quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O amor e um sapato.

Querendo ou não eu amo esse seu jeito infantil de cair da cama só para me fazer rir. O seu medo, enquanto brinca, de não ser homem o bastante para mim porque, segundo você, sou um mulherão. E inteligente. E isso te encanta e te assusta e você também me encanta e me assusta. Porque eu não sou nada demais mas talvez seja de menos e você nem perceba. E quando se der conta teremos um problema porque a coberta já tem seu cheiro, o colchão seu lugar, o travesseiro sua caspinha e o cantinho da gaveta seus pacotinhos barulhentos. A estante de vidro central entre as cinco guarda sua foto em uma redoma de vidro, junto com um bilhete seu feito à mão. Os bonequinhos magricelos que você desenhou nele representam nosso amor e, querendo ou não, eu carrego a responsabilidade de te amar assim. Tanto. Muito. De sentir o peito explodindo só por ver dois bonecos de palito feitos à caneta.
Você foi o único que me viu chorar por fragilidade e dor, o único com quem terminei dezenas de vezes já sabendo que não teria força para não voltar. Porque seu abraço me chama, assim como sua voz me acalma nas horas certas e seus dedos me fazem cócegas provocativas. Eu corri e saltei em seus braços, enlaçando minhas pernas em sua cintura incontáveis vezes e você foi o único que me carregou assim para lá e para cá mesmo quando eu desfalecia todo meu peso de tanta tristeza. Você me deu seu amor e um sapato. Um sapato alto com amor. E agora toda vez que o calço meus pés brilham de paixão e formigam de felicidade porque é o amor me fazendo andar. Recomeçar com passos de formiga. Porque você estendeu a mão e me ergueu do chão imundo onde eu me escondia sentada em uma pedra. Você disse “eu te amo” e eu engasguei de susto. Mas seus olhos diziam o mesmo e isso eu não poderia negar. Você tirou meu sapato surrado e remendado, limpou meus pés e me calçou como uma princesa. E fez o mesmo com meu coração. O que você me deu não foi um sapato. O que veio dentro daquela caixa foi o amor em um formato diferente. E o mapa para um recomeço.
Querendo ou não foi você quem viu minha casa em reforma ao mesmo tempo em que eu pregava novas tábuas em meu coração. Todas com caruncho, mas você diz que daremos um jeito e eu acabo acreditando. Você dormiu comigo no sofá de casa muitas vezes antes de poder ficar confortável na cama. Interfonou mil vezes antes de ganhar sua chave. Você zela por meu sono leve e me abraça forte quando um pesadelo me acorda quase chorando. Você me viu sem maquiagem alguma, despenteada, com o pijama debaixo de um conjunto e o de cima de outro e mesmo assim me amou. Me viu no hospital cheia de manchas no rosto, vomitando bile e sangrando no tubinho do soro e mesmo assim me amou. Jogou Pokémon ao meu lado para que eu não ficasse sozinha. E eu estava grudando naqueles lençóis fedorentos de hospital e você não foi embora. 
Você me deu um buquê a cada mês de namoro; eu ganhei 49 rosas em quatro meses, muito mais do que ganhei em 22 anos de vida. Me apresentou a sorveteria da lésbica e eu viciei no sabor leite ninho e agora preciso voltar lá para ver você lambuzar o queixo de novo com o sabor torta alemã enquanto dirige. Você compra uma sacola de picolés de fruta por seis reais e eu lembro que não conhecia mais ninguém que ainda valorizasse esse tipo de coisa. Você dá valor às minhas produções, gosta da luz azul do meu quarto e de quando eu sento em seu colo. Você gosta do gelado da minha perna que esfria seu corpo sempre quente. Diz que eu sou um ar-condicionado ambulante. Não se importa se minha vida inteira é um fracasso e se eu sou um zero à esquerda em tudo exceto na hora de escolher o sabor de um suco. Nós assistimos South Park e fazemos coisas inúteis como namorar no tal do “The Sims” ou colecionar canequinhas de submarino. E quando você pergunta qual é o problema, então, eu vejo que esse é o porém. Porque querendo ou não eu te amo, mas odeio o fato de não resistir ao calor do seu afago e do jeito que você me segura quando a depressão quase vence a batalha. Odeio ser um pouco sua, quando eu era tão minha e somente minha. Mas você está sempre ali, mesmo quando eu não quero ser de mais ninguém. Mesmo quando eu te mando embora. Você e o sapato-amor estão ali. Eu não sei por quanto tempo estaremos juntos ou se o amor vai durar mas, querendo ou não, vou me lembrar para sempre de cada vez que você me fez sorrir.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Egoísmo.

