terça-feira, 30 de agosto de 2011

Doze rosas e uma cólica renal.

Quando toca a música triste no celular é que eu percebo que ela já não é tão triste assim. O som tem sua memória e lembra alguma coisa, mas já nem sei exatamente o que. Perdi minhas chaves, guardei o controle remoto dentro do armário de louças e a calcinha lavada na gaveta errada. Abro a geladeira para pegar água e esqueço de bebê-la. Não sei se é loucura, pura desatenção ou só mesmo o tal do amor. Espero que seja uma das duas primeiras opções, mas algo me diz que não. Você, com suas palavras bem articuladas, diz que não. Fala que é amor, com certeza, e que sabe que eu te amo. Pode ser. Eu também acho que te amo. Só o problema do controle remoto e das chaves é que me faz acreditar mais na desatenção. E a loucura é perpétua, vem do tempo em que meus cabelos ainda eram cortados em formato de tigela dourada.

Mas não há como negar. Devo mesmo estar amando porque até o choro tem ficado entre sorrisos. Quero te dar um gole do meu Martini com gelo e cereja e beijar sua boca com sabor de Halls, só para sentir a pele macia do seu peito de encontro ao meu. Quero te dar um gole da minha vida também, mas sou meio seca por dentro e você pode não gostar. Na dúvida, fique com o Martini que é mais garantido. Ou me faça um daqueles seus drinks com limão. Vamos beber juntos porque há um querer muito denso em mim. Um querer aqui no fundo, confesso, mas eu tomo Prozac e outros remédios que podem confundir meu raciocínio. Então não sei em que pé estou. Eu acho que te amo mais do que sinto que amo, porque minhas drogas farmacêuticas amenizam tudo que cresce em mim. Elas destroem sementes, sejam de plantas tóxicas ou apenas de pequenas violetas. A única coisa que cresce sem parar é o efeito protetor do seu abraço quente e apertado.

Acho que entendi por que tudo parece tão confuso em relação a você. Eu não amava mais e nem acreditava nisso. Fui do amor à cautela e da cautela ao amor. Amei antes e espatifei a cara e o corpo todo. Deixei o copo cheio cair e derramar minhas ilusões. Foi mais do que não dar certo, foi o reverso da moeda, o antônimo de amar. Foi o soco, a paulada, o nocaute de um bom lutador do outro lado do ringue. Eu enfrentei, mesmo sem jamais ter usado uma luva de boxe. Fui parar desnorteada e inconsciente no chão, fazendo mais do que sofrer. Esqueci de muitas coisas, mas lembrei de acabar comigo mesma. Engoli litros e mais litros de qualquer marca de bebida. Sozinha. Uma voz dizia que eu estava sozinha. Fiquei encarando garrafas e mais nada por dias inteiros e dezenas de quartos de horas. Escorada em travesseiros, meio sentada e meio deitada em qualquer posição torta e desconfortável, com olhos de quem não enxerga mais nada. Eu não enxergava nada mesmo além da parede ficando distorcida com imagens assustadoramente reais. Palhaços selvagens, homens perigosos. O fim do mundo chegando só para mim. E meus olhos nem aí, um tanto quanto fechados para sempre. A garrafa ao lado, bem na mira da mão e no caminho da boca. Eu queria dar um fim à dor. Queria dizer que acabou de vez. Tudo.

Nessa época eu não tinha problemas renais, mas tinha centenas de outras dores mais complicadas. Ferroadas de angústia, palpitações de solidão, gritos histéricos de amor estragado que ulcerou o estômago. O rim não doía, assim como o fígado. Ambos sabiam que eu tinha mais com que me preocupar. Eram meus apoios e, caso fossem para o pau, já era. Eu bebia para injetar sono na mágoa e no desprezo e não passava mal, exceto pelo fato de não aceitar luz no quarto. Janela fechada, porta trancada, gente batendo sem resposta. Penso ter ouvido meu nome algumas vezes, mas dei de ombros e joguei um copo em direção à parede como resposta. O computador ligado tocando blues e rock com a tela apagada para não iluminar. Éramos eu, o breu e a bebida. O trio parada dura. A cabeça deitada no travesseiro pesa menos, ainda que cheia das mesmas ignorâncias e saudades. O estômago cheio de etílico pesa, mas manda embora as nuvens negras cerebrais. Nem sempre; as vezes só aumenta a tempestade. E as semanas passavam assim. Lá fora, quando me dava ao luxo de sair, usava roupas bacanas e um sorriso simpático com olhos de mosca morta. Aqui dentro era pior que uma mendiga; morria um pouco a cada dia e torcia para que o inferno acabasse de uma vez. E nunca acabava. O ar esgotava dos pulmões porque a dor não deixa respirar. Eu queria morrer e estava francamente tentando, ainda que sem medidas drásticas. Tornei-me cautelosa com os homens por achar que não havia em mim mais nada a ser destruído e revidei todo e qualquer sinal de começo de amor ou outras babaquices. Do amor à cautela, como eu disse. Entre tantas coisas erradas, ao menos uma saudável. Eu tinha cautela estampada até mesmo na testa. Só não a usava para minha própria saúde.

