pisca nem alerta mais no meu celular, porque gente esquecida não recebe mensagem. Ao lado do nome há uma foto minúscula que dói muito mais do que seu tamanho deveria permitir. Talvez seja a falta do celular fazendo "bip bip", trazendo um calor estranho e agradável e avisando que era ele, sempre ele. Talvez seja apenas falta de amor, falta de sinceridade, falta de vida. Falta de tudo, porque falta o principal. E o celular só confirma o silêncio da vida real. O esquecimento e a falta de importância. Não apita, não toca, não recebe. E quer mandar, mas já não manda mais depois de tantas tentativas sem resposta. Há esse número que eu preciso discar e não posso, essas mensagens que preciso apagar e não consigo porque não há nada no lugar delas além de silêncio; então elas ficam para lembrar seu nome e um pouco de nós. Não há novas mensagens. Há só o número, uma foto e mais nada. Há o infinito do fim que não me deixa descansar ou ser. E o número. O número me encarando como ele fazia, sem jamais apitar e me trazer o sorriso de antigamente. E a espera de que um dia o telefone toque novamente e seja ele. A espera infundada dos idiotas.
Há essas músicas que tanto me lembram dele e que eu não consigo mais parar de ouvir. É como se o botão "play" estivesse em meu cérebro, tocando o cd de nós dois em um vai e vem interminável. E as músicas não me deixam dormir, ele não me deixa dormir, seu rosto, sua voz, o número silencioso, nada me deixa dormir e tudo me esmaga acordada. E ele, por aí, diz com suas atitudes que isso tudo é o que eu mereço engolir. Mas deixe ao menos que a música desligue e siga seu silêncio jocoso. Ou aumente o som até que eu estoure os tímpanos e não possa ouvir mais nada. Aí, então, a falta de palavras não será tão cruel.
Há esse cara por aí e eu por aqui. Talvez ele não pense mais em mim, talvez nunca tenha pensado. Talvez ele esteja se apaixonando por alguém e eu tenha sido seu passatempo cujo tempo já passou. Porque é assim; o tempo passa e quem nasceu para ser passatempo jamais será mais do que um relógio de pilhas fracas fadado a ser deixado para trás. O único problema é que passatempos também se apaixonam, ainda que não mereçam a oportunidade. Talvez essa imagem de quando ele ficava feliz ao me ver - que me permitia também ser feliz por alguns instantes - seja minha própria vontade ludibriando minha vida. Talvez essa felicidade que eu via jamais tenha existido. Talvez eu tenha sido nada e talvez mereça ser ignorada como tal. Talvez eu tenha errado de tantas maneiras que não consiga sequer enxergar qual foi o erro fatal. Talvez eu seja mesmo errada. Talvez, talvez, talvez. Nenhuma certeza, nenhum veredito além de não ter você. Só o grande e abominável talvez que já foi apaixonante e agora só é doloroso.
De qualquer forma, há você em algum lugar e saber que você existe tem sido o suficiente. Talvez tivéssemos sido nós se você tivesse permitido ou se tivesse me olhado com o fundo dos seus olhos azuis ao invés da superfície deles apenas. Talvez tivéssemos sido eu e você e não só você e só eu, ou você e sabe-se lá quem mais. Talvez, se eu não fosse tão inadequada, tão incompatível, tão imprópria. Se não quisesse tanto você e se não fosse tão incapaz de te fazer enxergar algo de melhor em mim. Talvez, se eu não fosse tão boba e carente da sua companhia. Talvez, se tudo que eu dissesse incomodasse menos. Ou se eu soubesse falar mais ou calar a boca mais cedo. Talvez. Talvez ele, talvez eu. Nunca nós.
 
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