segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Cansaço.

Eu falo para ele que estou cansada, muito cansada. Ele pergunta se não dormi bem. Não é esse tipo de cansaço, respondo. É cansaço da vida. Estou cansada. De verdade. Enjoada do fracasso, enojada do futuro. Ele oferece o colo e eu rio meio louca; o colo é ótimo, mas não resolve. Foi-se o tempo em que o lema era “colo, leite e rock’n’roll” ou qualquer outra coisa que escrevam em um body de criança. Hoje só resta o rock’n’roll. E não adianta eu me encostar no conforto do seu abraço porque vou continuar cansada e você vai ganhar uma camisa molhada de lágrimas. Me empresta só o seu amor e tudo bem, juro que devolvo quando você precisar. Eu só tenho que pegar um pouco do seu coração e um punhado de amendoim japonês ou chocolate.
Deitados como dois protagonistas de comédia romântica em uma cama de quase três metros eu vejo pelo espelho do teto o sorriso dele. Estamos meio tortos e esparramados, como uma foto de cartaz de filme presa na parede da bilheteria de cinema de um shopping. Só falta a música engraçadinha, penso. Mas minha imagem está um tanto quanto retorcida, como se meu rosto fosse pura dor envenenada. Ele diz que não, mas eu enxergo um pouco além, já que nesse quarto com espelhos por todos os lados não há como escapar. Ele fala que me ama de um lado, mas o espelho ri do outro – debochado como um vilão magistral – e eu começo a pensar que sou esquizofrênica. Ouço duas vozes ao invés de uma só. Já me disseram tantas coisas, já maltrataram tanto minhas crenças, mas ao menos a certeza de que espelhos não falam eu ainda tenho. Espelhos também não apontam dedos, mas vejo um indicador prateado direcionado a mim como uma grande saliência vazando de um buraco aberto no teto. Um trinco no espelho manchado por enxergar demais a podridão das pessoas.
Ele só pode estar distorcendo – eu penso –, a realidade tem que ser melhor do que isso. Mas não é. Bom se a vida dentro daquele espelho fosse real, enxergando uma cama lá embaixo, duas pessoas que se amam, mãos dadas, um cara, uma mulher e uma calcinha de renda preta. A vida real não é isso. Ela precisa de uma santa paciência que eu não tenho. Da calma de tentar e buscar e arriscar e não de morrer aos poucos por não conseguir. Eu estou sempre morrendo aos poucos, como bordados caindo do aplique no vestido. Estou cansada. De perder meus canutilhos e lantejoulas e o brilho que eles guardam. Cansada de virar tecido liso e opaco. Cansada de ter que remendar. Estou cansada de mim e de prender o saquinho da amargura com um eterno grampo de roupa improvisado.
Eu fico encarando o espelho do teto enquanto você faz gracinhas para me animar. Minhas pernas desnudas entrelaçadas com as suas estão tranquilas, mas o resto todo está um caos. Hoje não tem jeito, amor, hoje a tristeza é o canal da minha televisão. Você não a vê passando logo ali acima de nossas cabeças? Refletida no espelho, como lágrimas gordas e tempestuosas. Como risadas de escárnio dizendo que meu nome e a palavra agonia são duas coisas redundantes. A água do meu corpo está se esvaindo, sendo sugada, perdida, cuspida para longe. E quando eu enxugar de vez, enfim, acabou. Para mim, para você, para o meu cansaço. Porque o mundo me cansa e você também está em meu mundo. Você me cansa porque eu não posso armazenar tanto amor e sentir tanta ânsia em pedaços de mim que nem sabem sentir. Estou cansada e, mais do que isso, não me suporto mais. E não suporto as luzes da vida que acendem e apagam, os fetiches de um corpo, o salgado dos dias mais quentes. Eu posso esticar as pernas como você quiser e posso rir e posso enganar. Mas estou cansada. Totalmente insuportável para mim mesma. Vou varrer os bordados para o lixo e observar a verdade do espelho até que ele caia. Porque ele também não vai suportar. A verdade é pesada demais.

2 comentários:

Vini disse...

ta cansada? senta, respira, toma água, pensa no próximo lançamento primavera/verão de calçados e continua! auhsauhsaus
=** linda

Gugu Keller disse...

Sei bem como é isso. Até porque nada é mais cansativo do que estar sempre cansado.
GK

 
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