quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Castelo de cartas.

É triste ter que medir palavras com uma trena imaginária. Ter que escolher a dedo o que dizer, o que deixar transparecer e o que esconder no fundo da mente. Em cima da penteadeira há cremes, perfumes, maquiagens e pequenas caixas de veludos para joias. Coisas aleatórias. Nada que me lembre do que a vida me mandou esquecer. As caixinhas de veludo contendo lembranças suas estão guardadas no cofre do meu peito e muito bem fechadas. As vezes a trava de uma estraga e você volta e aparece em minha cabeça como algo enviado por um catavento. Essas são as vezes em que você é leve. Em que lembrar de nós não machuca nem ofende. São as vezes em que pensar em você é lembrar do seu sorriso feliz e aceso e associá-lo ao meu triste e apagado. É leve. Leve como uma folha seca que sempre termina despedaçada.
Mas você sabe – talvez melhor do que qualquer outra coisa – ser pesado. E lembrar de você pesado crucifica o que há de bom e de saudável em mim; tudo que estava se reintegrando desmorona como um castelo de cartas abatido por um sopro. Você não precisa criar tempestade ou ventania, basta um sopro de quase nada. Eu caio. Cometo erros imbecis, esqueço do que é importante e lembro do que já havia com suor esquecido. E o mundo fica bravo porque eu ainda me lembro do peso da sua mão em meu rosto e do seu cotovelo prendendo meus cabelos; mas o mundo também é um peso que não se enxerga.
E quando você é pesado, quando seu sopro mais parece um tornado girando minha cabeça e minha história em 360 graus, eu me pego querendo ser cleptomaníaca. Querendo ter coragem para assaltar penteadeiras alheias de destino mais caprichoso e roubar uma caixinha bonita que contenha uma história feliz, muito melhor e diferente de nós dois. Algo que termine bem ou, ainda melhor, que nem termine. Uma caixa diferente. Amarela, talvez, cor que não se vê por aí. Mas minhas mãos estão sempre nos bolsos e meus olhos estão sempre em minha própria penteadeira triste.
As caixinhas de veludo que guardam você deveriam estar adquirindo o tom sépia de tudo que é velho e o cheiro de pó de arroz antigo misturado com sachê de naftalina. Mas, ao invés disso, parecem cada vez mais vivas, vermelhas, pretas e azuis. Revivê-las dói – assim como dói reviver seu olhar – mas eu já aprendi a lidar com a dor. Você me ensinou quando eu amava mais seu sopro do que meu castelo de cartas completo. Hoje faltam algumas, exatamente nos cantos mais esburacados de mim, mas eu prefiro as falhas do que o vento que batia e afastava a cortina junto com seu abraço gélido. Hoje eu prefiro a janela e as caixinhas fechada, mas quando um lacre se rompe salta você lá de dentro envolvendo tudo ao meu redor e me lembrando de como era admirar o conteúdo de cada uma delas vez ou outra. E não há mais vida além disso, então. Você pula dizendo oi e eu esqueço do por que estar tão longe, tão brutalmente afastada do que preenchia meu vazio inabalável.
As vezes ainda penso que poderia ser, apesar do silêncio, do pânico e da dor da sua mão sem carinho no meu rosto. Quem sabe o silêncio possa ser ouvido com algum esforço. Isso é leve, pensar que nós poderíamos. Que meu castelo não estaria mais fuzilado e que as caixinhas poderiam ficar abertas sem dor, mostrando as joias eternamente recém polidas. Pesado é pensar que não podemos, que o certo é fechado e que o silêncio não significa nada além da ausência. Que nossas pratas estão riscadas e opacas e não serão restauradas. Essa ideia de que “poderia ser” está guardada na caixinha preta e almofadada de cetim. Fúnebre. Morta e com o fedor de flores apodrecidas. Triste como não enxergar cor no que é verde e brilhante. Triste como o sumiço dos seus olhos e trejeitos. Triste como medir palavras com uma trena imaginária, enfim.
