sábado, 29 de setembro de 2012

O pouco que vivemos.

Tenho tido dificuldade para escrever. Passei meses rabiscando bobagens e deixando as coisas sérias para lá, para o coração amenizar sozinho, porque até para escrever elas doíam mais. Ironia da vida; costumava escrever muito melhor em tempos de tristeza e solidão. Uma praia totalmente deserta no inverno, por exemplo, seria minha definição de paraíso para a criatividade. Nesses últimos meses, no entanto, estive mais abarrotada de tristeza do que nunca e não saiu uma palavra sequer. A verdade é que perdi a coragem. Virei uma covarde porque toda noite, quando tentava produzir algo, a angústia mais terrível entrava no meu quarto sem ao menos bater na porta. Perdi a coragem porque escrever é lembrar de você e lembrar de você machuca. É pensar no pouco que vivemos juntos e em tudo que passamos de ruim por minha culpa e eu perdi a habilidade de tirar isso de mim, tão grudado você ficou. Não sai. Não sei. Às vezes, num sopro, uma palavra ou outra, perdida em uma página branca. E geralmente eu começo a chorar, mancho o pobre do edredom e desisto. Falar sobre nós é como me apunhalar e, se não posso fazer isso na vida real para privar as pessoas de sofrimento alheio, também não vou fazer na vida escrita para agradá-los com textos. Perdi a tão importante ferramenta que me salvava, ao menos um pouquinho, porque toda vez que começo um texto desabo no choro. Como estou fazendo agora. Secando uma lágrima por palavra. Segurando um soluço por frase. Padecendo um pouco a cada parágrafo. Mas resolvi tentar mesmo assim, porque não escrever está cozinhando ainda mais minhas torturas aqui dentro.
A verdade é que surge um amontoado tão grande de coisas na cabeça que não dá para saber por onde começar e aí fica no nada mesmo. Daquele jeito: a gente pensa mil coisas e fala uma ou no máximo uma e meia. Pensa bonito e fala gaguejado. E entre essas duas coisas, fica toda uma coisa embaralhada e sem forma. Antes eu conseguia pensar uma coisa por vez e, se surgisse um pensamento no meio, ia parar em um tópico para depois. Agora não dá mais. Aí fico irritada pelos dedos pairando sobre o teclado ou segurando a caneta imóvel; prendo o ar nos pulmões só para perceber que em algum momento terei que soltar, assim como eu deveria soltar você e a vida de nós dois que nunca existiu. A pobre exterminada. A linda executada. Mas isso não; isso eu insisto em manter naquela aspirada bem profunda de nadador no momento antes do apito do mergulho. Seguro bem firme para não correr o risco de deixar escapar o que restou. Mas você não é leve como o ar, nós não somos. Somos pesados. E descobri que somos pesados porque já éramos concretos dentro de mim. Uma coisa só. Uma coisa grande, pesada, bonita e que não sai voando por aí porque simplesmente é e não precisa encontrar mais nada. Fico pensando nisso e em centenas de outras coisas e não consigo escrever. Não consigo escrever porque as palavras doem, saem ásperas, como se eu estivesse rasgando minhas tripas, cortando músculos e tendões com um bisturi e quebrando costelas. E porque não consigo organizar meus pensamentos, assim como não consigo organizar meu guarda-roupa e minha vida. São todos um verdadeiro caos. E eu sempre idealizo que amanhã vou dar um jeito nisso, mas as roupas continuam amontoadas e amassadas nas prateleiras, meus pensamentos continuam se misturando de forma indevida e minha vida? Indigna de comentários. Os pensamentos não entendem que você fica em um lugar e eu em outro, agora. Ainda acham que devíamos caminhar de mãos dadas. Tentar, pelo menos. A chance que nunca nos demos. A única certeza que eles têm é meu amor imenso. E pelo jeito são burros, porque não me deixam mais escrever. Meu único refúgio fugiu de mim.
Aí penso no pouco que vivemos e acabo vivendo, agora sozinha, de pura nostalgia molhada de lágrimas. É um pouco de lembrança de cada singelo momento que vivemos com um pouco de imaginação - sempre ela - do que poderíamos ainda estar vivendo. E imaginação, quando se mistura com lembrança, é como um fardo enorme de saudade que nunca fica leve. Escrever virou esse fardo pesado, porque escrever é lembrança viva sua, como se você estivesse aqui ao lado.  É viver carregando esse fardo como se houvesse algum destino lá longe - como um mochileiro sem destino - e ninguém te desse um copo de água no meio do caminho. Já ganhei copos de água. E de absinto, mojito, cerveja estupidamente gelada e outras coisas também. A cada copo tentam me trazer para a realidade e arrancar algum sorriso honesto, mas é na minha cachola com lembranças que você vive e, por mais que pese, é ali que quero ficar. As pessoas não entendem e eu parei de explicar. Hoje só sorrio sem honestidade, visto uma roupa bacana, vou aonde querem que eu vá e tenho as atitudes que todos esperam de mim. A atitude de alguém que superou. Até consigo gargalhar de maneira falsa, embora para isso eu tenha treinado um pouco em frente ao espelho, confesso. E as pessoas ficam felizes e sorridentes porque, vejam só, ela está ótima agora. Quem sabe de tanto fingir que superei e que sei sorrir eu acabe mesmo superando e aprendendo a sorrir. Mas não era isso que eu queria. Porque mesmo que a imaginação recordativa de nós doa às vezes, muitas vezes, aliás, ela também é o pouco que restou de você em mim. Não tenho mais seus beijos, mas tenho a lembrança do primeiro, suave e cuidadoso, e de todos os outros que trocamos. Cada um novo como um novo dia. Não tenho seu abraço, mas lembro exatamente da delícia que era estar escondida nele. Não posso mais mexer no seu cabelo, mas lembro exatamente onde você gostava do carinho. Não tenho nada de você e continuo tendo tudo. Você está lá e aqui ao mesmo tempo e nem sabe. E esse tudo aqui dentro de mim é o que continua me mantendo em pé. É o que não me deixa dormir, escrever ou comer com parcimônia. É sempre tudo exagerado, para mais ou para menos. Pelo menos assim não posso mais te machucar ou causar transtornos. Você está curado de mim, o possível mal da sua vida.
Mas, pensando bem, acho que dor de amor sincero é isso mesmo. É não superar só porque as pessoas exigem; é lembrar, relembrar, doer, chorar, querer ficar na cama o dia inteiro, mesmo sem tempo pra isso. É querer morrer todos os dias porque a cada dia se morre um pouquinho. E é difícil de curar. Tão difícil que você desiste e acaba só mentindo que está curada porque é mais fácil. E aí a questão é outra: não é que eu esteja confortável em pé ou tão firme quanto meus passos sugerem; é só o fato de que caminhar é necessário e não quero mais tropeçar no caminho. A não ser que o tropeço seja em você. E que você estenda a mão, sorria e me pegue no colo. Se for assim não me incomodo nem mesmo de ralar os joelhos ou sofrer uma fratura exposta.
Como sei que isso nunca vai acontecer, sigo tentando erguer o rosto contra o sol que já não me agrada mais, sair debaixo da coberta que me protege dos monstros da vida – já que dentro dela tudo parece irreal -, botando uma perna na frente da outra para andar quando a vontade é que elas fiquem imóveis na cama que tem o buraco meio afundado do meu corpo no centro. Continuo tentando, mas está tudo tão quebrado que a cada passo que dou encontro um minúsculo pedaço que já não encaixa mais em lugar algum. E o pior de tudo é saber que vou morrer caminhando em busca da nossa vida perdida, tentando ajeitar esses pedaços quebrados e escrevendo textos ruins como este. Textos que já não mexem com o coração das pessoas como os outros faziam, porque são meras tentativas sem você. Textos-lixo. É isso que são. Palavras amontoadas tentando ganhar um significado, unzinho sequer, quando na cabeça são múltiplos. É tudo tão confuso aqui dentro que não tem como colocar no papel. Mas até que é justo e todos hão de concordar: textos-lixo estão para uma vida-lixo assim como meu querer está para você. A diferença é que meu amor acabou virando lixo também. No final das contas, a moral da história é que sou inteira lixo. Um lixo com moral em sua história. Um lixo cheio de amor. Mas, ainda assim, um lixo e nada mais.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Amor em um parágrafo.

