segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Tudo o que é(ramos).

A cabeça apoiada na mão, virada para você. Hoje me dei conta de como já decorei seus traços. Os fios pequenos e solitários de barba, esparsos e preguiçosos. Os olhos daquela cor azul que as vezes parece cinza e triste, o pescoço quentinho e o pouquinho de pelo no peito. Já eternizei suas cócegas e o jeito com que você se repuxa, seus cabelos macios e como você fica dengoso com alguns beijinhos leves. Decorei seu jeito de andar, de falar, de se inclinar por um beijo, de me pegar no colo no meio de um salto. Já sei o que você vai falar quando estou andando em direção ao seu carro. Mas, mais do que isso, já aprendi sua personalidade mais do que aprendi a minha em 22 infernais anos convivendo comigo. Sei quando você está nervoso, mergulhado em tristeza, confusão ou medo. Sei quando quer me dar a mão. Conheço suas decepções e as compreendo de uma maneira que jamais compreenderei as minhas próprias e tantas. Sei quando seu olhar é doce, quando é voraz, quando traz perspectivas ou ideias malucas e brilhantes. Seu sorriso travesso, seu sorriso de “eu te amo”, seu sorriso de “quando eu ganhar na mega...”. Reconheço sua garra e valorizo cada pequena coisa como você merece, mas nunca teve. E por tudo isso já dói ficar sozinha como não doía mais. Porque eu posso ficar só e desolada, mas é contra as regras dos meus sentimentos mais primitivos – como o amor - te deixar desamparado. 
Machuca pensar no que foi e não pode mais ser. Em tudo que era. Eram seus cabelos ou suas canelas magras, talvez. Seu jeito de tirar os óculos e esfregar os olhos com uma nesga de cansaço ou preocupação. Era seu corpo inteiro quente dizendo “vem cá deitar no meu peito” na hora de dormir e o carinho leve em meus ombros ou na ponta dos cabelos. Era até mesmo seu apetite louco na hora do almoço de domingo ou no seu cachorro-quente aberto de tão grande. Era sua mania de comer até pão de queijo com garfo e faca. Você andando comigo no sábado à tarde até encontrar um barzinho legal para tomar uma gelada e brigar pela conta. É sempre minha vez de pagar, mas você nunca aprendeu. Eram meus gatos fazendo festa para o cara que eles aprenderam a amar como eu. Eram as palhaçadas ouvindo e tentando cantar Katy Perry com as janelas do carro abertas e os braços para fora. Mas, acima de tudo, sempre foi o seu sorriso, desde a primeira foto, desde a primeira risada bêbada. Era tudo o que hoje é só uma lembrança enquanto meu nariz entupido de lágrimas e sinusite tranca e dói. Era minha vida ao seu lado e a falta de vida que tenho sozinha. Falta o homem que não roubou meu coração, mas que o pediu emprestado para sempre. 
Pensei tanto antes de abrir mão da minha solidão por você e hoje ela volta para te ver partir. E a questão não é nem se há volta ou não. A questão é minha saudade gorda e sempre faminta. A falta de estrutura para não te ter e a falta de muletas para sustentar um corpo sem ossos. Entenda que ligações não são suporte e mensagens não são fisioterapia. Sempre vai faltar você e tudo o que era nosso. Ou melhor, tudo o que éramos. E posso jurar que éramos muita coisa. Éramos felizes, para começar. Comendo amendoim japonês ou pipoca, sentados em uma mesa de bar, deitados um de frente para o outro na cama, passeando no shopping; éramos felizes em qualquer situação. E perceptivos. Eu sabia te afagar em uma decepção e você sabia me confortar em uma das minhas crises. Você suportava meu humor volátil com a calma de alguém que não tem pressa porque sabe que tudo dá certo no final. Éramos nós dois. Aqueles que o mundo julgava perfeitos um para o outro. Aqueles que se encaixavam para dormir como se fossem um só e que comiam sushi uma vez por semana. Éramos nós. Hoje é você e sou eu. Porque perfeição não existe, mas o mundo ainda quer acreditar na mentira e não serei eu a pregar uma faixa na frente de casa dizendo “abram os olhos”.
Então, sim, eu prefiro olhar para o teto branco e sem graça enquanto você ainda está no travesseiro ao lado, porque daqui a pouco o lado vai estar vazio e só restará o teto com menos dor esburacada. Você vai e eu perco. Você fica e você perde. Entendo sua ida, apenas não aceito os cortes que ela faz. A cortina do teatro fechando sem apresentar um final feliz, sem os aplausos emocionados porque tudo deu certo como os livros dizem que deveria dar. Ok, eu nunca acreditei em finais felizes e talvez esse seja o preço que devo pagar por estragar os contos infantis com minha descrença. Mas nós éramos tantas e tantas coisas que não dá para acreditar em um final alternativo. Nosso fim era um só e de repente a página virou e alguém reescreveu a passagem mais importante da história depois do momento em que nos conhecemos. Depois do primeiro beijo. Depois do primeiro “eu te amo”. Pensando bem, tivemos muitas passagens mais importantes do que nosso fim. A diferença é que nada foi tão absurdamente triste e mal escrito como ele.
Hoje sou apenas eu e o pedaço de mim que ficou ainda mais vazio depois que você se foi. Sobrei eu enterrada em uma coletânea de livros, séries americanas, músicas tristes, filmes clássicos e textos ruins. A solidão sempre foi mais inteligente. O cérebro cresce enquanto o coração diminui e esse sempre foi o sonho da minha vida. Antes de conhecer você, ao menos. Hoje talvez eu preferisse o coração; não sei. Gosto da solidão, mas seria ótimo se ela pudesse englobar você. E então não seria solidão e é por isso que não temos jeito. Quando sentei em frente ao notebook, tomada por mil pensamentos desorganizados, dores competitivas lutando para descobrir qual tem mais força e dedos trêmulos de aflição, desisti definitivamente de sermos. Agora apenas sou. Sei que há coisas em mim que só você dá jeito, mas posso viver sem elas. Já vivo mesmo sem uma parte enorme de mim. Mas só eu sei como pensar em nós é misto. É amor, silêncio, flash back em slow motion. É amor, barulho, presente correndo rápido demais. Nós éramos tudo que alguém pode ser, porque o que eu não era estava em você e o que você não era estava em mim. Nós simplesmente éramos, enquanto eu ainda queria ser e não consigo. 

domingo, 1 de janeiro de 2012

Galpão.