E, para não voltar, não magoar, não doer, não adoecer, não enfraquecer, eu esmago o rosto entre as mãos e tento fugir da vida que me persegue. Viro para o outro lado da cama, o oposto da penteadeira. Encaro a parede. Você está em tudo que eu faço, penso, leio e vejo. Está no que o canto do meu olho esquerdo percebe sem querer. Na sujeira e na bagunça da penteadeira desorganizada, tanto quanto minha cabeça semi-destruída. Talvez eu não consiga transpor o riacho do castelo de cartas. Ou talvez ele apenas não tenha ponte para ser atravessada. A nado é que eu não vou, você não vale tanto assim. No fim das contas, você é só um sopro. E, por mais que por enquanto pareça tempestade, no devido tempo tomará o papel de simples ventinho falhado que é. E eu terei minhas caixinhas adquirindo saudosos tons marrons, o castelo ganhando cartas novas, tudo se recompondo. Você não vale tanto assim para ter um porta-joias só seu.

domingo, 25 de setembro de 2011

O tilintar.

Tilintando. Como um sino ou até a ponta de uma faca batendo na xícara como os mais velhos fazem para pedir café. Tilinta dentro de mim e hoje sei que é impossível realmente viver com algo quebrando e rangendo em sua vida todos os dias. Vejo as pessoas caminhando na rua com suas faces vaporosas e leves e sinto o peso da minha absurda desesperança nos ombros. Pinicando com a ponta de uma agulha. Magoando partes do corpo que ninguém descobriu que podem ser magoadas. Prevenindo contra o amor e outras coisas lindas que agora parecem drogas. 
Meu quarto reformado está bonito agora. A luz amarelada cai melhor aos corações obscurecidos do que a branca fluorescente que distorce imagens e proporções. A amarela salva um pouco do que não é real. A proporção da minha bunda até que incomoda, mas a do desolamento é pior. Da inconformidade. Não sou uma experiência. Uma máquina realizadora de sonhos. Sou só uma mulher, mais uma entre tantas, e se for um pouco mais do que isso para você já está de bom tamanho. Não vivo de grandes esperas, nem mergulho na calmaria da certeza de que algo está por vir. Eu nadava contra a corrente e hoje simplesmente me deixo boiar e ser levada para onde quer que o tilintar queira que eu vá. Vivo no tormento. Sempre tilintando. Não uso vestidos que mais parecem blusas de tão curtos. Não esqueço a parte debaixo da roupa em casa. Mas o espelho ainda diz que há algo errado, muito diferente do que deveria ser. Talvez sejam as sombras escuras abaixo dos olhos, os desenhos da loucura refletidos neles. A melancolia do que deveria ser sorridente. Ou, quem sabe, seja só mesmo o tilintar. Ele é confuso. Ora faz seu “plim, plim” por algo suave e bom, ora funciona como um prenúncio de morte. E quando é suave e bom, sempre se torna amargo no final. O tilintar chega quando você não está por perto e eu posso pensar no desastre em que me tornei. Ou quando outra besteira aparece e estabilidade e segurança vão embora. O tilintar não passa de um medo mais charmoso e perfumado. Decorado com maquiagens caras e saudades escondidas.
Em mim tilinta todos os dias e todas as noites. As vezes menos, as vezes mais, mas sempre piscando sua luz insuportável. É o tilintar quem me acorda em meio à sofreguidão de um pesadelo quase palpável. É ele quem não me deixa reduzir no sinal amarelo e avançar no verde. É o cuidado ou a falta dele. O pavor. É a taça de cristal quebrando no chão junto com meu último amor. O tilintar é a doença que acomete os corações feridos. Não tem cura ou prescrição. É o aviso pregado na porta imaginária dizendo em letras bruscas que já chega, é hora de partir. Tilintar é confusão. É um amortecimento doloroso. É querer outro e amar você. É querer viver e deixar desfalecer por falta de força. É querer descansar e não conseguir. É chorar um choro interminável que só a espessura de uma coberta presencia. Quem tilinta precisa de uma toca. Um refúgio para sua vida apagada. A cama, a coberta. O travesseiro que conhece tão bem sua dor. E quando o invólucro é perfurado, toda a dor retida vaza e se torna insuportável porque você é obrigado a encarar o que estava guardado. Tilintar é tentar dar um passo quando já se desaprendeu a andar. As pernas ficam fracas, tremulam como bandeiras hasteadas, pisam sem firmeza alguma. Como as pernas de um bebê que não chora. Um bebê de porcelana. Avançam um ou dois passos e caem de joelhos mais uma vez. Cortando mais um pouco. Doendo mais um pouco. Os cabelos vão ficando sem vida, não reluzem mais ao sol. Os olhos são opacos e quem já recebeu um olhar opaco sabe como é aterrador. Assusta. Melindra. Apavora. Mas no fundo é só o tilintar.
