quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Ultimate Fighting Championship.

As luzes se apagaram e as primeiras notas de TNT começaram a retumbar no espaço. Pareciam vir de outro planeta, suas ondas sonoras penetrando acusticamente em todas as cabeças presentes. Ela entrou no octógono no auge de sua adrenalina. Luzes azuis apontavam para sua figura miúda, evidenciando a derrota que estava por vir. Se dependesse de sua força de vontade, porém, derrubaria todos os oponentes. Aceitara vestir aquela roupa ridícula e curta por um bem maior. Calçara as luvas, a placa de proteção nos dentes, aplicara vaselina no rosto para os socos deslizarem mais e machucarem menos. Não que ela acreditasse muito que isso aconteceria. O mais provável é que saísse dali com o nariz quebrado e contusões feias espalhadas pelo corpo. Mas estava disposta a tentar porque o troféu valia a pena. Não havia um centavo envolvido, nada que pudesse custear as despesas que ela teria com o hospital mais tarde. Também não tinha uma equipe para ajudá-la; trabalhava completamente sozinha. Treinara um pouco, mas sabia que não era o suficiente. De qualquer forma, o importante era tentar. Já desistira de muitas coisas em sua vida antes mesmo de buscar alternativas para conquistá-las. Já desistira de si mesma há muito tempo. Agora era hora de lutar.
O troféu era ele e, com certeza, valia muito mais do que cinturão, ouro, dinheiro ou qualquer outra coisa. O troféu era o abraço mais perfeitamente encaixado com o seu que já conhecera. Era um combo, um pacote incluindo ele, o amor e a felicidade a dois que ela nunca teve. A felicidade, enfim. Era justo que precisasse lutar por isso, já que absolutamente nada viera fácil em sua vida. Sofrera nas mãos de outras pessoas sem nem mesmo arreganhar os dentes. Como ele costumava dizer, ela não tinha sentimentos de vingança. Apenas, naquele momento, sabia que deveria usar todas as poucas cartas que tinha para que sua própria burrice não o mandasse embora. Não era de braços abertos que iria ganhá-lo, mas sim de punhos cerrados, lutando contra os adversários de peso pesado que travariam contra ela monstruosas batalhas internas. O palco dessa UFC era o peito dela onde, até então, tudo sempre descambara para o lado errado.
O primeiro deles foi o Cinismo. Chegou recebendo aplausos e ela poderia jurar que as apostas estavam todas a favor dele. O próprio apresentador não continha o êxtase em falar sobre as qualidades daquele cara. A vitória era praticamente certa. Ele era honesto, forte como um touro e pesado como um bloco de cimento. A crença que circulava pelas arquibancadas era de que ele a detonaria em menos de trinta segundos, afinal, ela já estava mesmo meio entregue à sua condição. Cinismo a encarou com aqueles olhos que questionavam se ela gostaria mesmo de lutar. Ela não tinha certeza. Mas, ainda assim, adiantou-se um pouco com expressão assustada no rosto. Pensou no troféu, o homem que amava. Se quisesse incluí-lo em sua vida, deveria derrubar o Cinismo fossem quais fossem os prejuízos e, caramba, só ela sabia como seriam inúmeros. Toda a sua proteção e segurança iriam embora com o oponente caso ela pudesse vencê-lo. Estaria à mercê de tudo que já a amedrontara antes, tudo que assombrara sua vida e fizera dela um martírio terrível. Enquanto pensava nisso, levou um soco que a derrubou no chão com violência. Era o Cinismo dizendo “você não é capaz de me vencer, sou parte da sua vida; você jamais acreditará em alguém novamente porque, na sua cabeça, o mundo inteiro é uma mentira”. Ela fraquejou perante isso mas uma névoa negra tomou sua mente. “Você viveu me assombrando até hoje e agora quebra o meu nariz? Não vai funcionar assim dessa vez, seu filho da puta”. Antes que ele pudesse prosseguir, ela se ergueu em um só pulo e partiu para a luta agarrada. Visões de que valia a pena tentar amar aquele cara que segurava sua nuca com tamanho carinho passaram entre eles e foram fortes o bastante para que Cinismo batesse as mãos no ringue declarando desistência. “Toma essa, brutamontes”, ela gritou sorrindo.