As coisas estão espalhadas pelo chão porque hoje me lembrei de tudo que cada trejeito seu significava para mim. As meias largadas ao redor da cama, os tênis de cadarços estrebuchados, a mochila velha em cima da mesa. Tudo ainda está ali, mesmo não estando mais. Eu costumava contar azulejos da cozinha depois que você partia, mas entre o primeiro deles e o copo sobre o tampo de mármore nunca cheguei ao resultado. Até hoje, depois de tanto tempo, não sei o número que poderia me denunciar como uma vítima de transtorno obsessivo-compulsivo. Seria mais um número para lembrar de você, como a faixa três do cd que toca em meu carro no modo aleatório. Seria mais um lugar para ser quebrado e desmontado muito mais tarde, quando a noite dorme e não deixa dormir.
Eu nunca exigi nada. Nem amor, nem carinho, nem promessas. Nem a droga do respeito eu soube pedir. E você nunca deu nada de mãos beijadas. Para que amor a quem só precisa da esperança dele, afinal? Da luz piscando sempre alerta no fim do túnel, do esperar eterno. Para que respeito a quem não sabe respeitar seu próprio orgulho? Para que carinho a quem só precisa da promessa de um final de noite que pode nem ser cumprida? Eu nunca fui mais do que isso, mas enquanto tivesse suas curvas vez por outra coladas às minhas estava tudo certo. Eu amava o bastante para esperar você terminar seu pileque, suas anedotas e metáforas, conversas com mulheres de cabelo mal tingido e malandragens com amigos. Eu esperava porque depois era sempre a minha vez. Esperava como se esperar fosse um trabalho digno cujo salário nunca chega. O amor nunca chegou, mesmo depois de tanto tempo aguentando sobre joelhos fracos a espera infinita para ter um pouco de você, equilibrando em uma roda só a melancolia, a saudade e a euforia. Nunca chegou, não para mim. O amor vai chegar para você e outra pessoa, quem sabe. Ou talvez nem seja amor, mas algo parecido que lhe dê conforto ou que simplesmente acalme sua sede insaciável por uma liberdade que eu nunca privei. Eu, que tanto te deixei livre, enfio as mãos nos bolsos e parto sem nada porque é melhor assim. Ela talvez seja a mulher que te faz feliz, enquanto eu tapeava seus dias ruins. 
Eu poderia achar outro como você, tenho certeza de que há vários por aí. Você não era tão especial a não ser para mim. Mas não quero achar igual, nem ao menos parecido; não creio aguentar o tranco. Melhor um oposto a você. Melhor nada, ninguém. Nós tivemos tempo, meses e meses contados em um velho calendário de parede com figuras abstratas da natureza e hoje tudo o que resta são minhas lembranças somadas aos fantasmas do passado. Às vezes ainda tiro do armário o tabuleiro Ouija onde ficaram os espíritos de nós dois e tento conversar sobre qualquer coisa que amenize sua falta. Mas o indicador de madeira se move para lá e para cá dizendo que você está bem sem mim, realizado à sua maneira. “Você não foi importante” - diz o mais direto dos espíritos – “mas a futura talvez seja. Qual será o tamanho da sua dor quando descobrir se sim ou não?”. Não sei, eu respondo sozinha. E pergunto a mim mesma se já não estou preparada para isso desde o começo, mas o espírito intrometido diz que não, não estou.
Você continua aparecendo de quando em quando e massacrando de sempre em sempre, quando minha única defesa é ter conhecido outro alguém e já não te amar tanto assim. Quero quebrar o tabuleiro e suas frases sempre incompletas. Quero jogar fora os pedaços de madeira e os pedaços de você que ainda estão embaixo da minha cama quando está escuro, espreitando meus sonhos vívidos. Chega de comunicação. Já basta de um casal que sempre foi construído por uma pessoa só. E depois de você, que não chegue mais ninguém por um bom tempo. Nem mesmo o outro alguém que já apareceu. Pode até ser egoísmo eu querer salvar meu couro a todo e qualquer custo. Fechar as portas, as janelas, os ouvidos, olhos, boca e poros da pele. Pode ser egoísmo deixar as pessoas para lá e viver do sono solitário por um tempo infinito. Os fantoches do Ouija diriam que é egoísmo. Mas não me importo. Eu digo que egoísmo foi o seu ao me usar como a toalha de banho suja quando você esqueceu de pegar a limpa no armário antes de entrar no chuveiro. Egoísmo foi o seu ao dizer palavras sem que elas significassem o que o dicionário ensina. Perto disso negar bolacha ao próximo é coisa de santo. Perto disso eu posso ser egoísta. Tenho esse direito. Que seja egoísmo, então, se for para me arrancar de dentro do nosso fim.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Cansaço.

