terça-feira, 18 de outubro de 2011

Hibernação sentimental.

Não há anúncio no jornal como a educação da música, classificados ou uma lista de como virar um urso em dez ou quinze passos. Nunca vi comerciais a respeito na televisão, muito menos na voz grave de algum radialista animado. Transformar seu coração em um urso em época de inverno não é matéria escolar e nem está entre as optativas da faculdade. Não há quem ensine, não há quem conheça métodos fáceis e possa dar umas dicas parceiras. Se há quem realmente aprenda, ainda tenho dúvidas. Eu estudei sozinha, fui professora de mim depois que a vida esfolou meus esforços e me deixou de mãos abanando e cabeça cheia de mágoas. Foi sendo autodidata que o pior se trancou e o melhor descansou para não ser perdido. Decidi de uma hora para a outra, mas o treinamento não foi tão rápido assim. Foi preciso paciência, dedicação e perseverança para não deixar o coração bater mais rápido. Coragem para escoar os sentimentos e complicações e ficar sem nada. Pulso firme para manter a razão sempre na linha de frente, falando mais alto e quase berrando. Foi preciso força para não permitir novos começos; para estagnar no tempo. Deixar passado, presente e futuro para bem mais tarde e viver apenas a hibernação gostosa e fácil de não sentir nada. Absolutamente nada. 
Foi assim que aconteceu. De tanto esquentar relações frias e pulsar demais por quem segue em ritmo constante, resolvi mudar. Porque no fundo a gente sabe como mudar, mas morre de medo e continua fazendo tudo sempre igual. Então larguei o medo enquanto colhia algumas frutas silvestres e um pouco de mel para estocar. Fiz um montinho de folhas verdes e outras secas e guardei as frustrações embaixo, enterradas em terra firme. Pesquei uns peixes e umas lembranças para ruminar sozinha enquanto o tempo demora a passar no inverno do meu novo lugar: a caverna escura da falta de vida. Eu resolvi não querer mais sentir. Decidi botar uma bomba em meu sistema límbico e acabar com essa parafernália tamanha de sentimentos que vieram parar em minhas mãos. Chega disso, chega daquilo, chega de você e chega de mim depois de você. Eu resolvi hibernar, arrumei minhas coisas e parti. Não me perguntem como se aquiesce um coração desesperado. Não me perguntem para onde vim. Eu não sei. Eu apenas decidi. Não adianta cantar suave, ninar, deixar quentinho. Precisa mesmo é hibernar. Reduzir todas as funções corporais e deixar que restem apenas as estritamente necessárias para a vida. Nada de risos, lágrimas, palpitações. Tudo isso é só gasto de energia. Nada de emoções. Só a constância do sono letárgico. Só a inatividade do corpo e da mente, do coração machucado, da solidão alargada. O relaxamento muscular depois de tanta tensão amargurada. Deixa o vento levar que a vida assenta. Deixa a falta ir que a presença toda vem. Deixa acontecer que, quem sabe, acontece. E se não acontecer, deixa de novo o vento levar. E enquanto isso você apenas dorme o sono ameno daqueles que merecem um pouco de paz. O rosto continua duro e fazenda caretas rígidas porque não sabe mais ser delicado e repousar. O rosto é duro – assim como a vida - mas deixar que os sentimentos hibernem é questão de saúde mental. 
A tristeza gorda ainda está na garganta e em todas as regiões do corpo. Espalhada pela caverna e servindo de cobertor e de gordura armazenada para a sobrevivência de quem não acorda para se cobrir com um manto. Nos pesadelos o urso ruge, mas não irá acordar. Não até que o verão chegue e traga boas notícias. Não até que a vida tome mais cara de vida do que de fardo. O urso está desesperado no espaço onde ainda pode gritar sua dor, mas o corpo espera em delírio invernal. Não há mais nada para sentir. Tudo acabou e tudo se foi. Ainda que ele hiberne, em certos momentos bate o familiar aperto no coração. Então eu me lembro que ainda dói em algum lugar distante de mim, onde ainda sou eu mesma, e que quero rasgar meu peito, sem pudor ou cuidado, e arrancar coração, urso, artérias, veias, tudo. Os pulmões que respiram você. Quero arrancar de mim sua última imagem, aquela que estraçalha minha vida. Enlouqueço por alguns instantes até lembrar que tudo só pode estar se passando em um sonho ruim porque, afinal, estou hibernando sentimentalmente já há meia estação.
Arquivei em pastas separadas o que já senti e o tanto que já amei do que ainda poderia vir a amar. Fichários diferentes, mas com o mesmo destino: a caixa-preta de um avião que não vai mais decolar. A caixa que tomou posse de tudo e que um dia irá mostrar – descoberta entre entulhos e destroços – que sua dona foi, algum tempo atrás, capaz de viver. Perdi a habilidade. Perdi a compaixão por meus próprios sentimentos. Perdi a destreza de andar nas pontas dos dedos para não machucar o pé inteiro. Agora tanto faz se você vai voltar. Não estou mais tentando viver, só existir. E isso, diferente daquilo, não requer você. Eu queria tudo que você não podia me dar e agora não quero mais nada. Nem você, nem eu, nem a droga da paz que nunca chega. Não quero nada e já perdi tudo, até mesmo o que não tinha e que nunca foi meu. Botei para dormir – eu, urso que virei – minha vida. Silenciei na marra os sentimentos maiores e as dores mais vis. Perdi as lágrimas e a vontade de derramá-las. Mas não se divide bom de ruim de forma sensata, já que tudo é relativo. Então, junto com todo o desespero, perdi também a alegria, o sorriso solto, a fluidez de permitir que um amor aconteça e a capacidade de doar os poucos restos inteiros que ainda tenho. Restos que irão necrosar por falta de uso. Retalhos de amor, pedaços de querer. Tudo apodrecendo enquanto eu hiberno por um tempo incalculável.
A barreira foi erguida, um muro alto de pedra sobre lembranças em constante explosão. Mas é tudo fino demais. Frágil demais. Uma só garra mais afiada e um buraco se rompe na divisão entre o real e o sono. Tudo se rasga com vontade própria, sem pedir licença. O urso acorda, grita, sangra sua dor que até então dormia quase esquecida. É quando percebo, acordando no meio de um pesadelo qualquer, que não aprendi. Ainda não sei como se bota para o lado o que machuca e corrompe. O que dilacera pedaços sem piedade, noite após noite e dia após dia. As lembranças mais bonitas e vis. A mescla do que arde, queima e assopra. Sei dar uma folga, as vezes, para meu coração cansado, mas a neve lá fora continua chicoteando as janelas do meu peito. Sou um cochilo leve e assustado. Um sono que não chega, apenas acostuma. Descobri que, no fim das contas, sou mesmo o urso panda. Aquele que apenas cochila, mas jamais hiberna.

2 comentários:

Gugu Keller disse...

Quem sabe sejamos a humanidade resultado da hibernação de deus...
GK

Vini disse...

Pouparei meus comentários aqui no blog pq ja expliquei (ou tentei explicar) pessoalmente aushaushauhsauhsa
=**

 
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