Ele vai enlouquecendo aos poucos, te deixando sem saber se vai para lá ou para cá. Se fica ou cai fora, se espera ou se conforma. E, sem permitir conclusões, ele vai enlouquecendo e causando uma bobeira não tão bobeira assim. Você se torna  socialmente retardado porque não sabe mais como abrir a boca para se comunicar sem que riam de suas palavras. Sem o medo de receber uma bala a mais em seu peito todo perfurado. O tilintar é a junção de várias síndromes. Pânico. Estupor depressivo. Pensamento acelerado. Psicose. Tudo misturado dentro de uma só vida. Você pode ocultar e até tenta com afinco mas, quando os olhos se perdem, é porque está tilintando em cada membro seu. As pessoas não sabem, mas sua apatia vegetativa e instantânea é a recordação de lembranças ruins. E vai cortando em pedaços o pouco de você que parecia ainda estar inteiro. A catatonia assusta e repele, mas você não consegue mandá-la embora porque tudo é mais forte que sua vontade de tentar.
Houve um tempo em que eu lutava contra o tilintar, mas é tão inútil quanto acender um fósforo em um blecaute total. Já tentei ignorar e o tilintar ficou bravo e severo. Ele quer ser lembrado. Quer aparecer, quer sangrar através do sorriso branco e polido que ostento. Eu virei esse tilintar eterno e a culpa é só minha. Graças a ele não confio em ninguém e muito menos em mim mesma. Um pedacinho do tecido suja na terra e o vestido inteiro já não serve mais. Um pedaço de mim suja na dor e eu inteira já não sirvo mais. Inútil para o amor, para o abraço, para o frescor de tomar uma água bem gelada no verão. Sempre ardendo em febre sem que ninguém perceba. Sempre tostando os neurônios de tanto pensar e procurar uma saída onde nem mesmo há portas ou janelas de emergência. Há apenas um extintor de incêndio e um machado. Nenhum sinal, manual de instruções, setas para indicar qual corredor escolher. E você precisa escolher. Se apaga ou se corta. Se corre e se perde ou fica parado. Se continua tilintando seus machucados ou fecha os olhos com uma última dor súbita. Você tenta, mas a opção não é sua. Quem realmente escolhe, no final, é o tilintar. Ele quer existir. Ele não vai embora. De jeito nenhum.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Quando fica sério.

Você sabe que é sério quando fica uma escova de dentes dele no pequeno armário do seu banheiro, no mesmo copo em que fica a sua e duas ou três pastas de dente. Aí é sério. Quando ele senta para tomar chimarrão com sua avó também. Sem que você perceba ele já está discutindo futebol com seu avô e amolecendo sua mãe com aqueles olhos azuis de oceano. Ele tem esse quê de conquistador amável, estarrecedor. Fica sério quando você tem quase certeza de que pode confiar no charme dele tanto quanto em suas palavras. Ele é só seu, teoricamente. Você é só dele e até que enfim ser de alguém não dói. Fica sério quando você percebe que a pele dele é macia e morna, que o peito dele é o melhor travesseiro e que a mão quentinha dele afasta um pouco o frio da sua. E, de repente, já não são só as mãos. É o abraço que esquenta sua infelicidade e a transforma em um quase sorriso. É isso. Você se vê mais uma vez quase sorrindo, quase quente, quase se entregando por completo e quase sonhando. Quase acreditando em algo mais. Você até tem vontade de se olhar no espelho e caprichar no visual para deixá-lo com aquela face de encantamento abobado, embora você ainda não saiba o que foi que ele realmente viu em você. Fica sério quando dormir não é mais tão difícil porque você sabe que ele está logo ali e que, quando o pesadelo vem, ele sempre sacode seu corpo com suavidade até que você acorde. Depois diz “calma, eu tô aqui” e deixa que você se aninhe mais uma vez até que seu peito volte a se controlar e sua respiração não seja mais sôfrega. Ele não apenas te abraça e te esquenta para dormir, ele também manda embora o vilão fantasma que sempre esteve ao seu lado.