Aos poucos você foi cravando na pele do meu peito uma daquelas facas de passar manteiga no pão, sem serrinhas. Acertou em cheio entre os pulmões, exatamente como um assassino experiente faria. Algumas palavras erradas associadas com um pouco de força bruta e a faca estava ali, pressionando e afundando levemente entre os seios. Um pouco mais de pressão, o som da certeza do que foi dito reverberando e pronto, o primeiro corte foi feito. Limpo, ainda fácil de curar. Mas as vezes a gente não percebe a hora de parar de falar e esquece que o silêncio pode ser o melhor amigo. Eu esqueci. Continuei argumentando baixinho, quase em um sussurro, querendo saber se realmente tinha ouvido aquilo ou se foi apenas uma sujeirinha no ouvido que tapou minha audição. Mas não foi. A sinceridade da sua frase curta e do desespero momentâneo nos olhos quando percebeu a confusão afundaram um pouco mais a faca onde ela já estava cravada. Depois veio o fim, uma punhalada maldosa, uma última tentativa de conserto que tornou tudo ainda mais triste. Um alagado de escuridão onde eu não mergulhava há tempos voltou para me afogar, sufocando para dentro um abraço de despedida. Talvez tenha sido melhor assim, sem adeus. A faca já estava mesmo desaparecida dentro de mim, inflamando uma dor decepcionada.
Você não quis me machucar, eu sei, e talvez eu mesma estivesse fazendo uma tempestade em um lugar onde só havia uma garoa. Mas foi você quem escolheu uma garota sem autoestima, que se fere com pequenas coisas. Talvez você tenha apenas esbarrado na faca e não a segurado com força. Mas, embora suas intenções sempre tenham sido as melhores que um coração em tratamento pode receber, seu erro não foi do tipo esquecível. Ele me desarmou, roubou meu sorriso e desmoronou a confiança que eu tinha em tudo que você dizia. Em ser única. Como a síndrome de Guillain-Barré, paralisou todos os meus músculos, deixando braços  caídos, pernas moles e incerteza pairando à frente dos olhos catatônicos. Uma nuvem de fumaça repentina baixando uma neblina bucólica sobre mim. Só restou, então, te deixar. Marchar para casa era o único rumo que minhas pernas poderiam tomar. E a língua, então, só sabia mesmo dizer que queria ficar sozinha, porque sua presença doía ainda mais.
Vou dizer uma coisa. Se a vida fosse uma música, seria aquela melodia de Jethro Tull que fala sobre algo pesado como um tijolo. A vida é mesmo pesada como uma pilha enorme e desproporcional deles, ainda sem concreto para juntar as partes necessárias. Uma confusão de tijolos com buracos vazios onde ficam aranhas feias e peludas de todos os portes. Tijolos esquecidos, sem construção prevista. Resumindo, a vida é um galpão abandonado. O meu estava fechado e você reabriu as portas. O lugar onde eu não falo porque o que mais assusta é o eco oco de uma não resposta ou a acidez da minha voz. O lugar sujo onde estive sentada antes de te conhecer. Voltei para cá tateando paredes e redescobrindo o que havia enterrado. Dores que não conhecia mais. As pontas sujas dos meus dedos só querem dizer que eu mexi onde não devia. Cutuquei feridas antigas, abandonei velhos e novos sentimentos sem que eles me abandonassem, dispensei a boa vida da falta de recordações. Pensando bem, a culpa nem foi sua. Você foi apenas o responsável por rasgar a tênue cortina que havia entre meu antes e meu agora. E precisou de poucas palavras e coices para isso. Eu estava vivendo uma fantasia; você me trouxe de volta para a realidade. Talvez eu deva te agradecer.
Os borrões ficam maiores conforme os dias passam. Mais partes nossas vão ficando opacas e apagadas sob o eclipse das suas palavras doloridas. Mais horas negras. Tem um troféu na estante dizendo que sou boa em alguma coisa, mas não consigo acreditar depois de tanto tempo inútil. Você me fez sorrir proclamando seu orgulho por ter alguém como eu ao seu lado. Hoje nem sei o que "como eu" significa. Ou significava. Não acredito mais em orgulho ou em qualquer outra coisa. Sua contradição foi minha derrota; a vitória da descrença. Agora saquei que não sou sua menina dos olhos, sou apenas aquela a quem você resolveu dedicar um tanto de amor por um determinado tempo. Você dizia que eu era a única em todos os sentidos e de repente deu com a língua nos dentes. Antes de você eu era capaz de ouvir sobre outras mulheres melhores do que eu porque sempre estive preparada para isso. Mas você me surpreendeu e nem sempre a palavra surpresa vem com um bônus bacana. Você cravou a faca, você machucou, você congelou e paralisou nosso amor. Mas tudo bem, não se preocupe. Apesar de tudo, a decisão de ficar de vez no galpão é toda minha.
 
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