terça-feira, 30 de agosto de 2011

Memórias póstumas de um batom vermelho.

Ele se achava o máximo. Tingindo a boca da moça, acreditava ser o único a ter exatamente a cor do amor. Nunca lhe ocorreu que estava mais para tom de sangue derramado, talvez até mesmo por um amor corrompido. Não, ele se via no espelho como a paixão suprema. O detentor da sofisticação estilosa. Era o top dos batons e estava no topo da escala. Não poderia, no entanto, queixar-se mais tarde de não ter sido avisado do que estava por vir em sua vidinha de cinco gramas, pois seus companheiros de necessaire bem que tentaram baixar sua bola. O rosa era indiferente, não gostava dele, mas o batom nude, com seu tom cor de pele apagadinho, recomendou-lhe certa vez que fosse cauteloso, pois acabaria levando um tombo esmagador. "Cuidado, camarada, somos todos iguais, independente da cor. Se ela não estiver feliz, você não poderá sorrir por conta própria. Funcionamos em comensalismo com o sorriso dela", disse ele. Mas o vermelho, egocêntrico demais para enxergar um palmo além de seu próprio tubinho Dior, achou aquilo uma besteira e, mais do que isso, despeito. Seu ego era estufado demais para que pudesse ouvir qualquer coisa de um ser diminuto usado durante o dia. Admirando-se no espelho enquanto ela dava os últimos retoques na maquiagem, pensou no quanto a tornava poderosa. "Você é feliz por ter coragem de me usar, garota. Nem todas têm. Os caras desejarão sua boca e as mulheres terão as entranhas reviradas de inveja", refletiu. Narcisista como só ele poderia ser, deixava que cada partícula sua fosse feliz cintilando naquela boca. Afinal, se parte dele fora retirada do tubo para a realidade de uma noite, tinha de ser porque era bonito o bastante. Nude, humildemente muito mais sábio, deu um último aviso: "Batons se apagam durante a noite, não se esqueça disso".
A moça foi para a tal festa um tanto quanto infeliz. Era uma data importante, mas sentia-se horrível. Estava inquieta e preferiria ter ficado em casa, mas a obrigação social falou mais alto desta vez. Calçou os saltos e usou o batom que era, normalmente, o cano de escape para que se sentisse um pouco melhor. Pintou os lábios até que ficassem muito vermelhos e impecáveis, mas não conseguia sorrir. Só mostrava os dentes ao cumprimentar um conhecido ou para fingir um pouquinho de felicidade. O batom ouviu coisas que o enalteceram. Uma mulher comentou sobre a "make bafônico" da moça, exatamente com essas palavras. Ela deu um risinho tímido e agradeceu, enquanto as partículas em sua boca pululavam por todos os lados em comemoração. "Somos as estrelas da noite", pensavam. O namorado da moça não a beijava para não estragar a boca desenhada com perfeição. Gostava de vê-la e exibi-la assim, arrumada como uma peça de arte. Ela preferiria estar enfiada em seus pijamas, sem batom algum, dissolvendo seus medos no abraço mais tenro que já conhecera, mas tentava abrir os braços e se divertir um pouco.
O batom vermelho curtia a vibe da música animada. Entre um drink e outro, perdia um pouco de si nas bordas das taças de cristal mas sabia que continuava mais sexy do que os demais. Dançava e rebolava na boca da moça, fazendo bundalelê para todos que passassem à sua volta. Sobrepujava os outros como se fossem adversários de uma batalha de estilo da qual somente ele realmente participava. "Sou o cara", pensava. Até que ela precisou ir ao banheiro. Quando ele se olhou no espelho pela terceira vez na noite, enxergou algo diferente. Estava um pouco apagado em algumas regiões, como se estivesse morrendo aos poucos. Evaporando, sumindo sem deixar lembrança viva alguma. Ela o retocou com cuidado mas, antes que ele pudesse respirar aliviado, olhou para cima e enxergou os olhos da moça, levemente maquiados para não ofuscar o brilho escarlate da boca. Aqueles olhos estavam