Fica sério no instante em que a porta do elevador do seu trabalho se abre e ele aparece segurando um buquê de rosas vermelhas. Mais sério ainda quando já é o segundo buquê. Você acha que não merece, mas percebe que aquele cara – diferente de todos os demais com quem já esteve - parado ali com um sorriso humilde e deslumbrante, esperando por você, compõe a cena mais linda de toda a sua vida. Fica sério quando ele diz “eu te amo”, olhando para você sem piscar, no momento em que homem nenhum pensa em amar. Fica sério quando ele se preocupa com seu bem-estar acima das próprias vontades. Ele aguentou muita coisa no começo e ainda aguenta. Seus traumas, tremeliques, as infernais lágrimas irrefreáveis e desobedientes, dores nunca antes compartilhadas. Seus medos, acima de tudo. Ele teve paciência e quando há paciência o negócio fica sério. Ele aguentou, entendeu, aceitou e deixou ficar sério sem evitar. Ele não fica nervoso quando você está cabisbaixa. Ele fica quietinho fazendo um cafuné ou fala asneiras para te fazer sorrir. Tudo depende do seu humor, não do dele.  
Fica sério quando ele quer matar seu ex não por ser seu ex, mas por tê-la feito sofrer uma chuva de dardos fulminantes dia após dia. Ele sabe, lá no fundo, até o que você não contou. Te abraça tentando proteger, sem saber que no momento em que você encosta o queixo no ombro dele seus olhos se perdem no passado e você se sente destruída. Você fecha os olhos e algo se trinca dentro da sua vida. Fica detonada porque o ama, sim, mas não consegue trazer os dois pés para frente, nem mergulhar entre os tubarões para achar o peixe dourado. Você tem medo, ai de você. Medo de que ele seja um bom ator, apenas. Medo de que o abraço seja o último e amanhã ele acorde com o pensamento disperso em um universo paralelo onde existe outra pessoa. Você tem medo porque, se isso acontecer, é justamente com você que permanecerão as lembranças. A escova de dentes, o origami, o sapato, o quentinho. No banheiro dele não tem uma escova sua. É para você que continuará sério quando não for mais. Você olhará para o leite achocolatado – comprado por sua mãe porque o genro gosta - repousando na geladeira. Nunca mais fará um sanduíche com tomates picadinhos na manteiga - depois de um combinado inteiro de sushi – só porque ele ainda estava com um pouco de fome. Você terá as lembranças, enfim. A seriedade perdida no tempo. O amor que desistiu de ser. E ele terá qualquer coisa que não seja você.
Você tem medo, mas tenta lembrar que a escova verde dele ainda está em seu armário. Ainda é sério. Ainda é amor. O leite achocolatado ainda não coalhou. O travesseiro ainda tem o formato da cabeça dele e é quase quentinho ali. Antes dele você havia jurado que nunca mais deixaria um amor ficar sério, ou sequer ficar, de qualquer maneira. Mas ele roubou seus juramentos e agora você se vê projetando uma vida diferente em um show de slides. Fotos do agora e do depois. Não mais do antes. Histórias engraçadas, românticas e até dramáticas, mas nada mais de horrores e pânicos. Uma apresentação bonita, diferente de tudo que você esperava, afinal. Começa a acreditar que sua estrada pode ser mais longa do que imaginava e que não precisará percorrê-la sozinha. Você realmente acha que se o final foi feliz é porque ainda não foi final. Mas, quem sabe? Talvez você esteja errada. Talvez sua matemática seja de muita estatística e pouca dedução. Talvez seu final seja sempre um resultado negativo porque você não deixa que o positivo exista. Mas ele é positivo. Ele soma e não subtrai. Não arranca de você, apenas toma delicadamente o amor que lhe pertence. Ele é a sua melhor interpretação de textos. Ele deixou uma escova de dentes em seu banheiro. Aí não tem jeito mesmo, ficou sério de vez.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Conveniência.

