quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Plano (im)perfeito.

Ela resolveu se jogar. Lá do alto, para resolver sua situação ou então morrer mesmo de uma vez. Estava cansada de sua vidinha medíocre e fracassada. Por muito tempo amadureceu seus sentimentos até que estivessem verdes e bonitos para serem destinados a alguém, tanto tempo que perdeu a conta; se foram duas ou três estações já não sabia. Ela se apaixonou pelo cara bonito que passava todos os dias na rua lá embaixo em frente ao prédio, lindo de um jeito muito particular. Ele caminhava com passos de vencedor, um homem de peito estufado, porém gentil. Ela passou frio no inverno só para assisti-lo passar embrulhado em um cachecol estiloso e quentinho. Passou um calor afobado no verão ao vê-lo fazendo cooper em um domingo abafado. As costas suadas, os pés fazendo o chão tremer a cada pisada. Pelo menos chão o dela. Ela também sentiu a brisa fresca da primavera nos dias em que ele passava, fossem cinzentos ou coloridos. Nunca viu a cor de seus olhos, mas isso não importava. Ela o amava.
Mas tanto tempo alimentando um amor platônico surtiu um efeito ruim para sua saúde, que já ia de mal a pior. A obviedade de não ser correspondida, já que ele nem mesmo a conhecia, a fez ressecar por dentro. Começou em suas entranhas, comendo-a viva como se fosse um escaravelho percorrendo seu corpo. Ele nunca a notaria ali no alto. Não se ela não descesse para encará-lo de frente. Foi então que ela resolveu se jogar. Arquitetou um plano, decidiu sua trajetória e seu ataque; cairia bem em frente a ele. Tinha certeza de que ele tinha bom coração e, portanto, iria ajudá-la a levantar após a queda. O primeiro sorriso seria compartilhado, o primeiro olho no olho e a paixão se instalaria rápida como um incêndio em local inflamável. Era um plano perfeito, em sua concepção.
Ela esperou pelo dia certo, embora não tivesse muito tempo disponível. Era uma doente terminal. No começo do outono sua doença piorou e os remédios já não ajudavam mais. O problema avançara, deixando-a sem esperança, seca de verdade. “Mas quem sabe ele goste de uma magrela”, pensava, tentando ser otimista. O dia chegou e ela estava pronta. Esperou ansiosa para vê-lo dobrar a esquina, entrar na cafeteria e sair de lá cinco minutos depois com um copo de descafeinado. Era seu único defeito. Esperou pelo som de seus passos apressados. Mas ele não apareceu. Pela primeira vez em sua vida, ele não apareceu. Ela esperou e torceu por um atraso, mas ele realmente não veio. Escolheu um atalho ou cansou da rua. Ou morreu. Ela pensava em todas as hipóteses. Desolada, abortou o plano. “Amanhã, quem sabe”.
Amanhã chegou, mas ele não. E assim se passou uma semana até que ela já estivesse quase morrendo. Sentia-se cansada, dolorida, acabada. E, mais do que tudo, triste. Infinitamente triste. Mais seca do que gostaria que ele a conhecesse. Tossindo sua vida para fora. Incrível como uma semana fizera tanta diferença. Mas ela tentaria mesmo assim caso ele voltasse e ela ainda tivesse forças para se debruçar até cair. Quando o viu na esquina, um brilho solto como pó surgiu em sua cabeça. Ainda havia chance, afinal. Tempo para uma troca de palavras, talvez. Para ela seria o suficiente. Não teria dias a mais para muita coisa. Ela preparou o pulo que desenhara imaginariamente. Os minutos pareceram horas até que ele saiu do café e continuou caminhando, acenando para alguém mais à frente com alegria.
Quando ele pisou no lugar onde ela marcara um xis mental, a hora chegou. Um badalar de sinos soou em seus ouvidos – será que já estava delirando? – e ela respirou fundo, consciente do perigo da queda e totalmente submissa a qualquer consequência. Apenas com a roupa do corpo, ela abriu os braços esqueléticos e deixou que a brisa e a gravidade a levassem até ele. Um sorriso se estampou em suas feições judiadas e enrugadas pela dor. Estava caindo em direção ao seu amor, o grande amor de sua vida. E deu certo. Por um instante seu peito explodiu de tanta felicidade. Como o planejado, ela caiu exatamente na frente do homem. Ele a conheceria, enfim. Regozijando o momento, ela demorou a perceber o que estava por vir.
Fogos de artifício pululavam em seu coração, mas ela olhou para cima em tempo apenas de descobrir que seus olhos eram azuis acinzentados, que seu perfume era cruel e que seu pé direito calçando 43 vinha direto para cima dela, pronto para esmagar seu rosto. Ele não a vira; como isso era possível? Suas companheiras de moradia bem que tentaram avisá-la. “Você é só uma folha e ele é um humano, não percebe como é um amor impossível?”, elas praguejavam. Mas ela respondia que as lendas poderiam ser verdadeiras e que não custava tentar, já que lhe restava tão pouca vida. Não acreditava na palavra impossível. Agora, no entanto, enquanto o pé dele descia em sua direção, ela descobria da pior maneira possível que nem todo amor é real e que ela, que não passava de uma folha de árvore, jamais seria notada.
O choque foi brutal. Era outono e ela estava mesmo ressecada. Não apenas por dentro, mas por fora também. O som de folha seca se quebrando foi tão alto quanto o nível de sua dor. Doía ser estilhaçada, partida em pequenos pedaços trincados, mas, mais do que isso, doía o fim de seu amor. Antes de morrer ela teve tempo de ver apenas uma coisa: ele, de costas. Subindo três escadas até a porta de uma casa do outro lado da rua, mais à frente. Uma linda morena o beijava vigorosamente. Ela nunca tivera a chance de olhar para aquele lado da rua antes, de ver qual era o destino diário do cara com quem tanto sonhara. Seu galho a prendia a uma visão limitada. Ele já tinha um amor. E ela era apenas uma folha seca e suicida.

3 comentários:

Vini disse...

aposto que a frustraçao da folha ao ter passado a vida toda sem se desprender da arvore seria muito pior do que ao menos ver nos ultimos instantes de sua vida, um mundo que ela nunca tinha visto, mesmo que esse tenha sido uma experiencia ruim.
estava ansioso para ler esse texto! ficou otimo! beijos minha linda !

Gugu Keller disse...

Quem sabe a folha não tenha morrido e algum tempo entre folhas de um livro a possam recuperar... Deixá-la nova "em folha"...
GK

Marinha disse...

Vale a pena se jogar! Ficar suspensa nunca; nem mesmo sendo tão "folha".
Só pra vaira, AMEI!

 
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