Ela venceu a primeira barreira e, assim, aceitou o primeiro beijo de seu troféu. Foi no primeiro dia do inverno e algo retorceu seu estômago em sinal de pânico. Agora precisaria detonar o Medo de Amar e a batalha seria ainda mais intensa. Sua vida inteira foi restrita nesse ponto. Admitir amor era uma fraqueza que ela não se permitia ter. Por isso seu sofrimento sempre foi silencioso, calado atrás do box do banheiro onde a água escorria e ela poderia chorar sem que ninguém ouvisse soluços. Agora, mais do que não admitir, ela também não aceitava a ideia de amar alguém. “Para quê?”, pensava. O amor era sempre inútil e, no final das contas, não trazia mais do que uma dor nada compacta. Mas ele chegou aos poucos. Com seu jeito amável e gentil, respeitando suas diferenças e loucuras, rindo de suas besteiras, achando-a linda mesmo quando estava vestindo pijamas velhos e arrebentados. Enquanto ela tinha vergonha de si mesma, ele sentia orgulho em mostrá-la por aí. Ele merecia amor, ainda que ela achasse que ninguém no mundo era realmente digno de tamanho sentimento. Ok, ela o amava mesmo. Perceber isso foi como receber golpes sequenciais em seu peito, barriga e cintura. Doeu. Ela tentou resistir. Tentou jogar o amor fora, no lixeiro mais próximo, para impedir seu crescimento. Mas ele não desistia. A cada basta dela, era um passo à frente dele. Passos de formiga, muito cuidadosos, até que ele estivesse tão próximo que ela não poderia mais dobrar os braços para empurrá-lo. Estava presa em seus braços, desfalecendo de amor. Refazendo todo esse caminho em sua mente, ela partiu para a briga com o tal Medo de Amar. Não queria machucá-lo; ele a salvara de muitas coisas antes. Mas era necessário desta vez. Ele tentou avisá-la: “Você precisa de mim para não esgotar suas últimas forças para viver, não faça isso. E se não der certo? E se ele deixar sua vida ainda mais caótica?”. Mas ela não retrocedeu. Golpeou intensamente o adversário - que antes fora seu amigo - até que o médico decidiu que Medo de Amar não poderia continuar no combate graças a uma lesão brutal. Contrariado, Medo de Amar foi obrigado a sair do ringue. Infelizmente não derrotado. Ele voltaria a assombrá-la mais tarde, certo como dois e dois são vinte e dois, como diria seu irmão, Diogo.
E assim, luta após luta, a improvável campeã foi detonando seus oponentes e conquistando os títulos necessários para que pudesse viver seu amor. Depois de brigar com caras como Mentira, Depressão, Desconfiança, Relutância, Inferioridade, Decepções e tantos outros, ela estava acabada. Eles lhe pregaram peças cruéis, deixando-a apaixonada, mas selvagem e armada. Podia amar agora, mas a que custo? Estava quebrada de todas as maneiras que um corpo pode se quebrar. Sangue escorria de alguns ferimentos, hematomas roxos e esverdeados começaram a se formar em diversas regiões, os olhos estavam colados de tão inchados pelos socos. Os órgãos pareciam espatifados e ela sentia como se estivesse tomada por uma hemorragia interna muito intensa. A dor era arrebatadora. A Mentira, principalmente, fizera um grande estrago nela. O trabalho de recuperação seria enorme mas, para sua surpresa, ele estava ao seu lado para apoiá-la. Fazia compressas em seus ferimentos, controlava seus remédios e, principalmente, aquecia seu coração rachado e quase congelado. A luta valera mesmo a pena, afinal. Ela poderia reconstruir tudo que estava detonado, agora sabia disso. Ele estava ali, não fora embora antes do término do evento. Estivera esperando por ela, fazendo jus a todos os esforços pessoais que ela exercitou. E, enquanto ela o abraçava depois de tanta guerra, sentia duas coisas. O maligno Medo de Amar apontando suas garras lá no fundo, mas sendo oprimido, com muita força, pela recompensa do amor.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Memórias póstumas de um batom vermelho.

Ele se achava o máximo. Tingindo a boca da moça, acreditava ser o único a ter exatamente a cor do amor. Nunca lhe ocorreu que estava mais para tom de sangue derramado, talvez até mesmo por um amor corrompido. Não, ele se via no espelho como a paixão suprema. O detentor da sofisticação estilosa. Era o top dos batons e estava no topo da escala. Não poderia, no entanto, queixar-se mais tarde de não ter sido avisado do que estava por vir em sua vidinha de cinco gramas, pois seus companheiros de necessaire bem que tentaram baixar sua bola. O rosa era indiferente, não gostava dele, mas o batom nude, com seu tom cor de pele apagadinho, recomendou-lhe certa vez que fosse cauteloso, pois acabaria levando um tombo esmagador. "Cuidado, camarada, somos todos iguais, independente da cor. Se ela não estiver feliz, você não poderá sorrir por conta própria. Funcionamos em comensalismo com o sorriso dela", disse ele. Mas o vermelho, egocêntrico demais para enxergar um palmo além de seu próprio tubinho Dior, achou aquilo uma besteira e, mais do que isso, despeito. Seu ego era estufado demais para que pudesse ouvir qualquer coisa de um ser diminuto usado durante o dia. Admirando-se no espelho enquanto ela dava os últimos retoques na maquiagem, pensou no quanto a tornava poderosa. "Você é feliz por ter coragem de me usar, garota. Nem todas têm. Os caras desejarão sua boca e as mulheres terão as entranhas reviradas de inveja", refletiu. Narcisista como só ele poderia ser, deixava que cada partícula sua fosse feliz cintilando naquela boca. Afinal, se parte dele fora retirada do tubo para a realidade de uma noite, tinha de ser porque era bonito o bastante. Nude, humildemente muito mais sábio, deu um último aviso: "Batons se apagam durante a noite, não se esqueça disso".