Eu queria entender esse amor quase imediato. A histeria do abraço que não dilacera como os outros faziam. Antes tudo doía; qualquer toque, cutucão ou afago. Estava estampado em meus olhos: fique longe, por favor. Agora não dói, é mais como uma fuga do amargo para o doce. Tudo que antes parecia propenso a morrer, agora parece cada vez mais vivo. Gostaria de ter respostas. Como eu caí na profundeza de um balde que parecia raso e, no fim, era um oceano? Não entendo, mas até o canto mais vermelho do seu olho direito irritado pela lente de contato me encanta. Seu braço adormecendo sob minha cabeça e eu na vida paralela de achar que não pode ser verdade. Você me acorda durante a noite pedindo um abraço e eu te acordo no meio da noite para ser salva de um pesadelo cruel. Você é mais suave e eu sou o empecilho que imponho ao meu próprio caminho. Você ronca e nem isso incomoda porque na manhã seguinte você continua ali. E passa o braço sobre meus ombros como se para comprovar que não foi embora. Logo cedo eu encaro a realidade que antes não existia. A cama não está vazia.
Essa história de tampa de panela e metade da laranja já passou da conta. As coisas não funcionam com metades, mas com inteiros que se completam. Você é o Kinder Ovo. De tudo que se completa, como tequila e limão, nada é mais perfeito do que chocolate branco misturado com preto. Você gosta do brinquedo surpresa e eu gosto de você. Sempre achei que seria o sal do limão, apenas o temperinho, a amiga sozinha com mil gatos na varanda de casa. Ficando velha junto com os chinelos e o chimarrão. Mas agora faço parte de um Kinder Ovo grande embrulhado em amor.
Você me faz rir e isso deve ser bom. Quero dizer, rir de verdade. Como quando você atravessa a rua correndo e finge tropeçar. Ou quando me entrega sacolas e mais sacolas de mercado e acha que tudo é leve. Quando me faz correr e saltar no seu colo sem dar uma paradinha estratégica antes. Nós rimos até quando as luzes se apagam e ninguém mais ri. Rimos depois de chorar. Eu sou forte e você é forte, mas nós choramos. Vai ver é porque somos de verdade. E você se sente fraco e eu quero te dar toda a minha força até ficar minguada, mas tudo que posso fazer é passar a mãos nos seus cabelos recém cortados e dizer que tudo vai dar certo. E que você é, sim, quem eu queria para mim.
Você tem suas dúvidas e, deitado no sofá, dá vida a todas elas. Acha que não me protege, que não tem o porte que eu necessito. Que não é o cara que eu queria ter, quando nem eu mesma imagino outro cara para mim. E eu, pequena dentro do seu abraço, sinto que nada pode me atingir ou abater. É controverso, mas você não pode enxergar a segurança dentro de mim. Não sou um filme compreensível, com início, meio e fim. Tenho, no máximo, o meio. Você diz, em um falsete da sua tristeza, que não foi feito para mim. Que é apenas conveniente. Eu digo que não desejava ninguém. Não tinha uma imagem desenhada na cabeça. Queria mesmo era ficar sozinha, porque essa é a grande conveniência da minha vida introspectiva. Conveniente era não ter com quem me preocupar. Não precisar cogitar o futuro, nem mesmo sair de casa. Conveniente era ficar comigo mesma, a melhor e a pior companhia de mim. Conveniente era poder ser louca e respirar aos poucos sem pensar mais em viver. Deixar os dias passarem no marasmo, até que resolvessem não mais passar. Não é conveniente amar você, nunca foi. Porque agora eu me pergunto se quando deixo cair os braços ao lado do corpo em desistência não estou ferindo mais alguém além de mim. Agora tenho medo por dois. Vivo por dois, quando nem mesmo aguentava minha própria vida. E, as vezes, vivo apenas por você, porque sei por suas lágrimas que você precisa. Não ultraje minhas memórias e sentimentos; se isso for conveniência, não entendo o conceito de amor.
