sexta-feira, 29 de julho de 2011

Hortelã, Chanel e uma bola de sorvete sabor amor.

Essa coisa é preta como azeviche e fria como o mármore de um balcão. Não cabe em mim direito, mas eu tento arranjar espaços extraoficiais porque cansei de ser incompleta e você encaixa tanto em meu molde que até nossos dedos e vontades têm o mesmo número. Eu quero uma mão para segurar a minha na hora de cruzar avenidas movimentadas e me pedir para ter cuidado; você quer segurar minha mão e cuidar de mim. E tudo deveria ficar bem assim, mas nasci com a parte louca falando sempre mais alto. E, então, essa coisa - que, pelo que sei, deveria ser doce como sorvete de trufas - é preta e sabe ser amarga como um remédio ruim quando quer. As vezes a coisa tem seu rosto e suas maneiras, as vezes não passa de um quadrado escuro cercado por grades em todos os lados. E eu corro com o pedaço louco fora da jaula, querendo escapar das suas garras macias porque, caso você crave suas unhas e destile seu amor direto em minha pele, não conseguirei mais fugir. Você tapa o vazio que tanto me assusta do outro lado da cama, mas ele continua espreitando, com suas pupilas vermelhas, pela fresta do guarda-roupa e eu me sinto como um vidro embaçado e fosco, tentando inutilmente proteger minha vida do conhecimento público. E até consigo, mas você espia e fuça e acaba descobrindo coisas que nem eu sabia sobre fragilidades e forças.
Nós andamos pelas ruas de qualquer cidade fria desequilibrando passos sobre o meio-fio ou atravessando a rua fora da faixa de pedestres. Achamos graça nas botas verdes de uma senhora e no chão do segundo andar tremendo enquanto bebericamos o copo de chopp mais caro de nossas vidas. Lá embaixo, na praça de alimentação, a vida corre mais do que anda, o ritmo alucinado da pressa até mesmo em um domingo preguiçoso. Eu sufoco com a golfada do mundaréu de gente e quase tenho uma crise de pânico imaginando alguém lá no meio me encarando como um alvo e querendo me espancar. Olho para você buscando alguma paz e encontro mais do que isso. Calmaria, sossego e a vontade de amar sem a rapidez que sentem as pessoas enfrentando uma fila para comprar comida encaixotada. Você é como eu imaginei que o amor seria antes de vivê-lo como um verdadeiro desastre nas primeiras vezes. É o amor suave de caminhar de mãos dadas pelo shopping olhando peep toes em vitrines e rindo de tudo no meio da multidão. De parar em frente a uma agência de turismo para analisar preços de viagens de navios. É planejar abrir uma conta conjunta só para guardar dinheiro para isso e pensar em depositar junto na leva um pouco mais de nós. É o amor que eu não conhecia antes de ganhar um botão de rosa, um carrinho de coleção, uma lareira acesa, um origami de coração e lições de pôquer em uma página arrancada de caderno.
O problema é que o que é bom sempre traz apetrechos para se travestir de ruim. Botões semiabertos, zíper emperrado, malha amarrotada. Está tudo ali, onde deveria estar, mas com algum defeito cutucando a segurança fraca. Nada fica ordeiramente em seu lugar, sentado no colo como uma criança comportada em seu vestido de chita e sapatinhos de velcro. Eu vejo em você a doçura de cubinhos de caramelo mas, por baixo, no fundo da garganta, fico doendo as formigas que arranham minha solidão. O doce vira um amargo embolotado quando eu raciocino nós dois e vejo o quanto já sou mais sua do que minha. O doce só continua doce quando quem manda é o coração. Quando eu me percebo dormindo em seus braços em uma cama para solteiros e mais confortável do que se estivesse em um colchão king size. Essa coisa pode ser preta como azeviche, sim, mas tem aroma e sabor de hortelã fresquinho e gelado, refrescando tudo com um só raminho entre um beijo e um abraço. Essa coisa, agora percebo, é o amor com seus tremendos truques e falcatruas. O mafioso sedutor. Deveria ser espalhafatosamente colorido, mas é apenas preto. Não ruim, nem clichê. Apenas clássico e elegante como Chanel. Lindo como Chanel. Machuca, as vezes, quando a consciência grita, mas uma folha de hortelã acalma e um beijo caramelo açucara tudo novamente. Essa coisa, antes tão estranha, chegou causando um vício absurdo e eu, que tanto tentei escapar, hoje me vejo pedindo todos os dias mais uma bola do seu sorvete sabor amor. Ele não derrete e deixa o potinho de sobremesa cada vez mais cheio. Até que, um dia, o estoque acabe e só reste pistache, crocante e outros sabores comuns.

5 comentários:

Vini disse...

Me emocionei...
Adianto que na minha sorveteria, bola de sorvete de amor, so tem pra você =)
E o estoque pra esse tipo de sorvete é imensurável.
Um super beijo de quem te ama ;)

Gugu Keller disse...

A completude não é para os vivos.
GK

Marinha disse...

Perfeito!!! Emocionante!!! O sentimento conduz tuas palavras e isso envolve o leitor, querida. Amo estar aqui!
Bjooo

Elaine Freitas disse...

Linda!

Que saudade de vc! Faz tempão que não passo por aqui e nem recebo tuas visitas!

Suas palavras me emocionam...

Beijinhos no ♥

Marinha disse...

Saudade de teus textos, menina escritora! :)
Bjooo

 
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