quinta-feira, 28 de julho de 2011

Arte abstrata.

Você diz estar pintando um quadro. Aos poucos, com lentos pingos de uma aquarela colorida, tem tentado desenhar um mundo diferente em minha tela branca e meio envelhecida, cheia de manchas encardidas pelo tempo. Você garante que as coisas não serão para sempre cinzas como já foram e pergunta se, nesse tempo em que estamos tentando pregar juntas nossas mãos, já conseguiu criar algum traço púrpura, verde ou azul anil. Qualquer cor, uma linha sequer. Porque você entende o quanto eu preciso de um arco-íris entre o nublado. Sim, eu respondo, quase soltando uma daquelas piadas infames que invariavelmente começam dizendo "o que é um pontinho...", há um pontinho roxo perdido entre o resto descolorido. Solitário, flutuando entre monstros negros e horripilantes do passado. Uma bolinha sem contorno feita bem no centro do meu coração com a ponta do dedo que você mergulhou no potinho de tinta permanente. Uma gotinha escorre sem secar e sem saber onde parar, distorcendo um trajeto ainda nu e deixando um rastro indefinido bem no meio da relva cinza do meu peito.
Você tenta incutir em mim a ideia de ser uma montanha com cachoeiras, uma casa em um ambiente bucólico, uma mulher seminua estampando um sorriso misterioso à lá Monalisa. Qualquer pintura que tenha forma, senso, cor e vida. Qualquer coisa, desde que seja mais do que fui antes de você. Qualquer coisa mais feliz do que uma peça de Shakespeare. Mas, veja bem, meu amor, eu não passo de uma arte abstrata em tons escuros. Você procura criar belas misturas, paisagens, quem sabe até um casal sorridente, mas eu sou apenas riscos grosseiros e desordenados. Sequências que se intercalam porque nenhuma tem fim. Cores opacas, sem verniz. O que é abstrato não vira pintura renascentista. Sou uma obra para sempre inacabada. Rabiscada como se estivesse faltando luz no estúdio do artista quando fui produzida. Um quadro interrompido porque o pintor o abandonou para se dedicar a algo melhor, uma obra-prima, quem sabe. Meu estilo não é digno de ser alocado em um museu e admirado por visitantes. Sou a ralé, a cópia barata de uma obra famosa, o enfeite pobre de uma parede descascada em uma casa onde entulhos predominam. Fajuta, de contornos nada sutis, falsificada. Não vale a pena empunhar pincel e sujar uma calça jeans tentando me finalizar. Não procure uma camiseta velha que possa ser manchada. Algumas peças não têm conserto, são pedaços impróprios de arte em frangalhos que colecionador algum deseja ter.
Ouvi dizer que todos somos como quadros. Minha terapeuta falou. Todo quadro tem figura principal e plano de fundo. Grande parte do universo vive como a figura principal que deve ser. Aquela que está à frente do tempo, correndo pela vida, sendo qualquer coisa menos a música triste de um piano sem todas as teclas. Os amores, as dores de cotovelo, as lágrimas em travesseiros, os tapas na cara; tudo é figura principal.Tudo deve ser vivido. Não precisa nem ser uma grande vida, basta ser uma vidinha com passos ininterruptos. Eu, por outro lado, por azar ou desgraça, sou o plano de fundo. O medo de chegar lá na frente. Planos de fundo não fazem tentativas, não gostam de arriscar. Estacam os pés em um só lugar porque a zona de conforto do que já se conhece é muito mais fácil. E a gente só dá conta disso; nós, os planos de fundo. Porque o medo tapa nossos olhos, antes de qualquer outra coisa. Nós não figuramos no mundo como belas artes. Somos a camada de trás, a camada dos perdedores sem coragem. Aqueles que não vivem um amor porque têm medo de quebrar a cara inteira e não ter dinheiro para reconstituir o nariz. Que preferem a solidão de um livro porque personagens escritos não podem machucar carne e osso. Que ouvem música só para lembrar do que não podem ou, ao menos, não querem viver. Desejam, mas não querem. Há uma grande diferença aí. Talvez seja só lixar a tela e arrancar tudo isso. Talvez, quem sabe?
Veja, meu amor, eu sou um plano de fundo e você é uma figura principal. Nós poderíamos nos completar, exceto pelo fato de que nossas mãos permanecem distantes por séculos de diferença. Você quer tudo, ainda que tudo o leve a sofrer. Eu quero nada, porque nada é mais seguro. Me pergunto se você continuará tentando pintar, acima do meu cinza fosco, cores vivas e alegres, mesmo quando perceber que não se pode transformar bronze em ouro. Que é complicado demais fazer o galpão abandonado virar circo colorido. Você diz estar pintando um quadro. Mas, assim como eu não sou uma obra-prima, você nunca foi pintor.

2 comentários:

Vini disse...

First! aushaushaushasuha
A obra-prima está nos olhos de quem vê e sente, não se resume somente aos olhares dos críticos ;*
Belo texto, a harmonia que voce traz é impressionante =D
Orgulho meu @.@

Gugu Keller disse...

Melhor que não sejas digna de um museu e seus visitantes. Prefiro mesmo pintá-la só para mim.
GK

 
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