A moça foi para a tal festa um tanto quanto infeliz. Era uma data importante, mas sentia-se horrível. Estava inquieta e preferiria ter ficado em casa, mas a obrigação social falou mais alto desta vez. Calçou os saltos e usou o batom que era, normalmente, o cano de escape para que se sentisse um pouco melhor. Pintou os lábios até que ficassem muito vermelhos e impecáveis, mas não conseguia sorrir. Só mostrava os dentes ao cumprimentar um conhecido ou para fingir um pouquinho de felicidade. O batom ouviu coisas que o enalteceram. Uma mulher comentou sobre a "make bafônico" da moça, exatamente com essas palavras. Ela deu um risinho tímido e agradeceu, enquanto as partículas em sua boca pululavam por todos os lados em comemoração. "Somos as estrelas da noite", pensavam. O namorado da moça não a beijava para não estragar a boca desenhada com perfeição. Gostava de vê-la e exibi-la assim, arrumada como uma peça de arte. Ela preferiria estar enfiada em seus pijamas, sem batom algum, dissolvendo seus medos no abraço mais tenro que já conhecera, mas tentava abrir os braços e se divertir um pouco.
O batom vermelho curtia a vibe da música animada. Entre um drink e outro, perdia um pouco de si nas bordas das taças de cristal mas sabia que continuava mais sexy do que os demais. Dançava e rebolava na boca da moça, fazendo bundalelê para todos que passassem à sua volta. Sobrepujava os outros como se fossem adversários de uma batalha de estilo da qual somente ele realmente participava. "Sou o cara", pensava. Até que ela precisou ir ao banheiro. Quando ele se olhou no espelho pela terceira vez na noite, enxergou algo diferente. Estava um pouco apagado em algumas regiões, como se estivesse morrendo aos poucos. Evaporando, sumindo sem deixar lembrança viva alguma. Ela o retocou com cuidado mas, antes que ele pudesse respirar aliviado, olhou para cima e enxergou os olhos da moça, levemente maquiados para não ofuscar o brilho escarlate da boca. Aqueles olhos estavam estranhos. Melancólicos, fixos no nada e um pouco brilhantes demais... Céus, aquilo eram lágrimas! A moça estava chorando ele não entendia por que, já que estivera sorrindo lá fora. Bom, o sorriso não parecia tão sincero, mas, ainda assim, poxa! Dessa forma ela acabaria estragando a pele acetinada que compunha a maquiagem. Um batom vermelho não é bonito se a pele não estiver complacente. Ele sabia disso. Queria gritar para que ela parasse de chorar e não o estragasse, mas nada podia fazer. Ela sentou no sofá chique do banheiro, segurando um pedaço de papel na mão para secar os cantos dos olhos. Algumas pessoas pararam para perguntar o que acontecera. Ainda existe bondade no mundo, ela pensava, mas respondia apenas que estava tudo bem, sustentando um sorriso que nem mesmo sabia ser comovente e deprimente.
O batom, por sua vez, perdera a euforia do começo da noite. Sentia-se agora apenas mais um derretendo na tristeza daquela mulher. O nude falara algo a respeito disso antes que ele saísse de casa, não? Não se lembrava direito. Era algo sobre ser feliz apenas se a dona da boca também estivesse. Ele estava cabisbaixo agora. De que adiantava deixá-la bela se ela não se sentia assim? Captando os pensamentos da moça, entendeu que tudo o que ela enxergava no espelho era um monstro, fosse qual fosse a cor do batom. Ele estava inflado de orgulho e adoração por si, mas foi murchando como uma flor arrancada da terra. Se tivesse glândulas, choraria também. Não por solidariedade, mas pela ingratidão pela qual estava passando. Enquanto pensava nisso, a moça levantou e dirigiu-se ao espelho. Corrigiu as falhas do rosto, respirou fundo e empurrou a porta para voltar à balburdia do salão. Sorriu para o namorado, dizendo estar tudo bem. Sorriu para os amigos. Sorriu. O batom se animou um pouquinho, mas já não tanto quanto antes.
