segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Suco de tangerina.

Ei, moço! Vê uma dose de tequila pra mim, por favor. Se tiver uns lencinhos de papel por aí, acho que vou precisar também. Como assim não tem tequila nem lenço para vender? Eu vim dirigindo até aqui só para achar um pouco disso e quem sabe uma esperançazinha entre as tranqueiras todas das suas prateleiras desorganizadas. Não, não serve suco de tangerina. Nem de morango. Cara, esquece. Você não tem nada do que quero aqui e eu até entendo, porque tudo que preciso consertar depende só de mim. Quem sabe uma pistola ajude. Calma, tô brincando. Vou continuar dirigindo por aí, mas valeu. O que? Não, não, estou bem, não se preocupe. Essas lágrimas são apenas velhas amigas dos meus olhos querendo ir embora antes de o tormento chegar. Não estou fazendo sentido, não é? Deixa para lá. Não, não quero sentar um pouco para me acalmar. Não preciso me acalmar. Na verdade, nunca estive tão serena antes. Só preciso fugir um pouco de mim. Minha cabeça vem tentando me matar há algum tempo, criando uma avalanche de memórias e traumas ruins. Bom, já vou indo. Até mais.
Voltei! Acho que vou aceitar aquele suco de tangerina. E um pacote de amendoim japonês. Sabe o que é, o lugar está vazio e isso é uma maravilha. Tenho vozes demais gritando dentro de mim para ficar em um local barulhento. É de enlouquecer, entende? No fundo eu só preciso conversar com alguém. Passei muitos anos mais fechada do que cofre com combinação perdida. Tem um montante enorme de coisas pelas quais passei das quais ninguém faz ideia. Sem problemas, sabe, esse é um fardo meu. O duro é que as vezes pesa demais. Sim, sei que você entende. Todo mundo diz que entende, porque cada um carrega seus próprios pesos. Ninguém tem espaço para os outros. Mas eu tô afim de conversar um pouco, do contrário estaria secando essas lágrimas lá dentro do carro, escorada no volante. Se bem que, pensando bem, você entendendo ou não eu estou pouco me lixando, com o perdão da grosseria. Estou mais do que acostumada a ser incompreendida e nem adolescente sou mais. É que as pessoas não estão habituadas com jovens melancólicos, só isso. É quase como se estar na faixa entre os vinte e os trinta anos trouxesse a obrigação da felicidade. Não gosto muito de festas, qual é o problema? Prefiro mesmo ficar em casa lendo um bom livro. Não quer dizer que eu nunca saia. Só quer dizer que, na grande maioria das vezes em que saí, acabei voltando para casa massacrada por uma massa de gente desinteressante. Ainda assim, as vezes capricho no visual e dou uma saída. Não flerto, não olho para os lados e faço dancinhas ridículas só para me depreciar. Saio, mas é mais para cumprir meu papel de jovem e deixar tranquilas as pessoas que me amam.
Eu vejo um futuro para mim, sabe, vejo mesmo. Não muito bacana, mas um futuro. Vou ganhar um dinheirinho honesto para cuidar da minha mãe quando ela precisar. Por enquanto ela é quem cuida de mim, a filha depressiva. Ela tem bastante paciência. Queria mesmo ganhar esse dinheiro com meus escritos, mas tô achando que não vai dar. Sabe como é, no Brasil essa história de escrever não é muito valorizada. Se eu lançar um livro de crônicas, umas vinte pessoas vão comprar. Faça as contas comigo, não cobre os custos nem desse suco que estou tomando. Mas, enfim, darei um jeito. Depois sinto que as coisas ficarão mais obscuras. Eu sempre vejo uma moça toda vestida de preto estendendo a mão para me buscar, normalmente quando estou quase pegando no sono. Meu namorado diz que não vai deixar ela me levar, mas vai saber, né? De repente estou ficando louca e nem notei. Falando nisso, esse é o fim que vejo pra mim. Um hospício, um manicômio, algo assim. Mas um daqueles bonitos, de filme americano. Um lugar onde eu possa andar por jardins bem cuidados com minha camisola branca, comprida e comportada. Onde um cara forte ou uma moça austera traga um copinho dizendo que está na hora do remédio. Onde a hora de deitar tenha que ser respeitada e eu, insone que sou, passe horas com os olhos abertos encarando o teto e pensando no passado. Porque no presente é que não dá pra pensar em um lugar desses, não é? Bom, nenhum problema nesse futuro que vejo. O único porém é que o visualizo acontecendo cedo demais. Na figura que se pinta em minha cabeça conturbada, nem meus cabelos estão brancos e eu já estou lá. Recebendo visitas esporádicas. Lendo nas horas calmas e me encolhendo no canto do muquifo nas horas complicadas, agarrando os cabelos e chorando por coisas inexplicáveis. Vejo-me sempre com olheiras profundas, cabelos desgrenhados, pés descalços. Uma coisa meio louca mesmo. Aliás, louca como eu estar contando tudo isso pra você. Tu é um estranho, cara. Eu sei que você não vai contar pra ninguém a minha história, nem seria bom para o seu estabelecimento. Mas ainda assim é estranho.
Vou te contar uma última coisa: a vida machuca. As pessoas veem grandes mistérios cercando o ritmo com que crescemos e andamos pisando sobre os ladrilhos da rua, mas a verdade é essa. A vida machuca, por mais prevenido que você esteja. Ela bate, corrói, estupora, faz de tudo. Há quem continue tentando e acreditando. E há os bostas que desistem. É engraçado como eu me enquadro na última categoria. Pode rir, sem problemas. Você não tá rindo da situação? Tá rindo de que? Ah, do palavrão. Como assim não combina comigo? Obrigada, mas não sou tão refinada assim. É só um salto alto. Boa postura? Acho que ainda estou conseguindo manter o peso do coração no lugar certo, então. Quando ele ficar inchado demais, tombo para frente. Mas não será no seu balcão, fica tranquilo. Enfim, vou indo mesmo agora, chega de falar. Tá aqui o dinheiro e, espera aí... Pronto, escrevi no guardanapo uma frase curta de um texto meu. Acho difícil, mas quem sabe um dia isso valha alguma coisa. Tchau, camarada.

