quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Gotejando.

Uma gota no copo, a primeira de outras vinte. Em câmera lenta, um pensamento a cada bolinha de remédio que se forma no dosador. O indicador batendo no frasco de vidro para encorajar a gota tímida a cair. Vamos lá, você deve sair da toca. Aquela moça à sua frente, derrotada e abandonada em seus cabelos loiros não penteados, precisa de você para dormir. Ela te enxerga à altura dos olhos e implora que não demore até o copo estar completo. Ela precisa dormir porque dormir apaga sua miséria e dor. Dormir desliga seus braços sempre cruzados, pernas exaustas e olhos cansados de mentir. Cai a primeira gota. O começo é sempre mais difícil; uma gota, um início, um pingo que borra o fundo do copo e mancha um coração.
Os olhos cansados acompanham a segunda gota. Ela pensa no questionário de treze páginas que respondeu meses atrás e entregou ao psiquiatra. Questões pessoais e tão árduas quanto física quântica. Linhas em branco, perguntas sem resposta. Como você se descreveria? Como os outros te descreveriam? O que faltou na sua vida para você chegar a esse ponto amargo da desilusão? O que poderia ser feito? Perguntas de um papel. Nada pode ser feito. Há pontos e pontos. Houve um tempo em que existia uma linha; hoje há um borrão. Nada além de um futuro borrado e abafado. Ela não foi sincera nas respostas porque queria parecer melhor do que realmente estava. Ele sabia.
A terceira gota faz “plic” no fundo ainda vazio. Ela gostaria de assistir a um filme clássico, mas não há mais tempo para isso. Já é a terceira gota, afinal. Depois que o copo for preenchido, filme algum soará interessante. É tudo o que ela precisa. Que o que é interessante deixe de ser, porque seu interesse ultrapassou o portão quando ninguém havia batido na porta. Ela precisa parar de esfregar os dedos nas têmporas como se pudesse apagar a mágoa dali. Deitar a cabeça no travesseiro e não pensar em nada. É para isso que servem suas gotinhas preciosas e ansiolíticas.
A quarta gota cai junto com uma lágrima. Os sentimentos vêm em gotas também, ela pensa, mas num ritmo muito mais rápido, quase como a frequência de um soro ou remédio injetado na veia. Ela pensa em tudo o que a fez chegar a este ponto. Nos motivos pelos quais precisa disso. Por que precisa de si, quando não é útil nem para sua própria vida. Sabe que acabou. Tudo. Seu projeto nas mãos de outra pessoa. Sua tristeza engolida. Ela deu de mãos beijadas o que criou com tanto amor com alguma perspectiva misturada. Não há mais nada.
As gotas vão caindo e é lá pela décima que ela lembra do cartão do psiquiatra, com o número do celular. Ele mandou que ela não pestanejasse em ligar caso tivesse ideias tortas. Mas mais torta é sua visão, distorcida pela decepção. São cinco horas da manhã. Tarde demais para dormir, tarde demais para estar acordada, tarde demais para qualquer coisa que não seja fechar os olhos e apagar a tempestade da mente. Podiam vender vida em pote, ela pensa; compraria um estoque inteiro. Cheio de criatividade para superar as perdas, de sossego para desapegar do que já não é seu. Podiam vender Engov para o coração. O dela estava embargado, totalmente bêbado de uma tristeza consumidora e azeda. Inchando seus olhos, molhando camisetas, acabando com suas continuações inúteis. Podiam vender um pouco de tudo. Ela faria financiamento para comprar um pouco de paz.
Décima sétima gota. Iria até o fim do vidro se pudesse. E então o sono seria para sempre, sem fim, como uma bela adormecida sem príncipe ou beleza. O final é mais difícil ainda do que o começo e ela já não sabe parar. Pinga suas gotas como quem pinga os últimos sorrisos da vida em um copo de vidro. É uma desintoxicação forçada de alegria. Ela esteve bem, mais ou menos feliz por tempo suficiente para ofender sua antiga amargura. Recebeu uns tapas na cara e alguns berros no ouvido dizendo que deveria voltar a fazer tudo sozinha, porque sua vida é solidão e não sociedade. Assustada, já na vigésima gota ou mais – ela perdeu a conta e nem mesmo olhava mais para o vidrinho marrom à sua frente – resolve abdicar de algo que amava e que criara para si, simplesmente por não poder continuar dividindo sua vida. É uma pessoa que guarda coisas. Que não separa com mais ninguém. Que mantém tudo entre dedos fechados. Sempre foi. Ela pensa em tudo que já escreveu e cogita voltar atrás. Mas não pode, não deve. Passou por alguns ajustes ao longo dos anos, mas descobriu que é impossível desmontar e juntar novamente pedaços quebrados como se faz com um quebra-cabeça de 1500 peças. Não encaixa mais. É uma peça pequena e totalmente sozinha.