A noite foi longa. Ele teria adorado em outra ocasião, quando aquela tristeza súbita não tivesse chacoalhado seus instintos. Ele agora parecia estar imerso nos pensamentos da moça. Coisas voavam por cima dele, especialmente a inferioridade que ela sentia. Ele não servira para confortá-la. Falhara em seu único propósito de vida, o de levar beleza e autoestima a quem o usasse. Era um fracasso. Quando a moça chegou em casa e pôde, enfim, arrancar aquele vestido preto sufocante, os saltos altos e as joias, ele já não passava de um espírito opaco rejeitado. Enquanto ela lavava a boca, ele via seus restos escorrendo pela pia e deixando a água tingida por um leve tom avermelhado. Era sua morte, seu fim. Ela secou a boca e um pouco dele ficou esmagado na toalha branca e felpuda. Resquícios seus que lembrariam para sempre suas últimas horas de vida, podendo escrever essas memórias posteriormente. A gente sempre continua amando o que já passou só porque de alguma forma ficou marcado na pele. Ele amava ser vermelho, amava ser Dior, amava ser poderoso. E acabou morrendo parcialmente esmagado, parcialmente derramado pela água fria. Foi parar na bolsa de uma pessoa que não dava a mínima para seu glamour. Preferia que ela tivesse estraçalhado seu tubinho na primeira vez em que o viu. Doeria menos, provavelmente, do que se sentir inútil e incapaz.
"Ele foi literalmente embora pelo ralo, sabe. Morreu decepcionado, achando que não prestava para porcaria nenhuma. Aquela vaca o fez sentir assim, coitadinho. Era um batom tão bom em vida...", contaram, por fim, os restos da toalha antes de irem parar na máquina de lavar roupas.

Doze rosas e uma cólica renal.

Quando toca a música triste no celular é que eu percebo que ela já não é tão triste assim. O som tem sua memória e lembra alguma coisa, mas já nem sei exatamente o que. Perdi minhas chaves, guardei o controle remoto dentro do armário de louças e a calcinha lavada na gaveta errada. Abro a geladeira para pegar água e esqueço de bebê-la. Não sei se é loucura, pura desatenção ou só mesmo o tal do amor. Espero que seja uma das duas primeiras opções, mas algo me diz que não. Você, com suas palavras bem articuladas, diz que não. Fala que é amor, com certeza, e que sabe que eu te amo. Pode ser. Eu também acho que te amo. Só o problema do controle remoto e das chaves é que me faz acreditar mais na desatenção. E a loucura é perpétua, vem do tempo em que meus cabelos ainda eram cortados em formato de tigela dourada.

Mas não há como negar. Devo mesmo estar amando porque até o choro tem ficado entre sorrisos. Quero te dar um gole do meu Martini com gelo e cereja e beijar sua boca com sabor de Halls, só para sentir a pele macia do seu peito de encontro ao meu. Quero te dar um gole da minha vida também, mas sou meio seca por dentro e você pode não gostar. Na dúvida, fique com o Martini que é mais garantido. Ou me faça um daqueles seus drinks com limão. Vamos beber juntos porque há um querer muito denso em mim. Um querer aqui no fundo, confesso, mas eu tomo Prozac e outros remédios que podem confundir meu raciocínio. Então não sei em que pé estou. Eu acho que te amo mais do que sinto que amo, porque minhas drogas farmacêuticas amenizam tudo que cresce em mim. Elas destroem sementes, sejam de plantas tóxicas ou apenas de pequenas violetas. A única coisa que cresce sem parar é o efeito protetor do seu abraço quente e apertado.

Acho que entendi por que tudo parece tão confuso em relação a você. Eu não amava mais e nem acreditava nisso. Fui do amor à cautela e da cautela ao amor. Amei antes e espatifei a cara e o corpo todo. Deixei o copo cheio cair e derramar minhas ilusões. Foi mais do que não dar certo, foi o reverso da moeda, o antônimo de amar. Foi o soco, a paulada, o nocaute de um bom lutador do outro lado do ringue. Eu enfrentei, mesmo sem jamais ter usado uma luva de boxe. Fui parar desnorteada e inconsciente no chão, fazendo mais do que sofrer. Esqueci de muitas coisas, mas lembrei de acabar comigo mesma. Engoli litros e mais litros de qualquer marca de bebida. Sozinha. Uma voz dizia que eu estava sozinha. Fiquei encarando garrafas e mais nada por dias inteiros e dezenas de quartos de horas. Escorada em travesseiros, meio sentada e meio deitada em qualquer posição torta e desconfortável, com olhos de quem não enxerga mais nada. Eu não enxergava nada mesmo além da parede ficando distorcida com imagens assustadoramente reais. Palhaços selvagens, homens perigosos. O fim do mundo chegando só para mim. E meus olhos nem aí, um tanto quanto fechados para sempre. A garrafa ao lado, bem na mira da mão e no caminho da boca. Eu queria dar um fim à dor. Queria dizer que acabou de vez. Tudo.

