quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Ultimate Fighting Championship.

As luzes se apagaram e as primeiras notas de TNT começaram a retumbar no espaço. Pareciam vir de outro planeta, suas ondas sonoras penetrando acusticamente em todas as cabeças presentes. Ela entrou no octógono no auge de sua adrenalina. Luzes azuis apontavam para sua figura miúda, evidenciando a derrota que estava por vir. Se dependesse de sua força de vontade, porém, derrubaria todos os oponentes. Aceitara vestir aquela roupa ridícula e curta por um bem maior. Calçara as luvas, a placa de proteção nos dentes, aplicara vaselina no rosto para os socos deslizarem mais e machucarem menos. Não que ela acreditasse muito que isso aconteceria. O mais provável é que saísse dali com o nariz quebrado e contusões feias espalhadas pelo corpo. Mas estava disposta a tentar porque o troféu valia a pena. Não havia um centavo envolvido, nada que pudesse custear as despesas que ela teria com o hospital mais tarde. Também não tinha uma equipe para ajudá-la; trabalhava completamente sozinha. Treinara um pouco, mas sabia que não era o suficiente. De qualquer forma, o importante era tentar. Já desistira de muitas coisas em sua vida antes mesmo de buscar alternativas para conquistá-las. Já desistira de si mesma há muito tempo. Agora era hora de lutar.
O troféu era ele e, com certeza, valia muito mais do que cinturão, ouro, dinheiro ou qualquer outra coisa. O troféu era o abraço mais perfeitamente encaixado com o seu que já conhecera. Era um combo, um pacote incluindo ele, o amor e a felicidade a dois que ela nunca teve. A felicidade, enfim. Era justo que precisasse lutar por isso, já que absolutamente nada viera fácil em sua vida. Sofrera nas mãos de outras pessoas sem nem mesmo arreganhar os dentes. Como ele costumava dizer, ela não tinha sentimentos de vingança. Apenas, naquele momento, sabia que deveria usar todas as poucas cartas que tinha para que sua própria burrice não o mandasse embora. Não era de braços abertos que iria ganhá-lo, mas sim de punhos cerrados, lutando contra os adversários de peso pesado que travariam contra ela monstruosas batalhas internas. O palco dessa UFC era o peito dela onde, até então, tudo sempre descambara para o lado errado.
O primeiro deles foi o Cinismo. Chegou recebendo aplausos e ela poderia jurar que as apostas estavam todas a favor dele. O próprio apresentador não continha o êxtase em falar sobre as qualidades daquele cara. A vitória era praticamente certa. Ele era honesto, forte como um touro e pesado como um bloco de cimento. A crença que circulava pelas arquibancadas era de que ele a detonaria em menos de trinta segundos, afinal, ela já estava mesmo meio entregue à sua condição. Cinismo a encarou com aqueles olhos que questionavam se ela gostaria mesmo de lutar. Ela não tinha certeza. Mas, ainda assim, adiantou-se um pouco com expressão assustada no rosto. Pensou no troféu, o homem que amava. Se quisesse incluí-lo em sua vida, deveria derrubar o Cinismo fossem quais fossem os prejuízos e, caramba, só ela sabia como seriam inúmeros. Toda a sua proteção e segurança iriam embora com o oponente caso ela pudesse vencê-lo. Estaria à mercê de tudo que já a amedrontara antes, tudo que assombrara sua vida e fizera dela um martírio terrível. Enquanto pensava nisso, levou um soco que a derrubou no chão com violência. Era o Cinismo dizendo “você não é capaz de me vencer, sou parte da sua vida; você jamais acreditará em alguém novamente porque, na sua cabeça, o mundo inteiro é uma mentira”. Ela fraquejou perante isso mas uma névoa negra tomou sua mente. “Você viveu me assombrando até hoje e agora quebra o meu nariz? Não vai funcionar assim dessa vez, seu filho da puta”. Antes que ele pudesse prosseguir, ela se ergueu em um só pulo e partiu para a luta agarrada. Visões de que valia a pena tentar amar aquele cara que segurava sua nuca com tamanho carinho passaram entre eles e foram fortes o bastante para que Cinismo batesse as mãos no ringue declarando desistência. “Toma essa, brutamontes”, ela gritou sorrindo.