Ela liga a torneira e deixa alguns milímetros de água se juntarem à poção do sono. Agita o copo e o vira em uma golada só, como se fosse a dose de uma tequila sem limão. Tomou um pouco mais do que deveria, mas tudo ficará bem. Fecha os olhos, respira fundo, ergue os braços em um alongamento e faz o que sabe fazer melhor: esperar. Sempre esperou por um sucesso que nunca chegou. Esperou que o fracasso fosse embora e ele retornou. Então ela espera que o remédio faça efeito e acabe com a insônia, a agonia e o desespero de algumas noites. Espera, como continua esperando pelo sentido de sua vida. Espera pelo sono que essa falta lhe tirou. E, quinze minutos depois, as tonturas chegam. A graça, a leveza, o descanso mental. Nada mais além de uma cabeça pesada, olhos embaçados e pensamentos zerados. Um pouco de tristeza queimando a garganta, mas ela já não lembra do que se trata. Não há futuro que importe, nem amor que machuque, nem descaso que entristeça. Ela só precisa dormir. Tropegamente deita em sua cama fria e espera que os pés gelados aqueçam sozinhos, mas estará dormindo muito antes que isso aconteça. Do coração já desistiu, está congelado para sempre. Ela percebe que, queda após queda, chegou ao fundo do poço. “E sabe o que? Até que aqui não é tão ruim”, ela sussurra na escuridão.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Plano (im)perfeito.

Ela resolveu se jogar. Lá do alto, para resolver sua situação ou então morrer mesmo de uma vez. Estava cansada de sua vidinha medíocre e fracassada. Por muito tempo amadureceu seus sentimentos até que estivessem verdes e bonitos para serem destinados a alguém, tanto tempo que perdeu a conta; se foram duas ou três estações já não sabia. Ela se apaixonou pelo cara bonito que passava todos os dias na rua lá embaixo em frente ao prédio, lindo de um jeito muito particular. Ele caminhava com passos de vencedor, um homem de peito estufado, porém gentil. Ela passou frio no inverno só para assisti-lo passar embrulhado em um cachecol estiloso e quentinho. Passou um calor afobado no verão ao vê-lo fazendo cooper em um domingo abafado. As costas suadas, os pés fazendo o chão tremer a cada pisada. Pelo menos chão o dela. Ela também sentiu a brisa fresca da primavera nos dias em que ele passava, fossem cinzentos ou coloridos. Nunca viu a cor de seus olhos, mas isso não importava. Ela o amava.
Mas tanto tempo alimentando um amor platônico surtiu um efeito ruim para sua saúde, que já ia de mal a pior. A obviedade de não ser correspondida, já que ele nem mesmo a conhecia, a fez ressecar por dentro. Começou em suas entranhas, comendo-a viva como se fosse um escaravelho percorrendo seu corpo. Ele nunca a notaria ali no alto. Não se ela não descesse para encará-lo de frente. Foi então que ela resolveu se jogar. Arquitetou um plano, decidiu sua trajetória e seu ataque; cairia bem em frente a ele. Tinha certeza de que ele tinha bom coração e, portanto, iria ajudá-la a levantar após a queda. O primeiro sorriso seria compartilhado, o primeiro olho no olho e a paixão se instalaria rápida como um incêndio em local inflamável. Era um plano perfeito, em sua concepção.