E daí se a gente sofre? No final não é isso que importa, mas o fim. O fim não de término, o fim de final feliz daqueles que fazem qualquer criança acreditar em absolutamente qualquer coisa. E adultos também, às vezes. O fim de final de livro e de filme água com açúcar. Aquele que faz um adulto descrente do amor acreditar em tudo que ele ainda nem viveu só porque parece bom demais pelo pouquinho que já passou. O amor não é fácil; é delicioso, mas não é fácil. A gente sofre mesmo quando ama. Alguma coisinha sempre vai estar fora do lugar; um mau humor, uma briga, uma semana puxada, gente botando agouro, até mesmo pessoas que não sabem se somos bons, ruins ou mais ou menos. Gente querendo mandar não amar. Então a gente sofre e às vezes erra feio, faz cagada mesmo. E bate na testa pensando um “puta que pariu” bem grande. Mas continua sendo amor. E amor, quando é amor, não descuida e não repele, não diz que chega porque na verdade nunca chega, não cansa dos erros porque os acertos são muito maiores e mais bonitos, por menores que sejam. É contraditório, como tudo no amor tende a ser. Um dia inteiro na cama, em silêncio, sem graça, pode ser a coisa mais linda de uma vida inteira se for amor. E se você adicionar um olhar e um sussurro dizendo “eu te amo”, derruba qualquer parede. E aí, ainda se for amor, isso vai pesar mais na balança do que qualquer uma das coisas ruins. A gente sabe que coisas ruins acontecem aos trancos e barrancos, com velocidade e intensidade. Às vezes quebra um pouquinho da confiança, enfeia um pouquinho da beleza, suja um pouquinho o brilho, maltrata um pouquinho o coração. Às vezes não é só um pouquinho, mas muito que se quebra por causa das coisinhas ruins. De uma só delas ou de um conjunto. E aí parece o fim, aquele de término mesmo. Parece que não tem mais jeito, que acabou, que não tem volta, que aquele horóscopo no qual você nunca acreditou estava certo o tempo todo sobre a tal inquietação emocional, que todo mundo também estava certo quando dizia “tô avisando que você merece alguém melhor”, que pelo-amor-de-qualquer-coisa-que-você-acredite suma da minha frente, que não quer mais, não gosta mais, não suporta mais e tudo o mais. Tudo de ruim. Às vezes você cansa pra caramba e tudo que quer é dizer foda-se, cansei, não dá mais, vá embora da minha vida, suma da minha frente. E às vezes acaba aí no foda-se mesmo. Fim. Se não for amor. Se for amor a história é outra. É carregada com um bom tanto de sofrimento para depois voltar a ser aquele fantástico mundo mágico onde um botão de rosa vale mais do que qualquer presente e onde beijo não é beijo, é entrega. Abraço não é abraço, é cuidado, proteção e carinho. Sorrir não é sorrir, é iluminar e deixar feliz justamente quem te fez sorrir. Dizer “eu te amo” não é dizer “eu te amo”, é dizer “eu te amo, você é o amor da minha vida e eu te quero pra sempre ao meu lado... mesmo que às vezes eu seja estúpida ou que o mundo inteiro esteja contra nós”. Se for amor a luta vale a pena e as batalhas perdidas são ignoradas. A vida pode até parar por algum tempo pra recuperar o motor. E enquanto isso você acha de novo todas as mil coisas ruins porque está sozinho e sozinho fica tudo mais confuso. Você deixou seu amor, largou de vez, já faz um tempo. Mas, se era amor, fica mais confuso ainda. E dói. Dói lá dentro, mesmo que você fique em frente ao espelho dizendo que odeia a pessoa. Porque você não odeia, só quer odiar. E querendo odiar você consegue dizer coisas cruéis, mesmo amando. Porque você tem quase certeza que não ama mais e que a pessoa não merece mais mesmo. Você tem certeza porque está esgotado, a vida não facilita e você cansou de ir contra a maré. Mas, poxa, era amor. E não dos pequenos. Era amor dos grandes, de roteiro de filme. Talvez até seja daí que venham as dificuldades. E você sabe que não foi mentira. Que não foi falso. Amor é difícil de fingir e você não é ator. E então você sente saudade. Sente saudade do olhar, do cheiro, do toque, da voz, do jeito único que só seu amor tem e como só ele sabe realmente fazer você feliz com poucos recursos. Você sente um vazio enorme no corpo porque falta alguma coisa. Alguém. O dia fica estranho porque faltam os costumes tão rotineiros. Quando é amor as cabeças se fundem e pensam juntas, mesmo que briguem um pouco por opiniões diferentes. Ou briguem muito. Tanto faz. Se for amor. Amor pode ser abalado como qualquer outro sentimento, mas é mais forte e consegue reparar os danos. Sempre se restaura. Pode parecer que não – e, se você quiser, consegue deixar parecer que não para sempre, como se tudo fosse irrecuperável e não valesse mais nada – mas consegue. Consegue porque amor não dá pra abandonar definitivamente. Não tem como enjoar porque você sempre quer um pouquinho mais do gostinho do amor. Você quer puxar e não empurrar. Você quer ser feliz, fazer feliz e continuar feliz. Então você pode cansar e enlouquecer um pouco e ter um bom tanto de certeza errônea e não querer mais por um tempo. E as coisas podem ficar bem durante esse tempo. A vida de solteiro é bacana; dá pra festar, olhar pra outras bundas, jogar a aliança fora e fazer exatamente o que você quiser com todas as horas do dia. Às vezes esse tempo pode ser longo. Mas, se for amor, vai chegar a hora em que você vai acordar de madrugada, ou nem vai conseguir dormir, pensando no seu amor. Em como jogou tudo fora e como, meses mais tarde, isso se escancara como uma puta erro, mas só depois de você passar bastante tempo sozinho curtindo do seu jeito e sem ninguém buzinar no seu ouvido que você merecia alguém bem melhor e ai, ai, ai, manda essa menina embora ou. Ou. Duas letras que estragam tudo. E lá, bem depois, quando você acordar de madrugada ou não conseguir dormir, vai relembrar tantos momentos, mas tantos mesmo, que vai parecer até uma vida paralela. Mas não é. É seu amor. Aquele que não pode deixar de existir, sumir ou tirar férias porque é pra valer. Ele pode aquiescer ou ficar escondidinho onde você o colocar. Mas nos momentos em que a solidão bate, ele volta com força. Porque amor é antônimo de solidão. E amor não tem sinônimo nenhum. Amor é amor e só. Contente-se. Quando você menos esperar ele vai ser o suficiente e vai valer todas as dores de cabeça e incômodos tristes. E quando o amor voltar, você vai querer correr. Talvez pra fugir, talvez pra encarar. E talvez seja tarde, você vai pensar. Não, nunca é tarde para aquele amor. Ele espera. Sempre espera. E então, enquanto relembra os momentos de alegria e silêncio gostoso que viveu, você vai perceber que os tropeços não foram tão dramáticos quanto pareceram na época. E aí vai de você escolher se volta ou não. Pode continuar sua vida e encontrar outra pessoa, mas nunca será a mesma coisa. Pode seguir em frente sem olhar pra trás. Talvez você consiga. Mas o amor só vai, mais uma vez, ficar escondidinho para doer mais tarde em outro momento qualquer e te chamar de burro na cara dura. Então, se você tiver oportunidade, corra rápido atrás do amor e diga tudo. Ou nada. Porque o amor se explica sozinho. Para você basta a parte de esquecer as mágoas e agigantar o amor de novo. Deixar que ele se solte e simplesmente seja. Ele nasceu pra ser e fica mais bonito quando não podado de tempo em tempo. Mas pode renascer das cinzas, como uma fênix, tão lindo quanto, porque as cinzas estarão ali pra sempre. Você volta lá no ponto em que alguma coisa se perdeu e te fez ir embora e encontra essa alguma coisa. E não diz nada, só abre um sorriso inseguro. Basta. O sorriso já basta. Porque o amor esteve te esperando todo esse tempo, padecendo de solidão e tristeza, mas confiante. E assim que te enxergar, sorrindo inseguro sem mala nas mãos, só com a roupa do corpo e a vontade de recolocar o trem nos trilhos, ele vai abrir os braços, sorrir firme e fechar os olhos. E quando você entrar no abraço e o mundo parecer acabar ali, os flashes vão pulular na sua cabeça e seu coração vai estar à beira de explodir de tanta felicidade. E o amor vai chorar contidamente. Chorar porque você voltou. E só nesse momento, depois de sabe-se lá quanto tempo você perdeu – sim, todas as horas que você deixa de viver seu amor é tempo perdido para sempre – ele vai conseguir respirar novamente. Inflar o peito e soltar um suspiro de alívio. Vai poder acordar, achar o dia bonito e lembrar que a vida é mais do que as quatro paredes da solidão e do abandono em que esteve preso. E, ainda durante o abraço, ele vai voltar a pulsar como há tempos não fazia. E você vai sentir. Porque o amor vai pulsar em você, dentro do seu corpo. E aí sim vai ser tarde demais. Tarde demais pra impor os limites que você vinha impondo. O amor vai correr livre. Feliz. Mas sempre em círculos, em volta de você, porque o amor não foge. Nunca. Nem se armar temporal e o varal estiver cheio. O amor sabe que o temporal vai passar sem fazer grandes estragos. As vezes cai uma telha, a gente perde o chão. Mas depois ajeita. O amor confia desde o começo. Amor é simplesmente amor e não tem fim, mas talvez você leve muito mais tempo pra perceber. E se foi amor e agora você acha que não é mais, não era amor. Pode ter sido uma paixonite ou algo assim, mas amor não. Porque amor não acaba. Nem quando a distância mete o dedo onde não deve. Nem quando o atrito vem forte demais. O amor sobrevive. Confundir paixão que passa com amor que fica é cruel com a outra pessoa que ama. Mas, se era mesmo amor e você estiver pensando que não e jurando para todos e para si mesmo que não, que era tudo menos do que parecia, que nada foi real e tão intenso assim, você está fazendo a maior cagada da sua vida. Merda das feias mesmo. Está chutando quem te via como o sonho de uma vida. O sonho de futuro. De para sempre. Está abrindo mão da pessoa que tinha todas as ferramentas na bagagem para estar ao seu lado aonde quer que você fosse. E toda a vontade possível também. Para entender seus sonhos e vontades. Para te segurar quando você estivesse caindo. Para comemorar quando estivesse no topo. Para secar suas lágrimas e provocar suas gargalhadas. Você está jogando fora o amor. Aquela a quem você mesmo ensinou que amor existe, que não é conto de fadas. E que pode ser muito, muito forte. Tão forte que pode mudar todas as concepções que antes eram rígidas. E amor não se joga fora, mas se você não perceber, vai aprender só muito mais tarde o que no começo queria ensinar. Que amor supera. Barreiras, destroços, distância, tempestade. Que o amor dá conta. Era nisso que você acreditava, era por isso que chorava e sorria e foi isso que escapou porque você deixou. Mais do que isso, porque você mandou. E o amor, resignado a fazer tudo por você, obedeceu e foi embora. Deixando o coração e a alma ali, mas foi embora. E só quando a juventude já tiver sumido e a falta for a coisa mais dura da sua vida, você vai entender que amor não se cospe pra cima, porque o cuspe pode cair de tabefe no chão e não de volta em você. E jamais se fecha a porta na cara dele, como você fez. Porque o amor fica escondidinho e dormindo quando mandam e não morre, mas pode entrar em coma profundo. E, então, você perdeu. Ele esteve sempre ali, mas você perdeu porque quis. Por birra. Por achar que dava pra viver sem ele, mesmo depois de uma história inteira construída. E linda. E... verdadeira? Você perdeu e o silenciou para sempre, ainda que ele tenha tentado voltar. Ele suportou toda a rejeição possível, mas ficou doente. Amor adoece. Muito, às vezes. Severamente. Mas, se você for perspicaz, vai encontrar a cura onde menos espera. Dentro de você e dentro dos olhos do outro lado do amor. E vai lutar. Vai fazer quantas ressuscitações cardíacas forem necessárias pra vê-lo abrir as pálpebras de novo. Ele volta. O amor sempre volta quando é amor. E apanha quanto precisar, até estar virado em trapo e sangue. Apanha pra valer. Desde que você saiba exatamente a hora de parar de bater e botar no colo pra cuidar. Amor verdadeiro é infinito e há de eterno, mas é uma criança que não sabe viver sozinha e tem que ser carregada pela mão pra atravessar a rua. Amor verdadeiro deixa a pessoa meio louca, mas vale a pena. Porque amor não é para todo mundo. Amor escolhe a dedo onde existir. Escolhe com cuidado o lugar onde vai se instalar pra sempre, desde que você não o mande embora. Se ele puder ficar, ele será o amor. E, provavelmente, a melhor coisa que já te aconteceu na vida. Amor é só amor, mas é tanta coisa aí dentro das quatro letras que a gente gagueja e não sabe nem por onde começar. É grande demais. É sofrido demais. Mas é maravilhoso, porque no amor um abraço cura tudo e o quentinho do colo acalma as dores. Então, no fim das contas, eu até consigo escrever o amor em um parágrafo. Mesmo depois de tudo. Mesmo depois de ter visto ele ser jogado na lata de lixo. Consigo escrever em um parágrafo. Mas tem que ser longo, muito longo, cheio de desdobramentos. Senão não cabe. Não encaixa. E amor tem que encaixar. E se encaixar você tem uma vida inteira pela frente para descobrir. E se surpreender. Porque amor é surpresa e, ao mesmo tempo, a estabilidade e a certeza mais intrínseca em você. Mas tem que encaixar. Precisa mesmo encaixar e só encaixa uma vez na vida, com a pessoa que o amor escolher. Se encaixar tá tudo certo. E daí se a gente sofre? No final não é nem o fim que importa, é só o amor e por quem ele te faz tombar de felicidade. Ou tristeza. É o amor.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Scotty McCreery e a caixa.