Nessa época eu não tinha problemas renais, mas tinha centenas de outras dores mais complicadas. Ferroadas de angústia, palpitações de solidão, gritos histéricos de amor estragado que ulcerou o estômago. O rim não doía, assim como o fígado. Ambos sabiam que eu tinha mais com que me preocupar. Eram meus apoios e, caso fossem para o pau, já era. Eu bebia para injetar sono na mágoa e no desprezo e não passava mal, exceto pelo fato de não aceitar luz no quarto. Janela fechada, porta trancada, gente batendo sem resposta. Penso ter ouvido meu nome algumas vezes, mas dei de ombros e joguei um copo em direção à parede como resposta. O computador ligado tocando blues e rock com a tela apagada para não iluminar. Éramos eu, o breu e a bebida. O trio parada dura. A cabeça deitada no travesseiro pesa menos, ainda que cheia das mesmas ignorâncias e saudades. O estômago cheio de etílico pesa, mas manda embora as nuvens negras cerebrais. Nem sempre; as vezes só aumenta a tempestade. E as semanas passavam assim. Lá fora, quando me dava ao luxo de sair, usava roupas bacanas e um sorriso simpático com olhos de mosca morta. Aqui dentro era pior que uma mendiga; morria um pouco a cada dia e torcia para que o inferno acabasse de uma vez. E nunca acabava. O ar esgotava dos pulmões porque a dor não deixa respirar. Eu queria morrer e estava francamente tentando, ainda que sem medidas drásticas. Tornei-me cautelosa com os homens por achar que não havia em mim mais nada a ser destruído e revidei todo e qualquer sinal de começo de amor ou outras babaquices. Do amor à cautela, como eu disse. Entre tantas coisas erradas, ao menos uma saudável. Eu tinha cautela estampada até mesmo na testa. Só não a usava para minha própria saúde.

E então apareceu você; seu charme imensurável travando uma batalha contra minha cautela forte e ranzinza. Eu dizia que não e você acreditava no sim. Abria a porta e você estava sempre ali, sorrindo e me elogiando. Como qualquer outro faria, disse meu ceticismo como um pequeno ser ao pé do ouvido. A grande diferença é que você não foi embora. Quero dizer, a diferença mesmo é que você era tão educado que abria a porta do carro para que eu entrasse. Mas, enfim... Você continuou ali mesmo quando eu quis trancar nossa porta para sempre. Mesmo quando eu disse chega, não dá mais. As bebidas diminuíram, a solidão do quarto escuro também. Até que chegaram as rosas de um mês. Doze rosas vermelhas, graúdas e lindas como se não tivessem brotado, mas nascido da terra mais delicada do mundo. Um buquê maior que meus braços, inflado de tanto amor. Minha proteção caiu por terra e a cautela estourou como um balão cheio de água respingando por todo lado. Em um instante eu voltei ao amor. Estive pisando em pedrinhas afiadas por toda a vida e, de repente, elas se tornaram pedras polidas e arredondadas. Não deixam de machucar a sola dos pés, mas não cortam. Todo o amor chegou como uma névoa causando vertigem. Expulsou a situação deplorável com um chute para nunca mais voltar. Nada de noites e dias sentada em uma cama. Chega disso, suas rosas disseram. Olhe para nós, somos magníficas, imaculadas e suas. Somos o símbolo do sentimento verdadeiro do rapaz. Você só nos merecerá se for imaculada também. Se conseguir carregar amor.
E meu rim esquerdo infartou. Quando viu que o coração estava feliz, menos sobrecarregado e poderia aguentar, gritou pela ajuda que sempre precisou e nunca pôde pedir. A cólica renal não foi uma vingança. O pobre rim simplesmente não suportou mais o pesadelo de sua vida. Ele fez o que pôde, segurando as pontas enquanto todo o resto estava uma bagunça irreparavelmente dolorosa. E, quando enfim pôde respirar, desmaiou em sua dor inflamada. Precisou de hospital, medicação e repouso. Berrou de dor até expelir duas ou três pedrinhas. Agora está bem, em uma clínica de reabilitação chamada Amor e Cia Ltda.