Ela esperou pelo dia certo, embora não tivesse muito tempo disponível. Era uma doente terminal. No começo do outono sua doença piorou e os remédios já não ajudavam mais. O problema avançara, deixando-a sem esperança, seca de verdade. “Mas quem sabe ele goste de uma magrela”, pensava, tentando ser otimista. O dia chegou e ela estava pronta. Esperou ansiosa para vê-lo dobrar a esquina, entrar na cafeteria e sair de lá cinco minutos depois com um copo de descafeinado. Era seu único defeito. Esperou pelo som de seus passos apressados. Mas ele não apareceu. Pela primeira vez em sua vida, ele não apareceu. Ela esperou e torceu por um atraso, mas ele realmente não veio. Escolheu um atalho ou cansou da rua. Ou morreu. Ela pensava em todas as hipóteses. Desolada, abortou o plano. “Amanhã, quem sabe”.
Amanhã chegou, mas ele não. E assim se passou uma semana até que ela já estivesse quase morrendo. Sentia-se cansada, dolorida, acabada. E, mais do que tudo, triste. Infinitamente triste. Mais seca do que gostaria que ele a conhecesse. Tossindo sua vida para fora. Incrível como uma semana fizera tanta diferença. Mas ela tentaria mesmo assim caso ele voltasse e ela ainda tivesse forças para se debruçar até cair. Quando o viu na esquina, um brilho solto como pó surgiu em sua cabeça. Ainda havia chance, afinal. Tempo para uma troca de palavras, talvez. Para ela seria o suficiente. Não teria dias a mais para muita coisa. Ela preparou o pulo que desenhara imaginariamente. Os minutos pareceram horas até que ele saiu do café e continuou caminhando, acenando para alguém mais à frente com alegria.
Quando ele pisou no lugar onde ela marcara um xis mental, a hora chegou. Um badalar de sinos soou em seus ouvidos – será que já estava delirando? – e ela respirou fundo, consciente do perigo da queda e totalmente submissa a qualquer consequência. Apenas com a roupa do corpo, ela abriu os braços esqueléticos e deixou que a brisa e a gravidade a levassem até ele. Um sorriso se estampou em suas feições judiadas e enrugadas pela dor. Estava caindo em direção ao seu amor, o grande amor de sua vida. E deu certo. Por um instante seu peito explodiu de tanta felicidade. Como o planejado, ela caiu exatamente na frente do homem. Ele a conheceria, enfim. Regozijando o momento, ela demorou a perceber o que estava por vir.
Fogos de artifício pululavam em seu coração, mas ela olhou para cima em tempo apenas de descobrir que seus olhos eram azuis acinzentados, que seu perfume era cruel e que seu pé direito calçando 43 vinha direto para cima dela, pronto para esmagar seu rosto. Ele não a vira; como isso era possível? Suas companheiras de moradia bem que tentaram avisá-la. “Você é só uma folha e ele é um humano, não percebe como é um amor impossível?”, elas praguejavam. Mas ela respondia que as lendas poderiam ser verdadeiras e que não custava tentar, já que lhe restava tão pouca vida. Não acreditava na palavra impossível. Agora, no entanto, enquanto o pé dele descia em sua direção, ela descobria da pior maneira possível que nem todo amor é real e que ela, que não passava de uma folha de árvore, jamais seria notada.
O choque foi brutal. Era outono e ela estava mesmo ressecada. Não apenas por dentro, mas por fora também. O som de folha seca se quebrando foi tão alto quanto o nível de sua dor. Doía ser estilhaçada, partida em pequenos pedaços trincados, mas, mais do que isso, doía o fim de seu amor. Antes de morrer ela teve tempo de ver apenas uma coisa: ele, de costas. Subindo três escadas até a porta de uma casa do outro lado da rua, mais à frente. Uma linda morena o beijava vigorosamente. Ela nunca tivera a chance de olhar para aquele lado da rua antes, de ver qual era o destino diário do cara com quem tanto sonhara. Seu galho a prendia a uma visão limitada. Ele já tinha um amor. E ela era apenas uma folha seca e suicida.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O amor e um sapato.

Querendo ou não eu amo esse seu jeito infantil de cair da cama só para me fazer rir. O seu medo, enquanto brinca, de não ser homem o bastante para mim porque, segundo você, sou um mulherão. E inteligente. E isso te encanta e te assusta e você também me encanta e me assusta. Porque eu não sou nada demais mas talvez seja de menos e você nem perceba. E quando se der conta teremos um problema porque a coberta já tem seu cheiro, o colchão seu lugar, o travesseiro sua caspinha e o cantinho da gaveta seus pacotinhos barulhentos. A estante de vidro central entre as cinco guarda sua foto em uma redoma de vidro, junto com um bilhete seu feito à mão. Os bonequinhos magricelos que você desenhou nele representam nosso amor e, querendo ou não, eu carrego a responsabilidade de te amar assim. Tanto. Muito. De sentir o peito explodindo só por ver dois bonecos de palito feitos à caneta.