Meu sorriso é triste sem você. A coisa toda se resume a isso. Sem você eu me transformo naquela menininha assustada, escondida atrás da porta do quarto, que esquece que o mundo vai além da esquina mais próxima. Muito além. A mulher esmorece, quase escapa de mim. Resta a menininha e uma coisa disforme que são todos os meus sentimentos embolados. Scotty McCreery canta bem alto “please remember me” usando, com sua voz country, as exatas palavras que eu gostaria de dizer. E eu choro por não ser Scotty McCreery e estar tão longe de pedir para que você, por favor, lembre-se de mim. Longe de ser realmente lembrada. Choro porque Scotty McCreery certamente pensa em alguém ao cantar essa música e pode dizer tudo através dela, enquanto eu penso em você e não posso nem mesmo fazer uma ligação. O telefone funciona. Minha voz falharia, mas funcionaria. Para dizer oi, tudo bem, sinto muita saudade de você. Te amo demais. Funcionaria. Mas você não atenderia, então parei de tentar. Parei de tentar ser Scotty McCreery e voltei a ser eu. A menininha assustada e sem coragem. Aquela para quem o telefone não funciona, muito menos a voz. Porque crianças não sabem como discar e o que dizer e é como eu me sinto agora que você se foi, perdida em uma encruzilhada cheia de neblina. Sozinha. Acompanhada apenas pela dor insana da falta do amor que eu julgava como a única certeza da minha vida. Lembro do cartãozinho em que você dizia que, dentro de todas as minhas dúvidas, eu deveria guardar o espaço para a certeza do seu amor por mim. E eu guardei. Salvei um espaço de dentro dos destroços só para guardar você em uma redoma de vidro em meu coração. E agora o que eu guardo não é mais a certeza do seu amor, mas sim a inexistência dele.
E guardo também nossas coisas. Tudo aquilo que ficava me olhando dia e noite de cima das estantes de vidro do quarto. Todas as pequenas coisas que me torturavam de saudade, agonia e medo de nunca mais te ter. Comprei uma caixa grande e firme e, enquanto Scotty McCreery continuava cantando – part of you will live in me, lálálá – guardei presente por presente com o mesmo cuidado que teria ao segurar um bebê. Guardei as canequinhas ainda formando nossos nomes mesmo ali dentro. E junto com elas a cumplicidade de todos os submarinos que tomamos para roubá-las. Os cartões que vieram com as rosas; só eu sei como gostaria de ter guardado uma delas dentro de um livro até secar. Talvez aquela primeira que me fez parar de respirar por alguns segundos. Deitei Edward Mãos de Tesoura e, ao seu lado, a pequena e fofa Marylin que você comprou como presente de nove meses porque achou parecida comigo. Só porque ela é loira e eu também sou. Essa foi a mais difícil de guardar porque não dá para esquecer o sorriso que você abriu naquela noite enquanto atravessava a rua e eu esperava encostada no carro. “Foi como ficar com você de novo pela primeira vez”, você disse. Estava frio e o abraço foi de matar saudade e todo o resto que não fosse amor entre nós. Você me deu a Marylin e eu a botei para dormir agora. Guardei os dois perto um do outro, como namorados que eram na estante, como representantes de nós dois olhando direto para mim. Guardei a caneca do Lynyrd Skynyrd e comecei a pensar se na época em que a ganhei o seu amor já havia começado a evaporar. Ou o que eu acreditava ser amor. Porque amor de verdade não evapora, ainda que tudo esteja quente demais; problemas, distância, interferências. Tudo quente, mas o amor não evapora. Disso tenho certeza porque, não fosse assim, o meu amor estaria evaporando junto com tanta tristeza fazendo ebulição dentro de mim. Mas não. Ele continua intacto. Então guardei tudo. Tudo o que ganhei das suas mãos, sempre junto com um sorriso. Tudo o que me encarava durante a noite. Tudo o que trazia você na cabeça com a velocidade da luz. Inclusive o porta-retratos grande com a nossa foto preferida. Aquela em que você parece um galã de novela. Tudo. Até mesmo sua foto três por quatro que ficava na carteira e o bilhetinho com seu desenho lindo de bonequinhos de palito no qual eu carregava a lenha para o seu fogo acender, como na música. Tudo. E então guardei a caixa também. E chorei. Sentei no chão do quarto e chorei por horas. Não por não poder cantar para você como Scotty McCreery, mas por ter que guardar nossas coisas, nossos momentos, a materialização da nossa vida juntos. Chorei mais do que quando você olhou nos meus olhos e disse que o que sentia não era mais o bastante para continuar. Que nos últimos tempos esteve fingindo amor. Chorei mais porque guardar tudo é reconhecer o fim. É destruir todos os planos. E reconhecer um fim que não estava neles e que está matando por dentro dói. Dói o peito, falta ar. Toda vez que falta ar é porque aumentou a falta de você. A lembrança da sua voz dizendo o que eu nunca esperei ouvir. Sempre foi assim com você. Tudo que nunca imaginei ouvir de tão lindo no começo e durante e tudo que jamais pensei que ouviria de você no fim. 
Chorei e muito. Mas, dentre todos os motivos, chorei principalmente porque não existe caixa para guardar seu amor quando o da outra parte acaba. Ele fica. Então eu guardei, sim, todas as nossas coisas, mas percebi no mesmo instante que isso não faria diferença alguma. Agora eu choro por ver as estantes vazias, onde antes estava tudo de nós dois. Elas ficaram tão solitárias quanto eu fiquei sem você. Eu choro aqui da cama, olhando para elas, querendo desesperadamente colocar tudo no lugar e nos colocar no nosso lugar comum também. Juntos. Como Edward e Marylin ao som de Scotty McCreery, desta vez cantando “I love you this big”, porque meu amor é enorme mesmo e não mudou uma vírgula. Ele canta que os olhos nunca viram amor tão grande, que ninguém nunca sonhou um amor enorme assim. Sou eu. Mas não tenho voz para cantar para você. E não tenho onde guardar meu amor enquanto não inventarem uma caixa que retire essa droga de dentro da gente. Todo o sofrimento, toda a saudade; nada disso sai do peito para uma caixa invisível.
Choro porque guardar coisas não é a solução. O que realmente preciso é me guardar dentro dos seus braços. Preciso de você sorrindo para mim e guardando meu sorriso junto com o seu. Preciso que meu amor fique guardado e protegido aí dentro de você. Eu te dei meu coração e junto com ele tudo de mim. Quando eu brincava que um dia cantaria “Someone like you” para você era brincadeira. Por favor, desligue o som do carro e volte. Quando eu dizia que seria sua penúltima namorada não estava falando sério. Porque, aos poucos, tudo o que você queria para a vida inteira se tornou o que eu também queria para a vida inteira. Tudo mudou. E quando Scotty McCreery canta a parte da música que diz que você encontrará um amor melhor, mais forte, mais tudo, eu me desespero, enlouqueço e choro até desidratar. Você não pode achar um amor melhor. Eu te desejo, sim, o amor mais lindo do mundo, mas comigo. Eu sou seu amor melhor. Mais profundo, mais tudo que Scotty possa cantar. Ele abre mão de seu amor e pede apenas que ela se lembre dele. Eu não posso abrir mão. Deixar ir é tão difícil quanto continuar sozinha depois. Preciso que você se lembre de mim toda manhã ao olhar para o meu rosto e enxergar todo o amor que existe em mim. Ou ao escrever uma mensagem de bom dia ou boa noite. Quero que você não precise se lembrar de mim porque eu sempre vou estar ali com você. 
A música me derrete de tristeza, a caixa também, todo o vazio do quarto sem você também. Até mesmo comer sopa de palmito me deixa triste. Tudo o que minha vida se tornou com você todos os dias, mesmo quando a distância apertou. Tudo doendo e derretendo minha força. Eu quero aquela nossa vida que parecia tão certa e tão bem resolvida. Quero que você não tenha fingido amor. Que não tenha ido embora. Quero estar apenas vivendo o pior pesadelo da minha vida; aquele que, de tão ruim, você não consegue me puxar para fora nem chacoalhando meu corpo e gritando meu nome. Quero botar tudo de volta no espaço que você foi ganhando com o tempo e que agora jogou fora. Quero que você não tenha enjoado de mim, cansado do meu jeito de ser. Quero deixar a caixa vazia. Quero poder ouvir Scotty McCreery e apenas achar a música linda, não uma sentença de solidão como agora. E se eu puder ter tudo isso, se eu puder ter você e um espaço seguro para o meu amor novamente, nunca mais peço nada ao mundo. Mundo, só quero isso. É meu único pedido. Só o meu amor, nos dois sentidos. Dou três pulinhos se precisar. Pulo sete ondas no mar. Faço promessa. Qualquer coisa, manda que eu faço. Tudo para que as lágrimas sejam de alegria ou emoção. Tudo e qualquer coisa para ser Scotty McCreery por alguns minutos, sair da caixa e conseguir tocar seu coração até você voltar para mim e me guardar bem apertada e pequena dentro do seu abraço para sempre.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Ônibus.


