segunda-feira, 27 de junho de 2011

As pedras de gelo do whisky.

Você acha que sabe como lidar com a situação. Diz como é, resolve, arquiteta e, no fim, sai errando até pelos cotovelos. Fazendo da vida uma mola esgarçada que não volta mais à forma compacta. Tenta brincar com o que te amedronta e fazer piada do que é tudo menos engraçado. Veste uma calça quentinha e umas botas de cano longo para encarar o frio dos dias de vento cortante, mas esquece de proteger as orelhas e não tira as mãos dos bolsos nem para recolher do chão aquela moedinha de um real. A geada toma conta dos olhos e congela a vontade de correr por aí. Não tem mais cabelos voando, não tem mais colina verdejante, não tem mais anseio de velocidade. A vida congelou e fez barulho de fita cassete enguiçada no vídeo. Virou um desenho inanimado dentro de um cubo de gelo que não derrete. Uma figura gripada de nariz vermelho e garganta dolorida. Você quer então - já que não passa de uma pedrinha de baixa temperatura - atirar-se dentro de um copo de whisky e boiar no amargo que rasga a dor. Cogita afogar o restinho que ainda tem só para poder mergulhar um pouco mais e sair da zona de conforto que é a superfície rotineira. Você ama paraquedismo, mas resolve se jogar sem mochila desta vez. Talvez para fechar os olhos e curtir o vento pesado lambendo as bochechas, talvez para sentir o choque, talvez para tentar acabar com ele. E nessa de tentar mais uma vez, bate de encontro com a resistência da bebida e dá de cara com o fundo do copo. Esfola os joelhos no atrito bruto que encontrou seu corpo. Lasca uma unha, luxa um músculo, esmaga o coração, lesiona a plica sinovial... Mas tudo bem, vá lá, os ossos ainda estão inteiros e fortes. Dá para continuar nadando um pouco, você pensa.
Uma difusão de gotas vai parar nas paredes do copo quando pedra encontra whisky e você tenta descobrir se é suficiente, mesmo sabendo que não é. Os solitários não exercem sua função com a máxima capacidade de seus neurônios porque sempre há uma saudade a ser sentida primeiro. Você se diz acostumada com a solidão, mas a verdade é que não se esfria whisky com uma pedra só. São necessários outros moradores das forminhas brancas do congelador. O espaço não é só seu, mesmo quando tudo parece bem assim. Logo outra pedra de gelo chega tilintando no copo de cristal e estourando contra sua vida pacata. Você foge como uma louca, dizendo coisas insanas e gritando seu medo doentio, mas não consegue escapar do encontrão inevitável de duas pedrinhas no fluxo de giros para misturar o que não pode ser misturado. Ele esbarra em sua cintura e pisa em seu pé, assim, sem querer, apenas porque o barman resolveu chacoalhar mais um pouco a bebida em um gracejo. "Ops, foi mal", o outro diz. E você fala que tudo bem e sorri, mesmo querendo esbravejar um "ai" e um "some da minha frente". Você cansou de dilatar as pupilas e sonhar com um aperto sincero. Mas, beleza, pelo menos ele agitou um pouco o marasmo dos seus dias. Um olhar sutil e ele acaba encostando mais quando o cara lá do bar toma um gole. Você percebe que a temperatura do seu novo companheiro pedra é mais alta do que a sua e conclui que ele derreterá muito antes que você o faça. Será mais um a raspar um canto seu e partir para sempre, ainda que aos poucos. Ele não pode evitar, a diluição começou antes mesmo que o travessão fosse colocado na linha inicial do texto. Apesar disso, você ainda tenta. As pessoas superestimam os começos, mas que se há de fazer? Você, mais uma vez, acha que sabe como lidar com a situação. Pode aproveitar um pouco enquanto ele estiver ali com seus detalhes marcantes e abraço acolhedor. Você tenta porque acha que pode sobreviver com um fim a mais. Afinal, você é uma pedra de gelo e não um rato. Já se jogou lá do alto e aguentou diversos tombos. Com pontapés e chutes sabe que lida muito bem. Certo é que essa pedra reluzente, recém tirada do freezer, chegou com o ar ainda desconhecido de quem sabe o que está fazendo. Você sente as tripas se contorcendo com força, movidas pelo receio de animal escaldado. Concatena as ideias e decide que ele é diferente, mas não sabe dizer se isso é bom ou ruim. É estranho, é doloroso antes mesmo de começar a doer.