Você foi o único que me viu chorar por fragilidade e dor, o único com quem terminei dezenas de vezes já sabendo que não teria força para não voltar. Porque seu abraço me chama, assim como sua voz me acalma nas horas certas e seus dedos me fazem cócegas provocativas. Eu corri e saltei em seus braços, enlaçando minhas pernas em sua cintura incontáveis vezes e você foi o único que me carregou assim para lá e para cá mesmo quando eu desfalecia todo meu peso de tanta tristeza. Você me deu seu amor e um sapato. Um sapato alto com amor. E agora toda vez que o calço meus pés brilham de paixão e formigam de felicidade porque é o amor me fazendo andar. Recomeçar com passos de formiga. Porque você estendeu a mão e me ergueu do chão imundo onde eu me escondia sentada em uma pedra. Você disse “eu te amo” e eu engasguei de susto. Mas seus olhos diziam o mesmo e isso eu não poderia negar. Você tirou meu sapato surrado e remendado, limpou meus pés e me calçou como uma princesa. E fez o mesmo com meu coração. O que você me deu não foi um sapato. O que veio dentro daquela caixa foi o amor em um formato diferente. E o mapa para um recomeço.
Querendo ou não foi você quem viu minha casa em reforma ao mesmo tempo em que eu pregava novas tábuas em meu coração. Todas com caruncho, mas você diz que daremos um jeito e eu acabo acreditando. Você dormiu comigo no sofá de casa muitas vezes antes de poder ficar confortável na cama. Interfonou mil vezes antes de ganhar sua chave. Você zela por meu sono leve e me abraça forte quando um pesadelo me acorda quase chorando. Você me viu sem maquiagem alguma, despenteada, com o pijama debaixo de um conjunto e o de cima de outro e mesmo assim me amou. Me viu no hospital cheia de manchas no rosto, vomitando bile e sangrando no tubinho do soro e mesmo assim me amou. Jogou Pokémon ao meu lado para que eu não ficasse sozinha. E eu estava grudando naqueles lençóis fedorentos de hospital e você não foi embora. 
Você me deu um buquê a cada mês de namoro; eu ganhei 49 rosas em quatro meses, muito mais do que ganhei em 22 anos de vida. Me apresentou a sorveteria da lésbica e eu viciei no sabor leite ninho e agora preciso voltar lá para ver você lambuzar o queixo de novo com o sabor torta alemã enquanto dirige. Você compra uma sacola de picolés de fruta por seis reais e eu lembro que não conhecia mais ninguém que ainda valorizasse esse tipo de coisa. Você dá valor às minhas produções, gosta da luz azul do meu quarto e de quando eu sento em seu colo. Você gosta do gelado da minha perna que esfria seu corpo sempre quente. Diz que eu sou um ar-condicionado ambulante. Não se importa se minha vida inteira é um fracasso e se eu sou um zero à esquerda em tudo exceto na hora de escolher o sabor de um suco. Nós assistimos South Park e fazemos coisas inúteis como namorar no tal do “The Sims” ou colecionar canequinhas de submarino. E quando você pergunta qual é o problema, então, eu vejo que esse é o porém. Porque querendo ou não eu te amo, mas odeio o fato de não resistir ao calor do seu afago e do jeito que você me segura quando a depressão quase vence a batalha. Odeio ser um pouco sua, quando eu era tão minha e somente minha. Mas você está sempre ali, mesmo quando eu não quero ser de mais ninguém. Mesmo quando eu te mando embora. Você e o sapato-amor estão ali. Eu não sei por quanto tempo estaremos juntos ou se o amor vai durar mas, querendo ou não, vou me lembrar para sempre de cada vez que você me fez sorrir.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Egoísmo.