Eu voltei. Não sei se agora pra ficar porque lugar nenhum é meu e a ideia não é poética no meu caso. Voltei chorando já no caminho à pé para a rodoviária. Estive patética entregando a passagem ao motorista junto com um soluço triste. Poltrona sete, não fui eu que escolhi. Encostei a cabeça na janela do ônibus, só com o cachecol branco e fofinho entre o rosto e o vidro segurando um pouco o atrito conforme as rodas pulavam buracos na estrada. Um cubo de batatas Pringles, só que de outra marca – mas a gente sempre chama de Pringles mesmo -, chacoalhando na bolsa porque queriam muito que eu comesse alguma coisa antes de viajar, qualquer coisa, mas não funcionou. Sem você, sem fome, sem sono. Fui com a vontade de tentar, a certeza de nós dois, a ânsia de retomar o amor e, como prêmio, voltei para casa sem nada. Ou melhor, voltei para casa com uma enorme pedra de dor para segurar. De confusão. De mentiras ou decepções e qualquer coisa mais que tudo isso possa ser. Para combinar, eu não queria mais nada. E só me interessava mesmo pelas luzes da cidade porque elas estavam borradas de um jeito meio drogado, tudo amarelado pelos postes passando rápido nas ruas. Um ou outro nome de hotel em neon colorindo um pouco a cena. Não me droguei, claro. Mas a mistura de pílulas para dormir com as lágrimas derramadas sem pudor tinha o mesmo efeito. Não sei se com drogas os olhos ardem; os meus estavam ardendo de tanto jorrar sofrimento. O cara do assento ao lado era um desses gordos espaçosos que roncam logo que fecham os olhos, mas virei para o lado da janela, encolhida como um feto desprotegido e ele nem sequer existia mais. O mundo inteiro não existia mais depois daquela cena horrível de filme de algumas horas antes. O mundo inteiro morreu dentro de mim. Possivelmente para sempre.
Olhando para fora, todos os últimos instantes passavam como flashes na cabeça. Você olhando para baixo enquanto eu chorava. Você falando sobre os poucos sentimentos que restaram e que eles não eram mais suficientes. Você falando que agora quer ficar sozinho e eu, por outro lado, apavorada com a ideia de ficar sozinha. Implorando. Argumentando. Expondo toda a minha vida. E você saindo porta afora e dizendo “sinto muito” sem sentir realmente, entrando no elevador e virando para mim, talvez para que eu pudesse te ver de frente pela última vez. Sério. Lindo. Mas não mais meu. Eu conheço seus olhos. Não havia nem mesmo a tristeza do adeus neles. A última imagem que terei de você, provavelmente, será a do cara que mais amei indo embora para sempre, com a porta do elevador fechando em frente ao seu rosto. Rápido como um corte, sem slow motion. Dizendo me amar muito até três semanas antes e de repente mais nada. Ou não o suficiente. Dá na mesma. De repente tudo acabou. De repente tudo que eu aparentemente significava não significo mais. De repente você queria ficar sozinho e que eu ficasse segura. E eu ri. Segura. A palavra mais engraçada da noite. Retrocedendo no tempo, a hora em que te entreguei bruscamente de volta o álbum e o que quer que estivesse dentro daquele pacote de presente que você queria me dar só por desencargo de consciência, eu realmente queria ter jogado tudo com muita força direto na sua cara. Com sorte quebraria seu nariz. Queria isso por tantos motivos que é impossível descrever, mas, principalmente, por me fazer te amar em vão, a cada dia mais, sabendo de todos os meus problemas. Sabendo de como eu cairia de vez ao ser deixada por você como se fosse uma qualquer. Por me tornar louca por você para então dizer “não quero mais” e partir. Mas eu não sou assim. Não sou de tacar coisas. Se fosse assim, tacaria minha dor para você levar também e ver como ela é pesada. Tacaria minha vida que mais parece um trapo. Toma, leva tudo, eu diria. Não interessa se você quer ou não. Eu não me quero mais depois de tanto amar você, cansei. Tacaria tudo para que você jogasse no lixo mais próximo, com certeza. Afinal, guardar só ocuparia espaço no seu armário. No exato momento em que você me abraçou pela última vez (e foi bem forte, ou foi impressão minha?), se eu não fosse tão jovem, diria que estava tendo um infarto, tamanha a explosão de dor que tomou conta de mim. Mas sou jovem e a dor era de abandono mesmo. De adeus sem querer largar. 
Eu quis perguntar se essa foi a maneira que você usou para terminar com suas ex-namoradas também. Quero ficar sozinho. Você é a pessoa que mais se aproxima do que eu namoraria agora, mas quero ficar sozinho. Sou eu. Não é nada que você tenha feito ou deixado de fazer. Preciso focar nas minhas prioridades sem pensar nos outros. Ah, céus, tudo tão clichê para dizer não-quero-mais-porque-não-te-amo-mais-me-enganei-quando-disse-que-você-era-a-mulher-da-minha-vida. Minha madrinha diria que tudo isso tem nome. E eu acho até que sei as iniciais. Mas pode até ser que não tenha, tanto faz; de qualquer maneira, fiquei eu sem você. Eu, Christiane F. (aí vai meu nome, mas sempre me dizem para deixar as coisas que escrevo menos pessoais), chutada novamente. É assim que os vira-latas pegam medo dos humanos. Eles dão um pouquinho de amor, um pouquinho de comida e depois, quando conseguem a confiança, botam a chuteira para não errar o alvo. Eles são os maiorais e, quando se descobrem donos de tanto poder, o pequeno perde a graça. Que graça mais uma pessoa doente e problemática teria depois de ter feito todas as suas vontades, atendido todos os seus pedidos e dedicado todo o seu amor a você? Nenhuma, óbvio. Só não percebi antes porque gente que ama demais não enxerga nada. Ou talvez só eu seja cega assim, não dá para generalizar. Fui trouxa. Babaca. Idiota e tudo mais. Inclusive burra. Eu acreditei em algo que sempre disse a mim mesma para não acreditar porque não existia. E não só acreditei no ridículo e retardado amor e em todas as suas facetas, mas também em você. Acreditei quando você dizia que ficaria para sempre e agora via você dizendo o contrário. Você indo embora. Partindo na boa enquanto eu caía de joelhos no tapete para chorar. Mas que diferença faria? Era apenas mais uma chorando por você. Deve ser bacana, imagino, para a autoestima. Essa moça você enganou de jeito mesmo. Ela e todo mundo ao redor com seu rostinho e jeito de bom moço. Com a mentira saindo fácil pela boca, como você mesmo admitiu. Eu acreditei em você e jamais me perdoarei por isso.
Tive uma viagem inteira de volta para lembrar de coisas assim. De tudo que vivemos e de toda uma história que já não sei se foi real ou não. Gostaria que aquele último abraço tivesse durado uma eternidade a mais. Que o elevador tivesse demorado mais a fechar. Que você tivesse me avisado que eu deveria me despedir naquela terça antes de entrar no táxi, para que o beijo fosse mais longo e mais beijo daqueles de guardar para sempre mesmo. Para que eu segurasse sua nuca e seu rosto com carinho pela última vez e memorizasse cada traço minúsculo seu. Eu queria mais de todas as coisas sutis da nossa vida juntos, ainda que tudo fosse uma grande mentira. Queria mais colo com seus braços me segurando pelos lados e protegendo contra tudo, ainda que para você não significasse nada. E chega de enganar. O que eu queria mesmo, de verdade, lá do fundo dos meus quereres, era que o fim não tivesse acontecido. Que tudo que você disse e fez fosse verdade. Que eu não tivesse errado ao baixar a guarda como fiz. Que todo o amor que aceitei sentir e tudo de mim que aceitei doar não tivesse sido em vão. Que fosse amor porque era mesmo amor. E que você fosse quem parecia ser. Alguém que não desiste de um dia para o outro, como todos os outros fazem. Eu gostaria de você aqui, comigo, sem essa de querer ficar sozinho e me deixar sozinha. Queria que nada tivesse mudado, enfim, mas o ônibus chegou e eu desci as escadas dando de cara com o frio e com a realidade de não ter mais você. Quando achei que isso nunca mais aconteceria, me enxergo sozinha na rodoviária. Sozinha na vida. Você ficou há muitos quilômetros de mim. Como era antes, só que agora também com o coração. Ou quem sabe, talvez até ele sempre tenha estado distante do meu e eu não percebi. Afinal, não percebi nem mesmo o gosto do fim chegando. Talvez a culpa de tudo seja minha. Faltou percepção, faltou me botar no meu lugar e perceber que eu jamais poderia ser tudo aquilo que você dizia que eu era; não tenho cacife para tanto. Faltou manter os pés no chão porque voar com você era leve e trazia uma felicidade irreal. Faltou acreditar mais nos meus instintos lá no começo e menos nas suas lágrimas de não-me-deixe-porque-senão-eu-sei-como-voltarei-a-ser. Faltou rir quando você dizia que me amava. Eu devia ter rido. Faltaram as rédeas de mim que eu não soube manter perante todo o amor que tenho por você. Faltou enxergar por trás do seu jeito romântico e apaixonado. Faltou te amar um pouco menos. Ou muito menos. Ou nada. Porque o amor é mesmo deplorável e mais deplorável ainda é quem se deixa levar.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Correntinha.


Eu ia mandar apertar. Há meses ia mandar apertar porque ela ficava escorregando no meu dedo. Não mandei porque só de pensar em ficar alguns poucos dias longe do seu nome já me entristecia. E ela insistia em cair. E eu insistia em catar do chão e colocar de volta. E fechava e apertava a mão com força, segurando com a esquerda, para ter certeza que ela estava ali e que você estava ao meu lado. Eu, que sempre achei essas coisas meras banalidades desnecessárias, estava criando uma fixação. Porque ali, dentro dela, estava um pedacinho de você que me acompanhava aonde quer que eu fosse. E foi você que me ensinou isso quando tentou me convencer a usá-la. Depois de um tempo eu vi sentido. Era olhar para o dedo e sorrir, lembrando que eu era sua e que todo mundo sabia disso. Aprendi com você, assim como tantas outras coisas bonitas. Talvez fosse melhor não ter aprendido; a ignorância era prevenção contra a dor.
Ela caiu de novo, como sempre. Mas quando fui ajuntar, dessa vez, você me parou no meio do caminho, como se pudesse congelar cenas com as mãos. Não precisava mais. O esforço era inútil. Dava para ler nos seus olhos. E ver em seu dedo a falta dela. Chega. Não precisa mais pegar quando ela cair, esse foi o último tombo. E aí, então, quem caiu fui eu, incrédula, logo ao lado da aliança prata brilhando no chão. Caí de cara, quiquei de bunda e sei lá mais o que porque tudo dói. Éramos eu e ela ali no chão, uma brilhando e grande demais para o dedo, outra apagada e pequena demais por ser esmagada pelo fim. Tudo repentino demais. Não deu tempo de apertar a aliança, mas o coração estava sendo apertado até quase rasgar completamente. E rasgou. Rasgou quando você disse o que disse e que me dói lembrar, então não posso repetir. Porque você me amava como sempre amou até pouco tempo e falava sobre esse amor, sobre os beijos que te encantavam, sobre a minha disponibilidade a qualquer momento que você quisesse e sobre como ainda ficava feliz por me satisfazer. Sobre como eu era a namorada perfeita, como você escolheu bem e como não se arrependia nem com os problemas que vieram no pacote. Sobre como não queria me perder. E dizia com firmeza que isso não aconteceria. Firmeza até demais em alguns momentos. Um tanto quanto bruta. Que estaria ao meu lado mesmo que os terremotos continuassem acontecendo. Você prometeu que nós venceríamos. Que nosso amor conseguiria. Você disse mais de mil coisas lindas para depois destruir tudo dizendo que só falou o que sabia que eu queria ouvir. Logo no dia seguinte. E alguns dias mais tarde jogou uma boa bofetada de quero-ficar-sozinho na minha cara. Você me ensinou a amar a aliança como se ela fosse parte de nós para depois guardá-la em alguma caixa qualquer.
Mas as coisas que você disse até aquela terça foram as mesmas coisas lindas que você repetiu durante longos meses. Então você passou mais de um ano falando o que sabia que eu queria ouvir, mesmo que eu garantisse que não queria. Meses mandando rosas e dando beijos na testa só para sustentar as palavras doces. Parte de mim não consegue acreditar nisso. A parte que você conseguiu amolecer. A parte que aceitou usar aliança e que não conseguia tirá-la nem para mandar apertar. Essa parte não vê isso como opção. Uma mentira tão grande e de tanto tempo, parecendo tão real, não pode ser mentira. Essa parte acredita nisso. Mas ela, coitada, é a mesma que acreditou que seria para sempre quando você dizia que seria. Que aceitou pauladas seguidas por pedidos de desculpas. O resto, o pouco de ceticismo que restou, fica sussurrando um “viu, eu avisei” sarcástico que dá dor de cabeça. Avisou mesmo, lá no começo, quando seu rosto era só um rosto bonito com um sorriso maravilhoso e educação e gentileza de príncipe. Avisou outras tantas vezes e mesmo assim eu não fugi. E mesmo quando tentei, não consegui, sempre voltando os passos que andei nessa direção. Agora ele tem o direito de rir e, claro, de voltar com força total, recuperando todas as partes de mim, inclusive a amolecida. Cética, muito mais do que antes. Talvez agora meu primeiro nome seja Cética. Oi, como é seu nome? Cética. Você é linda. Ha-ha! Não era isso que eu queria para mim depois que você surgiu; estava feliz com as mudanças que fiz em mim por você. Mas agora me descubro sendo a mesma pessoa pré-você, com mais bagagem e uma quantia considerável de certeza de solidão. Porque eu disse para mim, para você e para mais algumas pessoas, acho, que você seria minha última tentativa. E parecia tão doce e tão verdadeiro que cheguei até mesmo a ficar feliz por ter escolhido tentar uma última vez. E por ter amolecido. Parecia. Feliz. Verdadeiro. Aliança. Palavras que não se conectam mais.
E, enfim, tudo se inverteu. Agora eu faço o que você sempre dizia que faria caso acabasse. Tirei a aliança como manda o término, mas não guardei naquela caixinha vermelha de veludo que você abriu para mim. Do dedo ela foi direto para perto do coração. Tirei o pingente de uma correntinha e coloquei a aliança no lugar. Ela continuará comigo todos os dias. Carregando o pedacinho de você. Agora, no entanto, é perto do peito e só para mim. As vezes ainda me assusto com o dedo vazio, achando que ela acabou mesmo caindo de tão grande. Me bate um terror ao sair do banho e procurar automaticamente a aliança na beirada da janelinha e não encontrar. Ou no balcão, depois de lavar a louça. E então, todas as vezes que isso acontece, seguro minha preciosidade-pedacinho-de-você e lembro que ela continua ali. Você não é mais meu, mas eu ainda sou sua, ainda que você não me mostre a ninguém. As vezes me agonia a falta que a presença dela em outro lugar confirma. Mas ela não vai sair. Não preciso mais mandar apertar, mas agora ela cuida do meu coração cheio de saudade e invadido pela solidão. Ela está cuidando de mim do melhor jeito que pode, servindo de guardiã de um coração destruído. Guardará para sempre minha última tentativa de amor. O rosto de pele macia que eu tanto admirava. As mãos suaves. O jeito lindo de fazer nada e olhar para mim. O amor da minha vida em um pedacinho de ouro branco.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Oito.

