terça-feira, 13 de setembro de 2011

Quando fica sério.

Você sabe que é sério quando fica uma escova de dentes dele no pequeno armário do seu banheiro, no mesmo copo em que fica a sua e duas ou três pastas de dente. Aí é sério. Quando ele senta para tomar chimarrão com sua avó também. Sem que você perceba ele já está discutindo futebol com seu avô e amolecendo sua mãe com aqueles olhos azuis de oceano. Ele tem esse quê de conquistador amável, estarrecedor. Fica sério quando você tem quase certeza de que pode confiar no charme dele tanto quanto em suas palavras. Ele é só seu, teoricamente. Você é só dele e até que enfim ser de alguém não dói. Fica sério quando você percebe que a pele dele é macia e morna, que o peito dele é o melhor travesseiro e que a mão quentinha dele afasta um pouco o frio da sua. E, de repente, já não são só as mãos. É o abraço que esquenta sua infelicidade e a transforma em um quase sorriso. É isso. Você se vê mais uma vez quase sorrindo, quase quente, quase se entregando por completo e quase sonhando. Quase acreditando em algo mais. Você até tem vontade de se olhar no espelho e caprichar no visual para deixá-lo com aquela face de encantamento abobado, embora você ainda não saiba o que foi que ele realmente viu em você. Fica sério quando dormir não é mais tão difícil porque você sabe que ele está logo ali e que, quando o pesadelo vem, ele sempre sacode seu corpo com suavidade até que você acorde. Depois diz “calma, eu tô aqui” e deixa que você se aninhe mais uma vez até que seu peito volte a se controlar e sua respiração não seja mais sôfrega. Ele não apenas te abraça e te esquenta para dormir, ele também manda embora o vilão fantasma que sempre esteve ao seu lado.
Fica sério no instante em que a porta do elevador do seu trabalho se abre e ele aparece segurando um buquê de rosas vermelhas. Mais sério ainda quando já é o segundo buquê. Você acha que não merece, mas percebe que aquele cara – diferente de todos os demais com quem já esteve - parado ali com um sorriso humilde e deslumbrante, esperando por você, compõe a cena mais linda de toda a sua vida. Fica sério quando ele diz “eu te amo”, olhando para você sem piscar, no momento em que homem nenhum pensa em amar. Fica sério quando ele se preocupa com seu bem-estar acima das próprias vontades. Ele aguentou muita coisa no começo e ainda aguenta. Seus traumas, tremeliques, as infernais lágrimas irrefreáveis e desobedientes, dores nunca antes compartilhadas. Seus medos, acima de tudo. Ele teve paciência e quando há paciência o negócio fica sério. Ele aguentou, entendeu, aceitou e deixou ficar sério sem evitar. Ele não fica nervoso quando você está cabisbaixa. Ele fica quietinho fazendo um cafuné ou fala asneiras para te fazer sorrir. Tudo depende do seu humor, não do dele.  
Fica sério quando ele quer matar seu ex não por ser seu ex, mas por tê-la feito sofrer uma chuva de dardos fulminantes dia após dia. Ele sabe, lá no fundo, até o que você não contou. Te abraça tentando proteger, sem saber que no momento em que você encosta o queixo no ombro dele seus olhos se perdem no passado e você se sente destruída. Você fecha os olhos e algo se trinca dentro da sua vida. Fica detonada porque o ama, sim, mas não consegue trazer os dois pés para frente, nem mergulhar entre os tubarões para achar o peixe dourado. Você tem medo, ai de você. Medo de que ele seja um bom ator, apenas. Medo de que o abraço seja o último e amanhã ele acorde com o pensamento disperso em um universo paralelo onde existe outra pessoa. Você tem medo porque, se isso acontecer, é justamente com você que permanecerão as lembranças. A escova de dentes, o origami, o sapato, o quentinho. No banheiro dele não tem uma escova sua. É para você que continuará sério quando não for mais. Você olhará para o leite achocolatado – comprado por sua mãe porque o genro gosta - repousando na geladeira. Nunca mais fará um sanduíche com tomates picadinhos na manteiga - depois de um combinado inteiro de sushi – só porque ele ainda estava com um pouco de fome. Você terá as lembranças, enfim. A seriedade perdida no tempo. O amor que desistiu de ser. E ele terá qualquer coisa que não seja você.
Você tem medo, mas tenta lembrar que a escova verde dele ainda está em seu armário. Ainda é sério. Ainda é amor. O leite achocolatado ainda não coalhou. O travesseiro ainda tem o formato da cabeça dele e é quase quentinho ali. Antes dele você havia jurado que nunca mais deixaria um amor ficar sério, ou sequer ficar, de qualquer maneira. Mas ele roubou seus juramentos e agora você se vê projetando uma vida diferente em um show de slides. Fotos do agora e do depois. Não mais do antes. Histórias engraçadas, românticas e até dramáticas, mas nada mais de horrores e pânicos. Uma apresentação bonita, diferente de tudo que você esperava, afinal. Começa a acreditar que sua estrada pode ser mais longa do que imaginava e que não precisará percorrê-la sozinha. Você realmente acha que se o final foi feliz é porque ainda não foi final. Mas, quem sabe? Talvez você esteja errada. Talvez sua matemática seja de muita estatística e pouca dedução. Talvez seu final seja sempre um resultado negativo porque você não deixa que o positivo exista. Mas ele é positivo. Ele soma e não subtrai. Não arranca de você, apenas toma delicadamente o amor que lhe pertence. Ele é a sua melhor interpretação de textos. Ele deixou uma escova de dentes em seu banheiro. Aí não tem jeito mesmo, ficou sério de vez.

4 comentários:

Gugu Keller disse...

Mas talvez o pior mesmo seja quando sabemos que, para o nosso próprio bem, o melhor a fazer é jogar a escova fora, e ainda assim nos falta coragem para esse gesto assim tão simples...
GK

Anelise disse...

aiii amigaaa que texto LINDO!
super me identifiqueii, achei uma graça esse final.. realmente, o primeiro passo pra ficar sério é a tal escova de dentes e uma pasta a mais! AUEHOIAUHE
sua linda, tô morrendo de saudades! seus textos estão cada vez melhores :**

Dafni Melisinas disse...

Como sempre lindo, como sempre eu derramei lágrimas sem perceber...

Vini disse...

Até que enfim sobrou um tempinho para deixar meu simples comentário.
Este em específico me faz lembrar daquele Hortelã, Chanel e uma bola de sorvete sabor amor.
É lindo e muito bem elaborado, gosto do jeito que você dispõe as palavras e ideias pois apresentam um bom enredo e uma leitura que faz vc sair devorando as palavras e ao final perceber que precisa ler mais uma vez de tanto que gostou.
=*** meu cheiro

 
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