Você perde um pouco os pensamentos lá longe. Escreve obscuridades tentando ser menos obscura na vida real. Quer criar sua magnum opus, mas não sabe como. Almeja ser o whisky quente e não a pedra de gelo que não aquece. Não derreteu enquanto ainda podia e agora é tarde demais para ir embora. Seus arrependimentos já são vitalícios e você sabe que é sério quando a dor não anestesia; você nada em uma piscina de bebida que arranha e ela ainda está ali, piscando um olho e partindo para a porrada. Mente e corpo parados no tempo e moldados em uma forma que não condiz com a realidade, você continua correndo e não percebe que sua vida sempre esteve em uma esteira, transpirando no mesmo ponto e sem chegar a lugar algum. Pensa, então, que não é pedrinha coisa nenhuma. É um rato de laboratório. E ri, porque isso seria melhor. Não, o futuro de pedra está entalado em seu pâncreas e não há escapatória. Você será obrigada a ver outras pedras caírem por engano onde sempre esteve, a sentir que ainda há uma chance e, mais tarde, a ver tudo virar água líquida dispersa no whisky. Porque, no fim, só quem volta para a vida de congelador é você.
Essa nova pedra que chegou, no entanto, confunde suas ideias antes tão bem delineadas. Ele não quer ser pedra; é inteligente e charmoso demais para um objetivo tão mesquinho. Diz que deseja ficar, que não precisa continuar dobrando as próximas esquinas em busca de novos gostos. A grande diferença, porém, não vem só do que ele faz ou tampouco do que diz. Vem da disparidade entre seus próprios sentimentos, os mais íntimos deles, e de como você se descobre capaz de sorrir novamente. Vem da proteção que, curiosamente, sente emanando daqueles olhos. Da ternura, do tempo que voa e da vontade que você tem de depositar uma ficha de confiança e acreditar naquele colo. Seria esta a primeira saudade saudável de sua vida ou apenas um brinde para amargar mais tarde? Você não sabe e, ainda mais incoerente do que tudo, sente um desejo louco de não descobrir. De continuar caindo de braços abertos para agarrar o que vier, seja um abraço ou o chão. Mas você não pode. Sabe que, caso ainda queira viver, a única coisa que pode agarrar são seus próprios braços cruzados e muito bem fechados. De outra maneira jamais estará segura. Só presa em sua vida de pedra de gelo solitária, privando-se da delícia de se deixar levar, você continuará boiando ao invés de afundar de vez. Só assim - fechando os olhos e deixando que ele procure outros copos onde flutuar e estalar - você estará pagando a apólice de seguro de vida do seu coração. Você já vê as margens dele derretidas e indo embora, mesmo quando ele diz não enxergar nada. Seu grau de miopia é menor que o dele e, portanto, sua visão é mais confiável. Pela terceira vez, você se pega achando que sabe como lidar com a situação, quando a verdade é que não sabe de absolutamente nada. Você não é flexível - dizem as pessoas -, mas ninguém conhece a dor de ser rija e assistir aos diversos fins impostos por sua teimosia. Está perdendo e reconhece isso. Esta poderia ser a chance de deixar de ser pedra para virar outra coisa e continuar navegando, mas você não tem coragem e decide seguir sozinha. Acaba por escolher o chão firme em detrimento do novo salto arriscado e tenta se convencer de que está tudo bem pela milésima vez. É o que tem para hoje: uma garrafa de whisky e umas pedras de gelo indo embora enquanto você fica. Mas até quando? Até quando for você a primeira a partir e não olhar para trás.

3 comentários:

Gugu Keller disse...

Há uma academia paranaense de letras? Se houver e dela vc não fizer parte, é porque é pura fachada!
GK

Vini disse...

Concordo com o rapaz no comentário ali de cima =), e como te disse não sei nem o que escrever, uma revisão sobre o texto e tudo mais. O texto é bom demais para tentar escrever qualquer coisa que eu no pouco que sei, posso mensurar e transpor em palavras, senão com gestos
=****

Marinha disse...

Josiana, já falei em outros momentos o quanto admiro teus escritos. Mas desta vez superaste tudo o que já foi postado aqui. Teu texto de uma simplicidade complexa. As palavras escolhidas, as metáforas, o desenrolar da narrativa, tudo beira à perfeição. Parabéns, menina!
Vou colocar o link do texto no meu facebook. Teus escritos merecem ser divididos pela rede.
Bjo
Ah, já ia esquecendo. O Construtora de Palavras está de aniversário e tem uma mensagem para os amigos por lá.

 
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