Um grampo desprendeu do cabelo e caiu, arrancando consigo dois fios da raiz. Doeu só uma fisgadinha, uma centelha de pinicada, nada demais. Mas me fez chorar mesmo assim, como quase tudo nesses últimos meses têm feito, porque qualquer dor me lembra você. Aprendi em pouco tempo – tão pouco que chega a ser injusto - com quantos tropeços se faz um final. Oito. Oito tropeços contínuos e as coisas desabam. Não tente isso em casa. Eu resvalei e quase caí com cara, bunda e coração no chão por oito vezes, somadas em seu íntimo e expelidas todas de uma vez só. Foram doloridas para você, eu sei, mas também machucaram em mim. Muito. Você chorou porque eu não sou o que você pensava que eu era, por decepção. Eu chorei porque não estava dissimulando um coração quebrado e uma doença. Tudo sempre existiu de verdade, mas acabei ralando os joelhos e tudo mais mesmo assim. Oito, você enumera mil vezes e é como se mil fios de cabelo estivessem sendo arrancados com um grampo gigante que cai. Não, é pior. Porque não são fisgadinhas e pinicadas, é uma dor muito mais potente, dilacerante, que machuca dia após dia quando a lembrança vem. E ela sempre vem. No assento frio do carro quando uma rua escura inteira está pela frente e toca uma música triste no rádio. Na cama gigante quando só o edredom embolado em minha barriga não serve para tapar os buracos de medo e dor. No chuveiro, onde dá para chorar e ninguém fica sabendo porque as águas se misturam. Caminhando. Piscando. Fazendo qualquer coisa. Quase acreditando e aí desmoronando de novo. E em todos os outros minutos do dia. E nos pesadelos da noite também. Oito vezes, você diz e diz e diz, repete e repete e repete. E eu penso que certos mesmo estavam Tom Jobim e Vinícius de Moraes ao escreverem que “tristeza não tem fim, felicidade sim”.
O massacre dos oito precisa terminar ou então você leva contigo a última parte de mim que ainda era feliz. É irônico que o único cara em quem depositei toda a minha confiança de honestidade, de abrir o jogo mesmo, seja aquele que vai embora, mais cedo ou mais tarde, cuspindo o número oito em minha cara patética, apaixonada e agora roxa. É irônico que esse cara, que me conquistou com amor de rosas e gestos bonitos, hoje seja irônico comigo. Mais irônico ainda que o único cara que se dispôs a cuidar de mim tenha cansado desse propósito a ponto de esmagá-lo. Mas essa parte eu entendo; eu mesma já cansei de cuidar de mim há muito tempo. Comecei a tentar enxergar no escuro e, aos poucos, descobri tudo o que há lá. Não é bonito. Fechem os olhos na escuridão, eu digo. Fui eclipsada por uma estrela escura, talvez, mas sempre tentei brilhar para você o máximo que pude. Sou uma enegrecida tentando ser clara como você quer. Mas as coisas não são bem assim. Eu ainda tenho uma doença, um coração quebrado, talvez agora até um pouco mais, joelhos ralados e pedaços necrosados. 
Pode ser que eu tenha nos estragado, que a culpa tenha sido toda minha e que suas faltas não deveriam ter machucado o coração de aço que eu deveria ter. Ou, quem sabe, eu tenha apenas imaginado seus erros. E imaginado meus choros tristes durante a madrugada. Primeiro estraguei você. Meus defeitos foram mais fortes e minhas poucas qualidades não foram suficientes para salvar o que matei. Seu amor, seu abraço só meu, sua crença de que somos um só. Dilacerei tudo em você e por isso jamais me perdoarei. Mas ter perdido sua paciência, compreensão e gentileza é coisa que não me cabe, porque é justamente em mim que a falta de tudo isso esbofeteia. Seu cansaço está entrando no lugar do amor, enquanto meu cansaço de tantos anos vai dando espaço para o amor. Estamos andando na contramão. Você precisa de alguém que não sinta tanta necessidade de chorar, alguém que esteja sempre disposta a te amar sem vírgulas e, principalmente, te ame mais depressa, mais urgentemente. Alguém que não te cause tantos transtornos e discussões, alguém que seja segura o bastante para não se incomodar com alguns dos seus erros que, infelizmente, para alguém como eu, são brutais. É o que você quer e é o que merece ter. E eu vou continuar sozinha porque tudo que toco termina estragado. Você, nós. A vida. Talvez porque eu mesma seja estragada demais.
Como uma cirurgia plástica ao contrário, cada corte meu foi mostrando cicatrizes e borrões que se perpetuam em mim. Você foi cutucando e não conseguiu aguentar a feiura de tudo, claro. Do meu jeito inconstante de precisar tanto de você, de querer desesperadamente seu amor e seu colo, de tropeçar a cada pouco tempo porque só agora, já bem adulta, estava aprendendo como era realmente ser amada e não sabia, como ainda não sei, lidar com isso. Nunca aconteceu antes. Não é possível saber o que jamais se fez presente. Eu estava aprendendo devagar e sempre voltando alguns passos por precaução. Devagar, mas indo. Retrocedendo por dor conhecida, como criança que mete a mão no forno quente e nunca mais repete. Estava caminhando com passos de bebê e tropeçando como um. Sem querer, várias vezes, machucando a mim mesma e abrindo o berreiro triste e sentido até chegar à etapa dos soluços. O único paliativo que funcionava em mim era você e agora voltei ao caos de quando você não existia, porque você lembra demais das vezes em que chorou e de menos das que eu chorei. Eu deixaria você arrancar todos os grampos e fios de cabelo possíveis se isso fizesse o número oito desaparecer do mundo ou, pelo menos, do pedaço do mundo em que vivemos. Porque esqueci muitas coisas, deixei para lá muitas coisas e, hoje, estou absorvendo muitas coisas sem exprimir sequer um por cento do quanto dói. Mas um oito é inesquecível para você. São muitos tropeços para uma pessoa só. E hoje eu entendi, relendo aquela mensagem em que você escreveu “tudo de bom para ti” como uma despedida por celular, que nunca seremos outro número senão oito. Posso te dar quinze alegrias em um dia, mas, no final, é daquele oito que você vai lembrar. Podemos sorrir vinte vezes, mas no fundo dos seus olhos vai estar esculpido um oito cheio de líquen, ficando velho, mas ainda ali. Entendi que vou me doer para sempre e ficar pensando em jeitos de escapar do que não tem escapatória. De te amar do jeito que você quer, quando ainda não cheguei sequer no patamar de aprender a me amar. Eu não me sei. Sei que te amo, mas a barreira é muito grande. "Tudo de bom para ti" é coisa de quem nunca mais quer ver. Se para você foram muitos tropeços, para mim hoje é dor que esquarteja aos poucos, doendo e doendo e doendo o dia inteiro. Estou procurando maneiras de nos salvar, mas hoje, relendo aquela mensagem e pensando em nossas conversas - antigamente tão despreocupadas e fáceis, agora tensas porque não sei mais exatamente o que devo ou não compartilhar -, descobri que você nunca vai conseguir deixar o oito tombar e virar o símbolo do infinito. 

sexta-feira, 9 de março de 2012

Aborto espontâneo.

Engraçado como são as coisas. A camiseta do meu pijama anuncia, em letras roxas enormes, “the secret to have fun”. Irônica, como se estivesse querendo tirar uma com a minha cara. Sarcástica, sabendo que meu rebento acabou de morrer. Cínica, como se quisesse dizer que é um absurdo que alguém como eu vista uma blusa feliz. Alguém que destrói tudo por onde passa, mesmo sem querer. E é. Sempre completamente sem querer. A vida desmorona como um montinho de areia sendo soprado para longe pelo vento e sou só mais um grão no meio desse caos. Você está longe, talvez também soprado por ventos mais bruscos, tempestades de palavras burras e furacões de atitudes estúpidas. Eu me esforço para calar, para não agir, para sufocar tudo aqui dentro de mim. Para você enxergar apenas a parte bonita e feliz e não aquela que está apodrecendo e inchando. Me esforço como se a gravidade que prende a Terra no lugar dependesse disso. Me esforço sem motivos, acreditando honestamente que tenho milhares deles. Me esforço porque não durmo e sobra bastante tempo à noite para espremer os olhos e a merda toda. Me esforço para tentar ser a pessoa correta não só para você, mas para toda a sociedade ao redor do seu mundo. Estou lutando para crescer e saber de novo coisas que já não sei mais, como respirar com paciência ou prender lágrimas onde elas devem ficar. Talvez esse tenha sido o problema. Lutei contra tudo por tanto tempo que já não sei mais lutar a meu favor.
Gosto de cantinhos fechados e coração protegido e as pessoas sentem medo porque não sou um exemplo de felicidade. Se eu pudesse contar uma coisa, só uma, diria que a infelicidade não é ácido que queima a pele alheia ou sequer doença transmissível. Não a minha. A minha é calada e sozinha, não parasita outras solidões ou mágoas vizinhas. Dizem que só ficar perto de alguém triste já traz energias negativas, mas eu não tenho energias. Positivas ou negativas. Nada. Esgotei os estoques que ainda restavam tentando engolir as dores e asfixiar as tristezas. Estou exausta e suada, exaurida por carregar toneladas sozinha, sem poder abrir a boca para pedir ajuda. A preocupação de alguns vêm quando me enxergam sentada em um canto da cama, com os braços envolvendo joelhos dobrados e catatonia nos olhos. A de outros quando estou em um bar, supostamente rodeada por pessoas divertidas, e me perco em pensamentos que não divido nem por decreto. Mas a pior preocupação é a que julga sem saber. Essa afeta, machuca, mata o que era vivo e quente e feliz. As pessoas não entendem. Não aceitam. E repelem, discriminam e chutam para lá sem pensar duas vezes. Saia daqui, você só causa mal. Sua maior culpa é não ser feliz. Você não merece estar perto de nós. Somos todos superiores. De preferência mude de cidade para não infectar as ruas com sua estirpe triste e patética.
E depois de tanto correr, de tantos golpes, de tantas coisas frias, ainda sou eu aquela que deve se esforçar mais um pouco para provar às pessoas que minha índole é gentil e complacente. Sou eu que devo dizer uma coisa ao espelho, sentindo outra totalmente diferente. Sou eu que devo abrir um sorriso e pedir desculpas por ter levado um chute na bunda, uma rasteira e um puxão de tapete. Desculpem por isso, seja lá o que isso for. A verdade é que, depois de tanto tempo chorando por dentro e matando grossas partes de mim para manter o ar de felicidade que tranquiliza o mundo, desmoronei. Hoje a realidade caiu sobre meus ombros com uma pancada forte e a tristeza vem do que não somos mais e do que nos tornamos. Vem do fato de que eu deveria, mais uma vez, ter ouvido minha própria razão lá no começo. Lá, bem longe. Porque hoje eu carrego dor por mim e por nós e está ficando pesado demais. Sofrido demais. Mas eu criei algum tipo de destruição – sem querer e sem saber – e talvez esteja pagando o preço. Deve ser isso. Mas todos podem ficar tranquilos, afinal. Não existe mais menção alguma sobre mim. Estão livres, pobres atormentados.
Eu faria tudo para nos salvar, mas hoje não quero mais abraços e nem afagos, muito menos acreditar que tudo pode ser como antes. Quero só esquecer das coisas pavorosas que me cercam e parar de sentir ao menos essa dor, entre tantas outras, porque sei que não posso triunfar. Parabéns, vocês venceram. O passado se enfia continuamente em meu presente todos os dias, cutucando com ponta de bisturi. As lembranças boas e as terríveis também, muito mais duras e implacáveis. Perdi meu feto e o doei para uma faculdade de medicina onde, quem sabe, um universitário prodígio descubra o que levou a uma morte tão repentina. Talvez consigam a cura para as próximas gerações. Hoje ele está lá, pequeno e frágil, boiando em um pote de vidro cheio de formol onde antes deviam ficar biscoitos pintados com bolinhas coloridas, daqueles que só avós sabem fazer. Fico sentada, imóvel, pensando no luto que não tive tempo de viver porque o mundo tem pressa para tudo. “Morte súbita, sinto muito”, alguém diria. Ele ficou púrpura, parou de respirar, seus batimentos cardíacos reduziram drasticamente. Foi instantâneo, mas certamente a fraqueza já vinha de longo tempo. Porque a força não se esgota assim, da noite para o dia, deixando tudo vazio. A coragem não pega suas malas e parte sem dizer adeus. Perdi o feto de força que já vinha ficando cada vez mais diminuto dentro de mim. Ele morreu e foi expelido. E, apesar de tudo, continuo me esforçando. Por mim, por nós, para reaver meu instinto guerreiro. Não estou tentando nada a não ser, quem sabe, mudar minha própria maneira de pensar e ver e agir e amar. Não a sua. A minha. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Limite infinito.