Atrás da cortina de tudo que sempre escondi, há agora uma coisa exposta. Uma delicada e frágil estabilidade começando a atravessar uma ponte bamba. Mentiras irão quebrá-la e conveniências também. Porque nós não somos feitos para outros. Somos feitos para nós. Então, acho que é amor, principalmente porque quando estou escondida embaixo do edredom, tentando fugir de meus medos e possíveis passos errados, é em você que penso. É amor, tenho certeza. Já tive uma quase certeza outras vezes, mas agora tenho a certeza de que você também tem certeza, apesar de fraquejar como eu. Temos certeza, temos amor, temos a nós. Então, nada mais justo que a única conveniência em nossa vida seja a lojinha de posto 24 horas onde paramos para comprar salgadinhos, Halls e Kinder Ovo no meio da madrugada.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Suco de tangerina.

Ei, moço! Vê uma dose de tequila pra mim, por favor. Se tiver uns lencinhos de papel por aí, acho que vou precisar também. Como assim não tem tequila nem lenço para vender? Eu vim dirigindo até aqui só para achar um pouco disso e quem sabe uma esperançazinha entre as tranqueiras todas das suas prateleiras desorganizadas. Não, não serve suco de tangerina. Nem de morango. Cara, esquece. Você não tem nada do que quero aqui e eu até entendo, porque tudo que preciso consertar depende só de mim. Quem sabe uma pistola ajude. Calma, tô brincando. Vou continuar dirigindo por aí, mas valeu. O que? Não, não, estou bem, não se preocupe. Essas lágrimas são apenas velhas amigas dos meus olhos querendo ir embora antes de o tormento chegar. Não estou fazendo sentido, não é? Deixa para lá. Não, não quero sentar um pouco para me acalmar. Não preciso me acalmar. Na verdade, nunca estive tão serena antes. Só preciso fugir um pouco de mim. Minha cabeça vem tentando me matar há algum tempo, criando uma avalanche de memórias e traumas ruins. Bom, já vou indo. Até mais.
Voltei! Acho que vou aceitar aquele suco de tangerina. E um pacote de amendoim japonês. Sabe o que é, o lugar está vazio e isso é uma maravilha. Tenho vozes demais gritando dentro de mim para ficar em um local barulhento. É de enlouquecer, entende? No fundo eu só preciso conversar com alguém. Passei muitos anos mais fechada do que cofre com combinação perdida. Tem um montante enorme de coisas pelas quais passei das quais ninguém faz ideia. Sem problemas, sabe, esse é um fardo meu. O duro é que as vezes pesa demais. Sim, sei que você entende. Todo mundo diz que entende, porque cada um carrega seus próprios pesos. Ninguém tem espaço para os outros. Mas eu tô afim de conversar um pouco, do contrário estaria secando essas lágrimas lá dentro do carro, escorada no volante. Se bem que, pensando bem, você entendendo ou não eu estou pouco me lixando, com o perdão da grosseria. Estou mais do que acostumada a ser incompreendida e nem adolescente sou mais. É que as pessoas não estão habituadas com jovens melancólicos, só isso. É quase como se estar na faixa entre os vinte e os trinta anos trouxesse a obrigação da felicidade. Não gosto muito de festas, qual é o problema? Prefiro mesmo ficar em casa lendo um bom livro. Não quer dizer que eu nunca saia. Só quer dizer que, na grande maioria das vezes em que saí, acabei voltando para casa massacrada por uma massa de gente desinteressante. Ainda assim, as vezes capricho no visual e dou uma saída. Não flerto, não olho para os lados e faço dancinhas ridículas só para me depreciar. Saio, mas é mais para cumprir meu papel de jovem e deixar tranquilas as pessoas que me amam.
