sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Alea jacta est.

"A sorte está lançada", disse Júlio César à margem do Rubicão. Alea jacta est. Alguns dados, quando jogados, podem se perder embaixo de sofás ou geladeiras, esquecidos para sempre ou até a próxima limpeza geral. Os que ficam no tabuleiro, no entanto, cortam qualquer possibilidade de voltar atrás. Decisões tomadas não têm retorno deste ponto em diante. E ainda que normalmente se jogue em dupla, nosso caso tem sido uma escolha unilateral. Por mais que eu chore e arrebente minhas estribeiras, no fim sempre acabo fazendo o impossível e voltando atrás de cada decisão porque elas parecem erradas quando sua mão segura com força a minha. Não estou fazendo isso certo. Não decorei as regras do jogo. Minha cabeça sempre acaba fazendo aquele gesto de compreensão e de submissão para a sua. Sim, vamos continuar tentando. Sim, não posso mesmo te deixar. Sim, eu preciso de você. Assim eu vou subindo no salto para tentar esconder de mim as rasteirinhas da vida. E o pior é acreditar que um salto quinze faz a alma crescer. Não cresce, não adianta; para alma fodida não há salto que baste.
Você diz de repente que eu não preciso mais chorar sozinha apoiando a cabeça entre as mãos como sempre fiz. Diz que agora posso deitar em seu colo e manchar sua blusa com muito rímel preto e encher seus ouvidos com lamentações úmidas de lágrimas. Mas não é assim que as coisas funcionam na realidade. Talvez no seu mundo particular lindo, onde eu até gostaria de morar, mas não na realidade. Eu só sei chorar sozinha, veja bem. Posso até arriscar umas manhas lacrimosas perto de você, mas chorar de verdade, com direito a expulsar sofreguidão, só mesmo sozinha. E minhas decisões quando a sorte está lançada nunca são otimistas. Não chamei a ambulância quando o acidente foi feio; já brincaram com meu coração como se fosse um iô-iô que aceita idas e vindas sem reclamar e hoje mais pareço um pião que parou de rodar. Não chamei o reboque para recolher meus pedaços espalhados por aí, a tranqueira toda que faz parte de mim. Sofro sozinha, obrigada. É como um câncer de silêncio, crescendo sem parar e sem remédio efetivo, ficando cada vez maior e mais maligno. Não há quimioterapia que funcione ou organismo que resista. É uma tristeza a cada dia mais para dentro, corroendo entranhas e queimando o coração.
Fico repetindo que te amo só para ver se em algum momento você me escuta, mas é baixinho demais o sussurro das não palavras. As letras vão até onde você está - que eu já nem sei mais onde é - mas não se portam como deveriam e então tudo fica impossível. Você não ouve meu silêncio. Eu o ouço demais, como berros internos fatigando minha vida e enlouquecendo o paciente do meu hospício interior, que rasga tudo como um louco e arranha paredes tentando fugir. Minha falta de respostas não é birra ou descaso; é medo. É resignação. É a batalha correndo sozinha até lançar uma flecha certeira com uma decisão qualquer. Mas eu continuo tentando. Apelando para meus instintos mais vitais de amor. Gritando em silêncio que preciso de você, que já sou mais você do que eu mesma, que não sei mais o que escrever ou como organizar ideias e pensamentos. E me pego pensando que um dia você volta, sei que volta. Ou volto eu da viagem solitária que até hoje pareceu sem fim, sem passagem de volta. Minha viagem silenciosa. Sem respostas. Toda confusa e destrambelhada. É no meio dessa confusão cada vez maior que eu lembro que te amo, apesar de tudo e apesar de você aumentar meus conflitos. É nesse câncer em metástase que eu chuto os dados ao invés de simplesmente largá-los e digo: a sorte está lançada. E é também assim que sempre termino de peito rasgado e joelhos quebrados pelos tombos das escolhas erradas.

1 comentários:

Gugu Keller disse...

Às vezes oxalá a lucidez da desesperança.
GK

 
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