Ela venceu a primeira barreira e, assim, aceitou o primeiro beijo de seu troféu. Foi no primeiro dia do inverno e algo retorceu seu estômago em sinal de pânico. Agora precisaria detonar o Medo de Amar e a batalha seria ainda mais intensa. Sua vida inteira foi restrita nesse ponto. Admitir amor era uma fraqueza que ela não se permitia ter. Por isso seu sofrimento sempre foi silencioso, calado atrás do box do banheiro onde a água escorria e ela poderia chorar sem que ninguém ouvisse soluços. Agora, mais do que não admitir, ela também não aceitava a ideia de amar alguém. “Para quê?”, pensava. O amor era sempre inútil e, no final das contas, não trazia mais do que uma dor nada compacta. Mas ele chegou aos poucos. Com seu jeito amável e gentil, respeitando suas diferenças e loucuras, rindo de suas besteiras, achando-a linda mesmo quando estava vestindo pijamas velhos e arrebentados. Enquanto ela tinha vergonha de si mesma, ele sentia orgulho em mostrá-la por aí. Ele merecia amor, ainda que ela achasse que ninguém no mundo era realmente digno de tamanho sentimento. Ok, ela o amava mesmo. Perceber isso foi como receber golpes sequenciais em seu peito, barriga e cintura. Doeu. Ela tentou resistir. Tentou jogar o amor fora, no lixeiro mais próximo, para impedir seu crescimento. Mas ele não desistia. A cada basta dela, era um passo à frente dele. Passos de formiga, muito cuidadosos, até que ele estivesse tão próximo que ela não poderia mais dobrar os braços para empurrá-lo. Estava presa em seus braços, desfalecendo de amor. Refazendo todo esse caminho em sua mente, ela partiu para a briga com o tal Medo de Amar. Não queria machucá-lo; ele a salvara de muitas coisas antes. Mas era necessário desta vez. Ele tentou avisá-la: “Você precisa de mim para não esgotar suas últimas forças para viver, não faça isso. E se não der certo? E se ele deixar sua vida ainda mais caótica?”. Mas ela não retrocedeu. Golpeou intensamente o adversário - que antes fora seu amigo - até que o médico decidiu que Medo de Amar não poderia continuar no combate graças a uma lesão brutal. Contrariado, Medo de Amar foi obrigado a sair do ringue. Infelizmente não derrotado. Ele voltaria a assombrá-la mais tarde, certo como dois e dois são vinte e dois, como diria seu irmão, Diogo.
E assim, luta após luta, a improvável campeã foi detonando seus oponentes e conquistando os títulos necessários para que pudesse viver seu amor. Depois de brigar com caras como Mentira, Depressão, Desconfiança, Relutância, Inferioridade, Decepções e tantos outros, ela estava acabada. Eles lhe pregaram peças cruéis, deixando-a apaixonada, mas selvagem e armada. Podia amar agora, mas a que custo? Estava quebrada de todas as maneiras que um corpo pode se quebrar. Sangue escorria de alguns ferimentos, hematomas roxos e esverdeados começaram a se formar em diversas regiões, os olhos estavam colados de tão inchados pelos socos. Os órgãos pareciam espatifados e ela sentia como se estivesse tomada por uma hemorragia interna muito intensa. A dor era arrebatadora. A Mentira, principalmente, fizera um grande estrago nela. O trabalho de recuperação seria enorme mas, para sua surpresa, ele estava ao seu lado para apoiá-la. Fazia compressas em seus ferimentos, controlava seus remédios e, principalmente, aquecia seu coração rachado e quase congelado. A luta valera mesmo a pena, afinal. Ela poderia reconstruir tudo que estava detonado, agora sabia disso. Ele estava ali, não fora embora antes do término do evento. Estivera esperando por ela, fazendo jus a todos os esforços pessoais que ela exercitou. E, enquanto ela o abraçava depois de tanta guerra, sentia duas coisas. O maligno Medo de Amar apontando suas garras lá no fundo, mas sendo oprimido, com muita força, pela recompensa do amor.

4 comentários:

Gugu Keller disse...

Há lutas que só se vence não lutando... É que às vezes, doce Josi, o lutar é que é o adversário...
GK

Vini disse...

Depois de toda luta vencida há uma recompensa mais do que merecida!
É assim que se constroem os campeoes, na determinaçao e na vontade de vencer para atingir um objetivo
Gostei do texto amor, como ja dizia o rei do boxe: Float like a butterfly, sting like a bee ;D

Vini disse...

http://www.algosobre.com.br/images/stories/assuntos/biografias/Muhammad%20Ali.jpg

Essa foto cairia bem no texto aushaushaushausha, brincadeira ^^

Anônimo disse...

A inveja é uma merda e você come um prato cheio todos os dias... Psicose em fase ativa! Sinto muito por você...

 
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