A controvérsia é óbvia: infinito não tem limite. Mas quando fecho os olhos – deitada em qualquer lugar da casa que não seja seu peito – e penso em nossas imagens e na tamanha doçura de nós dois, acho que ultrapasso linhas que ainda não foram sequer pintadas com tinta amarela nas ruas trepidantes e esburacadas do meu cérebro. Meu limite de amor e compreensão se expande e eu me sinto capaz de tocar seus ombros mesmo à distância e te puxar estreitamente para o mais perto possível. Um perto que quase nos deixa fundidos, colados sem precisar de cola. E fico não só disposta, mas também inteiramente propensa a te amar sem limite razoável, só porque posso desalinhar seu cabelo e porque as vezes você me abraça como se eu fosse seu único mundo. Ou apenas sua única pessoa no mundo. Tanto faz. Estico meu coração e minha força de vontade até onde quer que você esteja para que me sinta aí, nem que seja só um pouquinho. Me sinto como um puxa-puxa mal feito ou um chiclete que prende mais que teia de aranha, mas tudo bem, porque estou prendendo apenas a mim mesma na teia sem saída da viúva negra que é a vida. Você está cada vez mais livre e, segundo dizem, mais perto da felicidade sem mim. Eu te sinto como uma nuvem enorme que esconde o azul inteiro do céu, plácida e perfeita, mas sem peso algum. Você talvez me sinta como uma simples chuva de verão. Ou, julgando suas últimas palavras, como um sol traiçoeiro que queima e engana através dos mormaços.
No exterior de nós eu consigo enxergar todos os erros cometidos, meus e seus, todas as falhas acentuadas e apedrejadoras. Vejo a que ponto chegamos e para onde íamos com nosso planos incontáveis, mas não vamos mais. Tínhamos toda uma vida prometida de mãos dadas e corpos quentinhos – o seu fervendo e o meu gelado - dia sim e outro também. Agora não temos mais nada e sobrou só um quarto bagunçado e uma conta conjunta sem sentido. Não há mais ninguém para me chamar de pequena quando a carência chega. Estou sozinha com o frio do vento do ar-condicionado soprando direto em meus ouvidos. Quase posso ouvir o sussurro dizendo que fiz tudo da maneira mais incorreta e torta, ainda que fosse a melhor ao meu alcance. Nesse caso as paredes também falam. E, já meio louca, fico deitada encolhida do sofá como uma mocinha de comédia romântica, chorando de pouco em pouco, amando de muito em muito. Agora nossa doçura virou pó, nosso amor se tornou solúvel como café e meus passos estão gelatinosos e exaustos. Tento lembrar quantas vezes corri e saltei em seu colo para te abraçar mais de perto, mas antes de chegar ao final da conta lembro que essa cena não se repetirá nem hoje, nem no mês que vem. Não posso mais correr e saltar porque não há nada no outro lado. Eu já confiava o bastante em você para saltar sem medo de cair. E hoje só restou o tombo, um joelho ralado e o coração dilacerado. Não posso mais saltar nem correr e talvez por isso esteja estática como uma boneca de cera em tamanho real no mesmo ponto em que você me deixou. Tomara que ela fique bem, disseram. Não estou bem. Não conheço a sensação.
Mais um mês de namoro em breve, mas quem é que quer contabilizar? Agora nem mesmo um mísero dia extra para falar do quanto eu te amei ou para te abraçar e chorar porque você sempre vai embora e me deixa apenas com uma malinha de recordações doloridas e lindas e hematomas púrpuras chorosos. Eu rio porque o mundo todo olha e pensa que eu sou abençoada ou qualquer outra coisa nesse sentido, mas ninguém sabe a bagunça interna do meu peito e a confusão na qual vivo. Ninguém, exceto você e meu psiquiatra. Mas dizem que você não aguentaria muito tempo alguém como eu, tão cheia de pedaços quebrados. Dizem tanto que eu acabo acreditando que sou mesmo errada demais para alguém como você. Mas depois eu penso que é tanto amor para duas pessoas que pode dar certo de alguma forma, porque nós combinamos. E então volta o “íamos” para quebrar o raciocínio positivo. Íamos viajar juntos. Explorar o mundo juntos. Morar em uma quitinete juntos. Faríamos dezenas de coisas e eu aprenderia a jogar a bola do boliche em outro lugar que não a canaleta. Você estava lá na minha conquista, berrando alto seu orgulho como ninguém jamais fez, e hoje estou sozinha, sem orgulho ou amor-próprio algum. Dessa vez, quando chegar o dia, talvez eu olhe no espelho e diga para mim – e para nós – um leve e triste “feliz faríamos tudo se não tivesse sido o fim". Mas foi minha escolha e eu aceito suas consequências. 
Em meio aos pesadelos de olhos abertos eu me descubro ainda totalmente aberta a você, esperando por algo que possa nos salvar. Uma palavra, um passo, uma passagem, um encontro, um abraço. Tenho um limite enorme de amor para te dar. Na verdade não há limite algum. Limitados são meus conhecimentos e confianças. Você não acaba para mim, nem quando nós já acabamos. Você é o amor que eu quero sem fim. Você simboliza as corridinhas e saltos que ainda quero dar entre o corredor e a sala. Acho que é por isso que usam a palavra infinito. Algumas coisas não têm fim, mesmo quando já terminaram. 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Decepção.

A palavra decepção surgiu na Grécia antiga quando uma mulher deveras apaixonada sofreu com as peripécias do homem amado. Ele não se importava, ditava seu falso amor ao vento e erguia outras saias brancas e esvoaçantes por aí, achando graça em qualquer detalhe dourado que prendesse cabelos compridos. A tristeza da mulher era tamanha que escolher uma palavra já existente no vocabulário para expressar sua dor se mostrou uma tarefa impossível. Assim, ela criou a decepção (do grego: decepar o coração), que logo tomou grandes proporções, já que muitas pessoas se identificaram com o novo nome dado a um velho e conhecido sentimento. Ela era perspicaz, ao menos.
Mentira. Não faço a menor ideia de como nasceu a palavra decepção, mas sei que foi muito bem parida; há aflições que só ela explica. Até poderia fazer uma busca pela origem no Google, acho, mas não sou exatamente do tipo que procura respostas para o que já está em mim desde que nasci. Não preciso de um dicionário nesse caso, obrigada. Investigando bem a fundo, a decepção é algo intuitivo que sempre esteve guardado em algum canto genético de nossos cérebros. Como uma pessoa que carrega um vírus desativado. E, de repente, um alguém externo vem cutucar feridas não tão limpas e higienizadas assim e, pronto, a decepção se instala. É para aprendermos como a antissepsia é realmente importante e pode prevenir. A decepção não se cria nem se desenvolve. Apenas surge. Assim, do nada mesmo. E aumenta, e como aumenta, alimentando-se de lascas de desafeto, amargura, desdenho... Qualquer coisa que venha de quem você menos espera. Quando sua dor é provocada por alguém a quem você daria sua vida ou algo mais ou menos assim – um braço já está valendo -, pode-se dizer que você está vivendo uma decepção. E, convenhamos, não há nada mais pesado do que estar decepcionado. É pior que tristeza porque tristeza dá e passa. Pode demorar e deixar cicatrizes, mas passa. Decepção fica. E nunca cicatriza nem clareia hematomas. Decepção é o lenço que a gente sempre carrega na bolsa ou no bolso, só que com muitos quilos a mais. Aquele tão grudado lá no fundo que dá preguiça de tirar. Outra coincidência: assim como os lenços, decepções também costumam carregar lágrimas com frequência. Não são cortes limpos e lisos como os de um cirurgião bem treinado, estão mais para cortes serrilhados e lentos de contrabando ilegal de órgãos. O que combina porque sempre parece que a decepção está mesmo levando um grande pedaço de você. Menos o fígado, porque ela sabe que você vai precisar muito dele depois de conhecê-la.
É diferente para cada pessoa. Eu, por exemplo, vejo decepção em cada passo que dou pelas avenidas de uma cidade. Ou ruelas menores, tanto faz. O ponto crucial vem dos passos, não do lugar. Um passado de fracassos, um presente de dúvidas e erros, um futuro sem futuro. A maneira mais fácil que já encontrei – sem querer, é claro – de viver uma decepção, foi olhando para meu próprio reflexo no espelho lá do quarto. Grande, comprido, feio, pavoroso. Entupido de arrependimentos, descrenças e medos. Rugas internas de uma mente velha que vive em um corpo jovem, gordo e flácido demais. É uma decepção em cada risquinho colorido da retina, como se eles fossem uma contagem histórica e depressiva de todas as adversidades inaceitáveis de uma vida. Eu já me decepcionei com eles, com elas, com você, com o andar da carruagem de meus dias sem graça. Já me decepcionei com tantas coisas que decorei a feição que a gente faz quando passa por isso. Mas nunca me decepcionei tanto quanto comigo mesma. Nunca tive nojo ou raiva dos erros alheios, apenas dos meus. E jamais desprezei uma imagem que não fosse a minha. Porque não ter sabido tomar conta de mim por tanto tempo e decepar meu próprio coração não tem perdão.
Vivo a decepção todos os dias, como a mulher da Grécia antiga deve ter vivido e como suas antepassadas também. Hoje não preciso sofrer um golpe a cada dia para me sentir assim. Hoje já aprendi a me resguardar e não deixar que me tomem por uma bobinha. Mas vivo a decepção de quem não sabe para onde ir ou sequer onde ficar. De quem não idealiza uma vida, de quem não difere certo e errado, de quem enxerga tudo como um grande tombo em direção ao abismo. De quem tenta, tenta e tenta uma terceira vez, sabendo que o resultado será sempre o mesmo. De quem enxerga os olhos vermelhos a cada dia, mas pinga um colírio e sorri para esconder a tristeza, porque é assim que o mundo quer. Não há nada pior do que decepcionar-se consigo mesmo. Porque você pode até dar um braço ou sua vida por alguém e esse alguém te matar de dor por algum tempo. Mas você se salva e sempre dá um jeito de se reerguer, nem que seja como em uma pintura falsa de meio sorriso. Mas quando você dá uma porrada em sua vida ou esmaga seu próprio braço, não há ninguém capaz de te puxar da escuridão. E então você apenas fecha os olhos e deseja com força a cadeira elétrica, porque é apenas isso que merece, enfim. E lembra que mora no Brasil. Não temos cadeira elétrica por aqui. E então você chora, porque a decepção não sabe ser contida como outros tantos sentimentos. Ela escorre mesmo e se acha o máximo, muito melhor do que você e sua fraqueza infinita.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Fronhas.

