terça-feira, 11 de outubro de 2011

Cabides.

Estou com medo saindo pela garganta, uma apreensão comendo entranhas e endurecendo travesseiros. É como se você fosse embora amanhã. Não aquele embora que volta, do tipo “até depois”, mas o embora para sempre. É como se você estivesse arrumando as malas na minha frente, esfregando em minha fuça sua partida precipitada. Pegando cabide por cabide no armário com uma lentidão excruciante. Dobrando camisas, calças, cuecas e meias e socando tudo na maior mala do mundo com a calma de quem sabe exatamente que passagem comprar e para onde ir. Cada roupa guardada na bagagem leva uma parte de mim junto com seu coração; os cabides ficam vazios como minha vida será quando você for. Mas você não se importa. Um cabide é só um cabide, afinal, não arquiva sentimentos. E joga cada um em cima da cama para que eu guarde depois. Para que eu junte os cabides e meus restos com uma vassoura e jogue tudo no fundo de uma gaveta porque esses são cabides que apodrecerão sem jamais segurar outras roupas. Diferente dos seus, que têm uma vida inteira pela frente.
Deitada na cama eu falo em sussurros sobre o medo de te perder e sobre o quanto te amo. Coisas que habitualmente ficavam guardadas junto com o livro embaixo do travesseiro. Escondidas, abafadas. Eu falo, mas você parece nem perceber. Sua resposta é sobre as garrafas vazias de whisky que coleciona em sua casa. Eu penso que suas garrafas não te amam mais do que eu, mas permaneço em silêncio. Levanto me esquivando pelo lado da cama colado à parede que me pertence quando você está aqui e procuro caneta e papel para escrever. Não acho nada porque minhas coisas estão sempre desorganizadas e espalhadas por aí. Não sei aonde o caderno foi parar. Acho um bloco de receituário médico, enfim. Serve para não perder a ideia dos tais cabides que você está jogando fora. Volto para a cama e escrevo com uma luz ruim, enquanto você brinca no celular. Sabe que estou triste e já me viu virar a página quatro vezes, mas tanto faz; seus cabides já estão mesmo vazios. O único armário ainda cheio é o meu. Cheio de amor e dessa angústia insistente pululando em meu peito, como se soubesse de algo que eu mesma não sei. 
Não adianta me esperar para dormir, amor. Eu posso ser sensível e ficar triste por pouca coisa, mas quem está com as malas prontas é você e para mim restam apenas duas coisas. Escrever usando um livro improvisado de apoio e depois apagar a luz para dormir virada para a parede. Você vai me abraçar, eu sei, e nós vamos encaixar naquela conchinha que me acalma. Com sua pele quente e macia, vai me chamar de amor. Talvez eu não retribua, mas não é por falta de sentir e sim porque você me fez enxergar as malas lá na frente e os cabides vazios deixados para trás. Vou fechar os olhos e tentar dormir. Vou tentar lembrar que estou protegida porque você está com o rosto perto da minha nuca e um braço por cima do meu. Mais tarde você vai embora e eu sei que meu corpo sentirá falta de cada toque, mas tudo bem. Hoje estou quebrada por dentro, mas com dignidade. Amanhã cuido dos cabides. Quem dera fosse fácil assim com sentimentos também. Amanhã o que restar será preenchido com vestidos meus que imploram por espaço. Quem dera fosse simples assim com pessoas também. Mas não é. Você vai embora com suas palavras mal pensadas e eu vou ficar com as lembranças das suas besteiras divertidas. Não sei qual foi o tamanho do amor que as outras dedicaram a você quando se recostava na cama, lindo em sua camiseta preta e cueca branca, mas sei que o meu amor é maior. Não sou criança para disputar e nem preciso medir. Eu sei. Simplesmente sei que te amo mais quando você faz carinho em minha perna enquanto escrevo, tentando sutilmente descobrir se está tudo bem. Não está. Sua mala tem rodinhas e já vai longe com uma velocidade impressionante que só você não vê. Eu enxergo mais do que gostaria. Sei que te amo quando espio seu rosto sério e, principalmente, quando apago a luz e você ainda está ali. Eu sou material que queima, mas você ainda está ali, deixando o braço pegar fogo até que resolva esfriar.
Quando canso de escrever e deito, enfim, você realmente me abraça, quentinho como eu esperava. Dói no começo, porque ainda estou arisca e sofrendo minhas batalhas internas; você mesmo diz que sou assim. Mas depois começo a me acalmar. Eu só precisava de paciência e de você, embora não parecesse. E então penso que vou conseguir dormir e que talvez os cabides sejam apenas um presságio ruim que não se concretizará. Mas você levanta e vai embora, quando meus olhos estão quase apagados. Sem beijo de tchau, sem aviso prévio, sem nada. Calça os tênis e vai embora do mesmo jeito que entrou. E eu pensando – bobinha – que teria seu abraço até de madrugada porque amanhã é feriado e não precisamos trabalhar. Bem, não precisamos mais nada agora. Era meia noite e dez. Ouvi mais do que vi você indo embora. A chave no trinco da fechadura. A porta rangendo. A porta do elevador se abrindo. Seu carro derrapando nas pedrinhas lá embaixo. No fim você preferiu estar longe e penso que dessa vez não tem volta. Eu fui um cabide em sua vida, onde você pendurou as roupas e esperanças mais antigas sem pensar direito. Fui um cabide, quando queria ser apenas seu amor. Mas cabides não choram, então não sei o que sou.
Eu sabia que as malas estavam próximas, senti isso desde o começo da noite. Mas não achava, confesso, que elas estavam tão próximas assim. Você não estava apenas se preparando para ir. Você já foi. Pensei que iria embora amanhã ou na semana que vem, mas, no fim, você foi hoje mesmo. Foi embora subitamente como um gato que extermina um camundongo e depois foge. Quando dei por mim estava sozinha em uma cama gigante, com seu travesseiro ainda dobrado ao meio. Seu corpo ainda marcado logo ao lado. E você me diz, depois, que sua noite será péssima. Mas, meu amor, pelo menos você tem o whisky para acompanhar as outras garrafas vazias enquanto eu digo, mentalmente, que ainda te amo. Você decidiu me deixar sozinha e, já que era para machucar, espero que tenha ao menos se dado ao capricho de colocar os cabides na porta de lixo do corredor do prédio. Assim, talvez, doa menos em mim amanhã. 

1 comentários:

Vini disse...

Queria muito que voce ouvisse e sentisse na hora que disse que estava indo, que te amo, que puxei a coberta para nao sentir frio, que nao liguei as luzes para nao atrapalhar seu sono leve, que amanha eu traria minha malinha de volta, para tirar tudo de dentro e dizer, que o unico objeto que preciso botar na mala, é o seu amor, nossas canequinhas, e as fotos juntos. Ou seja, eu nao estou indo embora, nao estou arrumando as malas sem antes ter certeza de q nao estou botando roupas suas junto com as minhas para fazermos nosso cruzeiro. Não sou de sair sem dar tchau, nao sou de abandonar quem me da valor, posso ser ruim em entender sinais, mas eu nao sou a pessoa que abandona quem ama.

 
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