Ela saiu, entrou no carro e foi embora. Não estava bêbada, apenas entorpecida por sua própria tristeza. Perdeu a dignidade por alguns instantes e logo depois se recompôs. Arrependeu-se mortalmente por ter soltado palavras na cara daquele homem. Nunca mais voltaria lá. Nunca mais tocaria nesses assuntos com ninguém. Esconderia sua vida atrás de uma barragem feliz. Era mais fácil assim. É claro que mais fácil nem sempre é melhor. Ela sabia disso. Uma pena não ter provado o suco de tangerina.
Ele ficou olhando o carro partir. Moça estranha, pensou. Deu risada de tudo que ouviu. Ela só podia ser louca, mas tinha uma melancolia que ele jamais vira antes. Uma melancolia disfarçada. Colocou o copo com o suco intocado na pia, guardou o dinheiro e olhou para o guardanapo. “A vida não passa de um projeto infeliz de um ventríloquo. Nós somos bonecos. Nada mais”. Ele riu mais um pouco e sacudiu a cabeça em reprovação. Louca, louca, doidinha mesmo. Limpou o balcão, amassou o papel e jogou no lixo ao mesmo tempo em que ela derrapava na estrada molhada pela chuva e capotava o carro em um acidente fatal. Ninguém jamais soube que não foi realmente um acidente. De todas as partes de seu corpo, só duas coisas permaneceram intactas. O rosto, sereno e com leves respingos de sangue, e a mão onde repousava a aliança do primeiro homem que a amou de verdade. A vida machuca, mas a morte é implacável.

4 comentários:

Gugu Keller disse...

Nada é mais relativo do que loucura. Talvez tanto quanto o seja a lucidez.
GK

Anônimo disse...

Você está a cara da sua mãe! E isso nunca foi um elogio! ;)

Vini disse...

Bruto! auahsuahsua nao consigo achar outra palavra para o texto, muito interessante a forma de dialogo =D
beijos meu amor ^^

teste disse...

teste

 
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