Hoje eu troquei a fronha dos nossos travesseiros e desabei lembrando das tantas noites em que precisei fazer isso para que pudéssemos dormir juntos. Mas dessa vez a intenção não era a saúde dos seus olhos machucados e sim a saúde do meu sono tão bruscamente interrompido. Uma roupa de cama limpa, passada, lisa, cheirando a qualquer coisa que não fosse o desespero de estar sem você nas próximas noites. Dessa vez arranquei tudo e joguei direto na máquina de lavar como se pudesse lavar com sabão também minha vida. Troquei as fronhas por causa da sujeira escura e molhada dos borrões de lágrimas cheias de maquiagem. Da saudade traduzida em manchas pretas pela manhã. E quase desmaiei. O desmaio talvez seja o segundo passo de desabar; o primeiro é o desmoronamento interior, pedras rolando ladeira abaixo. E nem precisa ser um desmaio com tombo, olhos virados e tudo mais. As vezes é apenas sua alma caindo de joelhos e implorando por paramédicos com urgência.
Hoje eu deito ouvindo músicas que me fazem lembrar de você e de todos os nossos momentos – bonitos, trágicos ou teatrais -, noites claras de tranquilidade em seu peito seguro. Desacostumei dos travesseiros. Eles são frios demais, tristes demais e por vezes até ásperos demais. Só sei dormir em seu peito e a culpa é toda sua por ter a pele macia e branca e quente o bastante para me aconchegar como em um sonho de inverno embaixo de uma pilha de cobertores. Eu troquei as fronhas e elas já estão sujas de novo, porque é impossível deitar e não pensar que você deveria estar aqui, que este é mesmo o seu lugar e que sozinha a cama tem um buraco onde eu preciso cuidar a noite inteira para não cair. Porque, se cair, adeus superfície para sempre. E eu continuo aquela pessoa firme por fora, com um sorriso estabanado e meus fones de ouvido, porque é isso que o mundo inteiro espera de alguém que já aprendeu bons bocados de realidade. Por dentro a história é outra; estou arrebatada pela lamúria de dormir sozinha, pela carência do seu santo abraço de todos os dias, pelo esforço de ter que levantar todas as manhãs. Só você sabe o quão ridiculamente sozinha eu sou e nunca precisou ler Dostoiévski para me encantar e acabar com a parte mais visível dessa solidão. Só o pedaço mais superficial dela.
Quando estendi as fronhas no varal descobri que não posso verdadeiramente lavar minha vida. É hipocrisia pensar que alguém trazendo felicidade bate na porta da frente e a tristeza vai embora pela de trás. Mais do que isso, é ilusão. Os lençóis e tudo mais cabem na máquina, mas a vida não. Ela gira, sim, e sempre, mas não lá dentro; não dá nem para centrifugar uma parte dos sentimentos, secá-los para escorrer o que não pertence mais a esse lugar e depois guardá-los com cuidado em estantes organizadas. Minhas estantes sentimentais são caóticas e bagunçadas, sempre com perguntas incompreensíveis e respostas incompletas. Então, já que não posso lavar e expulsar, você vai continuar aqui, compacto e apertado dentro de mim, com sua liberdade lá fora. E eu comendo quadradinhos de chocolate para tentar suprir sua falta imensurável ou minha própria falta. E depois correndo loucamente para gastar as calorias e não pensar em você por uma hora ou duas de descarga de adrenalina. Sem beber as coisas parecem ainda piores e eu não tenho bebido nada porque sozinha não tem mais graça.  Nada tem graça. Nem acordar pela manhã sem você me ligando insistentemente, nem escolher uma roupa descolada, nem mesmo arriscar sorrisos durante a tarde. As coisas ficaram comuns e intoleráveis. Eu não me tolero mais, não suporto minha voz, meus olhos, minha pele. E tento arrancar tudo com as unhas e corto lugares de mim que nem existem só para tentar substituir a dor. Sinto falta de tudo em você. Suas piadas idiotas, suas compras absurdas, seu beijo de oi e seu sussurro de tchau quando eu já estava dormindo leve. Mas, acima de tudo, sinto falta do quão certo você era para mim. Porque agora, longe, tudo parece mais do que equivocado. Sei que te amo, mas e aí? Amor leva até certo ponto, o resto a gente precisa correr atrás e eu sinto que não tenho mais pernas nem pulmões para isso. Ainda lembro da primeira vez em que você me viu chorar. A primeira de outras centenas porque você se tornou o único capaz de exprimir de mim essa espontaneidade. Em todas as esquinas vejo você. Até o cara da novela que eu não assisto tem a sua cara. Mas eu sei conviver com isso. Não posso lavar essas coisas, mas posso manejá-las como sempre fiz. O problema é que, mais do que sentir falta de você, sinto falta de mim e do porto seguro que eu tinha em minha casca sempre grossa demais para que alguém pudesse entrar. Perdi a graça para mim e para a figura que me encara no espelho. Essas fronhas, as minhas próprias, estarão sempre sujas, dedurando noites terríveis e vida exausta. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Pandora.

Estou escrevendo na cama onde tantas vezes eu e você estivemos juntos, brincando, rindo, chorando, dormindo, fazendo barulho. Pandora dorme em sua cesta aqui ao lado, bem perto do travesseiro, segurando entre suas patas minha mão esquerda. Escrevo só com a direita. Nada mais justo, já que sinto mesmo que falta metade de mim e que é justamente essa metade tudo o que não sei mais traduzir em palavras. Uma esquerda perdida, uma direita confusa e machucada, precisando do resto que desapareceu. De repente eu só queria trocar de vida com Pandora. Ser essa bolinha de pelos que não precisa gastar horrores com depilação, que se encolhe toda fofa em uma cestinha mesmo tendo uma cama inteira para seu próprio júbilo, que dorme sem preocupações por horas inteiras, que come sem medo de engordar. Que não tem depressão, não conhece a dor dos arrependimentos. Há quanto tempo não durmo por duas horas seguidas um sono ininterrupto já nem sei. O que as pessoas fazem com Rivotril não é exatamente dormir, é entrar em transe. E, curiosamente, sempre há algo para me acordar do tal transe. Um barulho qualquer que traga uma memória ruim. A cama de casal vazia e o buraco ali ao lado. O celular berrando fora de hora. E, principalmente, os pesadelos pesados e atordoantes. Eu acordo sempre assustada, sejam palhaços, sapos ou a morte em meus sonhos, e Pandora continua capotada ali ao lado, dormindo o sono de anjo que realmente merece dormir. Ela não tem nada a ver com a mitológica "caixa de Pandora". Tudo o que vem dela é suave e cheio de amor.
Descobri há pouco, depois de muito analisar a situação, de onde vem essa leveza invejável; a questão é que Pandora não te ama. Gosta de você, claro, até sobe em seu colo, arranha suas calças e solta miados pedantes de carinho. Mas não te ama do fundo do coração. Não sente sua falta quando você não está, nem precisa de você para se sentir segura. Ela tem outras pessoas para afagá-la e tem sua cesta – tremenda barragem contra monstros – enquanto eu tenho um edredom que não afasta nada do que é ruim, um pijama velho e confortável e zero sono. Pandora ronca, ainda segurando minha mão esquerda, toda contorcida, tapando os olhos porque a luz ainda está acesa. E eu, louca que sou, olho para seus olhos amarelos e seu focinho geladinho a uma distância de no máximo dois centímetros e sussurro: “ei, meu amor, quer trocar de vida comigo, só por uns dias? Sabe como é, sua mamãe tá precisando de umas férias dessa coisa absurda que nós humanos chamamos de vida, amor e decepção. Quem sabe você, com a rapidez que te permite agarrar uma lagartixa, consiga correr para longe desse desastre maior que ouvir uma música linda e não entender a letra. Ou entender a letra e não ouvir a melodia. Talvez com sua esperteza você elabore um plano que nos salve dessa enrascada. Só eu e você. E então vamos fugir para o mundinho da sua cesta segura e passar lá o resto dos nossos anos. Não, deixa para lá. Não vamos trocar de vida porque eu jamais deixaria que o ser mais sincero e carinhoso do mundo passasse por tudo isso que é sofrer em todos os sentidos livres da palavra. Eu te amo, minha princesa".
O problema é que eu não gosto de ser eu. Pandora gosta de ser Pandora, tenho certeza. Se eu tivesse apenas um pedido para fazer seria: quero ser Pandora 2. Bem igual. Ela é pura. Seus olhinhos doces têm amenizado um pouco da tristeza dos últimos tempos, ainda que as vezes pareça que ela está pegando a dor para si quando me vê chorar, lambe minhas lágrimas e deita perto do meu rosto. E eu tenho vontade de gritar e pedir que ela não beba minhas lágrimas amargas de solidão e desespero, porque deve haver veneno aí depois de tantos anos. Mas não tenho forças e não consigo falar, então tudo que faço é abraçá-la. Por alguns instantes desejo que o abraço dure para sempre. Um para sempre de verdade, desses que nem existem. Porque para humanos “para sempre” pode ser apenas até amanhã. Mas para Pandora “para sempre” é para sempre. Ela é superior. Ama apenas a quem deve amar, respeita apenas a quem deve respeitar. Não finge amor, não mascara sentimentos, não foge da raia. Não se aflige quando algo está errado. Pandora é tudo o que eu queria ser e tem tudo o que eu queria ter. Começando pela mente totalmente limpa de memórias dolorosas. Ela foi tirada da rua com menos de um mês e talvez até tenha resquícios de lembranças desse tempo difícil, mas nunca foi traída, nem abandonada, nem reprimida em qualquer de seus sentimentos. Pandora tem a liberdade de amar e odiar a quem quiser, concordar ou discordar do que quiser, tudo sem consequência alguma. E, caso esteja incomodada, tudo o que faz é se retirar do aposento e ir tranquilamente dormir em outro cantinho confortável. Ela gosta de cantinhos seguros. Eu também. Ela os têm. Eu não.
Pandora é o sonho de consumo de qualquer pessoa solitária como eu. Ela está sempre ali, esticando o corpo e fazendo um dengo, pronta para dormir a noite inteira e miando baixinho como um convite ou mesmo um ombro amigo. Até bateu um falso sono só de ver sua serenidade. Já chega por hoje, ela diz com seus trejeitos. E tem razão. Esse foi o texto mais demorado que já fiz, apesar de não ser dos mais longos. Porque escrever com uma mão só é exatamente como te amar com oitocentos quilômetros de distância: metades, pedaços. Um desvio doce e malévolo de tempo incerto. 


