quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Castelo de cartas.

É triste ter que medir palavras com uma trena imaginária. Ter que escolher a dedo o que dizer, o que deixar transparecer e o que esconder no fundo da mente. Em cima da penteadeira há cremes, perfumes, maquiagens e pequenas caixas de veludos para joias. Coisas aleatórias. Nada que me lembre do que a vida me mandou esquecer. As caixinhas de veludo contendo lembranças suas estão guardadas no cofre do meu peito e muito bem fechadas. As vezes a trava de uma estraga e você volta e aparece em minha cabeça como algo enviado por um catavento. Essas são as vezes em que você é leve. Em que lembrar de nós não machuca nem ofende. São as vezes em que pensar em você é lembrar do seu sorriso feliz e aceso e associá-lo ao meu triste e apagado. É leve. Leve como uma folha seca que sempre termina despedaçada.
Mas você sabe – talvez melhor do que qualquer outra coisa – ser pesado. E lembrar de você pesado crucifica o que há de bom e de saudável em mim; tudo que estava se reintegrando desmorona como um castelo de cartas abatido por um sopro. Você não precisa criar tempestade ou ventania, basta um sopro de quase nada. Eu caio. Cometo erros imbecis, esqueço do que é importante e lembro do que já havia com suor esquecido. E o mundo fica bravo porque eu ainda me lembro do peso da sua mão em meu rosto e do seu cotovelo prendendo meus cabelos; mas o mundo também é um peso que não se enxerga.
E quando você é pesado, quando seu sopro mais parece um tornado girando minha cabeça e minha história em 360 graus, eu me pego querendo ser cleptomaníaca. Querendo ter coragem para assaltar penteadeiras alheias de destino mais caprichoso e roubar uma caixinha bonita que contenha uma história feliz, muito melhor e diferente de nós dois. Algo que termine bem ou, ainda melhor, que nem termine. Uma caixa diferente. Amarela, talvez, cor que não se vê por aí. Mas minhas mãos estão sempre nos bolsos e meus olhos estão sempre em minha própria penteadeira triste.
As caixinhas de veludo que guardam você deveriam estar adquirindo o tom sépia de tudo que é velho e o cheiro de pó de arroz antigo misturado com sachê de naftalina. Mas, ao invés disso, parecem cada vez mais vivas, vermelhas, pretas e azuis. Revivê-las dói – assim como dói reviver seu olhar – mas eu já aprendi a lidar com a dor. Você me ensinou quando eu amava mais seu sopro do que meu castelo de cartas completo. Hoje faltam algumas, exatamente nos cantos mais esburacados de mim, mas eu prefiro as falhas do que o vento que batia e afastava a cortina junto com seu abraço gélido. Hoje eu prefiro a janela e as caixinhas fechada, mas quando um lacre se rompe salta você lá de dentro envolvendo tudo ao meu redor e me lembrando de como era admirar o conteúdo de cada uma delas vez ou outra. E não há mais vida além disso, então. Você pula dizendo oi e eu esqueço do por que estar tão longe, tão brutalmente afastada do que preenchia meu vazio inabalável.
As vezes ainda penso que poderia ser, apesar do silêncio, do pânico e da dor da sua mão sem carinho no meu rosto. Quem sabe o silêncio possa ser ouvido com algum esforço. Isso é leve, pensar que nós poderíamos. Que meu castelo não estaria mais fuzilado e que as caixinhas poderiam ficar abertas sem dor, mostrando as joias eternamente recém polidas. Pesado é pensar que não podemos, que o certo é fechado e que o silêncio não significa nada além da ausência. Que nossas pratas estão riscadas e opacas e não serão restauradas. Essa ideia de que “poderia ser” está guardada na caixinha preta e almofadada de cetim. Fúnebre. Morta e com o fedor de flores apodrecidas. Triste como não enxergar cor no que é verde e brilhante. Triste como o sumiço dos seus olhos e trejeitos. Triste como medir palavras com uma trena imaginária, enfim.
E, para não voltar, não magoar, não doer, não adoecer, não enfraquecer, eu esmago o rosto entre as mãos e tento fugir da vida que me persegue. Viro para o outro lado da cama, o oposto da penteadeira. Encaro a parede. Você está em tudo que eu faço, penso, leio e vejo. Está no que o canto do meu olho esquerdo percebe sem querer. Na sujeira e na bagunça da penteadeira desorganizada, tanto quanto minha cabeça semi-destruída. Talvez eu não consiga transpor o riacho do castelo de cartas. Ou talvez ele apenas não tenha ponte para ser atravessada. A nado é que eu não vou, você não vale tanto assim. No fim das contas, você é só um sopro. E, por mais que por enquanto pareça tempestade, no devido tempo tomará o papel de simples ventinho falhado que é. E eu terei minhas caixinhas adquirindo saudosos tons marrons, o castelo ganhando cartas novas, tudo se recompondo. Você não vale tanto assim para ter um porta-joias só seu.

1 comentários:

Vini disse...

Troque as cartas por lego, problema resolvido auhsauhsauhas
;D
=******

 
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