estranhos. Melancólicos, fixos no nada e um pouco brilhantes demais... Céus, aquilo eram lágrimas! A moça estava chorando ele não entendia por que, já que estivera sorrindo lá fora. Bom, o sorriso não parecia tão sincero, mas, ainda assim, poxa! Dessa forma ela acabaria estragando a pele acetinada que compunha a maquiagem. Um batom vermelho não é bonito se a pele não estiver complacente. Ele sabia disso. Queria gritar para que ela parasse de chorar e não o estragasse, mas nada podia fazer. Ela sentou no sofá chique do banheiro, segurando um pedaço de papel na mão para secar os cantos dos olhos. Algumas pessoas pararam para perguntar o que acontecera. Ainda existe bondade no mundo, ela pensava, mas respondia apenas que estava tudo bem, sustentando um sorriso que nem mesmo sabia ser comovente e deprimente.
O batom, por sua vez, perdera a euforia do começo da noite. Sentia-se agora apenas mais um derretendo na tristeza daquela mulher. O nude falara algo a respeito disso antes que ele saísse de casa, não? Não se lembrava direito. Era algo sobre ser feliz apenas se a dona da boca também estivesse. Ele estava cabisbaixo agora. De que adiantava deixá-la bela se ela não se sentia assim? Captando os pensamentos da moça, entendeu que tudo o que ela enxergava no espelho era um monstro, fosse qual fosse a cor do batom. Ele estava inflado de orgulho e adoração por si, mas foi murchando como uma flor arrancada da terra. Se tivesse glândulas, choraria também. Não por solidariedade, mas pela ingratidão pela qual estava passando. Enquanto pensava nisso, a moça levantou e dirigiu-se ao espelho. Corrigiu as falhas do rosto, respirou fundo e empurrou a porta para voltar à balburdia do salão. Sorriu para o namorado, dizendo estar tudo bem. Sorriu para os amigos. Sorriu. O batom se animou um pouquinho, mas já não tanto quanto antes.
A noite foi longa. Ele teria adorado em outra ocasião, quando aquela tristeza súbita não tivesse chacoalhado seus instintos. Ele agora parecia estar imerso nos pensamentos da moça. Coisas voavam por cima dele, especialmente a inferioridade que ela sentia. Ele não servira para confortá-la. Falhara em seu único propósito de vida, o de levar beleza e autoestima a quem o usasse. Era um fracasso. Quando a moça chegou em casa e pôde, enfim, arrancar aquele vestido preto sufocante, os saltos altos e as joias, ele já não passava de um espírito opaco rejeitado. Enquanto ela lavava a boca, ele via seus restos escorrendo pela pia e deixando a água tingida por um leve tom avermelhado. Era sua morte, seu fim. Ela secou a boca e um pouco dele ficou esmagado na toalha branca e felpuda. Resquícios seus que lembrariam para sempre suas últimas horas de vida, podendo escrever essas memórias posteriormente. A gente sempre continua amando o que já passou só porque de alguma forma ficou marcado na pele. Ele amava ser vermelho, amava ser Dior, amava ser poderoso. E acabou morrendo parcialmente esmagado, parcialmente derramado pela água fria. Foi parar na bolsa de uma pessoa que não dava a mínima para seu glamour. Preferia que ela tivesse estraçalhado seu tubinho na primeira vez em que o viu. Doeria menos, provavelmente, do que se sentir inútil e incapaz.
"Ele foi literalmente embora pelo ralo, sabe. Morreu decepcionado, achando que não prestava para porcaria nenhuma. Aquela vaca o fez sentir assim, coitadinho. Era um batom tão bom em vida...", contaram, por fim, os restos da toalha antes de irem parar na máquina de lavar roupas.

2 comentários:

Gugu Keller disse...

Quem dera dela um dia eu fosse um batom...
GK

Anônimo disse...

Apesar do tom do texto, eu ri quando tu cita o batom fazendo bundalele para todos que passam auhsauhuahsuahauhsa
mas ele nao pode desistir!
precisa voltar como minotauro no ultimo ufc =p
ótimo texto amor! =**

 
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