quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Gotejando.

Uma gota no copo, a primeira de outras vinte. Em câmera lenta, um pensamento a cada bolinha de remédio que se forma no dosador. O indicador batendo no frasco de vidro para encorajar a gota tímida a cair. Vamos lá, você deve sair da toca. Aquela moça à sua frente, derrotada e abandonada em seus cabelos loiros não penteados, precisa de você para dormir. Ela te enxerga à altura dos olhos e implora que não demore até o copo estar completo. Ela precisa dormir porque dormir apaga sua miséria e dor. Dormir desliga seus braços sempre cruzados, pernas exaustas e olhos cansados de mentir. Cai a primeira gota. O começo é sempre mais difícil; uma gota, um início, um pingo que borra o fundo do copo e mancha um coração.
Os olhos cansados acompanham a segunda gota. Ela pensa no questionário de treze páginas que respondeu meses atrás e entregou ao psiquiatra. Questões pessoais e tão árduas quanto física quântica. Linhas em branco, perguntas sem resposta. Como você se descreveria? Como os outros te descreveriam? O que faltou na sua vida para você chegar a esse ponto amargo da desilusão? O que poderia ser feito? Perguntas de um papel. Nada pode ser feito. Há pontos e pontos. Houve um tempo em que existia uma linha; hoje há um borrão. Nada além de um futuro borrado e abafado. Ela não foi sincera nas respostas porque queria parecer melhor do que realmente estava. Ele sabia.
A terceira gota faz “plic” no fundo ainda vazio. Ela gostaria de assistir a um filme clássico, mas não há mais tempo para isso. Já é a terceira gota, afinal. Depois que o copo for preenchido, filme algum soará interessante. É tudo o que ela precisa. Que o que é interessante deixe de ser, porque seu interesse ultrapassou o portão quando ninguém havia batido na porta. Ela precisa parar de esfregar os dedos nas têmporas como se pudesse apagar a mágoa dali. Deitar a cabeça no travesseiro e não pensar em nada. É para isso que servem suas gotinhas preciosas e ansiolíticas.
A quarta gota cai junto com uma lágrima. Os sentimentos vêm em gotas também, ela pensa, mas num ritmo muito mais rápido, quase como a frequência de um soro ou remédio injetado na veia. Ela pensa em tudo o que a fez chegar a este ponto. Nos motivos pelos quais precisa disso. Por que precisa de si, quando não é útil nem para sua própria vida. Sabe que acabou. Tudo. Seu projeto nas mãos de outra pessoa. Sua tristeza engolida. Ela deu de mãos beijadas o que criou com tanto amor com alguma perspectiva misturada. Não há mais nada.
As gotas vão caindo e é lá pela décima que ela lembra do cartão do psiquiatra, com o número do celular. Ele mandou que ela não pestanejasse em ligar caso tivesse ideias tortas. Mas mais torta é sua visão, distorcida pela decepção. São cinco horas da manhã. Tarde demais para dormir, tarde demais para estar acordada, tarde demais para qualquer coisa que não seja fechar os olhos e apagar a tempestade da mente. Podiam vender vida em pote, ela pensa; compraria um estoque inteiro. Cheio de criatividade para superar as perdas, de sossego para desapegar do que já não é seu. Podiam vender Engov para o coração. O dela estava embargado, totalmente bêbado de uma tristeza consumidora e azeda. Inchando seus olhos, molhando camisetas, acabando com suas continuações inúteis. Podiam vender um pouco de tudo. Ela faria financiamento para comprar um pouco de paz.
Décima sétima gota. Iria até o fim do vidro se pudesse. E então o sono seria para sempre, sem fim, como uma bela adormecida sem príncipe ou beleza. O final é mais difícil ainda do que o começo e ela já não sabe parar. Pinga suas gotas como quem pinga os últimos sorrisos da vida em um copo de vidro. É uma desintoxicação forçada de alegria. Ela esteve bem, mais ou menos feliz por tempo suficiente para ofender sua antiga amargura. Recebeu uns tapas na cara e alguns berros no ouvido dizendo que deveria voltar a fazer tudo sozinha, porque sua vida é solidão e não sociedade. Assustada, já na vigésima gota ou mais – ela perdeu a conta e nem mesmo olhava mais para o vidrinho marrom à sua frente – resolve abdicar de algo que amava e que criara para si, simplesmente por não poder continuar dividindo sua vida. É uma pessoa que guarda coisas. Que não separa com mais ninguém. Que mantém tudo entre dedos fechados. Sempre foi. Ela pensa em tudo que já escreveu e cogita voltar atrás. Mas não pode, não deve. Passou por alguns ajustes ao longo dos anos, mas descobriu que é impossível desmontar e juntar novamente pedaços quebrados como se faz com um quebra-cabeça de 1500 peças. Não encaixa mais. É uma peça pequena e totalmente sozinha.
Ela liga a torneira e deixa alguns milímetros de água se juntarem à poção do sono. Agita o copo e o vira em uma golada só, como se fosse a dose de uma tequila sem limão. Tomou um pouco mais do que deveria, mas tudo ficará bem. Fecha os olhos, respira fundo, ergue os braços em um alongamento e faz o que sabe fazer melhor: esperar. Sempre esperou por um sucesso que nunca chegou. Esperou que o fracasso fosse embora e ele retornou. Então ela espera que o remédio faça efeito e acabe com a insônia, a agonia e o desespero de algumas noites. Espera, como continua esperando pelo sentido de sua vida. Espera pelo sono que essa falta lhe tirou. E, quinze minutos depois, as tonturas chegam. A graça, a leveza, o descanso mental. Nada mais além de uma cabeça pesada, olhos embaçados e pensamentos zerados. Um pouco de tristeza queimando a garganta, mas ela já não lembra do que se trata. Não há futuro que importe, nem amor que machuque, nem descaso que entristeça. Ela só precisa dormir. Tropegamente deita em sua cama fria e espera que os pés gelados aqueçam sozinhos, mas estará dormindo muito antes que isso aconteça. Do coração já desistiu, está congelado para sempre. Ela percebe que, queda após queda, chegou ao fundo do poço. “E sabe o que? Até que aqui não é tão ruim”, ela sussurra na escuridão.

3 comentários:

Gugu Keller disse...

Sem entrar na baboseira que é aquela suposta diferenciação entre a "inveja má" e a "inveja boa", vc, freqüente e definitivamente, escreve coisas, como é o caso deste maravilhoso texto, que, confesso, eu adoraria ter escrito... Simplesmente lindo, Josiana!
GK

Vini disse...

hummm, dificil comentar este texto, muito bem escrito, muito bem elaborado como sempre! mas sou muito mais o amor e um sapato auhsauhsauhs
beijos minha linda!

Eve Fonseca Fotografia disse...

amei demais!!!

 
Creative Commons License
Vogais Vazias by Josiana Rezzardi is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License.
Header Image by Colorpiano Illustration