terça-feira, 6 de setembro de 2011

Conveniência.

Eu queria entender esse amor quase imediato. A histeria do abraço que não dilacera como os outros faziam. Antes tudo doía; qualquer toque, cutucão ou afago. Estava estampado em meus olhos: fique longe, por favor. Agora não dói, é mais como uma fuga do amargo para o doce. Tudo que antes parecia propenso a morrer, agora parece cada vez mais vivo. Gostaria de ter respostas. Como eu caí na profundeza de um balde que parecia raso e, no fim, era um oceano? Não entendo, mas até o canto mais vermelho do seu olho direito irritado pela lente de contato me encanta. Seu braço adormecendo sob minha cabeça e eu na vida paralela de achar que não pode ser verdade. Você me acorda durante a noite pedindo um abraço e eu te acordo no meio da noite para ser salva de um pesadelo cruel. Você é mais suave e eu sou o empecilho que imponho ao meu próprio caminho. Você ronca e nem isso incomoda porque na manhã seguinte você continua ali. E passa o braço sobre meus ombros como se para comprovar que não foi embora. Logo cedo eu encaro a realidade que antes não existia. A cama não está vazia.
Essa história de tampa de panela e metade da laranja já passou da conta. As coisas não funcionam com metades, mas com inteiros que se completam. Você é o Kinder Ovo. De tudo que se completa, como tequila e limão, nada é mais perfeito do que chocolate branco misturado com preto. Você gosta do brinquedo surpresa e eu gosto de você. Sempre achei que seria o sal do limão, apenas o temperinho, a amiga sozinha com mil gatos na varanda de casa. Ficando velha junto com os chinelos e o chimarrão. Mas agora faço parte de um Kinder Ovo grande embrulhado em amor.
Você me faz rir e isso deve ser bom. Quero dizer, rir de verdade. Como quando você atravessa a rua correndo e finge tropeçar. Ou quando me entrega sacolas e mais sacolas de mercado e acha que tudo é leve. Quando me faz correr e saltar no seu colo sem dar uma paradinha estratégica antes. Nós rimos até quando as luzes se apagam e ninguém mais ri. Rimos depois de chorar. Eu sou forte e você é forte, mas nós choramos. Vai ver é porque somos de verdade. E você se sente fraco e eu quero te dar toda a minha força até ficar minguada, mas tudo que posso fazer é passar a mãos nos seus cabelos recém cortados e dizer que tudo vai dar certo. E que você é, sim, quem eu queria para mim.
Você tem suas dúvidas e, deitado no sofá, dá vida a todas elas. Acha que não me protege, que não tem o porte que eu necessito. Que não é o cara que eu queria ter, quando nem eu mesma imagino outro cara para mim. E eu, pequena dentro do seu abraço, sinto que nada pode me atingir ou abater. É controverso, mas você não pode enxergar a segurança dentro de mim. Não sou um filme compreensível, com início, meio e fim. Tenho, no máximo, o meio. Você diz, em um falsete da sua tristeza, que não foi feito para mim. Que é apenas conveniente. Eu digo que não desejava ninguém. Não tinha uma imagem desenhada na cabeça. Queria mesmo era ficar sozinha, porque essa é a grande conveniência da minha vida introspectiva. Conveniente era não ter com quem me preocupar. Não precisar cogitar o futuro, nem mesmo sair de casa. Conveniente era ficar comigo mesma, a melhor e a pior companhia de mim. Conveniente era poder ser louca e respirar aos poucos sem pensar mais em viver. Deixar os dias passarem no marasmo, até que resolvessem não mais passar. Não é conveniente amar você, nunca foi. Porque agora eu me pergunto se quando deixo cair os braços ao lado do corpo em desistência não estou ferindo mais alguém além de mim. Agora tenho medo por dois. Vivo por dois, quando nem mesmo aguentava minha própria vida. E, as vezes, vivo apenas por você, porque sei por suas lágrimas que você precisa. Não ultraje minhas memórias e sentimentos; se isso for conveniência, não entendo o conceito de amor.
Atrás da cortina de tudo que sempre escondi, há agora uma coisa exposta. Uma delicada e frágil estabilidade começando a atravessar uma ponte bamba. Mentiras irão quebrá-la e conveniências também. Porque nós não somos feitos para outros. Somos feitos para nós. Então, acho que é amor, principalmente porque quando estou escondida embaixo do edredom, tentando fugir de meus medos e possíveis passos errados, é em você que penso. É amor, tenho certeza. Já tive uma quase certeza outras vezes, mas agora tenho a certeza de que você também tem certeza, apesar de fraquejar como eu. Temos certeza, temos amor, temos a nós. Então, nada mais justo que a única conveniência em nossa vida seja a lojinha de posto 24 horas onde paramos para comprar salgadinhos, Halls e Kinder Ovo no meio da madrugada.

6 comentários:

Gugu Keller disse...

Como bem canta o grande Lobão, "a certeza da certeza faz o louco gritar"!
GK

Anônimo disse...

x

Anônimo disse...

Não vai escrever um textinho sobre o dia de hoje?! :)

Vini disse...

Lindo texto, eu realmente não esperava que gostaria tanto dele, você me surpreende, me enriquece, amo voce minha tudo! =D

Marinha disse...

Josi querida muito querida minha, não há o que dizer além de MARAVILHOSO! Teus textos expõem um sentimento agudo que corta a carne, mas cicatriza, aos poucos, o coração.
"Atrás da cortina de tudo que sempre escondi, há agora uma coisa exposta. Uma delicada e frágil estabilidade começando a atravessar uma ponte bamba. Mentiras irão quebrá-la e conveniências também. Porque nós não somos feitos para outros."
Bjo e paz.

Priscila disse...

me lembra muto Tati B.
muito boom, parabens

 
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