Eu falo para ele que estou cansada, muito cansada. Ele pergunta se não dormi bem. Não é esse tipo de cansaço, respondo. É cansaço da vida. Estou cansada. De verdade. Enjoada do fracasso, enojada do futuro. Ele oferece o colo e eu rio meio louca; o colo é ótimo, mas não resolve. Foi-se o tempo em que o lema era “colo, leite e rock’n’roll” ou qualquer outra coisa que escrevam em um body de criança. Hoje só resta o rock’n’roll. E não adianta eu me encostar no conforto do seu abraço porque vou continuar cansada e você vai ganhar uma camisa molhada de lágrimas. Me empresta só o seu amor e tudo bem, juro que devolvo quando você precisar. Eu só tenho que pegar um pouco do seu coração e um punhado de amendoim japonês ou chocolate.
Deitados como dois protagonistas de comédia romântica em uma cama de quase três metros eu vejo pelo espelho do teto o sorriso dele. Estamos meio tortos e esparramados, como uma foto de cartaz de filme presa na parede da bilheteria de cinema de um shopping. Só falta a música engraçadinha, penso. Mas minha imagem está um tanto quanto retorcida, como se meu rosto fosse pura dor envenenada. Ele diz que não, mas eu enxergo um pouco além, já que nesse quarto com espelhos por todos os lados não há como escapar. Ele fala que me ama de um lado, mas o espelho ri do outro – debochado como um vilão magistral – e eu começo a pensar que sou esquizofrênica. Ouço duas vozes ao invés de uma só. Já me disseram tantas coisas, já maltrataram tanto minhas crenças, mas ao menos a certeza de que espelhos não falam eu ainda tenho. Espelhos também não apontam dedos, mas vejo um indicador prateado direcionado a mim como uma grande saliência vazando de um buraco aberto no teto. Um trinco no espelho manchado por enxergar demais a podridão das pessoas.
Ele só pode estar distorcendo – eu penso –, a realidade tem que ser melhor do que isso. Mas não é. Bom se a vida dentro daquele espelho fosse real, enxergando uma cama lá embaixo, duas pessoas que se amam, mãos dadas, um cara, uma mulher e uma calcinha de renda preta. A vida real não é isso. Ela precisa de uma santa paciência que eu não tenho. Da calma de tentar e buscar e arriscar e não de morrer aos poucos por não conseguir. Eu estou sempre morrendo aos poucos, como bordados caindo do aplique no vestido. Estou cansada. De perder meus canutilhos e lantejoulas e o brilho que eles guardam. Cansada de virar tecido liso e opaco. Cansada de ter que remendar. Estou cansada de mim e de prender o saquinho da amargura com um eterno grampo de roupa improvisado.
Eu fico encarando o espelho do teto enquanto você faz gracinhas para me animar. Minhas pernas desnudas entrelaçadas com as suas estão tranquilas, mas o resto todo está um caos. Hoje não tem jeito, amor, hoje a tristeza é o canal da minha televisão. Você não a vê passando logo ali acima de nossas cabeças? Refletida no espelho, como lágrimas gordas e tempestuosas. Como risadas de escárnio dizendo que meu nome e a palavra agonia são duas coisas redundantes. A água do meu corpo está se esvaindo, sendo sugada, perdida, cuspida para longe. E quando eu enxugar de vez, enfim, acabou. Para mim, para você, para o meu cansaço. Porque o mundo me cansa e você também está em meu mundo. Você me cansa porque eu não posso armazenar tanto amor e sentir tanta ânsia em pedaços de mim que nem sabem sentir. Estou cansada e, mais do que isso, não me suporto mais. E não suporto as luzes da vida que acendem e apagam, os fetiches de um corpo, o salgado dos dias mais quentes. Eu posso esticar as pernas como você quiser e posso rir e posso enganar. Mas estou cansada. Totalmente insuportável para mim mesma. Vou varrer os bordados para o lixo e observar a verdade do espelho até que ele caia. Porque ele também não vai suportar. A verdade é pesada demais.
 
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