As coisas estão espalhadas pelo chão porque hoje me lembrei de tudo que cada trejeito seu significava para mim. As meias largadas ao redor da cama, os tênis de cadarços estrebuchados, a mochila velha em cima da mesa. Tudo ainda está ali, mesmo não estando mais. Eu costumava contar azulejos da cozinha depois que você partia, mas entre o primeiro deles e o copo sobre o tampo de mármore nunca cheguei ao resultado. Até hoje, depois de tanto tempo, não sei o número que poderia me denunciar como uma vítima de transtorno obsessivo-compulsivo. Seria mais um número para lembrar de você, como a faixa três do cd que toca em meu carro no modo aleatório. Seria mais um lugar para ser quebrado e desmontado muito mais tarde, quando a noite dorme e não deixa dormir.
Eu nunca exigi nada. Nem amor, nem carinho, nem promessas. Nem a droga do respeito eu soube pedir. E você nunca deu nada de mãos beijadas. Para que amor a quem só precisa da esperança dele, afinal? Da luz piscando sempre alerta no fim do túnel, do esperar eterno. Para que respeito a quem não sabe respeitar seu próprio orgulho? Para que carinho a quem só precisa da promessa de um final de noite que pode nem ser cumprida? Eu nunca fui mais do que isso, mas enquanto tivesse suas curvas vez por outra coladas às minhas estava tudo certo. Eu amava o bastante para esperar você terminar seu pileque, suas anedotas e metáforas, conversas com mulheres de cabelo mal tingido e malandragens com amigos. Eu esperava porque depois era sempre a minha vez. Esperava como se esperar fosse um trabalho digno cujo salário nunca chega. O amor nunca chegou, mesmo depois de tanto tempo aguentando sobre joelhos fracos a espera infinita para ter um pouco de você, equilibrando em uma roda só a melancolia, a saudade e a euforia. Nunca chegou, não para mim. O amor vai chegar para você e outra pessoa, quem sabe. Ou talvez nem seja amor, mas algo parecido que lhe dê conforto ou que simplesmente acalme sua sede insaciável por uma liberdade que eu nunca privei. Eu, que tanto te deixei livre, enfio as mãos nos bolsos e parto sem nada porque é melhor assim. Ela talvez seja a mulher que te faz feliz, enquanto eu tapeava seus dias ruins. 
Eu poderia achar outro como você, tenho certeza de que há vários por aí. Você não era tão especial a não ser para mim. Mas não quero achar igual, nem ao menos parecido; não creio aguentar o tranco. Melhor um oposto a você. Melhor nada, ninguém. Nós tivemos tempo, meses e meses contados em um velho calendário de parede com figuras abstratas da natureza e hoje tudo o que resta são minhas lembranças somadas aos fantasmas do passado. Às vezes ainda tiro do armário o tabuleiro Ouija onde ficaram os espíritos de nós dois e tento conversar sobre qualquer coisa que amenize sua falta. Mas o indicador de madeira se move para lá e para cá dizendo que você está bem sem mim, realizado à sua maneira. “Você não foi importante” - diz o mais direto dos espíritos – “mas a futura talvez seja. Qual será o tamanho da sua dor quando descobrir se sim ou não?”. Não sei, eu respondo sozinha. E pergunto a mim mesma se já não estou preparada para isso desde o começo, mas o espírito intrometido diz que não, não estou.
Você continua aparecendo de quando em quando e massacrando de sempre em sempre, quando minha única defesa é ter conhecido outro alguém e já não te amar tanto assim. Quero quebrar o tabuleiro e suas frases sempre incompletas. Quero jogar fora os pedaços de madeira e os pedaços de você que ainda estão embaixo da minha cama quando está escuro, espreitando meus sonhos vívidos. Chega de comunicação. Já basta de um casal que sempre foi construído por uma pessoa só. E depois de você, que não chegue mais ninguém por um bom tempo. Nem mesmo o outro alguém que já apareceu. Pode até ser egoísmo eu querer salvar meu couro a todo e qualquer custo. Fechar as portas, as janelas, os ouvidos, olhos, boca e poros da pele. Pode ser egoísmo deixar as pessoas para lá e viver do sono solitário por um tempo infinito. Os fantoches do Ouija diriam que é egoísmo. Mas não me importo. Eu digo que egoísmo foi o seu ao me usar como a toalha de banho suja quando você esqueceu de pegar a limpa no armário antes de entrar no chuveiro. Egoísmo foi o seu ao dizer palavras sem que elas significassem o que o dicionário ensina. Perto disso negar bolacha ao próximo é coisa de santo. Perto disso eu posso ser egoísta. Tenho esse direito. Que seja egoísmo, então, se for para me arrancar de dentro do nosso fim.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Cansaço.

