sexta-feira, 3 de junho de 2011

Talvez ele, talvez eu.

Há esse cara e ele está em algum lugar da cidade. Talvez dirigindo, talvez sentado em um bar, talvez jogando sinuca, truco ou charme para outras mulheres. Talvez comendo uma delas. Ou talvez esteja apenas dormindo com as orelhas cobertas e o corpo aquecido, porque ele é como um bebê. Talvez sozinho, talvez não. Talvez esteja por aí, curtindo qualquer coisa musical com os amigos e bebendo porres divertidos para depois poder contar sobre as coisas fantásticas que fez em sua época de solteiro. Eu costumava saber um ou outro detalhe de sua vida, coisas que achava importantes mas que provavelmente não eram. Pensava que nossas conversas eram bons momentos honestos mas, aparentemente, eu disse as coisas que não deveria ter dito. Agora não sei mais nada, nenhum de seus passos, vontades e programações de fim de semana. Não sei o que o aflige, seu humor e seus motivos. Não sei nada do que eu amava saber simplesmente por saber, sem pressionar, sem perguntar, sem exigir. Só o desejo de absorver aquela beleza incrível que ele tem e nem sabe. As vezes o lugar da cidade onde ele estava eram meus braços. Agora é tudo, menos isso. O cara está por aí, pulando de galho em galho, e eu estou em casa remoendo a saudade de quando o talvez era gostoso de sentir. Quando era incerteza entre sim e talvez, não a garantia entre não e não. Estou presa em mim e nele como se tivesse sido barrada na porta giratória de um banco. Alguma coisa apitou e não é metal, está parecendo mais com amor rejeitado. Tirei as moedas dos bolsos e coloquei no cubo de acrílico junto com uma parte de tudo que sinto, mas você insiste em continuar em mim, mesmo estando em outro abraço.
Há esse rosto que eu não consigo superar e que transforma em histeria o que poderia ser simples. Esse rosto que me assombra por estar tão grudado em minhas lembranças, desenhado com tinta permanente, mas tão longe da realidade. Há a barba que ainda parece estar sedosa entre meus dedos, mas não está. Os olhos que encaravam e questionavam e convidavam e instigavam e hoje fazem isso com outra mulher. Porque tudo era parte de um jogo de olhares que eu não soube sustentar. Ninguém me ensinou a jogar e eu acabei levando goleada de um time que nem existia. Hoje não há mais olhar, só um vão negro me encarando com os olhos inflamados e vermelhos da solidão. Há a boca que analisava meu corpo e que me dava um beijo surpresa de presente quando eu menos esperava. E que falava e falava e falava e não me deixava cansar de ouvir. A boca macia de jeito feroz, o sorriso de quem destila malícia e sabe que pode convencer com poucas palavras e uma jogada de corpo. E eu, que nunca acreditei em nada do que me diziam, mergulhei na profundidade da sua boca e de todas as besteiras deliciosas e falsas que saíam dela. Há a pele que apertava, roçava, encostava e esquentava o frio da minha personalidade como se fosse uma dança. Há as linhas de expressão, o jeito de erguer as sobrancelhas, de encarar com seriedade e perscrutar minha alma procurando por respostas que não interessavam. Tudo dele registrado até mesmo nas minhas impressões digitais. E há a voz. Aquele timbre sedutor de boêmio que sabe o que quer e que sabe que agora já não sou mais eu. A voz sussurrada dizendo coisas inaudíveis e outras tantas que só eu me lembro. A voz que me chamava pelo nome e me enaltecia e que hoje eu não escuto mais. Que me encontrava onde quer que eu estivesse perdida em mim mesma. A voz que agora é silêncio e que outras pessoas ouvem sem, talvez, sentir como eu sentia em cada pelo do corpo. Sem amar como eu amava cada grave e cada agudo.
Há esse número de telefone que não pisca nem alerta mais no meu celular, porque gente esquecida não recebe mensagem. Ao lado do nome há uma foto minúscula que dói muito mais do que seu tamanho deveria permitir. Talvez seja a falta do celular fazendo "bip bip", trazendo um calor estranho e agradável e avisando que era ele, sempre ele. Talvez seja apenas falta de amor, falta de sinceridade, falta de vida. Falta de tudo, porque falta o principal. E o celular só confirma o silêncio da vida real. O esquecimento e a falta de importância. Não apita, não toca, não recebe. E quer mandar, mas já não manda mais depois de tantas tentativas sem resposta. Há esse número que eu preciso discar e não posso, essas mensagens que preciso apagar e não consigo porque não há nada no lugar delas além de silêncio; então elas ficam para lembrar seu nome e um pouco de nós. Não há novas mensagens. Há só o número, uma foto e mais nada. Há o infinito do fim que não me deixa descansar ou ser. E o número. O número me encarando como ele fazia, sem jamais apitar e me trazer o sorriso de antigamente. E a espera de que um dia o telefone toque novamente e seja ele. A espera infundada dos idiotas.
Há essas músicas que tanto me lembram dele e que eu não consigo mais parar de ouvir. É como se o botão "play" estivesse em meu cérebro, tocando o cd de nós dois em um vai e vem interminável. E as músicas não me deixam dormir, ele não me deixa dormir, seu rosto, sua voz, o número silencioso, nada me deixa dormir e tudo me esmaga acordada. E ele, por aí, diz com suas atitudes que isso tudo é o que eu mereço engolir. Mas deixe ao menos que a música desligue e siga seu silêncio jocoso. Ou aumente o som até que eu estoure os tímpanos e não possa ouvir mais nada. Aí, então, a falta de palavras não será tão cruel.
Há esse cara por aí e eu por aqui. Talvez ele não pense mais em mim, talvez nunca tenha pensado. Talvez ele esteja se apaixonando por alguém e eu tenha sido seu passatempo cujo tempo já passou. Porque é assim; o tempo passa e quem nasceu para ser passatempo jamais será mais do que um relógio de pilhas fracas fadado a ser deixado para trás. O único problema é que passatempos também se apaixonam, ainda que não mereçam a oportunidade. Talvez essa imagem de quando ele ficava feliz ao me ver - que me permitia também ser feliz por alguns instantes - seja minha própria vontade ludibriando minha vida. Talvez essa felicidade que eu via jamais tenha existido. Talvez eu tenha sido nada e talvez mereça ser ignorada como tal. Talvez eu tenha errado de tantas maneiras que não consiga sequer enxergar qual foi o erro fatal. Talvez eu seja mesmo errada. Talvez, talvez, talvez. Nenhuma certeza, nenhum veredito além de não ter você. Só o grande e abominável talvez que já foi apaixonante e agora só é doloroso.
De qualquer forma, há você em algum lugar e saber que você existe tem sido o suficiente. Talvez tivéssemos sido nós se você tivesse permitido ou se tivesse me olhado com o fundo dos seus olhos azuis ao invés da superfície deles apenas. Talvez tivéssemos sido eu e você e não só você e só eu, ou você e sabe-se lá quem mais. Talvez, se eu não fosse tão inadequada, tão incompatível, tão imprópria. Se não quisesse tanto você e se não fosse tão incapaz de te fazer enxergar algo de melhor em mim. Talvez, se eu não fosse tão boba e carente da sua companhia. Talvez, se tudo que eu dissesse incomodasse menos. Ou se eu soubesse falar mais ou calar a boca mais cedo. Talvez. Talvez ele, talvez eu. Nunca nós.

1 comentários:

Gugu Keller disse...

Pois é... Já ouviu falar no "Schrodinger´s cat"? O talvez parece ser mais do que o não... Mas será que lhe é preferível?
GK

 
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