terça-feira, 19 de julho de 2011

HD externo.

Precisa-se de um HD externo com espaço suficiente para memórias de toda uma vida. Não cabe mais em mim essa mistura alucinante de lembranças antigas e pânicos ancestrais. A velharia musical tocando na cabeça e martelando no cérebro a dor do que já passou. O rock'n'roll sem sexo ou drogas. O filme sem protagonista. A falta do essencial e da vontade de ter vontades. De algo que preencha o vazio de uma vitrola sem disco de vinil para rodar. Nada além dessa música infinita repetindo como a risada de um palhaço assassino em uma noite mal dormida. Só a aflição, a saudade de tentar qualquer coisa só para ver se dá para ser feliz e, no fim, conferir que não dá mesmo porque quem reina é a amargura.
Os olhos melancólicos não mentem aos mais atentos; olhos de quem parece estar sempre chorando, disse um cara. O sorriso engana como um ladrão entrando furtivamente em uma casa sem segurança no portão. Larápios entraram em minha vida tantas vezes que eu não entendo a delícia da sua diferença. Roubaram meus sonhos e sono e dispersaram minha consciência. Meu alarme interno agora toca alto, gritando sua vontade de retroceder até o útero seguro e seu pavor de que tudo role ladeira abaixo. Ele berra seu som infernal aos quatro cantos de mim e pede que eu me afaste de tudo o que está surgindo porque aqui não cabe mais. Não sobrou lugar para mais dor, golpes ou porções de amor errôneo. Amor demanda um imenso espaço disponível, terabytes de disco livre para armazenar seus aplicativos complexos. Aqui não cabe mais nada. Já estou transbordando poemas vividos, poetas passados e finais infelizes.
Quando você apareceu, trazendo a promessa de uma mão segura e de amor saudável, eu quis formatar minha vida para te fazer caber a qualquer custo. Tentei expulsar todas as desgastantes memórias para arranjar um lugarzinho onde seu sorriso pudesse ficar. Onde seu abraço não queimasse minha pele desconfiada. Não foi possível porque não se deixam deletar assim os traumas e temores de vinte e tantos anos. Meus poros escorrem mágoa e ceticismo e espalham por aí o aroma da descrença que não me permite achar verdade no que é bonito ou mesmo acreditar que você terá paciência para esperar enquanto eu faço minha mudança lenta e jogo fora os móveis roídos por traças e cupins e os estofados de espuma apodrecida e tecido rasgado. Está tudo tão impregnado, tão grudado no fundo dos meus olhos, que estou cega para a vida. O blecaute impede que eu enxergue seu amor com clareza; faz dele uma massa disforme e embaçada, perigosa demais para que eu aceite aproximação.
Não posso me livrar do passado como quem atira no lixo uma embalagem vazia. Mas ainda há uma saída. Se estou cheia demais para você, preciso encontrar uma maneira de plugar um HD externo em meu peito e transferir as coisas antigas para lá. Depositar nele as corrupções de minha alma e minhas capacidades corrompidas. Assim, quem sabe, meu coração se dilata mais um pouco e renova as forças dos quatro cômodos para te acolher completamente, com paredes reconstruídas e chão brilhando. Permaneceria em mim a vida anterior a você porque é impossível maquiar cicatrizes profundas, mas haveria espaço para encaixar um futuro mais bonito do que já esperei. Um futuro no qual eu possa viver mais uma vez como um carro desgovernado, sem volante, freio ou condutor. Um carro sozinho, como Christine, rodando sem cautela por suas curvas que antes assustavam. Isso pode acontecer. Só preciso de um HD externo para a vida real. Talvez tenhamos que esperar sua invenção.

2 comentários:

Vini disse...

um hd externo é uma boa, ou vc pode compilar os sentimentos anteriores tb, desfragmentar o disco para compactar arquivos, sem contar que pode trocar de hd, ou instalar um hd slave maior, aushauhsuahsuahsuah
no ultimo dos casos, acesse o DOS e digite
format C:
aushaushaushauhsa
Belo texto Jo, você me enche de orgulho =D =***

Gugu Keller disse...

Às vezes a única tentativa restante é a de afinal não tentar nada.
GK

 
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