E então apareceu você; seu charme imensurável travando uma batalha contra minha cautela forte e ranzinza. Eu dizia que não e você acreditava no sim. Abria a porta e você estava sempre ali, sorrindo e me elogiando. Como qualquer outro faria, disse meu ceticismo como um pequeno ser ao pé do ouvido. A grande diferença é que você não foi embora. Quero dizer, a diferença mesmo é que você era tão educado que abria a porta do carro para que eu entrasse. Mas, enfim... Você continuou ali mesmo quando eu quis trancar nossa porta para sempre. Mesmo quando eu disse chega, não dá mais. As bebidas diminuíram, a solidão do quarto escuro também. Até que chegaram as rosas de um mês. Doze rosas vermelhas, graúdas e lindas como se não tivessem brotado, mas nascido da terra mais delicada do mundo. Um buquê maior que meus braços, inflado de tanto amor. Minha proteção caiu por terra e a cautela estourou como um balão cheio de água respingando por todo lado. Em um instante eu voltei ao amor. Estive pisando em pedrinhas afiadas por toda a vida e, de repente, elas se tornaram pedras polidas e arredondadas. Não deixam de machucar a sola dos pés, mas não cortam. Todo o amor chegou como uma névoa causando vertigem. Expulsou a situação deplorável com um chute para nunca mais voltar. Nada de noites e dias sentada em uma cama. Chega disso, suas rosas disseram. Olhe para nós, somos magníficas, imaculadas e suas. Somos o símbolo do sentimento verdadeiro do rapaz. Você só nos merecerá se for imaculada também. Se conseguir carregar amor.
E meu rim esquerdo infartou. Quando viu que o coração estava feliz, menos sobrecarregado e poderia aguentar, gritou pela ajuda que sempre precisou e nunca pôde pedir. A cólica renal não foi uma vingança. O pobre rim simplesmente não suportou mais o pesadelo de sua vida. Ele fez o que pôde, segurando as pontas enquanto todo o resto estava uma bagunça irreparavelmente dolorosa. E, quando enfim pôde respirar, desmaiou em sua dor inflamada. Precisou de hospital, medicação e repouso. Berrou de dor até expelir duas ou três pedrinhas. Agora está bem, em uma clínica de reabilitação chamada Amor e Cia Ltda.
Com o tempo troquei diversas coisas. Troquei tudo que vivi em 22 anos pela felicidade de dois meses. As músicas são apenas músicas, a cautela está em seu devido lugar, referindo-se apenas ao necessário. O amor está em um espaço ainda bastante restrito, mas tem aumentado sua cerquinha branca dia após dia. A vida ressurgiu fora do abismo do quarto que já cheirava azedo. Não há mais mofo enclausurado. Eu precisei ter uma cólica renal para sentir menos dor em outros lugares de mim. Precisei ter uma cólica renal e você segurando minha mão no hospital para perceber que a vida é mais do que isso. Eu acho que te amo mesmo. E descobri isso graças a doze rosas e uma cólica renal. Ou estou louca. Ou ainda desatenta. Não sei. Só sei que, apesar das fisgadas que não dormem em meu peito, hoje há muito mais de felicidade em mim do que há três meses. Hoje eu viro o rosto sem medo quando alguém chama meu nome. Abro a porta caso alguém bata. Hoje eu vivo. Mas não tenho como saber se isso é realmente o que penso que é. Pode ser amor. Pode ser desatenção. Ou, de repente, não passa mesmo de uma grande e satisfatória loucura. Mas ela tem seu rosto. Seu abraço. Suas falas. Ela é você e, então, que seja loucura para sempre.

2 comentários:

Gugu Keller disse...

Que de algum modo chegue ao fim esta nossa busca por dar um fim no que é para sempre...!
GK

Vini disse...

Quando vi o laço preto na rosa, lembrei na hora! Tive que ler seu último texto para ter garantia de que este me deixou mais entusiasmado
e conseguiu =)
na minha humilde opinião de alguém que lê muito pouco, deste foi o que eu mais gostei!
beijos minha tudo!

 
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