Pandora, há alguns anos.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Tudo o que é(ramos).

A cabeça apoiada na mão, virada para você. Hoje me dei conta de como já decorei seus traços. Os fios pequenos e solitários de barba, esparsos e preguiçosos. Os olhos daquela cor azul que as vezes parece cinza e triste, o pescoço quentinho e o pouquinho de pelo no peito. Já eternizei suas cócegas e o jeito com que você se repuxa, seus cabelos macios e como você fica dengoso com alguns beijinhos leves. Decorei seu jeito de andar, de falar, de se inclinar por um beijo, de me pegar no colo no meio de um salto. Já sei o que você vai falar quando estou andando em direção ao seu carro. Mas, mais do que isso, já aprendi sua personalidade mais do que aprendi a minha em 22 infernais anos convivendo comigo. Sei quando você está nervoso, mergulhado em tristeza, confusão ou medo. Sei quando quer me dar a mão. Conheço suas decepções e as compreendo de uma maneira que jamais compreenderei as minhas próprias e tantas. Sei quando seu olhar é doce, quando é voraz, quando traz perspectivas ou ideias malucas e brilhantes. Seu sorriso travesso, seu sorriso de “eu te amo”, seu sorriso de “quando eu ganhar na mega...”. Reconheço sua garra e valorizo cada pequena coisa como você merece, mas nunca teve. E por tudo isso já dói ficar sozinha como não doía mais. Porque eu posso ficar só e desolada, mas é contra as regras dos meus sentimentos mais primitivos – como o amor - te deixar desamparado. 
Machuca pensar no que foi e não pode mais ser. Em tudo que era. Eram seus cabelos ou suas canelas magras, talvez. Seu jeito de tirar os óculos e esfregar os olhos com uma nesga de cansaço ou preocupação. Era seu corpo inteiro quente dizendo “vem cá deitar no meu peito” na hora de dormir e o carinho leve em meus ombros ou na ponta dos cabelos. Era até mesmo seu apetite louco na hora do almoço de domingo ou no seu cachorro-quente aberto de tão grande. Era sua mania de comer até pão de queijo com garfo e faca. Você andando comigo no sábado à tarde até encontrar um barzinho legal para tomar uma gelada e brigar pela conta. É sempre minha vez de pagar, mas você nunca aprendeu. Eram meus gatos fazendo festa para o cara que eles aprenderam a amar como eu. Eram as palhaçadas ouvindo e tentando cantar Katy Perry com as janelas do carro abertas e os braços para fora. Mas, acima de tudo, sempre foi o seu sorriso, desde a primeira foto, desde a primeira risada bêbada. Era tudo o que hoje é só uma lembrança enquanto meu nariz entupido de lágrimas e sinusite tranca e dói. Era minha vida ao seu lado e a falta de vida que tenho sozinha. Falta o homem que não roubou meu coração, mas que o pediu emprestado para sempre. 
Pensei tanto antes de abrir mão da minha solidão por você e hoje ela volta para te ver partir. E a questão não é nem se há volta ou não. A questão é minha saudade gorda e sempre faminta. A falta de estrutura para não te ter e a falta de muletas para sustentar um corpo sem ossos. Entenda que ligações não são suporte e mensagens não são fisioterapia. Sempre vai faltar você e tudo o que era nosso. Ou melhor, tudo o que éramos. E posso jurar que éramos muita coisa. Éramos felizes, para começar. Comendo amendoim japonês ou pipoca, sentados em uma mesa de bar, deitados um de frente para o outro na cama, passeando no shopping; éramos felizes em qualquer situação. E perceptivos. Eu sabia te afagar em uma decepção e você sabia me confortar em uma das minhas crises. Você suportava meu humor volátil com a calma de alguém que não tem pressa porque sabe que tudo dá certo no final. Éramos nós dois. Aqueles que o mundo julgava perfeitos um para o outro. Aqueles que se encaixavam para dormir como se fossem um só e que comiam sushi uma vez por semana. Éramos nós. Hoje é você e sou eu. Porque perfeição não existe, mas o mundo ainda quer acreditar na mentira e não serei eu a pregar uma faixa na frente de casa dizendo “abram os olhos”.
Então, sim, eu prefiro olhar para o teto branco e sem graça enquanto você ainda está no travesseiro ao lado, porque daqui a pouco o lado vai estar vazio e só restará o teto com menos dor esburacada. Você vai e eu perco. Você fica e você perde. Entendo sua ida, apenas não aceito os cortes que ela faz. A cortina do teatro fechando sem apresentar um final feliz, sem os aplausos emocionados porque tudo deu certo como os livros dizem que deveria dar. Ok, eu nunca acreditei em finais felizes e talvez esse seja o preço que devo pagar por estragar os contos infantis com minha descrença. Mas nós éramos tantas e tantas coisas que não dá para acreditar em um final alternativo. Nosso fim era um só e de repente a página virou e alguém reescreveu a passagem mais importante da história depois do momento em que nos conhecemos. Depois do primeiro beijo. Depois do primeiro “eu te amo”. Pensando bem, tivemos muitas passagens mais importantes do que nosso fim. A diferença é que nada foi tão absurdamente triste e mal escrito como ele.
Hoje sou apenas eu e o pedaço de mim que ficou ainda mais vazio depois que você se foi. Sobrei eu enterrada em uma coletânea de livros, séries americanas, músicas tristes, filmes clássicos e textos ruins. A solidão sempre foi mais inteligente. O cérebro cresce enquanto o coração diminui e esse sempre foi o sonho da minha vida. Antes de conhecer você, ao menos. Hoje talvez eu preferisse o coração; não sei. Gosto da solidão, mas seria ótimo se ela pudesse englobar você. E então não seria solidão e é por isso que não temos jeito. Quando sentei em frente ao notebook, tomada por mil pensamentos desorganizados, dores competitivas lutando para descobrir qual tem mais força e dedos trêmulos de aflição, desisti definitivamente de sermos. Agora apenas sou. Sei que há coisas em mim que só você dá jeito, mas posso viver sem elas. Já vivo mesmo sem uma parte enorme de mim. Mas só eu sei como pensar em nós é misto. É amor, silêncio, flash back em slow motion. É amor, barulho, presente correndo rápido demais. Nós éramos tudo que alguém pode ser, porque o que eu não era estava em você e o que você não era estava em mim. Nós simplesmente éramos, enquanto eu ainda queria ser e não consigo. 

domingo, 1 de janeiro de 2012

Galpão.

Aos poucos você foi cravando na pele do meu peito uma daquelas facas de passar manteiga no pão, sem serrinhas. Acertou em cheio entre os pulmões, exatamente como um assassino experiente faria. Algumas palavras erradas associadas com um pouco de força bruta e a faca estava ali, pressionando e afundando levemente entre os seios. Um pouco mais de pressão, o som da certeza do que foi dito reverberando e pronto, o primeiro corte foi feito. Limpo, ainda fácil de curar. Mas as vezes a gente não percebe a hora de parar de falar e esquece que o silêncio pode ser o melhor amigo. Eu esqueci. Continuei argumentando baixinho, quase em um sussurro, querendo saber se realmente tinha ouvido aquilo ou se foi apenas uma sujeirinha no ouvido que tapou minha audição. Mas não foi. A sinceridade da sua frase curta e do desespero momentâneo nos olhos quando percebeu a confusão afundaram um pouco mais a faca onde ela já estava cravada. Depois veio o fim, uma punhalada maldosa, uma última tentativa de conserto que tornou tudo ainda mais triste. Um alagado de escuridão onde eu não mergulhava há tempos voltou para me afogar, sufocando para dentro um abraço de despedida. Talvez tenha sido melhor assim, sem adeus. A faca já estava mesmo desaparecida dentro de mim, inflamando uma dor decepcionada.
Você não quis me machucar, eu sei, e talvez eu mesma estivesse fazendo uma tempestade em um lugar onde só havia uma garoa. Mas foi você quem escolheu uma garota sem autoestima, que se fere com pequenas coisas. Talvez você tenha apenas esbarrado na faca e não a segurado com força. Mas, embora suas intenções sempre tenham sido as melhores que um coração em tratamento pode receber, seu erro não foi do tipo esquecível. Ele me desarmou, roubou meu sorriso e desmoronou a confiança que eu tinha em tudo que você dizia. Em ser única. Como a síndrome de Guillain-Barré, paralisou todos os meus músculos, deixando braços  caídos, pernas moles e incerteza pairando à frente dos olhos catatônicos. Uma nuvem de fumaça repentina baixando uma neblina bucólica sobre mim. Só restou, então, te deixar. Marchar para casa era o único rumo que minhas pernas poderiam tomar. E a língua, então, só sabia mesmo dizer que queria ficar sozinha, porque sua presença doía ainda mais.
Vou dizer uma coisa. Se a vida fosse uma música, seria aquela melodia de Jethro Tull que fala sobre algo pesado como um tijolo. A vida é mesmo pesada como uma pilha enorme e desproporcional deles, ainda sem concreto para juntar as partes necessárias. Uma confusão de tijolos com buracos vazios onde ficam aranhas feias e peludas de todos os portes. Tijolos esquecidos, sem construção prevista. Resumindo, a vida é um galpão abandonado. O meu estava fechado e você reabriu as portas. O lugar onde eu não falo porque o que mais assusta é o eco oco de uma não resposta ou a acidez da minha voz. O lugar sujo onde estive sentada antes de te conhecer. Voltei para cá tateando paredes e redescobrindo o que havia enterrado. Dores que não conhecia mais. As pontas sujas dos meus dedos só querem dizer que eu mexi onde não devia. Cutuquei feridas antigas, abandonei velhos e novos sentimentos sem que eles me abandonassem, dispensei a boa vida da falta de recordações. Pensando bem, a culpa nem foi sua. Você foi apenas o responsável por rasgar a tênue cortina que havia entre meu antes e meu agora. E precisou de poucas palavras e coices para isso. Eu estava vivendo uma fantasia; você me trouxe de volta para a realidade. Talvez eu deva te agradecer.
Os borrões ficam maiores conforme os dias passam. Mais partes nossas vão ficando opacas e apagadas sob o eclipse das suas palavras doloridas. Mais horas negras. Tem um troféu na estante dizendo que sou boa em alguma coisa, mas não consigo acreditar depois de tanto tempo inútil. Você me fez sorrir proclamando seu orgulho por ter alguém como eu ao seu lado. Hoje nem sei o que "como eu" significa. Ou significava. Não acredito mais em orgulho ou em qualquer outra coisa. Sua contradição foi minha derrota; a vitória da descrença. Agora saquei que não sou sua menina dos olhos, sou apenas aquela a quem você resolveu dedicar um tanto de amor por um determinado tempo. Você dizia que eu era a única em todos os sentidos e de repente deu com a língua nos dentes. Antes de você eu era capaz de ouvir sobre outras mulheres melhores do que eu porque sempre estive preparada para isso. Mas você me surpreendeu e nem sempre a palavra surpresa vem com um bônus bacana. Você cravou a faca, você machucou, você congelou e paralisou nosso amor. Mas tudo bem, não se preocupe. Apesar de tudo, a decisão de ficar de vez no galpão é toda minha.
 
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