Eu vejo um futuro para mim, sabe, vejo mesmo. Não muito bacana, mas um futuro. Vou ganhar um dinheirinho honesto para cuidar da minha mãe quando ela precisar. Por enquanto ela é quem cuida de mim, a filha depressiva. Ela tem bastante paciência. Queria mesmo ganhar esse dinheiro com meus escritos, mas tô achando que não vai dar. Sabe como é, no Brasil essa história de escrever não é muito valorizada. Se eu lançar um livro de crônicas, umas vinte pessoas vão comprar. Faça as contas comigo, não cobre os custos nem desse suco que estou tomando. Mas, enfim, darei um jeito. Depois sinto que as coisas ficarão mais obscuras. Eu sempre vejo uma moça toda vestida de preto estendendo a mão para me buscar, normalmente quando estou quase pegando no sono. Meu namorado diz que não vai deixar ela me levar, mas vai saber, né? De repente estou ficando louca e nem notei. Falando nisso, esse é o fim que vejo pra mim. Um hospício, um manicômio, algo assim. Mas um daqueles bonitos, de filme americano. Um lugar onde eu possa andar por jardins bem cuidados com minha camisola branca, comprida e comportada. Onde um cara forte ou uma moça austera traga um copinho dizendo que está na hora do remédio. Onde a hora de deitar tenha que ser respeitada e eu, insone que sou, passe horas com os olhos abertos encarando o teto e pensando no passado. Porque no presente é que não dá pra pensar em um lugar desses, não é? Bom, nenhum problema nesse futuro que vejo. O único porém é que o visualizo acontecendo cedo demais. Na figura que se pinta em minha cabeça conturbada, nem meus cabelos estão brancos e eu já estou lá. Recebendo visitas esporádicas. Lendo nas horas calmas e me encolhendo no canto do muquifo nas horas complicadas, agarrando os cabelos e chorando por coisas inexplicáveis. Vejo-me sempre com olheiras profundas, cabelos desgrenhados, pés descalços. Uma coisa meio louca mesmo. Aliás, louca como eu estar contando tudo isso pra você. Tu é um estranho, cara. Eu sei que você não vai contar pra ninguém a minha história, nem seria bom para o seu estabelecimento. Mas ainda assim é estranho.
Vou te contar uma última coisa: a vida machuca. As pessoas veem grandes mistérios cercando o ritmo com que crescemos e andamos pisando sobre os ladrilhos da rua, mas a verdade é essa. A vida machuca, por mais prevenido que você esteja. Ela bate, corrói, estupora, faz de tudo. Há quem continue tentando e acreditando. E há os bostas que desistem. É engraçado como eu me enquadro na última categoria. Pode rir, sem problemas. Você não tá rindo da situação? Tá rindo de que? Ah, do palavrão. Como assim não combina comigo? Obrigada, mas não sou tão refinada assim. É só um salto alto. Boa postura? Acho que ainda estou conseguindo manter o peso do coração no lugar certo, então. Quando ele ficar inchado demais, tombo para frente. Mas não será no seu balcão, fica tranquilo. Enfim, vou indo mesmo agora, chega de falar. Tá aqui o dinheiro e, espera aí... Pronto, escrevi no guardanapo uma frase curta de um texto meu. Acho difícil, mas quem sabe um dia isso valha alguma coisa. Tchau, camarada.

Ela saiu, entrou no carro e foi embora. Não estava bêbada, apenas entorpecida por sua própria tristeza. Perdeu a dignidade por alguns instantes e logo depois se recompôs. Arrependeu-se mortalmente por ter soltado palavras na cara daquele homem. Nunca mais voltaria lá. Nunca mais tocaria nesses assuntos com ninguém. Esconderia sua vida atrás de uma barragem feliz. Era mais fácil assim. É claro que mais fácil nem sempre é melhor. Ela sabia disso. Uma pena não ter provado o suco de tangerina.
Ele ficou olhando o carro partir. Moça estranha, pensou. Deu risada de tudo que ouviu. Ela só podia ser louca, mas tinha uma melancolia que ele jamais vira antes. Uma melancolia disfarçada. Colocou o copo com o suco intocado na pia, guardou o dinheiro e olhou para o guardanapo. “A vida não passa de um projeto infeliz de um ventríloquo. Nós somos bonecos. Nada mais”. Ele riu mais um pouco e sacudiu a cabeça em reprovação. Louca, louca, doidinha mesmo. Limpou o balcão, amassou o papel e jogou no lixo ao mesmo tempo em que ela derrapava na estrada molhada pela chuva e capotava o carro em um acidente fatal. Ninguém jamais soube que não foi realmente um acidente. De todas as partes de seu corpo, só duas coisas permaneceram intactas. O rosto, sereno e com leves respingos de sangue, e a mão onde repousava a aliança do primeiro homem que a amou de verdade. A vida machuca, mas a morte é implacável.
 
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