segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Cotonete sujo.

Isso de ser maravilhosa é um tanto contraditório. O mundo exige um bater de pernas forte e um piscar de olhos delicado, com cílios de boneca de porcelana e pele de pêssego mas, as vezes, só o que tenho é exatamente o contrário. Pele marcada pelo sol e por experiências tão ruins que criaram sulcos profundos. Fragilidade para continuar movendo os pés e dobrando os joelhos após um baque. Os olhos cerrados com firmeza para deglutir lágrimas pré-fabricadas. Chorar nunca esteve na moda nem é sinônimo de beleza. Eu não acho que seja meiga com o nariz entupido e as feições inchadas e molhadas por sabe-se lá quem ou o que. Para falar a verdade, até mesmo naquele exato instante em que choro sem querer sair da cama sei que sou uma completa idiota. Chorar não resolve e dá dor de cabeça. Sorrir ajuda e eu não tenho conseguido me ajudar. Pode até doer a mandíbula ou uma região carnosa mais sensível do coração no começo mas, eventualmente, ajuda. Pode levar dois meses. Três, cinto, oito. Pode demorar, enfim. Mas sorrir vale à pena e em algum momento essa verdade suprema bate na porta como o frio quando chega antes do primeiro dia de inverno. É surpreendente e traz uma voracidade pela vida que até assusta. Dizem, é claro. De voracidade eu não entendo mais nada há muito tempo. Estou na seca dela. Abstinência de comprazer e regozijo sincero, fazer o quê?
Eu sorri por anos a fio sem nem mesmo crer na covinha franzida das bochechas. Ouvi múltiplas vezes que meu olhar era melancólico e perdido e, também múltiplas vezes, perdi a oportunidade de responder que isso se dava porque eu mesma estava perdida. Meus dentes pareciam amarelados e tinham gosto de enterro. E enterro não tem gosto, mas é só imaginar um misto de terra, madeira e cadáver. Tudo isso com gente chorando ao redor. Bingo, faz sentido. Vivia com a sensação de enterro corroendo o peito. Um velório constante de todos os sentimentos e incertezas, onde a única a estar de luto era eu. Todo mundo usando roupas floridas, gargalhando e eu miúda como uma formiga fugindo de pisadas. Tentando gritar sem voz e correr sem conseguir sair do lugar. Mas aí vem a tal questão contraditória porque o mundo... Ah, o mundo não quer saber. Eu aprendi, compreendi e já nem acho tão ruim aquele peso extra que carrego como pedras atadas aos ombros. Ele me faz ter mais tempo para a inteligência da boa leitura e me dá melhores ideias sobre o que rabiscar tristemente no caderno velho que repousa ao lado da cama junto com a caneta quase sem tinta. Mas o sorriso é obrigatório e, de tanto sorrir de mentirinha, acabei esquecendo como é abrir a boca para rir de verdade. Nem mesmo as piadas idiotas encantam mais porque troquei sabiamente a falsa alegria por Nietzsche, Hemingway e outros clássicos da literatura. Fechei-me em fones de ouvido, em páginas centrais de grandes romances e de outros não tão grandes assim, e em fotografias dos velhos tempos. Sinto apenas o que ainda me é permitido sentir. Saudade. As chicotadas do tempo. A maldição de ser sempre pior, menos, pouco. O resto é proibido e amar já entrou nessa cartela. Minha imagem no espelho se contorce de repugnância. "Quem é você, afinal?", ele pergunta. Eu já nem sei. Sou um resto qualquer do que já fui. Sinto muito.
Cada sorriso meu para o mundo é como uma cutucada a mais de um cotonete. Aquela pontinha insistente de algodão fica ali batendo o dia inteiro, sete dias por semana, em um peito que tanto precisa de umas férias em um casebre no meio da neve fofa. Um lugar para deitar no macio gelado e congelar as lágrimas até que elas não caiam mais. Férias com lareira, bonecos de neve com nariz de cenoura, pegadas grandes e vistas que tragam ao menos uma euforia bucólica verdadeira. Um lugar onde sejamos eu e a neve e o mundo nos deixe em paz. Mas o cotonete do sorriso bate, bate, bate até que fura, como a tal água mole em pedra dura que cantarolam por aí na sabedoria cultural brasileira. Abre um buraco na tristeza dolorida por onde, finalmente, alguma alegria consegue entrar. E ela encanta. E entorpece mais do que a neve. Uma nesga de amor e de brilho em tudo que já estava apagado e melancólico. Só o tamanho de um dedal, mas o calor do sentimento é fantástico. Não o suficiente para que a vontade de pentear os cabelos, tirar o pijama e abrir a porta volte, mas é um começo. Talvez seja apenas o impulso pela sobrevivência porque ficar assim, desfalecendo em tristeza absoluta em um quarto fechado, é quase um fim de vida. É como ser um zumbi com rotina exata. Acordar, trabalhar, almoçar, trabalhar, ir para a academia, tomar banho, tomar pílulas, deitar, sofrer, ter pesadelos e começar tudo de novo sem descansar, câmbio. Vistoriar ambientes com olhos apáticos e vidrados, sem ânimo até para piscar. Mas há o impulso. Ele está guardado em algum lugar, esperando o momento em que seja de vital importância sua presença. Aguarda que o cotonete fure a membrana da solidão e saia com seu algodão sujo, limpando um pouco da tristeza, para então poder agir e dar uns socos no peito parado, dizendo "acorda seu bunda mole, tá na hora de voltar a bater com mais força". Talvez seja esse impulso que ainda me conserve viva e tentando. Talvez seja o dedal de amor que você me trouxe. Ou talvez o cotonete não tenha conseguido furar minha barreira e por isso ainda seja a dor a rainha de tudo que sinto. Talvez não seja nada e meus olhos continuem perdidos como sempre. Talvez a tal verdade suprema de que sorrir vale a pena tenha pulado minha porta. Talvez meu cotonete continue limpo para sempre.

2 comentários:

Gugu Keller disse...

Sorrisos bucais são fáceis demais. Os com os olhos é que realmente contam.
GK

Vini disse...

So espero que tenha calefação no casebre! auhsuahsauhsasuhuaha
Gostei mais do que o canivete suiço!
Estou numa maratona de leitura dos seus textos aqui de madrugada, nao aguentei esperar ate amanha de manha
=*

 
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