Com o tempo troquei diversas coisas. Troquei tudo que vivi em 22 anos pela felicidade de dois meses. As músicas são apenas músicas, a cautela está em seu devido lugar, referindo-se apenas ao necessário. O amor está em um espaço ainda bastante restrito, mas tem aumentado sua cerquinha branca dia após dia. A vida ressurgiu fora do abismo do quarto que já cheirava azedo. Não há mais mofo enclausurado. Eu precisei ter uma cólica renal para sentir menos dor em outros lugares de mim. Precisei ter uma cólica renal e você segurando minha mão no hospital para perceber que a vida é mais do que isso. Eu acho que te amo mesmo. E descobri isso graças a doze rosas e uma cólica renal. Ou estou louca. Ou ainda desatenta. Não sei. Só sei que, apesar das fisgadas que não dormem em meu peito, hoje há muito mais de felicidade em mim do que há três meses. Hoje eu viro o rosto sem medo quando alguém chama meu nome. Abro a porta caso alguém bata. Hoje eu vivo. Mas não tenho como saber se isso é realmente o que penso que é. Pode ser amor. Pode ser desatenção. Ou, de repente, não passa mesmo de uma grande e satisfatória loucura. Mas ela tem seu rosto. Seu abraço. Suas falas. Ela é você e, então, que seja loucura para sempre.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Cotonete sujo.

Isso de ser maravilhosa é um tanto contraditório. O mundo exige um bater de pernas forte e um piscar de olhos delicado, com cílios de boneca de porcelana e pele de pêssego mas, as vezes, só o que tenho é exatamente o contrário. Pele marcada pelo sol e por experiências tão ruins que criaram sulcos profundos. Fragilidade para continuar movendo os pés e dobrando os joelhos após um baque. Os olhos cerrados com firmeza para deglutir lágrimas pré-fabricadas. Chorar nunca esteve na moda nem é sinônimo de beleza. Eu não acho que seja meiga com o nariz entupido e as feições inchadas e molhadas por sabe-se lá quem ou o que. Para falar a verdade, até mesmo naquele exato instante em que choro sem querer sair da cama sei que sou uma completa idiota. Chorar não resolve e dá dor de cabeça. Sorrir ajuda e eu não tenho conseguido me ajudar. Pode até doer a mandíbula ou uma região carnosa mais sensível do coração no começo mas, eventualmente, ajuda. Pode levar dois meses. Três, cinto, oito. Pode demorar, enfim. Mas sorrir vale à pena e em algum momento essa verdade suprema bate na porta como o frio quando chega antes do primeiro dia de inverno. É surpreendente e traz uma voracidade pela vida que até assusta. Dizem, é claro. De voracidade eu não entendo mais nada há muito tempo. Estou na seca dela. Abstinência de comprazer e regozijo sincero, fazer o quê?
Eu sorri por anos a fio sem nem mesmo crer na covinha franzida das bochechas. Ouvi múltiplas vezes que meu olhar era melancólico e perdido e, também múltiplas vezes, perdi a oportunidade de responder que isso se dava porque eu mesma estava perdida. Meus dentes pareciam amarelados e tinham gosto de enterro. E enterro não tem gosto, mas é só imaginar um misto de terra, madeira e cadáver. Tudo isso com gente chorando ao redor. Bingo, faz sentido. Vivia com a sensação de enterro corroendo o peito. Um velório constante de todos os sentimentos e incertezas, onde a única a estar de luto era eu. Todo mundo usando roupas floridas, gargalhando e eu miúda como uma formiga fugindo de pisadas. Tentando gritar sem voz e correr sem conseguir sair do lugar. Mas aí vem a tal questão contraditória porque o mundo... Ah, o mundo não quer saber. Eu aprendi, compreendi e já nem acho tão ruim aquele peso extra que carrego como pedras atadas aos ombros. Ele me faz ter mais tempo para a inteligência da boa leitura e me dá melhores ideias sobre o que rabiscar tristemente no caderno velho que repousa ao lado da cama junto com a caneta quase sem tinta. Mas o sorriso é obrigatório e, de tanto sorrir de mentirinha, acabei esquecendo como é abrir a boca para rir de verdade. Nem mesmo as piadas idiotas encantam mais porque troquei sabiamente a falsa alegria por Nietzsche, Hemingway e outros clássicos da literatura. Fechei-me em fones de ouvido, em páginas centrais de grandes romances e de outros não tão grandes assim, e em fotografias dos velhos tempos. Sinto apenas o que ainda me é permitido sentir. Saudade. As chicotadas do tempo. A maldição de ser sempre pior, menos, pouco. O resto é proibido e amar já entrou nessa cartela. Minha imagem no espelho se contorce de repugnância. "Quem é você, afinal?", ele pergunta. Eu já nem sei. Sou um resto qualquer do que já fui. Sinto muito.
