segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Canivete suíço.

As coisas acontecem assim. Alguém vai e eu fico. Alguém resolve ficar e eu não sei se vou ou se tiro os sapatos e descanso os pés na calmaria da mesinha de centro que é a estabilidade. Ela está sempre ali, entre sofás, suportando as intempéries. Mas não posso, agora me recordo. A guerreira da minha mãe sempre ensinou que pés devem ficar no chão ou no máximo encolhidos no sofá da sala. Acabo metida na porcaria de uma vida instável porque, por fim, resolvo manter distância da mesa. Posso estar ferrada, mas não vou ferrar com mais ninguém. Se colocar um copo suado ali, criará bordinha molhada. Se encostar a mão no tampo, imprimirei digitais. Como tudo em minha vida, o vidro fica marcado fácil demais e eu não quero a responsabilidade de danificar o que não é meu. É moleza transgredir ordens e regras, mas eu sou a legítima politicamente correta sem sal. Deixo a mesinha ali, limpa e com sua vidinha pacata e passo longe para que ela não suje com minhas tristezas imundas. Porque é só encostar e "pluft". Sei disso. Já pressionaram muito meu coração com a força das mãos, do desprezo e das solas dos pés. Hoje ele está cheio de estrias de dedos polegares que passaram, espremeram para sugar o suco sabor amor e se foram. Desenhado até demais ele está e, diferentemente de um espelho, não dá para passar uma flanelinha com álcool ali. Depois que o coração vira um velho carcamano, não reluz mais e pronto.
Ok, garota, mas as coisas sempre são assim e você está cansada de saber. Hoje há vida sorridente e suco de laranja com gelo e gominhos. Amanhã, talvez, o auge seja um pacote de suco em pó industrializado quente e uma ponta de vontade de sumir para acompanhar. Ou muito mais que uma ponta; um corpo inteiro de vontade de sumir. Para qualquer lugar, nem que seja o escuro de um cinema onde telespectadores liguem mais para as lágrimas da protagonista da telona do que para seu choro debulhado e pegajoso. Um cinéfilo até apreciaria o rolo todo, quem sabe. Uma garota chorando sozinha em um lugar escuro e vazio, sem medo de fantasmas e alucinações porque a vida real é muito mais assustadora. Mas não. Você não quer plateia, nem que ela seja de uma pessoa só. Grita para que te deixem em paz, mas nem todo mundo obedece. Você gostaria de sumir, sim, mas sozinha. Aí, então, poderia tacar os dedos na mesa de vidro só por birra e observar a marca grudada sem se preocupar em deixar a vida sempre aparentemente limpa, com a sujeira escondida embaixo do tapete. Poderia botar os pés para cima e provocar uma rachadura no que tenta ser imaculadamente perfeito, mas não é. A superfície plana, bem como seu rosto maquiado, foi trabalhada para garantir que todas as dores fiquem enterradas. É como engolir o choro quando tudo que você precisa é chorar para aliviar a garganta. A dor está ali, coçando e ardendo em lugares inalcançáveis, mas você aprendeu a fingir que um curativo de gaze resolve até mesmo uma fratura exposta. Sem anestesia porque, garota, isso é coisa de gente fraca e você deve ser forte como um touro, sem jamais titubear.
Há sempre uma decisão a ser tomada e opções demais para apenas uma mente pensante. Cérberus, com suas três cabeças mitológicas, daria-se melhor do que eu. Três cérebros para uma escolha é mais justo, afinal, o sim e o não nunca se delineiam sozinhos; sempre há o talvez, o porém e o "se" com reticências. Desse jeito: eu te amo, sim, mas não dá para sumir te carregando pelo braço. Te quero, mas talvez deva me contentar com o etílico acessível em mercados e botecos. Preciso ir para lá, mas fico parada aqui, cansando os joelhos e embaraçando os cabelos, só para poder te admirar mais um pouco e memorizar sua pele quentinha e macia. Quero um beijo, mas viro o rosto, porque lembro que preciso ir embora. Mais fácil é deixar o pensamento adormecer, mas nem mesmo sei quais são os passos para ninar a parte mais insone de mim. Meu pensamento talvez seja uma eterna criança insolente dançando as pernas magras em um balanço de pneu. Toma impulso na terra batida e sobe, crescendo os ombros e fechando os olhos para deixar o vento bater na cara. Exprime um sorriso, aceitando a euforia daquilo. E desce - com o vento agora golpeando as costas - até quase o nada novamente. Retrocede até perto do zero, como as coisas sempre acabam e precisam recomeçar. Sobe de novo, dessa vez mais alto. Até parece que o mundo lá em cima é mais bonito e lhe pertence. A sensação da felicidade basta, não é preciso ser feliz de verdade. Afinal, até aquela mentirinha curta é mais do que o pensamento já viveu durante tantos anos. E nesse sobe e desce, a criança acaba perdendo o equilíbrio por se empolgar demais. Lá do alto mais alto, cai estatelada no chão, esfolando cada membro e sujando de terra as bochechas, a roupa branca e todo o resto. O choro é iminente, mas não serve para nada. A decepção é carniceira e ficou esperando lá embaixo de braços abertos, sabendo que sua hora de deboche chegaria mais cedo ou mais tarde. E antes cedo do que nunca, ela diria.
Mas como eu disse, são opções demais. Você, eu, nós, a solidão, os planos, as mentiras, o cancelamento dos mesmos planos, as descrenças e a confiança leve. As coisas quebradas. A vida não passa de um canivete suíço cujas ferramentas confusas devem ser administradas com a cautela e a paciência que muitos - como eu - não têm. Não sei qual instrumento usar para acalmar as turbulências e tenho feito das tripas coração para achar respostas desde que me disseram: "toma, você cresceu e já pode lidar com isso". Mas, porra, é um canivete, não uma varinha mágica. É chave de fenda, lixa, tesoura. É sorriso, susto, hipocrisia. Sem manual de instruções porque, ou você sabe dirigir sua vida ou bota o pé no pedal errado. Você ganha o canivete e a vida é toda sua. O que fazer dela é assunto seu e escolha pessoal. Alguns metem o bedelho, mas esses são os mais inúteis. Como manejá-la você é obrigado a descobrir sozinho. A tarefa é árdua e nem todos conseguem. E eu, do topo da minha solidão desenfreada, tento cada item com a esperança do triunfo, sem jamais obter um resultado favorável. A queda é cada vez mais brusca e o chão parece cada vez mais longe. São trilhas demais em um só canivete-vida. Mais fácil seria jogar o canivete no oceano mas, ou a vida vai junto, ou você vira catatônico para sempre. Não há liberdade quando uma algema lhe prende ao canivete. Não há saída que não venha dele, nem opção extra que parta de outro lugar. Mas opção extra para quê, se você já possui tantas e nenhuma é agradável? O canivete é sua vida e sua vida é o canivete. Mas, para compensar a escravidão, ele tem duas ou três lâminas feitas especialmente para o caso de você cansar de abrir os olhos para a sujeira pela manhã. É um bom negócio, afinal de contas.

2 comentários:

Gugu Keller disse...

Já te disseram, garota, que vc tem um quê de Holden Caulfield?
GK

Vini disse...

Canivete-vida, interessante! Gostei quando mencionou as lâminas, realmente são uteis para cortar o limão e fazer aquele drink show de bola! =D
Adorei seu texto amor! ^^

 
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