segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Falecido amor.

Ele morreu. Morreu jovem, mas também velho. Ninguém o chamou de coitado, o exultou ou disse que ele se foi antes do tempo. Ele morreu porque merecia morrer. Como uma fase embrionária falhada e, ao mesmo tempo, como alguém que já precisa de fralda geriátrica. “Não existe isso, ou se é jovem ou se é velho”, alguém retrucou. Mas ele era ambas as coisas, assim como eu também sou. Corpo jovem, mente idosa. Em alguns aspectos um bebê que ainda nem sabe andar, em outros uma carcaça que já sofreu todas as peripécias da vida danada de sacana. Há tempos ele precisava de ajuda para tudo; sua vida dependia de cadeira de rodas, uma mãozinha para tomar banho, comida dada na boca. Estava desnutrido, padecendo carente de tudo.
Ninguém o velou, exceto eu. Ninguém entrou em luto ou vestiu preto, exceto eu. Só eu o cremei por um resto de carinho e respeito e soprei os grãos cinzas ao sabor do vento para que ele fosse livre como sempre desejou. Só eu derramei lágrimas por sua morte precoce. Os outros riram porque sem ele o mundo ficaria melhor. Menos doloroso, menos agressivo. Mais saudável e gentil.
Ele morreu não se sabe de quê. Cirrose, câncer de pulmão, acidente de carro; tudo é possível, tudo pode ser e tudo combina com seu estilo de vida, mas o mais provável é que tenha morrido de cansaço. Os médicos garantiram que isso é besteira, mas eu acredito piamente que não. Ele já arfava exausto há tempos, mais gorgolejando do que respirando propriamente. Já não era mais ele, especial e bonito como no começo. Não podia correr, não aguentava a rotina, não suportava o peso de precisar de alguém além de si. Era apenas uma pessoa com olhos sempre vermelhos, hábitos ruins e carro sujo. Era alguém que significava muito para mim, mas que preferiu morrer sozinho, sem segurar minha mão estendida. E hoje agradeço por isso. Por ter recolhido a mão e tê-la mantido sozinha e viva.
Ele não se aceitava em frente ao espelho e não me aceitava também. Imagine, é claro que eu era pouco para ele, enquanto ele era pouco para si e muito para mim. Minhas últimas palavras – parada em pé na terra fofa do cemitério vazio e inspirador – foram: “Descanse em paz. Depois de tantas bagunças, já passa da hora. Tantos erros que agora podem dormir com você. Tantas mentiras que morreram sufocadas em seu peito ou martelando em minha mente. Você tem uma eternidade aí embaixo para pensar e salvar o pouco íntegro que ainda lhe resta. Você tem o meu respeito, pois fez parte da minha vida. Só peço, por favor, que não volte jamais para me atormentar. Conte comigo, mas longe de você”. 
Pés descalços, o vestido balançando com o vento gelado, joguei uma rosa desapegada em cima de seu corpo duro e fui embora com o rosto seco. Todas as lágrimas que ainda restavam ficaram dentro do túmulo, junto com ele. Chega de chorar por quem já se foi. Chega de sofrer por um passado que já nem respira mais. Fechei os olhos e abri um sorriso cálido. Sou livre agora, totalmente livre de um peso que já era morto mesmo quando vivo. Posso voltar para visitá-lo as vezes e levar algumas flores frescas. Ou secas, dependendo do humor. Posso visitá-lo, sentir pontadas de saudade, mas ele nunca mais existirá. O que morre não volta e eu não quero um zumbi atormentando minha vida. Fique morto. Que nenhuma mão escurecida e de unhas pretas e sujas surja da terra para agarrar meu tornozelo. Seu fim é só seu e não me tem. Não vou morrer junto com você, com um mundo inteiro por viver lá fora. Outros tantos de você correndo ásperos por aí, outros diferentes da sua empáfia, mais saudáveis e suaves andando com calma e paciência. Dei uma última olhada para trás, sim, mas não vá acreditar que foi por saudosismo. Foi, na verdade, para ter certeza de que a lápide estava mesmo lá, imponente e cinza, cravejada com as palavras “aqui jaz um velho amor que não deu certo”. E estava. Ele não funcionou, só maltratou e danificou o que antes era quase inteiro. Mas meu coração continua aqui, batendo no peito e seguindo em frente. Lá no túmulo está apenas o amor velho e ressecado que não quero mais te dar. O mais ridículo amor, que de pobrezinho nada tem. Você continua por aí, e eu continuo por aqui. Mas o amor, o falecido amor, nunca mais rastejará em outro solo que não seja aquele a sete palmos de profundidade. 

5 comentários:

Dafni Melisinas disse...

aah guria, belas palavras, que sempre me fazem chorar.

Anelise disse...

AMEI, sem mais.

Gugu Keller disse...

Cada vez mais me convenço de que, escrevendo como escreves, és fadada a jamais morrer!
GK

Vini disse...

morto, simples assim =p
auhsuahsauhs
que texto amor! nossa detonou =D

Marinha disse...

Fiquei sem palavras! AMEI, Josiana! É isso, AMEI!

 
Creative Commons License
Vogais Vazias by Josiana Rezzardi is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License.
Header Image by Colorpiano Illustration