Cada sorriso meu para o mundo é como uma cutucada a mais de um cotonete. Aquela pontinha insistente de algodão fica ali batendo o dia inteiro, sete dias por semana, em um peito que tanto precisa de umas férias em um casebre no meio da neve fofa. Um lugar para deitar no macio gelado e congelar as lágrimas até que elas não caiam mais. Férias com lareira, bonecos de neve com nariz de cenoura, pegadas grandes e vistas que tragam ao menos uma euforia bucólica verdadeira. Um lugar onde sejamos eu e a neve e o mundo nos deixe em paz. Mas o cotonete do sorriso bate, bate, bate até que fura, como a tal água mole em pedra dura que cantarolam por aí na sabedoria cultural brasileira. Abre um buraco na tristeza dolorida por onde, finalmente, alguma alegria consegue entrar. E ela encanta. E entorpece mais do que a neve. Uma nesga de amor e de brilho em tudo que já estava apagado e melancólico. Só o tamanho de um dedal, mas o calor do sentimento é fantástico. Não o suficiente para que a vontade de pentear os cabelos, tirar o pijama e abrir a porta volte, mas é um começo. Talvez seja apenas o impulso pela sobrevivência porque ficar assim, desfalecendo em tristeza absoluta em um quarto fechado, é quase um fim de vida. É como ser um zumbi com rotina exata. Acordar, trabalhar, almoçar, trabalhar, ir para a academia, tomar banho, tomar pílulas, deitar, sofrer, ter pesadelos e começar tudo de novo sem descansar, câmbio. Vistoriar ambientes com olhos apáticos e vidrados, sem ânimo até para piscar. Mas há o impulso. Ele está guardado em algum lugar, esperando o momento em que seja de vital importância sua presença. Aguarda que o cotonete fure a membrana da solidão e saia com seu algodão sujo, limpando um pouco da tristeza, para então poder agir e dar uns socos no peito parado, dizendo "acorda seu bunda mole, tá na hora de voltar a bater com mais força". Talvez seja esse impulso que ainda me conserve viva e tentando. Talvez seja o dedal de amor que você me trouxe. Ou talvez o cotonete não tenha conseguido furar minha barreira e por isso ainda seja a dor a rainha de tudo que sinto. Talvez não seja nada e meus olhos continuem perdidos como sempre. Talvez a tal verdade suprema de que sorrir vale a pena tenha pulado minha porta. Talvez meu cotonete continue limpo para sempre.

Canivete suíço.

As coisas acontecem assim. Alguém vai e eu fico. Alguém resolve ficar e eu não sei se vou ou se tiro os sapatos e descanso os pés na calmaria da mesinha de centro que é a estabilidade. Ela está sempre ali, entre sofás, suportando as intempéries. Mas não posso, agora me recordo. A guerreira da minha mãe sempre ensinou que pés devem ficar no chão ou no máximo encolhidos no sofá da sala. Acabo metida na porcaria de uma vida instável porque, por fim, resolvo manter distância da mesa. Posso estar ferrada, mas não vou ferrar com mais ninguém. Se colocar um copo suado ali, criará bordinha molhada. Se encostar a mão no tampo, imprimirei digitais. Como tudo em minha vida, o vidro fica marcado fácil demais e eu não quero a responsabilidade de danificar o que não é meu. É moleza transgredir ordens e regras, mas eu sou a legítima politicamente correta sem sal. Deixo a mesinha ali, limpa e com sua vidinha pacata e passo longe para que ela não suje com minhas tristezas imundas. Porque é só encostar e "pluft". Sei disso. Já pressionaram muito meu coração com a força das mãos, do desprezo e das solas dos pés. Hoje ele está cheio de estrias de dedos polegares que passaram, espremeram para sugar o suco sabor amor e se foram. Desenhado até demais ele está e, diferentemente de um espelho, não dá para passar uma flanelinha com álcool ali. Depois que o coração vira um velho carcamano, não reluz mais e pronto.
Ok, garota, mas as coisas sempre são assim e você está cansada de saber. Hoje há vida sorridente e suco de laranja com gelo e gominhos. Amanhã, talvez, o auge seja um pacote de suco em pó industrializado quente e uma ponta de vontade de sumir para acompanhar. Ou muito mais que uma ponta; um corpo inteiro de vontade de sumir. Para qualquer lugar, nem que seja o escuro de um cinema onde telespectadores liguem mais para as lágrimas da protagonista da telona do que para seu choro debulhado e pegajoso. Um cinéfilo até apreciaria o rolo todo, quem sabe. Uma garota chorando sozinha em um lugar escuro e vazio, sem medo de fantasmas e alucinações porque a vida real é muito mais assustadora. Mas não. Você não quer plateia, nem que ela seja de uma pessoa só. Grita para que te deixem em paz, mas nem todo mundo obedece. Você gostaria de sumir, sim, mas sozinha. Aí, então, poderia tacar os dedos na mesa de vidro só por birra e observar a marca grudada sem se preocupar em deixar a vida sempre aparentemente limpa, com a sujeira escondida embaixo do tapete. Poderia botar os pés para cima e provocar uma rachadura no que tenta ser imaculadamente perfeito, mas não é. A superfície plana, bem como seu rosto maquiado, foi trabalhada para garantir que todas as dores fiquem enterradas. É como engolir o choro quando tudo que você precisa é chorar para aliviar a garganta. A dor está ali, coçando e ardendo em lugares inalcançáveis, mas você aprendeu a fingir que um curativo de gaze resolve até mesmo uma fratura exposta. Sem anestesia porque, garota, isso é coisa de gente fraca e você deve ser forte como um touro, sem jamais titubear.