Eu falo para ele que estou cansada, muito cansada. Ele pergunta se não dormi bem. Não é esse tipo de cansaço, respondo. É cansaço da vida. Estou cansada. De verdade. Enjoada do fracasso, enojada do futuro. Ele oferece o colo e eu rio meio louca; o colo é ótimo, mas não resolve. Foi-se o tempo em que o lema era “colo, leite e rock’n’roll” ou qualquer outra coisa que escrevam em um body de criança. Hoje só resta o rock’n’roll. E não adianta eu me encostar no conforto do seu abraço porque vou continuar cansada e você vai ganhar uma camisa molhada de lágrimas. Me empresta só o seu amor e tudo bem, juro que devolvo quando você precisar. Eu só tenho que pegar um pouco do seu coração e um punhado de amendoim japonês ou chocolate.
Deitados como dois protagonistas de comédia romântica em uma cama de quase três metros eu vejo pelo espelho do teto o sorriso dele. Estamos meio tortos e esparramados, como uma foto de cartaz de filme presa na parede da bilheteria de cinema de um shopping. Só falta a música engraçadinha, penso. Mas minha imagem está um tanto quanto retorcida, como se meu rosto fosse pura dor envenenada. Ele diz que não, mas eu enxergo um pouco além, já que nesse quarto com espelhos por todos os lados não há como escapar. Ele fala que me ama de um lado, mas o espelho ri do outro – debochado como um vilão magistral – e eu começo a pensar que sou esquizofrênica. Ouço duas vozes ao invés de uma só. Já me disseram tantas coisas, já maltrataram tanto minhas crenças, mas ao menos a certeza de que espelhos não falam eu ainda tenho. Espelhos também não apontam dedos, mas vejo um indicador prateado direcionado a mim como uma grande saliência vazando de um buraco aberto no teto. Um trinco no espelho manchado por enxergar demais a podridão das pessoas.
Ele só pode estar distorcendo – eu penso –, a realidade tem que ser melhor do que isso. Mas não é. Bom se a vida dentro daquele espelho fosse real, enxergando uma cama lá embaixo, duas pessoas que se amam, mãos dadas, um cara, uma mulher e uma calcinha de renda preta. A vida real não é isso. Ela precisa de uma santa paciência que eu não tenho. Da calma de tentar e buscar e arriscar e não de morrer aos poucos por não conseguir. Eu estou sempre morrendo aos poucos, como bordados caindo do aplique no vestido. Estou cansada. De perder meus canutilhos e lantejoulas e o brilho que eles guardam. Cansada de virar tecido liso e opaco. Cansada de ter que remendar. Estou cansada de mim e de prender o saquinho da amargura com um eterno grampo de roupa improvisado.
Eu fico encarando o espelho do teto enquanto você faz gracinhas para me animar. Minhas pernas desnudas entrelaçadas com as suas estão tranquilas, mas o resto todo está um caos. Hoje não tem jeito, amor, hoje a tristeza é o canal da minha televisão. Você não a vê passando logo ali acima de nossas cabeças? Refletida no espelho, como lágrimas gordas e tempestuosas. Como risadas de escárnio dizendo que meu nome e a palavra agonia são duas coisas redundantes. A água do meu corpo está se esvaindo, sendo sugada, perdida, cuspida para longe. E quando eu enxugar de vez, enfim, acabou. Para mim, para você, para o meu cansaço. Porque o mundo me cansa e você também está em meu mundo. Você me cansa porque eu não posso armazenar tanto amor e sentir tanta ânsia em pedaços de mim que nem sabem sentir. Estou cansada e, mais do que isso, não me suporto mais. E não suporto as luzes da vida que acendem e apagam, os fetiches de um corpo, o salgado dos dias mais quentes. Eu posso esticar as pernas como você quiser e posso rir e posso enganar. Mas estou cansada. Totalmente insuportável para mim mesma. Vou varrer os bordados para o lixo e observar a verdade do espelho até que ele caia. Porque ele também não vai suportar. A verdade é pesada demais.
 
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