domingo, 19 de junho de 2011

Caminho daltônico.

Eu costumava ter um caminho. Bonito, azul claro e imponente. Engraçado, contagiante e sedutor. Tinha pedras difíceis e fendas intransponíveis, mas era meu; dava uns pulos e resolvia tudo sem precisar erguer as mãos para o céu onde tantos procuram respostas. Agora ele se foi e só vejo pelo chão sujeirinhas de borracha branca do que foi apagado. Eu tinha um caminho e agora só o horizonte sem futuro ou pôr do sol. O horizonte nublado dos meus olhos, da minha vida cinza que não quer ser colorida, do meu querer que não sabe ser. A verticalidade irredutível de não saber para onde ir e não ter uma sacola sem rasgos para levar mudas de roupas e escova de dentes. Estou parada onde o caminho acabou. Sem flechas e rastros, só o cinza por todos os lados para combinar com minha alma. A alma quase negra que costumava ser verde, azul como os olhos do caminho, arco-íris. Mas o caminho era você e acabou. As cores acabaram. A vida cansou. Não sei se vou para lá ou para cá. Só queria mesmo ir em frente e te encontrar segurando mais uma vez o sol, aquele que você levou na mochila.
Tomei vinte gotas do remédio para dormir e ainda antes de apagar sobra tempo para pensar em você, no caminho e nas pegadas impressas e ignoradas na terra fofa. Você não é mais você comigo e eu ainda tento ser eu mesma com você porque tentar é tudo que me resta. Eu te quero de verdade e não pela metade. E sei que não sou suficiente. Que há outras vidas para você cruzar, outros ouvidos para sussurrar e trilhas a percorrer. Mas eu estou aqui, parada no caminho que acabou porque não sei seguir em frente quando não houve um ponto final. Eu estaquei sem pedra, sem adeus, sem buraco no chão. Simplesmente parei porque você não jogou mais os pedaços de pão para que eu pudesse te seguir. Deixou de enviar os sinais de fumaça e os moldes pequenos de carinho. Saiu correndo como a lebre e acenou para a tartaruga sedentária que é meu coração. Não há mais nada lá para frente e eu perdi o GPS. O caminho acabou tão abruptamente que, se eu der um passo a frente, há apenas o abismo que você construiu. Pisei com tanto cuidado para não danificar nenhuma lajota, tijolo ou rejunte e agora tudo estragou de uma vez só. A grama foi esmagada e comida por pestes. Os rios estão sujos e o céu tempestuoso. Tudo cinza e triste como os olhos de quem se recusa a enxergar.
A vida passou por mim e eu não consegui agarrá-la como se deve. O cabo de força pendeu para lá e quem caiu fui eu. Disse sim e recuei nas horas erradas. Senti pelas pessoas erradas. Não soube colocar as mãos na nuca do meu caminho e gentilmente convencê-lo a ficar. Não soube dizer o que deveria. Coisas que não estão anotadas em lugar algum, exceto em minhas olheiras, pensamentos tortuosos e sorrisos cabisbaixos. Coisas que você não saberá, porque a única vida que eu conheço é esta que não sabe falar. Esta de destrancar a porta do apartamento, tirar os sapatos, fazer um chamego nos gatos e permanecer em silêncio, querendo meu caminho quando meu caminho já não mais me quer. Ele passou por mim e eu não fui capaz de conquistá-lo. Não ganhei as estradas como Dean Moriarty e Sal Paradise fizeram com maestria. Passei pelo caminho e ele não quis me segurar como eu queria ser segurada.
Seu fim guarda alguma coisa que nós jamais saberemos o que é. Dizem ser algo bom, mas qualificações são relativas. Não confio em mim e muito menos nelas. O final do meu caminho não existe e só posso imaginar como seriam as subidas, descidas e acostamentos que não cheguei a conhecer. Imaginar você como sempre foi, mas sem as dúvidas, confusões, sem a loucura da saudade do que nunca existiu. Agora eu preciso virar as costas e voltar porque acabou. Mas, mesmo enquanto me viro, bolsa atravessando o peito e batendo no quadril, penso: "voltar para quê?". E espero, com os olhos entupidos de lágrimas e soluços engolidos, que você me impeça e que diga que não preciso ir, que ainda há lugar para mim entre suas árvores, areias e terras. Porque não há nada me esperando agora que o caminho acabou. Nada além da solidão no cantinho do meu quarto vazio de persianas velhas. Estou, então, virando as costas e indo embora, mas não porque você está apagado; eu poderia continuar tentando mesmo assim. Andar por aí recolhendo as borrachinhas pelo chão e procurando por uma continuação. Eu poderia. Só não estou pronta para o abismo.
Eu encontrei meu caminho e agora o perdi. Não pude ser o seu porque sou cheia de rachaduras, estradas estragadas e pedregulhos; sem postes de iluminação ou luz natural, sem flores ou cascatas refrescantes, sem cor nenhuma além do cinza. É tarde demais para ser o caminho de alguém. Não sirvo para ser o seu, mesmo quando sei que você era o encaixe do meu. Você, o único caminho que ainda me restava. Você, o concreto que deixava minha vida fluir gostosa sem voar e que grudava meus pés no chão enquanto a mente alucinada viajava. Você, caminho, acabou. Eu acabei aqui também. Mas espero, do fundo do meu coração de pessoa que rabisca sentimentos e poemas, que você continue sendo esse caminho bonito e forte por toda a sua vida, ainda que eu só possa retroceder e abandonar suas curvas, esquinas, desvios e atalhos. Que você continue colorido e não conheça a desilusão de ser cinza. Que não caia jamais no viver daltônico em que eu caí, onde as luzes dos semáforos são todas iguais. Porque você foi o caminho mais lindo e certo que eu já percorri, por mais errado que tenha sido.

3 comentários:

Gugu Keller disse...

Sem cores?
Sem problema!
O que pode ser mais intenso do que um amor "noir"?
GK

Anônimo disse...

MENINA....a felicidade nao é uma meta, mas um estado de espirito!!!!!

Vini disse...

prestençao ai na dica do anonimo manola =p UASHUASHAUSHAUHSA
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