Há sempre uma decisão a ser tomada e opções demais para apenas uma mente pensante. Cérberus, com suas três cabeças mitológicas, daria-se melhor do que eu. Três cérebros para uma escolha é mais justo, afinal, o sim e o não nunca se delineiam sozinhos; sempre há o talvez, o porém e o "se" com reticências. Desse jeito: eu te amo, sim, mas não dá para sumir te carregando pelo braço. Te quero, mas talvez deva me contentar com o etílico acessível em mercados e botecos. Preciso ir para lá, mas fico parada aqui, cansando os joelhos e embaraçando os cabelos, só para poder te admirar mais um pouco e memorizar sua pele quentinha e macia. Quero um beijo, mas viro o rosto, porque lembro que preciso ir embora. Mais fácil é deixar o pensamento adormecer, mas nem mesmo sei quais são os passos para ninar a parte mais insone de mim. Meu pensamento talvez seja uma eterna criança insolente dançando as pernas magras em um balanço de pneu. Toma impulso na terra batida e sobe, crescendo os ombros e fechando os olhos para deixar o vento bater na cara. Exprime um sorriso, aceitando a euforia daquilo. E desce - com o vento agora golpeando as costas - até quase o nada novamente. Retrocede até perto do zero, como as coisas sempre acabam e precisam recomeçar. Sobe de novo, dessa vez mais alto. Até parece que o mundo lá em cima é mais bonito e lhe pertence. A sensação da felicidade basta, não é preciso ser feliz de verdade. Afinal, até aquela mentirinha curta é mais do que o pensamento já viveu durante tantos anos. E nesse sobe e desce, a criança acaba perdendo o equilíbrio por se empolgar demais. Lá do alto mais alto, cai estatelada no chão, esfolando cada membro e sujando de terra as bochechas, a roupa branca e todo o resto. O choro é iminente, mas não serve para nada. A decepção é carniceira e ficou esperando lá embaixo de braços abertos, sabendo que sua hora de deboche chegaria mais cedo ou mais tarde. E antes cedo do que nunca, ela diria.
Mas como eu disse, são opções demais. Você, eu, nós, a solidão, os planos, as mentiras, o cancelamento dos mesmos planos, as descrenças e a confiança leve. As coisas quebradas. A vida não passa de um canivete suíço cujas ferramentas confusas devem ser administradas com a cautela e a paciência que muitos - como eu - não têm. Não sei qual instrumento usar para acalmar as turbulências e tenho feito das tripas coração para achar respostas desde que me disseram: "toma, você cresceu e já pode lidar com isso". Mas, porra, é um canivete, não uma varinha mágica. É chave de fenda, lixa, tesoura. É sorriso, susto, hipocrisia. Sem manual de instruções porque, ou você sabe dirigir sua vida ou bota o pé no pedal errado. Você ganha o canivete e a vida é toda sua. O que fazer dela é assunto seu e escolha pessoal. Alguns metem o bedelho, mas esses são os mais inúteis. Como manejá-la você é obrigado a descobrir sozinho. A tarefa é árdua e nem todos conseguem. E eu, do topo da minha solidão desenfreada, tento cada item com a esperança do triunfo, sem jamais obter um resultado favorável. A queda é cada vez mais brusca e o chão parece cada vez mais longe. São trilhas demais em um só canivete-vida. Mais fácil seria jogar o canivete no oceano mas, ou a vida vai junto, ou você vira catatônico para sempre. Não há liberdade quando uma algema lhe prende ao canivete. Não há saída que não venha dele, nem opção extra que parta de outro lugar. Mas opção extra para quê, se você já possui tantas e nenhuma é agradável? O canivete é sua vida e sua vida é o canivete. Mas, para compensar a escravidão, ele tem duas ou três lâminas feitas especialmente para o caso de você cansar de abrir os olhos para a sujeira pela manhã. É um bom negócio, afinal de contas.
 
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