domingo, 1 de janeiro de 2012

Galpão.

Aos poucos você foi cravando na pele do meu peito uma daquelas facas de passar manteiga no pão, sem serrinhas. Acertou em cheio entre os pulmões, exatamente como um assassino experiente faria. Algumas palavras erradas associadas com um pouco de força bruta e a faca estava ali, pressionando e afundando levemente entre os seios. Um pouco mais de pressão, o som da certeza do que foi dito reverberando e pronto, o primeiro corte foi feito. Limpo, ainda fácil de curar. Mas as vezes a gente não percebe a hora de parar de falar e esquece que o silêncio pode ser o melhor amigo. Eu esqueci. Continuei argumentando baixinho, quase em um sussurro, querendo saber se realmente tinha ouvido aquilo ou se foi apenas uma sujeirinha no ouvido que tapou minha audição. Mas não foi. A sinceridade da sua frase curta e do desespero momentâneo nos olhos quando percebeu a confusão afundaram um pouco mais a faca onde ela já estava cravada. Depois veio o fim, uma punhalada maldosa, uma última tentativa de conserto que tornou tudo ainda mais triste. Um alagado de escuridão onde eu não mergulhava há tempos voltou para me afogar, sufocando para dentro um abraço de despedida. Talvez tenha sido melhor assim, sem adeus. A faca já estava mesmo desaparecida dentro de mim, inflamando uma dor decepcionada.
Você não quis me machucar, eu sei, e talvez eu mesma estivesse fazendo uma tempestade em um lugar onde só havia uma garoa. Mas foi você quem escolheu uma garota sem autoestima, que se fere com pequenas coisas. Talvez você tenha apenas esbarrado na faca e não a segurado com força. Mas, embora suas intenções sempre tenham sido as melhores que um coração em tratamento pode receber, seu erro não foi do tipo esquecível. Ele me desarmou, roubou meu sorriso e desmoronou a confiança que eu tinha em tudo que você dizia. Em ser única. Como a síndrome de Guillain-Barré, paralisou todos os meus músculos, deixando braços  caídos, pernas moles e incerteza pairando à frente dos olhos catatônicos. Uma nuvem de fumaça repentina baixando uma neblina bucólica sobre mim. Só restou, então, te deixar. Marchar para casa era o único rumo que minhas pernas poderiam tomar. E a língua, então, só sabia mesmo dizer que queria ficar sozinha, porque sua presença doía ainda mais.
Vou dizer uma coisa. Se a vida fosse uma música, seria aquela melodia de Jethro Tull que fala sobre algo pesado como um tijolo. A vida é mesmo pesada como uma pilha enorme e desproporcional deles, ainda sem concreto para juntar as partes necessárias. Uma confusão de tijolos com buracos vazios onde ficam aranhas feias e peludas de todos os portes. Tijolos esquecidos, sem construção prevista. Resumindo, a vida é um galpão abandonado. O meu estava fechado e você reabriu as portas. O lugar onde eu não falo porque o que mais assusta é o eco oco de uma não resposta ou a acidez da minha voz. O lugar sujo onde estive sentada antes de te conhecer. Voltei para cá tateando paredes e redescobrindo o que havia enterrado. Dores que não conhecia mais. As pontas sujas dos meus dedos só querem dizer que eu mexi onde não devia. Cutuquei feridas antigas, abandonei velhos e novos sentimentos sem que eles me abandonassem, dispensei a boa vida da falta de recordações. Pensando bem, a culpa nem foi sua. Você foi apenas o responsável por rasgar a tênue cortina que havia entre meu antes e meu agora. E precisou de poucas palavras e coices para isso. Eu estava vivendo uma fantasia; você me trouxe de volta para a realidade. Talvez eu deva te agradecer.
Os borrões ficam maiores conforme os dias passam. Mais partes nossas vão ficando opacas e apagadas sob o eclipse das suas palavras doloridas. Mais horas negras. Tem um troféu na estante dizendo que sou boa em alguma coisa, mas não consigo acreditar depois de tanto tempo inútil. Você me fez sorrir proclamando seu orgulho por ter alguém como eu ao seu lado. Hoje nem sei o que "como eu" significa. Ou significava. Não acredito mais em orgulho ou em qualquer outra coisa. Sua contradição foi minha derrota; a vitória da descrença. Agora saquei que não sou sua menina dos olhos, sou apenas aquela a quem você resolveu dedicar um tanto de amor por um determinado tempo. Você dizia que eu era a única em todos os sentidos e de repente deu com a língua nos dentes. Antes de você eu era capaz de ouvir sobre outras mulheres melhores do que eu porque sempre estive preparada para isso. Mas você me surpreendeu e nem sempre a palavra surpresa vem com um bônus bacana. Você cravou a faca, você machucou, você congelou e paralisou nosso amor. Mas tudo bem, não se preocupe. Apesar de tudo, a decisão de ficar de vez no galpão é toda minha.

2 comentários:

Gugu Keller disse...

A quem se ama, o amor de ninguém falta. A quem não, o de ninguém basta.
GK

Vini disse...

Texto muito forte, mas bela escrita como sempre!
=*

 
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