segunda-feira, 25 de julho de 2011

Amor espelhado.

Ela olhava de esguelha para decidir se aquilo era mesmo verdade. O espelho da cozinha a encarava com seriedade brincalhona, tirando sarro das inquisições que o próprio medo incutia em sua mente. Mas estava tudo ali, sem mudar de forma ou cor. Todas as trinta vezes em que vislumbrou a imagem no espelho, enxergou o que nunca vira antes. Pela primeira ocasião em sua vida não era a sombra escura e categórica da solidão que repousava ao seu lado. Seu rosto não estava sozinho e seu olhar, embora melancólico como sempre, não tinha mais o vazio desamparado que costumava tomar suas feições por completo. Os terrores do passado ainda estavam ali e provavelmente sempre estariam, mas agora havia algo além, muito além. Uma mala extra para acompanhar sua mochila surrada. O fardo pesado do passado continuava logo ao lado, porém ganhara um carrinho de transporte para facilitar a locomoção. Ela se aproximou um pouco da imagem e observou as linhas de expressão cansadas, a depressão marcada em cada milímetro de sua pele e nas bolsas sulcadas em torno dos olhos. O sorriso, no entanto, ganhara uma força que ela não saberia explicar. Como se os dentes quisessem aparecer a qualquer custo e os lábios, para realizar esse desejo, franzissem-se por conta própria. Ainda não era um sorriso feliz por inteiro, mas já não havia a dificuldade descomunal de achar graça na vida. Ela tinha uma espécie de vida nova, percebeu. Incompleta, um tanto quanto cheia da mesma amargura de sempre, mas nova. Querendo ser polida para brilhar. Querendo nascer. Esperando o momento do parto para reluzir e chorar de alívio fora da barriga de aluguel do medo.
Ela não estava sozinha, afinal, depois de tantos anos. Comprimindo-se contra sua bochecha fria estava a dele, quentinha e complacente. A inortodoxia da situação deixava sua cabeça dolorosamente confusa no espaço, voando como um helicóptero ruidoso. Frio e calor passavam alternadamente por seu corpo não mais acostumado com abraços. Os cabelos, caindo em cascatas pelos ombros e seios, estavam desalinhados e embaraçados, mas ela não se importava. Ele, aparentemente, tampouco prestava atenção nesse detalhe. Enquanto olhava vidrada para o espelho, conscientizava-se de cada leve movimento involuntário de seu corpo. Os olhos se dilatando. Os pelos se eriçando em um arrepio misto de prazer e pavor. Os cantos da boca tremendo disfarçadamente. Empertigou-se enquanto pensava que, caso as coisas continuassem assim, seu coração incharia de tanto amor e acabaria por matá-la. E morrer assim até que não seria tão ruim para variar um pouco sua morte lenta e inexpressiva de todos os dias.
De repente, sua expressão ficou taciturna. Por cima do fogão, onde ficava o espelho, ela via o corpo dele apertado contra o seu, contornando sua cintura em um abraço aconchegante. E tudo ficou desajeitado como rolar escadaria abaixo. O antigo medo fez sua visita diária e a deixou como um copo transbordando desespero. Ele era lindo e usava a palavra amor com uma facilidade que ela nunca teve. Ele era fresco e delicioso e ela não passava de um café velho, amargo e insosso demais para não ser jogado fora. Seu resto esteve frio, no fundo da cafeteira, por tempo demais; não poderia ser requentado. Em algum momento ele perceberia o mesmo que ela e a derramaria pelo ralo da primeira pia que encontrasse, porque não vale a pena esquentar o que não permanece aquecido.
Mas, então, se tudo tinha por destino o mesmo final lacrimoso, largado e gélido que sempre teve, o que era aquilo que ela via no espelho? Aquele amor que estava ali iludindo - salpicando coragem em ombros cansados - parecia tão real que ela respirou fundo e pensou em acreditar na fotografia bela de vida leve e certeira e não em seu peito já tão cheio de escoriações. Mas essa era a atitude que a levaria a mais uma de suas quedas feias, ela sabia. Não podia mais entrar eufórica no carrinho da montanha-russa, querendo viver todas as suas subidas e descidas ao sabor do vento. Não tinha um suporte forte o bastante para aguentar os loopings sem que o cinto de segurança estourasse e a fizesse dar de cara com o chão, esparramando seu amor para ser pisados por pessoas carregando balões coloridos e tickets de brinquedos. Não - ela decidiu - aquela imagem não era verdadeira. E, ainda que fosse, não seria sua. Era um fantasma brincando com a mente adoentada e a verdade poeirenta. Ao mesmo tempo ela percebeu que tudo aquilo era um sonho tão aterradoramente irreal que teve certeza - como um cego tem a certeza de que nada vê - que aquela imagem tinha vida própria. Se ela mexesse os braços aqui em uma tentativa de fuga, a imagem continuaria sorrindo, realizada, com os braços fixos no mesmo lugar. Aquele amor de espelho era o que ela desejava sentir quando, na verdade, o medo dominava cada um de seus atos, relevantes ou não. Ela quis fechar os olhos e deixar que uma lágrima rolasse. Quis tocar a superfície refletora com a ponta do dedo indicador para ver se, por um acaso mágico, o sólido viraria líquido e a deixaria passar para a fantasia daquela vida flutuante. Aquele casal era lindo no espelho. Na realidade, ela estava destroçada demais para ser linda com quem quer que fosse. Olhou uma última vez na direção do amor espelhado, tentando guardar para sempre o que emanava de lá antes de se afastar daquele abraço. Ela sempre quis a vida que estava naquele espelho, mas acabou com a vida introspectiva que via todos os dias no espelho de seu quarto; aquele que escrevia, acima de sua cabeça, a palavra solidão.

2 comentários:

Vini disse...

Me permita continuar seu texto?
"...Num momento de relance, ela percebeu que aquela imagem sorridente que via no espelho, olhou fixamente em seus olhos de uma forma sombria, afinal como um reflexo imaginário poderia olhar de tal forma? A imagem cresce no espelho, e como num musical, aquele espelho era mágico qualquer por ai (AUSHAUSHAUSHAUHSA), por detrás do espelho havia um ser, que o olhar fixo já não assustava mais, mas passava um fogo por dentro acalentador como uma lareira, ele não a convidou para atravessar, porque ele queria entrar no mundo dela e fazer parte de um pedacinho que ela já insistia não ter mais, porém ele encontrava ali a paz que tanto buscava"
XD sou brega, mas eu tento =)
beijos meu orgulho =*

Gugu Keller disse...

Diante do espelho a solidão é a dois.
GK

 
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